A temperatura no Berlimbo, este fim-de-semana, oscilou entre -15 e -20°C. O aquecimento a carvão não torna a vida muito fácil. Passei o tempo entre o porão, enchendo o balde de carvão, o forno do quarto e as cobertas, lendo ensaios de Georges Battaille e de Fredric Jameson. Quando os dedos endurecem, glamourizo a situação, pensando nas histórias sobre Pound em Londres, num quarto-cubículo, morrendo de frio lá pelos idos de 1912, ou Beckett em Paris, lá pelos idos de 1938, na mesma situação. Sortuda era Gertrude Stein, que era rica.
Essa manhã, antes de usar a "estratégia cebola", que consiste em cobrir-me com o maior número de camadas possíveis de malhas e lãs, tomei a primeira xícara de café do dia na cozinha, lendo o chileno Enrique Lihn (1929 - 1988) e traduções para o inglês dos poemas finais do poeta tcheco Miroslav Holub (1923 - 1998). Em certo poema, Lihn escreve:
“Todas las lenguas extranjeras
me inspiran un sagrado rencor”
Como acabava de ler traduções de poemas tchecos, sabendo que jamais poderei ler aqueles textos no original, pensei imediatamente em todos estes territórios desconhecidos, que permanecerão desconhecidos. É claro que Lihn fala aqui como poeta, mas naquele momento, à mesa da cozinha, com o livro de Holub ao lado, pensei primeiramente nas consequências disso como leitor e só então como poeta.
Pensei em quantos poetas tiveram impacto sobre minha vida e sobre a minha escrita, mas através de traduções. Penso, por exemplo, em Constantino Cavafy (1863 - 1933), o grego (gigante delicado) que li pela primeira vez nas traduções de José Paulo Paes e passei, mais tarde, a ler em todos as línguas que podia. Auden chegou a escrever que uma das características mais impressionantes de Cavafy é como sua poesia apodera-se de qualquer língua em que seja traduzido. Ele afirma que se pode reconhecer a linguagem do poeta grego em qualquer língua. Creio que Auden insinuava, não que os poemas de Cavafy fossem traduzidos para línguas estrangeiras, mas que as línguas estrangeiras é que eram traduzidas para os poemas de Cavafy.
O espelho da entrada
Constantino Cavafy
À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.
Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.
Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.
Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.
Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.
(tradução de José Paulo Paes)
Durante algum tempo nutri a vontade e esperança de aprender polonês, por causa do impacto que alguns poetas daquela língua tiveram sobre mim quando lidos em tradução. Na verdade, esperava passar alguns anos em Berlim e seguir mais tarde para Varsóvia ou Cracóvia, para aprender a língua em que escreveram poetas como Zbigniew Herbert, Wislawa Szymborska e Tadeusz Różewicz. Confesso não me interessar muito pelo mais famoso deles, Czesław Miłosz. No entanto, Herbert e Szymborska, principalmente, são poetas que leio sempre e muito, com um prazer imenso, e que tiveram um verdadeiro impacto sobre mim. Já escrevi aqui sobre o poema "Autotomia", o poema da holotúria, de Szymborska. Tenho a obra completa de Zbigniew Herbert em tradução para o inglês, além do impressionante livro Pan Cogito (Senhor Cogito), em tradução para o alemão. É uma tragédia que sua poesia não seja traduzida no Brasil, com exceção de alguns poemas, traduzidos por Aleksandar Jovanović e publicados no importante Céu vazio: 63 poetas eslavos (São Paulo: Hucitec, 1996). Foi ali que li, por exemplo, o incrível "Relato de uma cidade sitiada", de Herbert. O professor Jovanović traduziu ainda uma bela antologia de Vasco Popa, publicada pela editora Perspectiva. Há ali alguns belos ciclos, como o que dá nome à antologia, "Osso a osso", assim como aqueles poemas que Haroldo de Campos viria a chamar de exemplos de um "coisismo ontológico", que ligaria Popa mais a Ponge que a Cabral ou Williams.
Trepadeira
Vasco Popa
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
(tradução: Aleksandar Jovanovic)
É justamente esse "coisismo ontológico" que me parece uma característica fascinante e que sinto flagrar em muitos poetas do Leste Europeu. O poema da holotúria, de Szymborska é um exemplo muito bom. Em tudo o que contemplam, é como se vissem sempre o destino que "a coisa" compartilha com os homens. Na Berlim que é porta entre o Leste e o Oeste do continente, Bertolt Brecht viria a escrever em seu "Psalm", ao contemplar os animais, sobre nosso destino comum, vendo "esses que vão morrer também".
Como se o vale da sombra da morte não fosse paisagem, mas multidão e companhia.
Alguns veriam isso como o vício de antropomorfizar tudo a nosso redor, ou a crença romântica de que a natureza teria lições de moral a ensinar.
Seja o que for, alguns poetas do Leste europe parecem-me mestres nessa prática. No volume de Miroslav Holub que estava lendo essa manhã, há um belíssimo poema chamado "Universe of the mouse", em tradução de David Young:
Universe of the mouse
Miroslav Holub
Amphora of darkness, Hittite grain
still fertile, black background music
of the earth. Cathedral marked by urine.
Memorial droppings like elementary particles.
The heart beats from fright to fright.
Inside, small armoured worms
and mutations of the chromosome 11.
Well above the chorus of bats,
some Jupiter, four-legged, foggy,
the cogwheel of certitude.
He will not suffer our delicate fur to shed,
He will not suffer our spines to snap.
And when our Gracious Lady teeth
grind in the negligible second
of our death
and our small sooty eye, like
the dull eyeball of a crucified man,
mirrors Primeval Sludge, Eternal Dormition,
in a solemn voice He will answer a question
that nobody asked.
(translation by David Young)
Provavelmente, jamais poderei ler esses poemas no original, o que torna o trabalho de tradutores competentes algo imprescindível, essencial, maravilhoso, a quem sou grato, grato, grato.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O frio e os poemas traduzidos que nos sustêm
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5 comentários:
acho um privilégio poder vir aqui e descobrir tantos nomes, outro dia passei a noite ouvindo Lhasa de Sela.
este poema do Vasco Popa tem uma semelhança estrutural e temática com o conto "Na galeria", de Kafka, aquele que começa: "Se alguma amazona frágil e tísica fosse impelida meses sem interrupção..."
um beijo e um "não congele"
rafael
sempre boas as dicas. Estava mesmo atrás de contemporâneos latinos, vou correr pro Enrique Lihn e alrededores. Valeu, abrazo.
Rafael, a coisa mais legal da internet continua sendo essa possibilidade de trocar informações. Que legal que você gostou da Lhasa de Sela. Gostava muito da moça. Você já leu a antologia do Vasco Popa, que saiu pela coleção Signos da Perspectiva? Tem coisas MUITO lindas.
espero que você esteja bem.
beijo
ricardo
Juliana,
O Lihn é muito legal. Gosto também do Raúl Zurita, apesar dos momentos meio messiânicos dele, meio "profeta do Chile"... mas ele é ótimo. Traduzi um poema dele para a Modo impressa número 2. Outras sugestões entre chilenos: Yanko González e Héctor Hernández Montecinos, entre os vivos.
Dos argentinos, dê uma olhada em Juana Bignozzi, Sergio Raimondi, Cristian De Nápoli e Lucía Bianco. Há um poeta de Bahía Blanca (como Raimondi e Bianco) chamado Mario Ortiz que me parece excelente também. Entre os mortos maravilhosos: Susana Thénon e Héctor Viel Temperley.
beijos
R.
Não conhecia o livro Céu Vazio. Já encomendei o meu. Abraço!
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