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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O frio e os poemas traduzidos que nos sustêm

A temperatura no Berlimbo, este fim-de-semana, oscilou entre -15 e -20°C. O aquecimento a carvão não torna a vida muito fácil. Passei o tempo entre o porão, enchendo o balde de carvão, o forno do quarto e as cobertas, lendo ensaios de Georges Battaille e de Fredric Jameson. Quando os dedos endurecem, glamourizo a situação, pensando nas histórias sobre Pound em Londres, num quarto-cubículo, morrendo de frio lá pelos idos de 1912, ou Beckett em Paris, lá pelos idos de 1938, na mesma situação. Sortuda era Gertrude Stein, que era rica.

Essa manhã, antes de usar a "estratégia cebola", que consiste em cobrir-me com o maior número de camadas possíveis de malhas e lãs, tomei a primeira xícara de café do dia na cozinha, lendo o chileno Enrique Lihn (1929 - 1988) e traduções para o inglês dos poemas finais do poeta tcheco Miroslav Holub (1923 - 1998). Em certo poema, Lihn escreve:

“Todas las lenguas extranjeras
me inspiran un sagrado rencor”


Como acabava de ler traduções de poemas tchecos, sabendo que jamais poderei ler aqueles textos no original, pensei imediatamente em todos estes territórios desconhecidos, que permanecerão desconhecidos. É claro que Lihn fala aqui como poeta, mas naquele momento, à mesa da cozinha, com o livro de Holub ao lado, pensei primeiramente nas consequências disso como leitor e só então como poeta.

Pensei em quantos poetas tiveram impacto sobre minha vida e sobre a minha escrita, mas através de traduções. Penso, por exemplo, em Constantino Cavafy (1863 - 1933), o grego (gigante delicado) que li pela primeira vez nas traduções de José Paulo Paes e passei, mais tarde, a ler em todos as línguas que podia. Auden chegou a escrever que uma das características mais impressionantes de Cavafy é como sua poesia apodera-se de qualquer língua em que seja traduzido. Ele afirma que se pode reconhecer a linguagem do poeta grego em qualquer língua. Creio que Auden insinuava, não que os poemas de Cavafy fossem traduzidos para línguas estrangeiras, mas que as línguas estrangeiras é que eram traduzidas para os poemas de Cavafy.

O espelho da entrada
Constantino Cavafy

À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.


(tradução de José Paulo Paes)


Durante algum tempo nutri a vontade e esperança de aprender polonês, por causa do impacto que alguns poetas daquela língua tiveram sobre mim quando lidos em tradução. Na verdade, esperava passar alguns anos em Berlim e seguir mais tarde para Varsóvia ou Cracóvia, para aprender a língua em que escreveram poetas como Zbigniew Herbert, Wislawa Szymborska e Tadeusz Różewicz. Confesso não me interessar muito pelo mais famoso deles, Czesław Miłosz. No entanto, Herbert e Szymborska, principalmente, são poetas que leio sempre e muito, com um prazer imenso, e que tiveram um verdadeiro impacto sobre mim. Já escrevi aqui sobre o poema "Autotomia", o poema da holotúria, de Szymborska. Tenho a obra completa de Zbigniew Herbert em tradução para o inglês, além do impressionante livro Pan Cogito (Senhor Cogito), em tradução para o alemão. É uma tragédia que sua poesia não seja traduzida no Brasil, com exceção de alguns poemas, traduzidos por Aleksandar Jovanović e publicados no importante Céu vazio: 63 poetas eslavos (São Paulo: Hucitec, 1996). Foi ali que li, por exemplo, o incrível "Relato de uma cidade sitiada", de Herbert. O professor Jovanović traduziu ainda uma bela antologia de Vasco Popa, publicada pela editora Perspectiva. Há ali alguns belos ciclos, como o que dá nome à antologia, "Osso a osso", assim como aqueles poemas que Haroldo de Campos viria a chamar de exemplos de um "coisismo ontológico", que ligaria Popa mais a Ponge que a Cabral ou Williams.

Trepadeira
Vasco Popa

Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos


(tradução: Aleksandar Jovanovic)

É justamente esse "coisismo ontológico" que me parece uma característica fascinante e que sinto flagrar em muitos poetas do Leste Europeu. O poema da holotúria, de Szymborska é um exemplo muito bom. Em tudo o que contemplam, é como se vissem sempre o destino que "a coisa" compartilha com os homens. Na Berlim que é porta entre o Leste e o Oeste do continente, Bertolt Brecht viria a escrever em seu "Psalm", ao contemplar os animais, sobre nosso destino comum, vendo "esses que vão morrer também".

Como se o vale da sombra da morte não fosse paisagem, mas multidão e companhia.

Alguns veriam isso como o vício de antropomorfizar tudo a nosso redor, ou a crença romântica de que a natureza teria lições de moral a ensinar.

Seja o que for, alguns poetas do Leste europe parecem-me mestres nessa prática. No volume de Miroslav Holub que estava lendo essa manhã, há um belíssimo poema chamado "Universe of the mouse", em tradução de David Young:

Universe of the mouse
Miroslav Holub

Amphora of darkness, Hittite grain
still fertile, black background music
of the earth. Cathedral marked by urine.
Memorial droppings like elementary particles.

The heart beats from fright to fright.

Inside, small armoured worms
and mutations of the chromosome 11.
Well above the chorus of bats,
some Jupiter, four-legged, foggy,
the cogwheel of certitude.

He will not suffer our delicate fur to shed,
He will not suffer our spines to snap.
And when our Gracious Lady teeth
grind in the negligible second
of our death

and our small sooty eye, like
the dull eyeball of a crucified man,
mirrors Primeval Sludge, Eternal Dormition,

in a solemn voice He will answer a question
that nobody asked.


(translation by David Young)


Provavelmente, jamais poderei ler esses poemas no original, o que torna o trabalho de tradutores competentes algo imprescindível, essencial, maravilhoso, a quem sou grato, grato, grato.

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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Antologias, excertos e outros pedaços

Quando editada de forma inteligente, uma antologia pode ser um ato crítico dos mais estimulantes. Em geral, minha atitude, quando se trata da antologia de um único poeta, é a mesma que tenho com um Best Of de certas bandas: funciona se estivermos interessados em poemas específicos, assim como para nos familiarizarmos com o trabalho de um poeta, coletivo, banda ou grupo. Mas nada supera o prazer de ler livros individuais dos poetas que amamos ou escutar os álbuns específicos dos coletivos e bandas favoritas.

Certos poemas e canções funcionam e fisgam em praticamente qualquer contexto. Tenho uma relação específica com vários, mesmo quando primeiro descobertos soltos em seleções, como "Janela do caos", de Murilo Mendes, ou uma canção como "Happiness is a warm gun", dos Beatles. Mas é outro prazer chegar a "Janela do Caos" ao fim de Poesia Liberdade (1947), assim como o Álbum Branco (1968) é uma experiência única. Mesmo os livros que parecem apenas a reunião de poemas esparsos têm um apelo de conjunto, como Mundo Enigma (1942), um livro pouco citado quando se fala de Murilo Mendes, mas que é dos meus favoritos. Jack Spicer chamava poemas individuais de "one night stands", passando a escrever sempre em série.

Quando se trata de um poeta nacional, é remediável. Encontra-se com facilidade o livro em que há um poema descoberto em antologia. Mas, no caso de poetas estrangeiros, a situação é mais difícil. Raramente se traduz e publica um livro específico e individual de um poeta estrangeiro no Brasil. É mais "comercializável" apresentar uma seleção, um "apanhado geral" que nos apresenta ao poeta. É uma pena que raramente passe disso. Acho que perdemos muito.

Houve livros de poetas estrangeiros que tiveram sobre mim um grande impacto. Um exemplo que me vem à mente foi a leitura que fiz, aos 20 anos, do idolatrado salva salve L´allegria, de Giuseppe Ungaretti. Se houvesse lido apenas alguns daqueles poemas em meio a outros poemas esparsos do italiano, creio que o impacto teria sido bem menor. Para ficar entre italianos, foi muito bom descobrir os poemas de Eugenio Montale na antologia que Geraldo Holanda Cavalcanti preparou e traduziu, mas poucas vezes aprendi tanto sobre poesia em um único livro como aprendi lendo Ossi di seppia, o livro todo de estréia de Montale.

Tenho lido esta semana, em tradução para o alemão, dois livros independentes de poetas que, creio, são inéditos no Brasil: o estupendo Herr Cogito (Senhor Cogito), de Zbigniew Herbert (Polônia, 1924 - 1998), e o lindo lindo Monovassiá, de Yannis Ritsos (Grécia, 1909 - 1990). Não sei de traduções de Ritsos no Brasil. Herbert foi traduzido por Aleksandar Jovanovic. Há um poema maravilhoso de Herbert, por exemplo, em Céu Vazio: 63 poetas eslavos (São Paulo: Hucitec, 1996), intitulado "Relato de uma cidade sitiada". É impossível ler aquele poema e não querer ler tudo o que Zbigniew Herbert escreveu.


§

Parto amanhã de manhã para Heidelberg, onde participo de um festival. Apresento-me como DJ na sexta à noite, e faço uma de minhas leituras/performances vídeo-textuais no sábado. Na mesma noite, lê o jovem poeta e romancista americano Travis Jeppesen e eu mostro, a pedido do curador, uma seleção de vídeos de outros jovens artistas visuais, como Niklas Goldbach e Nils Linscheidt, assim como dos veteranos Bruce LaBruce e do coletivo Die Tödliche Doris.


(Die Tödliche Doris, "Chöre & Soli")

A noite é encerrada com uma performance de Ariel Pink. Estou entusiasmado para conhecê-lo pessoalmente, gosto muito do trabalho do rapaz.


(Ariel Pink, "Are you going to look after my boys?")

§

É sempre ótimo abrir a caixa do correio e encontrar poemas. Recebi hoje poemas-cartoons recentes de Zuca Sardan e o novo livro de Carlos Augusto Lima, o bonito e esperto Manual de acrobacias n. 1 (Florianópolis: Editora da Casa, 2009).

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