ELEGIA QUASE UMA ODE COMO RITO FUNERÁRIO PARA FRIEDERIKE MAYRÖCKER
havia de ser assim
também aqui nessa terra
senhora friederike mayröcker
dos rouxinóis e dos lobos
e nessa língua adotiva
que a morte chega
com os cartões de visita
como antes na língua
da terra da língua natal
onde há quase vinte anos
também perdi a chance
de conhecer a outra outra
contemporânea tua
sob o nome dado
à pronúncia e ao prenúncio
senhora hilda hilst
das mulas e dos porcos
morrem as matriarcas
as matriarcas morrem
e eu filho de úteros
e eu filho de urros
me curvo em ação
de graças a essas mães
com o saldo de brás cubas
que nos ensinam o beabá
e também a estas mães
que nos ensinam o zeuzú
e é assim na tua língua materna
senhora friederike mayröcker
que primeiro chega a notícia
da morte no dia da tua morte
e é na minha língua materna
que começo assim começo
essa elegia quase uma ode
na tua terra onde há tempos
foste nomeada canonizada
a grande dama da língua
essa forma de em vida
dar-te menos bálsamo
do que te embalsamar
com tua flora ensandecida
a brotar da tua cabeça
com outras pirotecnias
que verdejam então flavescem
tílias ligustros plátanos aceres
teu gosto por metáforas
que crescem como crescem
naturais das plantas seus nomes
ciladas para teus tradutores
tal qual aquele wolfsmilch
num poema todo lupino
que certa vez me desmamou
sendo tanto leite-de-loba
quanto cabeça-de-medusa
qual afinal tua área de broca
sempre foi um mamífero
de dentes afiadíssimos
a amamentar uns órfãos
novos rômulos e remos
um medusário teu crânio
e nós sabemos que materna
e madrasta é toda língua
mas neste primeiro dia
da tua ausência-morte
meus olhos vão propositais
além do parapeito da janela
aquém do umbral das montanhas
meu horizonte de sarça
onde arde o oxigênio
e sopram a trombeta do sol
as andorinhas-dos-beirais
como jatos de vento fresco
em suas aéreas manobras
sua defesa anti-falconiforme
e tanto as andorinhas-dos-beirais
nas garras dos falcões-peregrinos
quanto os falcões-peregrinos
nas garras dos mochos-orelhudos
são fenômenos da natureza
e os guindastes amarelos
que ora giram como girafas
no meio da cidade de Graz
e os aviões que a sobrevoam
são fenômenos da natureza
como teus poemas faunoflorais
e a fauna de faunos em todo poema
são fenômenos da natureza
como os brotos das begônias
e os estames das tulipas
são fenômenos da natureza
como as ninhadas da codorniz
e as proles do camundongo
são fenômenos da natureza
como os gritos da criança no quintal
e ao longe as buzinas dos carros
são fenômenos da natureza
como os bolores que ora crescem
no rosto da rosa no rosto do teu rosto
são fenômenos da natureza
são naturezas do fenômeno
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Ricardo Domeneck, Graz, Áustria, 4-6 de junho de 2021.
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