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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Poetas estrangeiros e sua morada no Brasil

Existem histórias ainda por ser contadas sobre as literaturas e o Brasil, como a da escrita brasileira produzida fora do país, algo conhecida, mas também a das escritas estrangeiras produzidas no território brasileiro. No primeiro caso, sabemos que muitos escritores compuseram seus livros durante suas passagens por outros países, em grande parte por conta de suas carreiras diplomáticas, como Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Clarice Lispector, ela própria uma imigrante, produziria vários livros fora do Brasil por seu casamento com um diplomata. A experiência de Érico Veríssimo nos Estados Unidos desaguaria no livro Gato preto em campo de neve (1941), e o meu poema favorito de Vinicius de Moraes, "A última elegia", foi escrito na Inglaterra.

"O ROOFS OF CHELSEA

Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
                                   no anticlímax da aurora!
                                          ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
                                          uer ar iú
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...
                                 “... it is, my soul, it is
Her gracious self...”
                                 murmura adormecida
É meu nome!...
                                 sou eu, sou eu, Nabucodonosor!"

__ Vinicius de Moraes, excerto de "A última elegia", in Cinco elegias (1943).

§

Hoje em dia, poderíamos citar Zuca Sardan, que vive em Hamburgo. Ederval Fernandes vive em Lisboa, e Luca Argel, no Porto. Vivem em Londres Bruno Verner & Eliete Mejorado, do duo Tetine, assim como Karinna Alves Gulias. Barbara Marcel, Érica Zíngano (até pouco tempo) e eu vivemos em Berlim. São alguns exemplos.

Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto na Espanha


Já a produção literária de estrangeiros no país tem uma história ainda por contar e menos conhecida. É famosa, é claro, a passagem de Stefan Zweig pelo Brasil e seu suicídio em Petrópolis, o famoso-infame Brasil: País do Futuro (1941).

Também tem caráter já quase lendário o longo período da vida de Elizabeth Bishop no Rio de Janeiro, em Petrópolis e mais tarde em Ouro Preto.


Cadela rosada [Rio de Janeiro]
Elizabeth Bishop

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...!

(tradução de Paulo Henriques Britto)

A poeta estadunidense Elizabeth Bishop na entrada de seu estúdio 
na casa de Samambaia em Petrópolis, onde viveu com Lota de Macedo Soares.

E se escritores brasileiros deram seu próprio "brado do Ipiranga" no centenário do brado de Dom Pedro I, imigrantes como Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld e Paulo Rónai foram importantíssimos para a abertura da vida intelectual do país. Outro exilado germânico menos conhecido foi Herbert Caro, que fixou residência em Porto Alegre, onde traduziu vários alemães para o português. Pouco lembrados também são o mexicano Alfonso Reyes e a chilena Gabriela Mistral, que tiveram funções diplomáticas no Brasil.

Gabriela Mistral e Cecília Meireles no Rio de Janeiro, década de 1940.

Se é muito conhecida a estadia do suíço Blaise Cendrars entre nós, fazendo já parte do quase-folclore em torno do nosso Movimento Modernista, como me lembrou Rafael Cardoso é menos mencionado o caso do surrealista francês Benjamin Péret. Casado com a cantora brasileira Elsie Houston, ele viveu no Rio de Janeiro entre 1929 e 1931, quando foi preso e expulso do país por Getúlio Vargas por sua militância comunista e participação ao lado de Mário Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo no grupo Oposição de Esquerda.


Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfatti, Benjamin Péret, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, 
Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreira e Maximilien Gauthier.

Mario Pedrosa e Benjamin Péret eram cunhados. O filho de Péret e Houston, Geyser, havia nascido no Rio de Janeiro há poucos meses quando o casal foi obrigado a voltar à França. Péret seguiria fascinado pelo Brasil, e deixou textos pioneiros sobre o candomblé e sobre artistas brasileiros como Maria Martins.

Entre os latino-americanos, o caso mais recente e importante foi o do argentino Néstor Perlongher, que viveu exilado em São Paulo e aí escreveu praticamente toda a sua obra, de Alambres (1987) a El chorreo de las iluminaciones (1992), assim como sua pesquisa em O negócio do michê: Prostituição viril em São Paulo, publicada pela Brasiliense em 1987. Por sua vez, foi da Argentina que o galego Lorenzo Varela manteve contacto intenso com os intelectuais brasileiros das décadas de 1950 e 1960, exilado por Franco, e foi ali que Ferreira Gullar escreveu a maior parte de seu Poema Sujo (1976), exilado pela Ditadura Militar.

§

Não pode ser uma questão apenas de língua e tradução o que dificulta essa história. Afinal, basta procurarmos em livrarias brasileiras os trabalhos de portugueses como Jorge de Sena e João Apolinário, da moçambicana Noémia de Sousa ou do cabo-verdiano Luís Romano, lusófonos estrangeiros que viveram no país, para percebermos como ignoramos até mesmo os autores de nossa própria língua que passaram por este país gigantesco, mais plural em suas experiências linguísticas do que costumamos papaguear por aí.

Ficha de imigração do escritor cabo-verdiano Luís Romano (Cabo Verde, 1922 – Brasil, 2010)


No ano passado, o governo de Cabo Verde condecorou a Marinha brasileira com a medalha do Mérito Cultural por contribuir no repatriamento do acervo do escritor Luís Romano às ilhas de nossa irmandade lusófona, ele que também escreveu em crioulo cabo-veridano e viveu por cinco décadas em Natal, no Rio Grande do Norte. Oxalá fosse esta uma das únicas funções das marinhas do mundo: transportar bibliotecas.

§



E há também descobertas por fazer, algumas complicadas sim pela questão da tradução. Em 2014 soube através do meu amigo, o poeta e romancista ucraniano Andriy Lyubka, que Wira Wowk, uma das mais importantes poetas ucranianas do século XX vivia no Rio de Janeiro há décadas. Escrevi sobre um encontro com ela, ao lado de Lyubka, em uma crônica para a DW.

Os ucranianos Wira Wowk e Andriy Lyubka no Rio de Janeiro em 2014


A última descoberta, no meu caso, foi o russo Valery Pereleshin (Irkutsk, Rússia, 1913 – Rio de Janeiro, Brasil, 1992). Nascido na Sibéria, ele emigrou primeiramente para a China, onde começou sua obra, e em 1952 veio com a mãe para o Brasil, onde produziu a maior parte de sua poesia. Em um ensaio, seu tradutor americano Simon Karlinsky escreveria que o poeta se considerava "poeta brasileiro que escreve em russo".

O poeta russo naturalizado brasileiro Valery Pereleshin
(década de 1970)

Mas Pereleshin escreveu também em português. Luci Ramos Mendes me informou que sua obra lusófona será lançada em breve pela Editora Dybukk. Foi ela quem me enviou o poema abaixo. Espero que a poesia russa do autor seja também traduzida e lançada em algum momento. Com certeza incluirei seu trabalho na antologia homoerótica internacional que estou organizando.

Poema homoerótico lusófono de Valery Pereleshin


§

Essa história não acabou, é claro. Há/houve ainda os casos do argentino Aníbal Cristobo, da alemã Sabine Scho, da estadunidense Farnoosh Fathi, das portuguesas Matilde Campilho e Alexandra Lucas Coelho, dos britânicos Sarah Rebecca Kersley e Rob Packer, da suíça Prisca Agustoni. Um tema bastante interessante para uma pesquisa. Há com certeza quem já esteja se dedicando a ela.

E também para uma discussão saudável sobre a ideia de "nacional" que ainda rege nossa historiografia literária, apagando até mesmo autores nascidos no Brasil por não se adequarem a certas narrativas e dificultando nosso conhecimento e aprendizado também dos orikis de matriz africana e da poesia ameríndia do território.

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sábado, 30 de março de 2013

Eu estou apaixonado e Marco Feliciano não me representa


Eu estou apaixonado 
e Marco Feliciano não 
me representa

Poetas que gente como Marco Feliciano censuraria:

Eros
fragmento de Safo de Lesbos

[queima-nos]


§

Poema 99
Caio Valério Catulo

Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?

(tradução de Érico Nogueira)



§

A origem
Konstantínos Kaváfis

Consumara-se o prazer ilícito.
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.

Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.

(tradução de Jorge de Sena).



§

Excerpt from Lifting belly
Gertrude Stein

Kiss my lips. She did.
Kiss my lips again she did.
Kiss my lips over and over and over again she did.
I have feathers.
Gentle fishes.
Do you think about apricots. We find them very beautiful. It is not alone their color it is their seeds that charm us. We find it a change.
Lifting belly is so strange.
I came to speak about it.
Selected raisins well their grapes grapes are good.
Change your name.
Question and garden.
It's raining. Don't speak about it.
My baby is a dumpling. I want to tell her something. Wax candles. We have bought a great many wax candles. Some are decorated. They have not been lighted.
I do not mention roses.
Exactly.
Actually.
Question and butter.
I find the butter very good.
Lifting belly is so kind.
Lifting belly fattily.
Doesn't that astonish you.
You did want me.
Say it again.
Strawberry.
Lifting beside belly.
Lifting lindly belly.
Sing to me I say.
Some are wives not heroes.
Lifting belly merely.
Sing to me I say.
Lifting belly. A reflection.
Lifting belly adjoins more prizes.
Fit to be.
I have fit on a hat.
Have you.
What did you say to excuse me. Difficult paper and scattered.
Lifting belly is so kind.



§

A um papa
Pier Paolo Pasolini

Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.

(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)




§

A piedade
Roberto Piva

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos



§

Poema
Frank O´Hara

Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta

e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome

Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.

(tradução de Ricardo Domeneck)





§

Poema
Juan Carlos Bautista

Puto decía en las frentes,
puto en las paredes pompeyanas del inodoro,
puto en las manos cebosas
y en los muros ignorados, escrito con odio:
pe de puto en los ojos cuando hacían esas hipérboles,
esas elipsis.
cuando se iban al techo, a la nuca,
la niña desmayada entre secreciones y ronca risa:
puto en esas visiones repentinas,
en esos gestos movedizos,
en la cadera, su abrupta estatua,
sus lentas, desaforadas descripciones:
puto en la locura doliente desde los ojos
como pájaros escapándose
a un cielo que respira su trágico y su cómico,
y se deja caer por el lujo de contemplarse en esa prisa:
y el dedo que rayaba las sábanas,
tan triste y tan digno,
                                luego removiéndose entre risas,
detenido en el aire, diciéndolo:

"pues sí,
              morena (y puto) soy porque el sol me quemó,
¡oh, hijas de israel¡



§

Uma Arte
Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto)

:

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.



§


De profundis amamus
Mario Cesariny

Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso



§


1955
Salvador Novo

Al poema confío la pena de perderte.
He de lavar mis ojos de los azules tuyos,
faros que prolongaron mi naufragio.
He de coger mi vida desecha entre tus manos,
leve jirón de niebla
que el viento entre sus alas efímeras dispersa.
Vuelva la noche a mí, muda y eterna,
del diálogo privada de soñarte,
indiferente a un día
que ha de hallarnos ajenos y distantes.



§


Uma litania para a sobrevivência
Audre Lorde

Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:

Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.

E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo

Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

A litany for survival
Audre Lorde

For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:

For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.

And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid

So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive



§


Por qué seremos tan hermosas
Néstor Perlongher

Por qué seremos tan perversas, tan mezquinas
(tan derramadas, tan abiertas)
y abriremos la puerta de calle
al monstruo que mora en las esquina,
o sea el cielo como una explosión de vaselina
como un chisporroteo,
como un tiro clavado en la nalguicie.

Por qué seremos tan sentadoras, tan bonitas
los llamaremos por sus nombres
cuando todos nos sienten
(o sea, cuando nadie nos escucha)
Por qué seremos tan pizpiretas, charlatanas
tan solteronas, tan dementes

Por qué estaremos en esa densa fronda
agitando la intimidad de las malezas
como una blandura escandalosa cuyos vellos
se agitan muellemente
al ritmo de una música tropical, brasilera.

Por qué seremos tan disparatadas y brillantes
abordaremos con tocado de plumas el latrocinio
desparramando gráciles sentencias
que no retrasarán la salva, no
pero que al menos permitirán guiñarle el ojo al fusilero

Por qué seremos tan despatarradas, tan obesas
sorbiendo en lentas aspiraciones
el zumo de las noches peligrosas
tan entregadas, tan masoquistas,
tan hedonísticamente hablando

Por qué seremos tan gozosas, tan gustosas
que no nos bastará el gesto airado del muchacho,
su curvada muñeca:
pretenderemos desollar su cuerpo
y extraer las secretas esponjas de la axila
tan denostadas, tan groseras

Por qué creeremos en la inmediatez,
en la proximidad de los milagros
circuidas de coros de vírgenes bebidas y asesinos dichosos
tan arriesgadas, tan audaces
pringando de dulces cremas los tocadores
cachando, curioseando.

Por qué seremos tan superficiales, tan ligeras
encantadas de ahogarnos en las pieles
que nos recuerdan animales pavorosos y extintos,
fogosos, gigantescos.

Por qué seremos tan sirenas, tan reinas
abroqueladas por los infinitos marasmos del romanticismo
tan lánguidas, tan magras

Por qué tan quebradizas las ojeras, tan pajiza la ojeada
tan de reaparecer en los estanques donde hubimos de hundirnos
salpicando, chorreando la felonía de la vida
tan nauseabunda, tan errática.



§


Diving into the Wreck
Adrienne Rich

First having read the book of myths,
and loaded the camera,
and checked the edge of the knife-blade,
I put on
the body-armor of black rubber
the absurd flippers
the grave and awkward mask.
I am having to do this
not like Cousteau with his
assiduous team
aboard the sun-flooded schooner
but here alone.

There is a ladder.
The ladder is always there
hanging innocently
close to the side of the schooner.
We know what it is for,
we who have used it.
Otherwise
it is a piece of maritime floss
some sundry equipment.

I go down.
Rung after rung and still
the oxygen immerses me
the blue light
the clear atoms
of our human air.
I go down.
My flippers cripple me,
I crawl like an insect down the ladder
and there is no one
to tell me when the ocean
will begin.

First the air is blue and then
it is bluer and then green and then
black I am blacking out and yet
my mask is powerful
it pumps my blood with power
the sea is another story
the sea is not a question of power
I have to learn alone
to turn my body without force
in the deep element.

And now: it is easy to forget
what I came for
among so many who have always
lived here
swaying their crenellated fans
between the reefs
and besides
you breathe differently down here.

I came to explore the wreck.
The words are purposes.
The words are maps.
I came to see the damage that was done
and the treasures that prevail.
I stroke the beam of my lamp
slowly along the flank
of something more permanent
than fish or weed

the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and away into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.

This is the place.
And I am here, the mermaid whose dark hair
streams black, the merman in his armored body.
We circle silently
about the wreck
we dive into the hold.
I am she: I am he

whose drowned face sleeps with open eyes
whose breasts still bear the stress
whose silver, copper, vermeil cargo lies
obscurely inside barrels
half-wedged and left to rot
we are the half-destroyed instruments
that once held to a course
the water-eaten log
the fouled compass

We are, I am, you are
by cowardice or courage
the one who find our way
back to this scene
carrying a knife, a camera
a book of myths
in which
our names do not appear.



§

Viðrar vel til loftárása (Clima bom para um bombardeio)
Jón Þór Birgisson (Sigur Rós)

 

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