Mostrando postagens com marcador readings in festivals. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador readings in festivals. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Excerto de vídeo da minha performance no Museo del Chopo, na Cidade do México.


Vocalizando a peça "Entrañas de las Soledades". 
Museo del Chopo, Cidade do México, setembro de 2012. 

§ 

 A peça foi composta por colagem de palavras ou fragmentos exclusivamente tirados do poema "Soledades" (1613), de Gôngora, e criada a convite do Festival "Poetas del Mundo en Córdoba" para as celebrações dos 450 anos de seu nascimento, na sua cidade natal, Córdoba, Espanha. Paisagem sonora composta por meu colaborador alemão Uli Buder, mais conhecido como Akia.

. 
. 
.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Paris com poetas

Com o poeta (e meu editor na Alemanha) Johannes CS Frank e o músico Caspar Frantz, 
em Paris. Foto da poeta israelense Maya Kuperman.


Cheguei a Paris na quarta-feira à tarde, com pouco tempo livre antes da maratona do dia seguinte: ensaios e performance com o Zeitkunst Ensemble e os poetas Johannes CS Frank, Maya Kuperman e Max Czollek no Instituto Goethe da cidade, com nosso "Tributo a John Cage". 

Usei o tempo para visitar algumas livrarias, trazendo para casa uma antologia de poesia francesa do século XX, que abre com Apollinaire e fecha com poetas nascidos na década de 40, passando por autores como Robert Desnos, Philippe Soupault, Francis Ponge, Raymond Queneau, o mestre Edmond Jabès, o interessantíssimo Jean-Paul de Dadelsen, e chegando a poetas contemporâneos como Jacques Roubaud, Emmanuel Hocquard, Jean Daive, Anne-Marie Albiach (que faleceu esta semana) e Claude Royet-Journoud. O poeta que encerra a antologia chama-se Philippe Denis, nascido em 1947. Não conhecia seu trabalho.

§



Queria também fazer uma descoberta, ler algo recente da poesia francesa que fugisse a minhas referências já conhecidas. Após folhear livros recentes de Pierre Alferi e Nathalie Quintane, optei por um volume de Dominique Meens, poeta que desconhecia, intitulado Vers (Paris: P.O.L., 2012).




§

A performance no Instituto Goethe de Paris foi boa. Acabo de voltar a Berlim, exausto, e embarco já amanhã de manhã para o Rio de Janeiro, com o poeta Max Czollek (Berlim, 1987). Os outros poetas e músicos chegam na terça-feira, e começamos a turnê brasileira com a performance: Rio de Janeiro no dia 16/09, no Consulado da Alemanha; dias 17 e 18 em Belo Horizonte, no Oi Futuro; e dia 20 em Vurtiba, no Museu Oscar Niemeyer.

Nos falamos no Brasil.


.
.
.

domingo, 16 de setembro de 2012

Voltando à Cidade do México

Embarco amanhã de manhã para a Cidade do México, minha segunda visita a esta cidade que se tornou uma de minhas favoritas. Participo do Festival Poesía en Voz Alta (organizado pela Universidad Nacional Autónoma de México - UNAM, desde 1956), no qual farei 3 performances: na Casa del Lago (dia 19), no Museo Universitário del Chopo (dia 20) e no Museo Experimental El Eco (dia 22). Também participam do Festival este ano: John Giorno, Edwin Torres, Eduard Escoffet, Black Cracker, Hanne Lippard, Koulsy Lamko, Jaap Blonk, Clemente Padín, Konrad Becker e o duo Arreola + Carballo. No dia 26, faço uma leitura na Casa del Poeta ao lado de Paula Abramo, Óscar de Pablo, Alejandro Albarrán e Robin Myers. Escrevo de lá nos próximos dias.

.
.
.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Zeitkunst Festival / John Cage / Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental

Exercitando-me antes dos ensaios para minha performance, 
nos jardins do palacete Gutshaus Landsdorf. 
17 de julho de 2012, foto da poeta israelense Maya Kuperman.

Deixei ontem Berlim ao lado dos poetas Johannes CS Frank (Reino Unido, 1982), Maya Kuperman (Israel, 1982) e Max Czollek (Alemanha, 1987); dos músicos Gustavo Carvalho (Brasil), Caspar Frantz e Julian Arp (Alemanha); da cenógrafa Lilly Jaeckl e do artista visual Dieter Puntigam (Áustria), a caminho da pequena vila de Landsdorf, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental (Mecklenburg-Vorpommern, norte da Alemanha, às margens do Mar Báltico) para a primeira performance do festival Zeitkunst. Fundado em 2009 com a ideia de unir músicos e poetas para colaborações, o festival deste ano é inteiramente dedicado a John Cage no centenário de seu nascimento, marcando a única apresentação de música moderna dentro do tradicional Festspiel Mecklenburg-Vorpommern, dedicado à música erudita - mas em geral já "clássica", em torno de grandes BBB como Beethoven, Bach e Brahms.

O festival ocorrerá ainda em Berlim, Paris, Tel Aviv e também em cidades brasileiras como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba (no Brasil, entre 12 e 20 de novembro).

Cada um dos poetas recebeu uma peça musical de Cage para a qual deveria escrever um texto. As peças são todas dos anos 40 e início dos 50, como "Living Room Music" (1940), "A Room" (peça para piano preparado, 1943), "A valentine out of season" (peça para piano preparado, 1944), "4´33´´" (1947), "Nocturne" (1947) ou "Suite for Toy Piano" (1948).

A peça que me foi confiada era-me até então desconhecida, de sua fase inicial, a linda "In a Landscape" (1948). A peça foi composta quando Cage lecionava na lendária Black Mountain College, no estado americano de North Carolina, por onde passariam poetas como Robert Creeley e Robert Duncan, pensadores como Paul Goodman, e coreógrafos como Merce Cunningham.


In a Landscape


Category:Musical composition
Dated:Black Mountain, North Carolina, August 1948
Instrumentation:Piano or harp solo
Duration:8'
Premiere and performer(s):August 20, 1948 (with the choreography)
Dedicated to:for Louise Lippold
Choreography:Louise Lippold
Published:Edition Peters 6720 © 1960 by Henmar Press. Also published in "John Cage: Pianoworks (1935-1948)", Edition Peters 67830 © 


Nossas instruções, como poetas, eram simples: dizer e fazer o que nos importava dizer e fazer neste momento, e principalmente resistir à tentação de dizer/fazer algo cageano ou cageanamente. Os diretores artísticos do festival disseram: sejam vocês mesmos ao som de Cage. Nada me pareceria mais cageano que isso, esta liberdade.

Como nos últimos tempos minha maior preocupação e obsessão como poeta tem sido a relação humana com a história como narrativa, parti de uma ideia que me voltava sempre, a de "refutar" as últimas linhas do  texto "If I told him: a complete portrait of Picasso", de Gertrude Stein, o qual ela encerra com os versos

Let me recite what History teaches.
History teaches.

Parecia-me também apropriado invocar Gertrude Stein em um texto a ser lido com uma composição de John Cage, estes meus dois mestres queridíssimos. Meu texto, que absolutamente nada tem de steiniano ou cageano, recebe influxo maior, na verdade, de poetas públicos alemães que tenho lido muito nos últimos tempos, como Bertolt Brecht, Heiner Müller, Thomas Brasch e Hans Magnus Enzensberger, do polonês Zbigniew Herbert, a forma como estes retornam à História Clássica para falar de seu presente, e ainda a partir de minha leitura de historiadores. Estou buscando outra dicção no momento e o texto, intitulado "Deixem-me recitar o que a História ensina", segue sendo alterado ininterruptamente. 

A performance é amanhã, às 20:00. A ver o que o acaso cageano me reserva.

.
.
.





quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pequena nota sobre Gante, seguida de poemas de Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia

Ontem ocorreu a primeira leitura como parte do lançamento da antologia bilíngue holandês/português Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck (Gent: Poëziecentrum, 2011), um dos marcos poéticos do festival Europalia. Como escrevi, os poetas brasileiros presentes são Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, 4 dentre os 25 poetas contemporâneos brasileiros incluídos na antologia, que abre com Augusto de Campos (São Paulo, 1931) e fecha com Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979). Escreverei sobre a antologia, mencionando os outros poetas, em alguns dias.

A leitura foi no Poëziecentrum, um espaço dedicado à poesia na cidade de Gante (Gent/Ghent), com uma excelente biblioteca que conta com praticamente tudo o que é e foi publicado em poesia em holandês, seja esta a língua original ou a de tradução dos poemas. Trata-se do lindo prédio que vocês podem ver na pequena foto que abre a postagem, uma instituição totalmente voltada para a divulgação e publicação de poesia em flamengo, dirigida pela entusiasta generosíssima que é Sieglinde Vanhaezebrouck, a quem deixo aqui meus agradecimentos sinceros pela linda, linda noite que ela organizou. A sala de leitura era no último andar, com cerca de duas dezenas de belgas flamengos interessados, respeitosos, muito generosos, vários deles falando português por paixão pela língua, outros apenas interessados em poesia, seja ela de onde for. Entre as leituras, o violonista Daniel Miranda tocou clássicos de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Dilermando Reis e Tom Jobim. Foi uma noite muito bonita. Deixo vocês com um poema de cada um dos meus companheiros de leituras, Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia, dentre os incluídos na antologia, assim como posto uma vez mais meu "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", que Flora Süssekind decidiu incluir na antologia, deixando-me muito contente de o ler em plena Bélgica, após tê-lo escrito aqui. Encerro com a linda composição de Dilermando Reis que Daniel Miranda tocou ontem à noite. Está sendo um prazer passar estes dias com minha companheira Marília Garcia, conhecer e privar da companhia de Francisco Alvim, rever Lu Menezes após um brevíssimo encontro no Rio de Janeiro em 2009, poder conversar com eles com paz e respeito tamanhos.


QUATRO POEMAS, QUATRO POETAS
incluídos na antologia Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck
(Gent: Poëziecentrum, 2011)


Escolho
Francisco Alvim

Parado

Na plataforma superior

Entre as pernas
no chão
as compras no plástico

Longe do verso perto da prosa
Sem ânimo algum
para as sortidas sempre -
enquanto duram -
venturosas da paixão

Longe tão longe
do humor da ironia
das polimorfas vozes
sibilinas
transtornadas no ouvido
da língua

Ali onde o chão é chão
as pernas, pernas
a coisa, coisa
e a palavra, nenhuma
Onde apenas se refrata
a ideia
de um pensamento exaurido
de movimento

Entre dois trajetos
dois portos
(duas lagunas
duas doenças)

Sublimes virtudes do acaso
por que não me tomais
por dentro
e me protegeis do frio de fora
da incessante, intolerável, fugo do enredo?
da escolha?


§


onde o céu descasca
Lu Menezes

No interior
da pizzaria pintada de azul com nuvens
um ponto
onde descola a tinta, onde o céu descasca
denuncia
o sórdido teto anterior

descor
de burro quando surge

E é só
o que delicia certo solitário comensal
– esse ponto no qual
extramolduras
o apetite de um Magritte por superfícies
genuína companhia lhe faz

– Genuína companhia...
num simulacro de céu, tal ninharia?
Yes!, no mínimo mais
que a fatia no prato,
o pedaço de teto nu e cru
– amostra menor do limbo,
do franco, fiel, frio limbo –
duraria, oh sim, duraria


§


Le pays n´est pas la carte,
Marília Garcia

I

pensa bem mas
se tivesse as ruas quadradas
teria ido a outro café, teria dito tudo de
outro modo e visto de
cima a cidade em vez de se
perder toda vez
na saída do metro, não é desagradável
estar aqui, é apenas
demasiado real
diz com cílios erguidos
procurando um mapa



II


não é o avião em rasante sobre
a água e nem o corpo
na janela semi-aberta
vendo o desenho
dos carros embaixo — não comenta nada
porque prefere armar planos
em silêncio
(estaria sonhando
com colinas?)



III


de lá manda longas
cartas descrevendo o país,
os terremotos e a forma da cidade.
pode me dizer que nunca se
espanta mas não percebe que
caminha perguntando:
é de plástico a cabine? é sua voz
na gravação? é um navio no
horizonte? pode ser apenas
uma margem de erro mas
não pensa nisso
com frequência

(pode ser apenas a janela
aberta que carrega os papéis)


§


O acordeonista da Catedral de Bruxelas
Ricardo Domeneck

De Bruxelas eu
esperava tudo, talvez
a reprise
do que ali já vivera,
uma noite ao lado
de Jey Crisfar,
chuva e cansaço,
conversas com taxistas
e árabes, mas não
este acordeonista
loiro de 20 anos
diante da Catedral,
sim, a de Bruxelas,
acordeonista loiro e imberbe,
alto e imundo,
a quem doei 2 euros
num excitativo segundo de tato
entre sua mão e meus dedos fechados
abrindo-se em bojo sobre sua palma,
após fazer com a visão
o rodízio contemplativo e luxurioso,
alternando o foco dos olhos
entre a catedral imberbe e loira
e o acordeonista alto e imundo,
a quem ensaiei, por 20 minutos
que mais pareceram seus 20 anos,
perguntar seu nome, quiçá filmá-lo
com a câmera que deixara
no Berlimbo,
ou imaginá-lo fotografado em série
por Adelaide Ivánova,
Heinz Peter Knes
ou qualquer fotógrafo
íntimo que me cedesse
os direitos autorais
desta imagem loira,
imunda,
para que eu de alguma forma
possuísse
este acordeonista imberbe e alto
em seus 20 anos,
a quem então batizo
em minhas glândulas
e passarei a chamar de Loïc
ou quem sabe Guillaume
pelo resto dos meus dias
após falhar em criar os colhões
de pedir seu nome,
e é assim, sr. Loïc ou Guillaume
aos 20 anos imundo e acordeonista,
que a você eu dedico
diante da alta e imberbe
Catedral de Bruxelas,
estes 2 euros
e uma ereção.


§
§
§


Dilermando Reis - "Se ela perguntar", composição que foi tocada por Daniel Miranda no Poëziecentrum ontem à noite.

.
.
.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A caminho da Bélgica para as últimas leituras no Europalia


Embarco dentro de poucas horas para a Bélgica, onde faço minhas últimas leituras dentro do Festival Europalia. Estarei acompanhado em cada uma das quatro leituras por Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia. As cidades em que lemos são Gante (Gent/Ghent), Antuérpia, Namur e Bruxelas. Tentarei escrever um pouco sobre as leituras por lá.

.
.
.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A caminho de Portugal, para performances em Lisboa e Porto.

Nesta quinta-feira, embarco para Portugal pela primeiríssima vez. Amigos aqui em Berlim sempre se espantam quando digo que não conheço Portugal, mas é realmente um dos poucos países na Europa Ocidental em que não me apresentei, seja como poeta ou DJ, ou sequer tenha podido visitar. São justamente os países do extremo ocidental do continente: Portugal, Irlanda e Islândia. Nesta quinta, poderei finalmente conhecer Portugal, apresentando-me com minha performance vídeo-textual em Lisboa e na cidade do Porto.

Em Lisboa, participo de um evento dedicado à performance que ocorre com certa frequência, chamado Epipiderme, com curadoria de Nuno Oliveira. Esta edição do evento ocorre na própria quinta-feira, dia 22 de setembro, e terá performances do brasileiro Márcio-André (que sugeriu meu nome a Nuno Oliveira e a quem agradeço a generosidade) e do português Antonio Azenha.

Na cidade do Porto, farei uma leitura na segunda-feira, dia 26 de setembro, apresentando alguns dos meus vídeos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, graças à generosidade e empenho de Patrícia Lino, a quem também agradeço aqui. Patrícia Lino preparou este pequeno vídeo para promover a tarde na FLUP:


RICARDO DOMENECK NA FLUP : 26 SETEMBRO 2011 from Patrícia Lino on Vimeo.



.
.
.

sábado, 14 de maio de 2011

Pequena nota sevilhana


Faz um calor do cão em Sevilha. Ontem, às 20:00, abriu-se a porta da sala onde ocorria minha performance, e eu, suando em bicas, acompanhei com os olhos a entrada de alguns bravos e corajosos interessados na salinha do Instituto da Cultura e das Artes de Sevilha, que funciona dentro do Monastério de São Clemente, prédio que, pasmei, ainda funciona como monastério. Metade dele é um espaço de exposições, na outra metade vivem as monjas. Apresentei as seguintes peças:

1- "Esta es la voz" (meu querido Aníbal Cristobo traduziu para mim o texto "This is the voice" para minhas apresentações na Espanha.)

2- "Mula", minha colaboração com o Tetine, com vídeo do querido Eugen Braeunig, peça que gosto muito de performar.

3- "Eustachian Tube in Staccato", uma peça que me custa muito apresentar, é difícil vocalizá-la, mas o curador havia pedido especificamente por ela.

4- "Six songs of causality", meu hit.

5- Encerrei com a peça que criei para Córdoba, baseada nas Soledades de Góngora, "Entrañas de las Soledades".


Está sendo difícil aproveitar a viagem, dois dias antes de vir à Espanha minha vida pessoal em Berlim virou de ponta-cabeça. Estou andando pelas ruas de Sevilha, como diria Drummond, com uma perda no bolso que me faz caminhar de banda. Tento fazer a estreiteza das ruas, como a celebrou João Cabral de Melo Neto, servir de abraço.


Só em Sevilha o corpo está
com todos os sentidos em riste,
sentidos que nem se sabia,
antes de andá-la, que existissem;

sentidos que fundam num só:
viver num só o que nos vive,
que nos dá a mulher de Sevilha
e a cidade ou concha em que vive.


(João Cabral de Melo Neto)



Deixo Sevilha em um par de horas e voo para Barcelona, onde vou encontrar amigos queridos como Eduard Escoffet e Aníbal Cristobo, ver as performances de Lee Ranaldo no domingo e de Diamanda Galás na segunda-feira como parte do festival de poesia barcelonês, o "Poesía Barcelona 2011".


Deixo vocês com vídeos de duas apresentações minhas do passado, a primeira com as "Six songs of causality", gravação de minha apresentação solo no Espaço de Arte Contemporândea de Castelló, no distrito de Valência em 2009; a outra de minha apresentação no Festival Yuxtaposiciones de Madri, na Casa Encendida, em 2008, na qual oralizo a peça "This is the voice".




Performance das "Six songs of causality" no Espai d´Art Contemporani de Castelló, Valência, julho de 2009.


§




Performance da peça "This is the voice", na Casa Encendida, Madri, parte do Festival Yuxtaposiciones em 2008.


.
.
.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Em Sevilha, onde mostro meu trabalho que conjuga texto, voz e vídeo

Estou em Sevilha, a cidade amada de João Cabral de Melo Neto, onde apresento meu trabalho que conjuga texto, voz e vídeo no I+CAS (Centro de la cultura y las artes de Sevilla). Amanhã, apresenta-se no mesmo festival, encerrando-o, o poeta norte-americano Lee Ranaldo, mais conhecido como membro fundador da banda Sonic Youth.


sábado, 26 de março de 2011

Em Córdova, terra de Gôngora, participando do festival "Cosmopoética: Poetas del Mundo en Córdoba - 450 Años de Góngora"

Cheguei ontem a Córdova, terceira maior cidade da Andaluzia, cidade natal do grande poeta al-andalus Ibn Zaidun (1003-1071) e da princesa-poeta Wallâda (994-1091), terra natal de Averróis (1126 — 1198) e Maimônides (1135 — 1204), e, é claro, de Don Luís de Góngora y Argote (1561 – 1627).

Estou na cidade a convite do festival Cosmopoética - Poetas del Mundo en Córdoba para um evento paralelo em comemoração dos 450 anos do nascimento do poeta barroco, que se chama Soledades 2.0 - Poesía digital en el año Góngora. Fui convidado, com a poeta espanhola Miriam Reyes e o mexicano Eugenio Tisselli, a criarmos performances dentro da linha de nossos trabalhos que tivessem como base as Soledades (1613). Há ainda uma exposição de peças poéticas digitais, para a qual criaram trabalhos especialmente para a ocasião os espanhóis Javier Fernández Sánchez, Iñigo Orduña e James Nelson, assim como os argentinos Belén Gache e Claudio Molinari.

A exposição traz também peças de poetas experimentais como os brasileiros Augusto de Campos e André Vallias, e ainda Billy Collins, Nicolas Clauss, Jörg Piringer, Alison Clifford, Ana María Uribe, Dorothee Lang, Zahra Safavian, Allan Bigelow, Isaías Herrero e Ainize Txopitea.


Vocês podem encontrar informações sobre o festival e sobre todos os convidados AAQQUUII.


Sobre a peça que preparei, com vídeo, texto e peça sonora, escreverei quando voltar a Berlim. Subirei esta noite ao palco e começarei minha apresentação com:


"Eia, Gôngora! A língua de Gregório de Matos te saúda."

.
.
.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

De corpo ausente mas voz presente no México pelos próximos dias

Estou entre os poetas convidados pelo festival mexicano Proyecto Enclave, que está acontecendo desde quinta-feira, 24 de fevereiro, e se estenderá até sábado, 5 de março, nas cidades de Colima, Querétaro e na capital Cidade do México, ou D.F., como eles dizem. O projeto reúne poetas-tradutores que vivem fora de seus países, dialogando entre sua primeira língua e a língua adotiva, entre sua tradição nacional e a do país de eleição. Com poucos recursos, como é geralmente o caso de festivais latino-americanos, os organizadores driblaram o problema da seguinte maneira: editando uma antologia com poemas de todos os autores convidados e, dos que não puderam ir ao México, apresentando nos vários institutos e locais sediando o festival em Colima, Querétaro e Cidade do México vídeos dos poetas com as leituras dos poemas incluídos na antologia. O volume traz três poemas meus: "Entre o fogo e a derme", "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos" e "Mula". Com minha câmera de vídeo quebrada, recorri a um amigo que me filmou lendo os dois primeiros poemas, e, do texto "Mula", incluí no vídeo a peça sonora criada pelo duo Tetine, com vídeo do alemão Eugen Braeunig. Mostro abaixo o vídeo precário mas simpático que está sendo apresentado no México durante estes dez dias, com os dois poemas e "Mula". Termino a postagem com a programação em castelhano do Proyecto Enclave, que tem direção de Maura Salvo.


Leitura em vídeo para o festival mexicano Proyecto Enclave, seguida da peça sonora "Mula", colaboração com o duo Tetine.

§

De lo vernáculo a lo global, de ida y vuelta

Enclave, poesía en diálogo.


Enclave. Poesía en diálogo nació como un proyecto —organizado por Eudora Proyecto Global—, en el que estarían algunos poetas y críticos cuyo trabajo nos entusiasma. Hablarían de su relación con la lengua en que escriben, ya que muchos son traductores o artistas poseedores de una “lengua materna”, oficial, y una “lengua poética”, elegida. Emigrantes por asuntos políticos, culturales, académicos, o por el mero placer de complicarse la vida un rato. Voces que transforman o, si se quiere, que anuncian. Otros más serían seres transfronterizos, habitantes de la palabra con un pie en territorio ecléctico. Luego más se interesaron.

Nos apoyan la xxxii Feria del Libro del Palacio de Minería, la Secretaría de Cultura del Estado de Colima con el Programa de Fomento a la Lectura, la Universidad del Claustro de Sor Juana a través del Programa de Escritura Creativa, el Instituto Queretano para la Cultura y las Artes, la revista Literal y un grupo de entusiastas que nos han ayudado para lograr que algo pequeño, casi familiar, sea un proyecto de mayor alcance.

Una producción a escala micro se volvió algo global. Y no es broma. Somos un territorio en constante cambio, urbano, textual y paratextual, donde lo vernáculo exuda frontera, romance, nórdico o germánico al ritmo del tango o en una serie de videos creados exprofeso para los espectadores mexicanos para demostrar que las fronteras no son impedimento. Para nosotros las fronteras no existen; ni geográficas ni imaginarias. Imagen, sonido y movimiento entrelazados en poesía. Los habitantes de este espacio son unos atrevidos, polígamos artísticos que creen en la necesidad de renovar los soportes. Así fue como Enclave. Poesía en diálogo se volvió un proyecto que espera tener muchas versiones para atestiguar la creatividad de estos seres poéticos y transfronterizos, a quienes observamos e invitamos. A quienes queremos ustedes conozcan.

§

· ENCLAVE. Poesía en diálogo en COLIMA

Del jueves 24 al sábado 26 de febrero


· ENCLAVE. Poesía en diálogo en México D.F.

ENCLAVE. Poesía en diálogo en la XXXII FERIA DEL LIBRO DEL PALACIO DE MINERÍA

Lunes 28 de febrero de 19:00 a 19:45 hrs. Recital poético interdisciplinario. Poesía en acción. Poesía polidiscursiva. Con Lalo Barrubia (Suecia-Uruguay), Minerva Reynosa (Monterrey) y videopoemas creados ex profeso para Enclave de Yanko González (Chile), Ricardo Domeneck (Alemania-Brasil), Gustavo Barrera (Chile) y Timo Berger (Alemania) Presenta: Maura Salvo (Chile). CAPILLA.


Martes 1 de marzo de 19:00 a 19:45 hrs. Mesa de discusión. Desde la extranjería: lenguajes y lenguas apropiadas.Con Rike Bolte (Alemania), Abril Castro (Tijuana-DF), Ulrika Serling (Suecia). Presenta: Rose Mary Salum (EUA-México). CAPILLA.


Miércoles 2 de marzo de 19:00 a 19:45 hrs. Recital poético interdisciplinario. Enclave. El mundo es un pañuelo: Poesía desde todos lados y desde aquí. Con Andrea Fuentes Silva (México), Rocío Cerón (México), Roxana Crisólogo (Perú-Finlandia), Gustavo Barrera, Yanko González (Chile). Presenta: Jorge Betanzos (México). CAPILLA.

§

ENCLAVE. Poesía en diálogo visita CASA VECINA

Lunes 28 de febrero de 17 a 18:00 hrs. Mesa redonda Poesía y transdisciplina. Con Ulrika Selring (Suecia), Rike Bolte (Alemania), Roxana Crisólogo (Perú-Finlandia) y Lalo Barrubia (Uruguay-Suecia). Modera: Maura Salvo. 1er Callejón de Mesones 7 esquina con Regina, Centro Histórico.


ENCLAVE. Poesía en diálogo visita al PROGRAMA DE ESCRITURA CREATIVA de la UNIVERSIDAD DEL CLAUSTRO DE SOR JUANA


Martes 1 de marzo de 17:00 a 18:00 hrs. Enclave. El mundo es un pañuelo: Poesía desde todos lados y desde aquí(recital poético interdisciplinario). Con Lalo Barrubia (Suecia-Uruguay), Minerva Reynosa (Monterrey), Abril Castro (Tijuana-DF), Ulrika Serling (Suecia), Rocío Cerón (México), Roxana Crisólogo (Perú-Finlandia), Andrea Fuentes Silva (México), Jorge Betanzos (México).

Izazaga 92, Centro Histórico. Metro Isabel la Católica. Aula Magna.



ENCLAVE. Poesía en diálogo visita el IMJUVE

Miércoles 2 de marzo de 19:30 en adelante. Fiesta de clausura y participación interdisciplinaria de los poetas participantes. Proyección de videopoemas creados ex profeso para Enclave de Yanko González (Chile), Ricardo Domeneck (Alemania-Brasil), Gustavo Barrera (Chile) y Timo Berger (Alemania).

Serapio Rendón No. 76, Col. San Rafael, Del. Cuauhtémoc,, México, D.F

§

· ENCLAVE. Poesía en diálogo en QUERÉTARO.

ENCLAVE. Poesía en diálogo visita al Instituto Queretano para la Cultura y las Artes a través del Centro Estatal de las Artes

Jueves 3, Centro Estatal de las Artes 17:00 hrs. Poesía en acción. Poesía polidiscursiva (recital poético interdisciplinario). Con Lalo Barrubia (Suecia-Uruguay), Jorge Betanzos (México), Minerva Reynosa (Monterrey) Presenta: Maura Salvo (Chile)



Viernes 4, Centro Estatal de las Artes 17:00 hrs. Desde la extranjería: lenguajes y lenguas apropiadas (mesa de discusión). Con Rike Bolte (Alemania), Abril Castro (Tijuana-DF), Ulrika Serling (Suecia) Presenta: Luis Alberto Arellano (México)



Sábado 5, Centro Estatal de las Artes, 17:00 hrs. Enclave. El mundo es un pañuelo: Poesía desde todos lados y desde aquí (recital poético interdisciplinario) Con Rocío Cerón (México), Roxana Crisólogo (Perú-Finlandia), Abril Castro (México), Andrea Fuentes Silva (México) y videopoemas creados ex profeso para Enclave de Yanko González (Chile), Ricardo Domeneck (Alemania-Brasil), Gustavo Barrera (Chile) y Timo Berger (Alemania).

Brindis de cierre, exposición Benjamín R. Moreno, 20:00hrs


Arteaga 98, Centro Histórico, a un lado de Santa Rosa de Viterbo, Querétaro

.
.
.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Madri, os dois últimos dias do festival ReVox e uma pequena amostragem poética de cada participante.

Chegamos todos a Madri na quinta-feira de manhã. Naquela noite, ocorria já a primeira apresentação dos poetas do festival no Auditório 400 do Museo Reina Sofía (Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía), aberto em 1988 no antigo prédio do Hospital General, e que em 2005 recebeu uma ampliação com aquele prédio luxuoso projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel (n. 1945).




O programa em Madri trazia ainda uma apresentação do austríaco Jörg Piringer, e o poeta local a se apresentar foi Peru Saizprez (em Barcelona havia sido Albert Balasch). Assim, na quinta-feira à noite, por volta de 19:30, com auditório lotado, começa o braço madrilenho do Festival ReVox - Novas Experiências na Poesia Sonora. O poeta digital austríaco Jörg Piringer abriu a noite (veja abaixo um vídeo de sua apresentação no Festival Proposta, de Barcelona, em 2002):

JÖRG PIRINGER


Exemplo do trabalho de Jörg Piringer: sua apresentação no Festival Proposta em 2002.


Veio então a grande atração do Festival ReVox este ano: Décade: a colaboração iniciada em 2009 entre o poeta vocal francês Anne-James Chaton (n. 1970), o artista sonoro alemão Carsten Nicolai a.k.a. Alva Noto (n. 1965) e o músico experimental inglês Andy Moor (n. 1962), mais conhecido como guitarrista da banda The Ex. Os três são respeitadíssimos em cada uma de suas áreas, e a performance deles foi realmente maravilhosa, especialmente em Barcelona. O equipamento de som em Madri não deu conta da mesma maneira das sutilezas do trabalho de cada um, mas também foi ótimo.


DÉCADE: ANNE-JAMES CHATON, ALVA NOTO & ANDY MOOR


Exemplo do trabalho do trio Décade: apresentação no Festival Hors-Pistes em Nantes (2009).

No dia seguinte, sexta-feira e último dia do festival, apresentamo-nos Jelle Meander, Peru Saizprez e eu no Auditório 200 do Museo Reina Sofía. Também para casa cheia, eu iniciei a noite. Fiz quase o mesmo programa em Madri que já fizera em Barcelona na terça-feira, com a exceção da peça de abertura, trocando a oralização do "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos" pela peça sonora "This is the voice". Para quem não conhece esta parte do meu trabalho, mostro abaixo vídeos de performances passadas, exemplos das minhas peças de abertura e encerramento em Madri:

Abri com a peça "This is the voice", que você pode ver no vídeo abaixo, de minha apresentação em outro festival de Madri, o ótimo Yuxtaposiciones.



Encerrei com minha peça permutacional "Six songs of causality", que você pode ver no vídeo abaixo, de minha apresentação solo no Espai d´Art Contemporani de Castelló, Valência.

Ricardo Domeneck - "Six songs of causality" @ Espai d´Art Contemporani from Ricardo Domeneck on Vimeo.



Após a minha apresentação, subiu ao palco o poeta vocal belga Jelle Meander:

JELLE MEANDER


Exemplo do trabalho de Jelle Meander: sua apresentação no Festival Krikri em Brugge, este ano.


Encerrou a noite o poeta oral peruano, residente em Madri, Peru Saizprez.

PERU SAIZPREZ




O Festival foi um dos melhores de que já participei e os dias na Espanha foram cheios e ótimos. Voltei ao Berlimbo, soterrado em neve, e quero descansar por uns dias.

Avante!

.
.
.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Em Barcelona, participando do festival ReVox, no qual estreei um dos poemas mais viados de toda a Literatura Brasileira

Cheguei ontem a Barcelona, onde apresentei meu trabalho videopoético à noite no festival ReVox (visite a página do festival), que conta este ano com a participação do coletivo Décade ::: uma colaboração entre o poeta sonoro francês Anne-James Chaton, o artista sonoro alemão Alva Noto e o guitarrista inglês Andy Moor, e ainda dos poetas vocais e sonoros: Jelle Meander (da Bélgica), Albert Balasch (da Catalunha, que se apresentou com o músico Hans Laguna) e Peru Saizprez (do Peru, vive em Madri), além de moi.

A apresentação em Barcelona foi no centro cultural Arts Santa Mònica, que no momento abriga também uma exposição sobre o compositor de vanguarda catalão Josep Mestres Quadreny, que colaborou em trabalhos poético-visuais, sonoros e inclassificáveis com Joan Miró, Joan Brossa, Antoni Tàpies e outros. Amanhã seguimos todos para Madri, onde repetimos as performances no Museo Reina Sofía.

Meu setlist de ontem foi:

1- "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos" - oralização do texto, com tradução de Cristian De Nápoli para o castelhano.
2 - "Mula" - vídeo, com performance vocal minha sobre peça sonora, uma colaboração com o fenomenal duo Tetine.
3 - "Eustachian Tube in Staccato" - vídeo, com performance vocal minha sobre peça sonora, uma colaboração com o talentosíssimo músico britânico Joseph Ashworth.
4 - "X + Y: Uma Ode" - vídeo, com oralização ao vivo.
5 - "Six songs of causality" - vocalização permutacional-acumulativa dos seis textos, com apresentação visual.

Qual foi o hit? Invariavelmente recebo os maiores elogios pelas "Six songs of causality", e é por isso que sempre termino com elas, talvez minha pecinha mais redondinha conceitualmente.

Mas o que mais me divertiu foi oralizar um dos meus textos mais recentes, que se chama "X + Y: uma ode", um poema que me divertiu horrores enquanto o escrevia. Talvez possa dizer que se trata do poema mais viado da literatura brasileira? Não, acho que este Oscar goes to Roberto Piva em algum de seus livros. Mas aqui está o texto, parte da minha busca por uma poética não tanto concreta, densa ou concisa, mas sim tesa. Ah! Uma poética leve e tesa, que sonho seria atingi-la! Que sonho! Tesa como uma ereção duradoura! Oh, illusion! oh, bliss!


X + Y: uma ode

An refert, ubi et in qua arrigas?
Suetônio

Houvesse nascido
mulher, já teria dado
à luz sete
filhos de nove
homens distintos.
Agora, vivo entretido
com as teorias
a explicarem meu gosto
por odores específicos,
certa distribuição de pelos
nas pernas alheias,
os cabelos na nuca
e no peito
sem seios, ainda que aprecie
certas glândulas mamárias
de moços e rapazes
com aquela dose
saudabilíssima
aos meus olhos de hipertrofia.
Medito sobre as conjecturas
de terapeutas,
os relatos de uma Persona
partida, Édipo subnutrido,
sem modelo
na infância de um lendário
Laio
exemplar, lançando-me
a uma suposta
busca entre amantes
por mim mesmo.
Tentei, sem o menor
sucesso,
por dias induzir-me à ereção
diante do espelho.
Concluí não ser tão
eréctil meu ego.
Ouvi com atenção
a fórmula
sobre pai ausente e mãe
dominante a gerar rainhas
de paus, espadas e copas
lassas e loucas,
mas, apesar do meu histórico
de progenitora histérica
e procriador estóico,
meus irmãos
tão afeitos e afoitos
diante dos clitórides
embromam a estatística.
Li todas as reportagens
sobre a possível queerness
na boutique do código
genético, esta quermesse
das afinidades seduzidas,
e ri com o amigo
que certa vez, em chiste,
nomeou-me dispositivo
biológico
de uma Natureza em estresse,
medicando o hipercrescimento
populacional. Não mentirei dizendo
que não temo e tremo
com o perigo do inferno.
Cheguei, contudo, à conclusão
de que minha passagem
só de ida
ao Hades
não se dá
apenas pela inclinação
algo obcecada
de minha genitália
pelo caráter heterogêneo
dos vossos gametas.
Houvesse
nascido fêmea,
já teria dado à luz onze
filhotes de treze
machos diferentes,
e, de puta,
assegura
o Vaticano (e mesmo Hollywood),
não se conhece ascensão,
tão-somente queda.
Portanto, poeta, pederasta e puta,
sigo com meus olhos pela rua
cada portador
desta combinação gloriosa
de cromossomas
X e Y,
chamem-se Chris ou Absalom,
com suas espaçadas proporções
entre os buracos
do crânio, a linha que se forma
entre orelhas e ombros,
as asas de suas omoplatas
e a coifa dos rotadores,
as simetrias volubilíssimas
entre as extremidades
excitantes e excitáveis
como nariz, pênis e dedos,
o número de pelos
entre o umbigo
e ninho púbico,
o formato dos dentes
e seu espelhamento
em diâmetro
nos pés e suas unhas.
Se andam como comem,
se bocejam como riem,
se bebem como tossem,
se fodem como dançam.
A absoluta falta de mistério
em alguns deles, incapazes
da dissimulação famosa
de certas personagens
literárias femininas
do século XIX.
Neles, é oblíqua
somente a ocasional
ereção inconveniente.
Constrangem-me
estas confissões,
mas cederia certos direitos políticos
por algumas dessas cristas ilíacas
já presenciadas em praias, ao sol,
e abriria mão de uma ida às urnas
este inverno por esta ou outra nuca.
E veja só como o planeta
insiste na demonstração empírica
dessa abundância de músculos
e seus reflexos
cremastéricos:
neste exato momento,
enquanto escrevo este textículo,
entra no café, em pleno Berlimbo,
um desses exemplares de garoto
canhestro e canhoto,
o boné cobrindo meio rosto,
prototipagem de barba
e bigode, calças
que me catapultam a fantasias
com skateboards como props,
sobrancelhas feito caterpillars
sitiando os olhos com promessas
de delícias e desfaçatez épicas.
Seus tênis são beges;
ao tirar o suéter, vê-se
a sua escala de Tanner.
Sua Calvin Klein.
Bege fico eu, adivinhando que pele
cobre seus joelhos, seus calcanhares.
Sonho o sexo biônico e homérico,
algo entre Aquiles e Pátroclo,
interpretados em nosso mundo
por Brad Pitt e Garrett Hedlund,
potros xucros como búfalos
ou bárbaros.
E este mundo está cheiíssimo
dessas distrações quase sádicas
para meu masoquismo
voluntarioso e em vício,
que impedem que componha
a minha Divina Commedia,
meu Paradise Lost.
Perdoe, Sr. Cânone,
esta minha tosca e parca
contribuição lírica à safra
de seus contemporâneos,
mas não me catalogue
entre as farsas, sátiras.
Pois não é, consinto, culpa
das massificações capitalistas
esta minha attention span
pouco renascentista,
mas desta explosão de cântaros
plenos de testosterona púbere
a ir e vir nos espaços públicos.
Quando passam, petiscos,
finger food em arrogância
cocky e garbosa, murmuro
na cavidade oca
da boca:
"Deviam ser proibidos
seus exageros de lindos".
Meu fim será nestes botecos
do Berlimbo,
entupindo-me de café preto
e esperando suas ocasiões
para escrever poemas
que vos celebrem, atores
principais deste longo pornô
em que me vi concebido, gerado
e expelido, coadjuvante
contente e dublado.
Agradeço-vos a oportunidade
de fazer do advérbio sim
uma interjeição obscena.
Aos outros, juro que não se trata
de encômio, louvor ou gabo.
Quisesse eu fazer apologia,
talvez dissesse
haver mais elegância
em "Sê meu erômenos
e eu serei teu erastés"
do que, ao cangote,
"Mim Tarzan, você Jane".
Não busco novos adeptos
que me façam concorrência.
Boys will be boys,
há quem diga, e, ora,
não vou dizer que espero
de todo moço
que seja Mozart
ou Beuys.
Haverá os momentos de caça
e rendição felizes, as poucas
vezes de sorte
em que seremos camareiros
de algum moço pasolínico,
com quem se poderá, enfim,
fazer o cama-supra, meia-nove
e então discutir no pós-coito
outros conceitos hifenizados
ao som de Cocteau Twins,
listar as guitarras de 1969,
nosso horror a Riefenstahl,
a obsessão por Fassbinder,
e oxalá sentir em meio a tal
loa uma nova ereção
cavucar
as malhas entre as dobras
do edredão
enquanto lemos poemas de Catulo,
de Kaváfis.
Quando chegarem os bárbaros,
me encontrarão na cama;
que venham porém armados,
pois hei de estar acompanhado,
e em riste as nossas lanças.



Berlim, 25 de outubro de 2010

.
.
.

domingo, 10 de outubro de 2010

Um brasileiro em uma bienal internacional de poesia

Estive na semana passada em Liège (parece que em português a cidade se chama Lieja), na Bélgica, entre os dias 7 e 9 de outubro, participando da XXVI Biennale Internationale de Poèsie, sediada pela Université de Liège, na região conhecida como Valônia. Foi um daqueles convites que me surpreendem de quando em quando, especialmente vindo de um evento tão oficial. De qualquer forma, o adjetivo "internacional" mereceria uma qualificação: tratava-se de um encontro, digamos, internacionalmente francófono. Havia poetas de várias partes do mundo, mas pelo que notei, com a exceção de uma inglesa, uma japonesa e um iraquiano, em sua maioria eram poetas que escreviam em francês, vindo da França, Bélgica, Haiti, Argélia, Marrocos, ou mesmo de países como o Líbano e a Romênia. Senti-me um tanto isolado com meu português/inglês/alemão. Além disso, a idade média dos poetas convidados parecia beirar os... 60 anos, com as exceções da franco-romena Linda Maria Baros, nascida em 1981 (às vezes eu me pergunto qual a porcentagem de romenos que realmente escrevem em romeno); meu querido Antoine Wauters, poeta belga que pude conhecer pessoalmente após uma longa correspondência, também nascido em 1981; e Samira Negrouche, poeta franco-argelina nascida em 1980 e que eu já havia conhecido no Festival de Medana, na Eslovênia, em 2008. Foi, de qualquer forma, uma experiência muito legal. Confesso não ser um visitante tão assíduo da poesia em língua francesa, não da maneira como habito as poesias em língua portuguesa, inglesa e alemã, e foi também interessante conviver com alguns poetas mais velhos, pertencendo a tradições por vezes distantes. Havia certamente uma porcentagem de "poetas institucionais", aqueles velhos acadêmicos que vivem de academia em academia, mas havia também vários poetas muito interessantes, que foi um prazer descobrir.

O grão-senhor do evento parecia ser o libanês Salah Stétié. Nascido em Beirute em 1929, durante o mandato francês do país, ele é, segundo minha querida Samira Negrouche, um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos. Stétié escreve, porém, em francês, não em árabe, como foi também o caso, por exemplo, do grande poeta argelino Mohammed Dib ‎(1920–2003). Foi interessante observar a reverência com que ele foi tratado durante o evento. Um cavalheiro, pude conversar um pouco com ele (fomos apresentados por Samira), e dividir uma mesa de debates na sexta-feira pela manhã.


Apresentando minha intervenção ao debate "O poeta é/e sua língua", com Salah Stétié à mesa, ao fundo da foto.


Reproduzo abaixo um pequeno poema lírico do libanês:

Les Conversants
Salah Stétié

Nous avons donc parlé sous la tonnelle
De la diversité concertante des anges
Des fourmis affairées dans le jardin
Où l’eau brillait parmi ses catégories
Jusqu’au lointain des cruches

La poésie dormait dans ses racines d’arbre
Depuis l’antiquité comme une jeune fille
Agrippée au désastre de la parole
Pour ce naufrage où la terre est consolatrice

La terre était l’enfant de nos viscères
Où déjà des fleurs de formaient préparant
Notre silence vide le plus intime
Sous le ciel dur invisiblement défait
Par la mêlée des grues et des nuages



Outros dois encontros que renderam conversas muito enriquecedoras, e que me deixaram feliz:

§ - com o poeta iraquiano Salah Niazi (n. 1935), o tradutor para o árabe de trabalhos como Macbeth e Hamlet, além do Ulysses (1922), de James Joyce, num volume publicado em Damasco, na Síria, há dois anos. Conversamos longamente sobre traduzir Joyce para o árabe, sobre democracia no Iraque, sobre poesia brasileira.

§ - e com o "trovère valão", como ele foi apresentado pelo diretor do festival: o poeta belga Julos Beaucarne (n. 1936). Um de seus assuntos mais queridos parece ser seu amor pela língua valona, ou o valão.




Após a conversa e debate de que participei, uma senhora veio conversar comigo, dizendo que era teatróloga, que havia gostado de minhas intervenções, e que algumas das coisas que eu disse, ilustradas por meu jogo de palavras com o vocábulo francês langue e o vocábulo inglês lung, a tinham feito pensar em Valère Novarina (n. 1947), o que tomei como grande elogio. A quem interessar, reproduzo abaixo minha consideração inicial no debate:

The poet is/and his language
Ricardo Domeneck


What most calls my attention in the proposed title of this roundtable is not so much its nouns, the poet or the language, but that possessive pronoun linking them, its concepts of possession and belonging.

The idea of possessing a language tantalized the Brazilian intellectuals and writers since our first Romantic poets in the XIX century, and creating a Brazilian poetic language was one of the most obsessive objectives of the Brazilian modernists in the 1920s. Linguistic nationalism among Romantic or Modernist poets is of course not a Brazilian privilege or disease, depending on the perspective. North American poets like Walt Whitman and William Carlos Williams were also greatly preoccupied with the creation of an American prosody for their poetic language. Other pairs in the Romantic & Modernist movements could be found in other countries, Pushkin and some of the Russian futurists, or among German poets of the Sturm und Drang and Expressionism. The Portuguese modernist poet Fernando Pessoa once wrote that the Portuguese language was his nation. I find it compelling that he did not write that “the poetic language” was his nation, but chose to inhabit a collective language, one officially spoken throughout his country. The idea of a national language doesn´t interest me, but the implications of his statement, which could also then be read as a refusal to make a clear difference between the poet´s language and that of his readers.

I would like to address these two possible readings of our title today, “the poet is / and his language”:

§ - the idea of a national language to which a poet would belong;

§- and a poetic language, inherently different from the common language, a language that the poet alone would therefore possess.

Rosmarie Waldrop, a poet who emigrated from Germany to the United States when she was 20 years old, and started writing in American English in the 1970s, once stated that she spoke both German and English with a “foreigner´s accent”, and that this fact liberated her from the illusion of ever being a “master of one language”. As a Brazilian poet living in Germany, writing in the language of my mother, which we could call Brazilian Portuguese, but also writing in what I call “the language of the Empire”, American English, this statement has always touched me in its frankness and humility, the desire not to “master a language”, not to possess, but maybe simply to belong to it. Later, reading Wittgenstein, who would become central in my language thinking, I was thrilled to discover his notion of “language games”, with the possible implications of no separation or essential difference between the language of the poem and the language I am using right now to exchange thoughts with you. What we would have is then the different games and uses for this organism or system of tools that we call "language". The verb “to use” is very important to this notion. In Brazil, I edit a magazine with three other poets, Angélica Freitas, Fabiano Calixto and Marília Garcia, a magazine we call
Modo de Usar & Co., something like “How To Use & Co.”, trying to investigate the poetic language through the idea of textuality, a text conscious of its artifices, thinking of the poet´s language as a site of intervention, the place where public and private meet, where he or she tries to achieve an ethical relationship between the individual and the collective, between own and other. The poetic language as a bridge between dualities and extremes, remembering how often these dualities have caused wars and massacres, especially when it deals with ideas and (mainly) ideals of national/local and alien/foreign. In this realm, the only thing the poet possesses is not a langue or language, but his lungs, inhaling and exhaling air for the production of concrete sounds (and its signs and letters) with the mission of uniting, not dividing. The language uses / with her poets.


.
.
.

domingo, 11 de outubro de 2009

Vídeo; excerto de performance; "Six songs of causality";


(Ricardo Domeneck, "Six songs of causality", textos permutativos em performance, Espai d´Art Contemporani de Castelló, Espanha, 31 de julho de 2009.)


Compus os textos permutativos "Six songs of causality" em 2006. Por esta época, estava em pleno processo de colaboração com o jovem artista visual alemão Phillip Zach, quando passei a escrever meus primeiros textos em inglês. A decisão era simplesmente prática: para poder colaborar com artistas ou poetas europeus, onde vivia, em muitos casos era impossível usar o português, a não ser que decidisse traduzir os textos mais tarde. Tomei a decisão de que seria mais interessante experimentar a composição dos textos diretamente em inglês. A colaboração com Zach geraria a primeira série, intitulada "How to breathe within photographs", com 11 textos meus e 11 fotografias do alemão.

As "Six songs of causality" nasceram do desejo de experimentar com a permutação de sentido dentro de um mesmo texto, algo que a língua inglesa torna especialmente frutífero, passando pela proposição de Wittgenstein de que "o significado de uma palavra é seu uso na língua", com um conceito que eu chamaria de "significado flutuante", a partir da relação contextual entre significantes.

§

O Romantismo, com suas obsessões nacionalistas (não apenas no Brasil), gerou nosso conceito de "literatura nacional", baseada, em muitos casos, em uma estreita noção de pureza de uma língua oficial. No Brasil, isso se torna ainda mais complicado pela influência massiva e unívoca da crítica de Antonio Candido e seu nacionalismo por sistematização de uma identidade.

Entre os medievais, era bastante comum que poetas compusessem em várias línguas, incluindo o famoso descort (leia AAQQUUII) de Raimbaut de Vaqueiras, em que o trovador usa cinco línguas (provençal, italiano, francês, gascão e galego), ou, mais próximos de nossa "tradição" (aquela que admite uma única língua), os textos de Gil Vicente em castelhano.

No século XX, começa a transformar-se a atitude crítica sobre poetas e escritores exilados que mudaram de língua. No Brasil, há o caso especial de Murilo Mendes, que viveu duas décadas na Itália e escreveu um livro em francês e um belo livro em italiano. Manuel Bandeira tem alguns poucos poemas em francês, assim como T.S. Eliot. Ezra Pound escreveu dois dos "cantares" em italiano.

Alguns poetas, no entanto, fizeram disso sua pesquisa primordial. Um caso bastante especial é o do romeno Ghérasim Luca (entre tantos romenos que escreveram em francês, como Emil Cioran e Mircea Eliade), que tematizaria o desterro e faria dele sua "língua". Entre os vivos, poderíamos citar a "alemã" Rosmarie Waldrop, que emigrou para os Estados Unidos e passou a escrever em inglês. Em uma entrevista, Waldrop declarou sentir-se deslocada tanto na Alemanha como nos Estados Unidos, dizendo que seus fonemas embaralharam-se ao cruzar o Atlântico e que ela falava os dois idiomas com um sotaque. Segundo ela, isto a salvava da ilusão de crer-se dominando qualquer língua, de ser "a master of language". Como "estrangeira", impedida de considerar meramente óbvia e natural a linguagem ao seu redor, com a qual os "outros" se comunicavam, incluindo seu marido, o poeta Keith Waldrop, a escritora e poeta Rosmarie Waldrop adota a língua do seu novo país e passa também a fazer do princípio wittgensteiniano do "significado da palavra como o uso que se faz dela na língua" seu princípio poético formal mais determinante.

§

Os textos independentes das "Six songs of causality" foram publicados pela primeira vez no número 09 da revista eletrônica (AAQQUUII) Green Integer Review, em outubro de 2007, editada por Douglas Messerli.

.
.
.

sábado, 12 de setembro de 2009

Vídeo com trechos de minha leitura na Eslovênia


(Leitura de "corpo" e trechos de "Breviário de secreções" e "Linear". Medana, Eslovênia, 28 de agosto de 2009)

§

Breviário de secreções



A um canto do quarto, meu corpo

             operava sua fábrica

                      de relações

Decisões não são auto-explicativas,

                        resistem ao questionário

         do prazer

                  e são

    obrigadas a ignorar

                     conseqüências de causas,

         como movimento e encontro

As mãos em concha erguem-se

      ao rosto ao mesmo tempo

    que este dirige-se a elas

                  sem que se percam

no caminho


               Respirando pela boca, sem

tempo a perder entre a

          oxigenação do próprio

                    cérebro e a

        do ambiente

               em geral, ele

     falou alto e preciso:

o teso súbito que percorre

                 a linha da boca

                 do peixe à mão

           do pescador, anzol:

                         isca, peixe


Mas esta imagem não

        encontra equivalência

           em meu organismo e

        volto a olhar 

        meus pés


               Sozinho e vazio

               como quem acaba

               de parir como quem

               acaba de ejacular

               vazio e sozinho


e só me acalmei

       ao repetir duração duração

                           duração movimento


passe as cartas por baixo

da porta se as há


Infelizmente não poderei

ir a São Paulo por

enquanto mas com

certeza nos veremos

antes da sua

partida beijos


em vigas de partir

nas vias do por vir


O esvaziamento progressivo

     dos pulmões e recomeçar

                           em seguida


Não há transição mais

                    sutil que a esquecida

            à meia-noite


e entre epiderme

derme músculo

osso esperam

todos

uma gradação

dos espetáculos

do mundo


apague a luz cavaleiro digo cavalheiro


Breviário das secreções

                  da manhã:


§     salivação comum mesmo 

em meio à 

desidratação recente

§    ejaculação de hábito 

antes do desjejum

§    sangramento normal 

à pia do banheiro

colore-me a boca

sensação de frescor e medo



do livro Carta aos anfíbios (2005)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Último relatório do festival e outros poetas

Nas duas últimas postagens, comentei sobre o festival de Medana, postei poemas do cíprio Mehmet Yashin (n. 1958) e do russo Aleksandar Skidan (n. 1964), além de mencionar o poeta esloveno (e tradutor das Obras Completas de Platão) Gorazd Kocijančič (n. 1964). Nesta última postagem sobre o festival esloveno, gostaria de comentar rapidamente sobre alguns outros poetas que chamaram a minha atenção.

§



É claro que se torna mais fácil apreciar o trabalho de poetas ativos em línguas que dominamos. Entre os poetas anglófonos em Medana, senti muito apreço pelo trabalho permutatório de escrita da canadense Angela Carr. A poeta vive em Montreal e publicou em 2006 a coletânea Ropewalk. No fim deste ano, deve lançar o volume The Rose Concordance. O poema a seguir está na antologia do festival, com o qual Carr abriu sua leitura. Pretendo traduzi-lo para a Modo de Usar & Co., mas por enquanto o mostro a vocês aqui no original:

Of the middle
Angela Carr

Our language with no body, nor less breath running.
Our language less in motion than motion.
Our tongues between properties, dividing,
nipples, the centrelanguage, heartbeat.
By the middle of September I had no body,
I was centrelanguage dividing the missing heartbeat,
my heartbeat, from the present.
By the middle of September I had no property, no body.
By the middle.

I bled language until I had no body.
Between our properties dividing turnips
from snow in the cold bare
vicinity of our language.
By the middle of winter
our story was less motion, language bled from me.
By the middle, I was missing
dividing months from the human
language with no body
honeycombs
frozen
honed
shhhh
but
I cannot breathe nor run with this less language.

I bled language until I had no body.
Bled between turnips and snow
Bled the cold bare language.
By the middle
Our story was less
Language had bled from me
So our story was less.


§

Angela Carr e eu conversamos muito sobre a relação entre gênero e gêneros (GENDER/GENRE), também sobre poetas como Susan Howe e Rosmarie Waldrop.

Esta última foi o ponto de contato, o gosto comum que iniciou uma boa conversa com outro poeta anglófono, ainda que este tenha na verdade nascido na antiga União Soviética, escapando com os pais quando ainda era muito pequeno, hoje poeta americano e tradutor do russo: Matvei Yankelevich. Publicou os livros The Present Work (2006) e Boris by the Sea (2009). Traduziu amplamente para o inglês o poeta russo Daniil Kharms (1905 - 1942), um iconoclasta amante do absurdo em um regime que não favorecia tais pesquisas poéticas.



O trabalho de Yankelevich liga-o à poesia produzida na cidade de Nova Iorque nas últimas décadas, e aos muitos grupos ligados àquele primeiro grupo específico de poetas da década de 50, que ficaria conhecido como Escola de Nova Iorque (New York School of Poets): Frank O´Hara, John Ashbery, James Schuyler, Barbara Guest, Kenneth Koch. Há pontos de contato também entre a poesia deste tradutor dos poemas "absurdistas" de Daniil Kharms e o trabalho dos poetas conhecidos hoje como flarfistas.

Interessei-me também pelo trabalho da jovem sueca Linn Hansén. Nascida em 1983, Hansén acaba de publicar o livro Ta I trä (a tradução do título para o inglês parece ser Touch Wood). Não consigo deixar de me interessar por esta pesquisa textual que leva a um "deflacionar da linguagem poética", jogando também com as expectativas do gênero.

Seria muito difícil escrever sobre todos os poetas. No debate sobre as possibilidades utópicas para a poesia, foi muito interessante ouvir o poeta e professor de filosofia bósnio Senadin Musabegović (n. 1970), que lutou como soldado em Sarajevo e leu poemas pungentes sobre a guerra, durante a qual foi correspondente também para certas agências internacionais.

Ficarei ainda atento ao trabalho do holandês Bas Belleman, da finlandesa Saila Sasiluoto, da argelina Samira Negrouche e do eslovaco Valerij Kupka. Tenho certeza que estes dias na Eslovênia gerarão frutos que ainda não posso ver claramente.

.
.
.

Arquivo do blog