sexta-feira, 25 de junho de 2021

Acerca de Ernâni Rosas

Existe uma outra pavônica esquecida pela qual tenho apreço. Talvez "esquecida" não seja a palavra, pois tendo sido vista como representante de uma geração tardia do Simbolismo, quando o movimento já fora declarado oficialmente encerrado, jamais sequer entrou no cânone.

Falo de Ernâni Rosas (1886–1955). Toda vez que lamento que jamais saberemos o que Augusto dos Anjos (1884-1914) e Pedro Kilkerry (1885-1917) teriam feito em contato e confronto com o Modernismo e as vanguardas, uma voz sopra no meu ouvido: "lembre-se de Ernâni Rosas". O que quero dizer é que Ernâni Rosas viveu até a década de 50, morreu com 69 anos, e passou incólume pelo Modernismo e as vanguardas. É como se 1922 não tivesse existido. O que havia de moderno em sua poesia – que vejo como moderna, assim como são modernas as obras de Augusto dos Anjos e Pedro Kilkerry – permaneceu tal como em sua origem.

Augusto de Campos apontou com muita acuidade que Ernâni Rosas poderia ter sido nosso Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), chamando nossa atenção para os compósitos inusuais, o domínio da sonoridade, e a invenção sintática. E há realmente ecos no vocabulário e simbologia do brasileiro e do português, mas Rosas manteve-se fiel a uma tradição que não o torna quiçá menos moderno, se pensarmos em como nem todos os Modernismos Internacionais abandoram a métrica e as formas fixas, mas infelizmente é difícil não ler nos poemas do catarinense mais uma vez o tal "gosto de antiquário". Seu pavonismo esteticista porém é muito bonito, em minha opinião.

Pensem agora nas idades destes poetas. Augusto dos Anjos nascido em 1884, Pedro Kilkerry em 1885, e Ernâni Rosas nascido em 1886 - no mesmo ano em que nasceu Manuel Bandeira, o São João Batista do Modernismo. Augusto e Pedro poderiam tanto ter percorrido a trilha manuelina quanto a trilha ernânica. Jamais saberemos.

Mas vale sim conhecer Ernâni Rosas. Amiga pavônica.

ERNÂNI ROSAS (1886-1955)

O SONHO-INTERIOR 

O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho d'Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto.

Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minh'alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo.

Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado —
na demência autunal duma Alameda.

Velaram-se Sudários teus Espelhos
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos.

*

OUTUBRO. O SOL 

Outubro. O sol em fuga d’oiro parte!
E a paisagem parece que morreu.
Todo um temor procura-me afastar-te.
Dentro de mim tu'alma floresceu.

Cerrou-se-te palácio em brônzeas portas.
Teus repuxos cessaram de se erguer.
Há um estranho rumor a coisas mortas,
Já as fontes pararam de correr.

Guardo um rumor de folhas na alameda,
Gela-me a paz da tarde pelo outono.
Anda um tecer de luz a oiro em seda!

Sonho-te ausente... ou antes recolhida,
Vejo teu ser passar pelo abandono:
Como uma sombra errante em minha Vida.

*

AO POENTE

Gosto de ver na síncope do dia
A mistura de tintas do poente,
O sangue vivo, violento e quente
Do sol, n'uma medonha hemorragia.

A claridade extingue-se na enchente
Da noite, de uma atroz melancolia,
Mas, na curva rosada inda sorria
A luz do fim da tarde no ocidente.

Pirilampos azuis, misteriosos
Saem das moitas frescas, perfumadas,
Como os astros por céus silenciosos.

E, por entre o salgueiro de uma cava,
Surgia além, das fúnebres moradas,
A cimitarra de uma lua nova.

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