segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dois poemas recentes

Após outra conversa em que Louis McGuire e eu falhamos em adivinhar a senha

                     Outra manhã
            tardia, destas manhãs
                  que vêm tarde
                      por nossa recusa
            em permitir que o sol
                  dê fim à noite,
            manhãs tardias de noites
                 temporãs, aguadas a vinho
            em nossos milagres minúsculos
    ao transtornar em vinho a água
            em meio à poeira
                de nossos quartos
               com aluguéis atrasados
  e pós de toda ordem
                  sobre os móveis
   quando na penumbra gratuita
       de nossas cortinas puídas
  chegamos, em nossos colóquios
         de bêbados honestos,
                          não a um cerne
       mas a um consenso
      de verdade, uma crença
                  qualquer nossa,
          debates repetitivos
             no roteiro trivial de novela
      em que as reviravoltas
      dos beijos na testa
                  são
     as facas nas costas,
                  e tentamos fixá-la,
     essa verdade a varejo,
         torná-la uma coisa
   que se pega com as mãos,
            como estes isqueiros,
    estes cinzeiros que transbordam
            enquanto esvaziam-se os cálices,
             se ao menos
      encontrássemos a sequência,
       a sequência certa de palavras,
  artigo que siga substantivo e verbo,
              que é o dizível que nos importa,
            uma sentença feito reza
                      que a torne reiterável
      amanhã e depois de amanhã,
             tão reiterável quanto este sol
     que arde fora das cortinas puídas,
                  a sequência de palavras
       que faça deste consenso
                  de verdade temporária
         uma parte da penumbra
             e a ilumine,
                          enquanto engatamos
             a noite à manhã e a manhã à tarde,
                           intuindo
             que deste acordo
                     talvez
        dependa a inauguração
                  de um calendário novo,
      e bracejamos ao falar
                         um ao outro
         “eu sei o que você
                          quer dizer”
               na barafunda de vocábulos
                     que desperdiçamos
           com a boca nessa busca,
                mesmo sabendo não
                haver sem
                    o dizer o saber,
               nessa emergência
            de compreensão qualquer
               da catástrofe
            individual e coletiva
        que parece iminente,
                    e desejamo-nos ao fim
                sorte
                   ao sentirmos o pó
          acalmar-se no sangue
                 e resta tão-só a poeira
       a irritar as narinas, os pulmões,
              quiçá em vez próxima
        quando engatemos vez outra
             a noite à manhã e à tarde
                e notemos essa verdade pairar
         no ar feito a gripe
            que tão frequente nos acomete
       e nos deitemos na cama
                         com os ácaros
            e busquemos de novo
   feito porcos num abatedouro
                   esta pérola
         inteligente e inteligível
    que sempre nos elide,
          no chão lúcido
                 da manhã que não cessa
      de nos querer moer,
            esta senha que se esgueira
     e escapule, código
              que abra a saída
                   dos fundos
              ou detenha
    estas engrenagens, leitões
                  bêbados, honestos,
        guinchando meias-verdades
               sobre o pó


(publicado originalmente na revista portuguesa Enfermaria 6. E, na Modo, meu amigo Louis McGuire)


§


Texto em que o poeta se dá ares para justificar a lambança da existência

Se naquela manhã
em que acordamos juntos
sobre aqueles lençóis
impecáveis, ainda moços,
alguma canção escolhida
a dedo, perfeita,
houvesse soado no quarto,
como se vinda de cada
parede e, inaudível para nós,
emocionara uma plateia
que nos era invisível,
mas assistia a cada movimento
nosso, pernas entrelaçadas,
dentes nos dentes;

ou se naquela tarde
em que você anunciou
que desejava a solteirice
e me deixou plantado
naquele ponto de bonde
sozinho, algum
movimento originalíssimo
de câmera enquadrasse
tensões de músculos isolados,
em mim, em você, um lábio
se contraindo, cento e vinte e três
fios de cabelo móveis
ao vento, e então
três ou quatro pessoas
numa plateia para nós inodora
soltassem um ai baixinho,
contraindo os mesmos músculos;

ou se agora mesmo
enquanto escrevo sozinho
estas linhas
a uma mesa de café,
alguém reconhecesse
numa tela
este cliché de filmes:
o escritor sozinho à mesa do café,
e tal imagem entusiasmasse
algum adolescente
que sonha ser também um dia
o escritor sozinho à mesa do café,
interpretado por algum famoso
e/ou canastrão
num filme qualquer
que outra vez revisitasse
a imagem gasta
do escritor sozinho à mesa do café;

mas éramos só nós dois
sobre aqueles lençóis,

sem plateia,

éramos só nós dois
naquele ponto de bonde,

sem plateia,

sou eu só
à mesa deste café
escrevendo estas linhas
e dando-me ares
como se houvesse câmeras
focando minhas mãos e rosto
ao chegar ao fim deste poema,
tentando justificar esta lambança
com uma plateia
que só existe na minha cabeça.


(publicado originalmente na revista brasileira Escamandro)

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Vídeo para "Morning Light" do produtor alemão Crooked Waves

Nelson Bell

Crooked Waves é o produtor alemão Nelson Bell, sobre o qual já falei aqui, e com quem tenho o prazer de colaborar no duo Bell Dome. Vejam o vídeo para a faixa "Morning Light", de seu EP de estreia, Floating (2016), que Black Cracker e eu estamos lançando por nosso selo/editora Gully Havoc. Produção adicional por Louis McGuire.




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quarta-feira, 29 de junho de 2016

"People Flowed", nova colaboração com Nelson Bell (Crooked Waves)

Escrevi este texto na noite posterior aos ataques em Paris e Beirute. Nelson e eu gravamos os vocais e trabalhamos na música um par de dias depois de Orlando. Nosso amigo Dominic Ryan o masterizou agora, após o ataque  Istambul. Não vamos parar nunca?
 



Bell Dome - "People Flowed". Written by Nelson Bell & Ricardo Domeneck. Mastered by Dominic Ryan. Berlin, June 2016.

then the blood
flowed
and as the blood
flowed
the protocol didn't change
people screamed
then people screamed
for more blood
it is always so
blood flows
people scream
then people scream
more blood
i ask myself
isn't there an end
to blood
don't the stocks
of the world
run low
our spleens
can't possibly be
this tireless
i am 38
i have seen my share
of massacres
as a child
i learned the word
war
with images of beirut
yesterday there were
more images of blood
in beirut
as a child
i learned the word
terror
with strange initials
ira
raf
the initials have changed
not the terror
bombs explode
triggers are pressed
blood flows
people scream
then people scream
more blood
i am 38
is this half-way
already
like dante begins
his comedy
half-way in life
i look around
it looks like a dark wood
if i live 38 more years
will the initials
change again
are we trying
all possible combinations
i don't know how
tortoises parrots whales
can take it

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Versos domingueiros




Tua garganta inflama como se abraçasse a si mesma,
sobre as vértebras trombam-se as pontas dos dedos.
Nana, nenê. A Cuca é ninguém menos que tu mesmo,
no escuro, livre por saber-te o monstro sob o berço.



Berlim, 26 de junho de 2016.

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Vem aí a segunda edição de "Cigarros na cama"

Cigarros na cama, meu bolero de fossa pós-apocalíptica no ano 2011, ou Ano 1 d.M. (depois d'O Moço), terá segunda edição este ano pela Luna Parque. Talvez haja até ineditinhos para açucarar (ou amargar?) a edição. Mais notícias em breve.



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quinta-feira, 16 de junho de 2016

"Malik Adan em minha sala" (2016)



Malik Adan é um jovem ator alemão, nascido em Berlim em 1992.

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terça-feira, 14 de junho de 2016

DANDO BANDEIRA (poema para vozes sobre palanques)


meu nome-função
foi já temido e respeitado
como dádiva dos espíritos

wíŋkte entre os lakotas
nádleehé entre os navajos
lhamana entre os zunis
aayahkwew entre os crees
sipiniq entre os inuítes

entre os itelmens da sibéria
koekchuch
entre os samoanos da polinésia
fa'afafine

e girei as ancas como
köçek
em palcos para os otomanos

e mesmo entre os que ontem
mesmo metralhavam-me
já fui mukhannathun
ou ainda hoje hijra 
chamam-me pela índia

assumi tantas
funções
em meus eus
em relação-dança
a vosso elela

e vos ensinei
barroca-rococó
que o inútil é útil

e curei, curandeira
e nomeei, batizeira
e teci, costureira
e invoquei, xamaneira
e entreti, entreteneira

hoje são outros os nomes
com que me celebrais
pelas ruas

bicha
sapata
viado
boiola

e até destes vossos inúteis
algo útil fiz
em meio a minhas irmoããs

sabendo que vossas
estrelas-de-seis-pontas cruzes e crescentes
cedo ou tarde são usadas
como estrela-ninja espada e foice
contra nossos lindos corpinhos

mas ora faz
séculos milênios
assistimos à morte
dos vossos deuses
um por um

cá estamos ainda
a vosso serviço, idiotas

por que seria diferente
com estes que ora exigem
tudo organizado em apenas
duas gavetas
como se assim fosse
desde o começo do mundo?

grandessíssima
mentira
para boy dormir

e

é chegada a hora
é passada a hora
é chagada a hora
de que nos desaquendeis,
filhotes de alibãs

porque dos erês às cacuras,
já nos cansou a belezura

transformar vossos cacetetes
em varas de condão
e vossas horrorosas pochetes
em marsúpios

nós, gloriosas canguruas

apontando o caminho
a saltos largos
para vossos passos
de cágados
todo cagados

rumo à civilização

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ouçam "Little Mess", faixa do produtor alemão Crooked Waves (Nelson Bell)



Crooked Waves é o produtor alemão Nelson Bell, sobre o qual já falei aqui, e com quem tenho o prazer de colaborar no duo Bell Dome. Ouçam a faixa "Little Mess", com vocais seus e de Lynn Rin Suemitsu (que se apresenta como RIN), de seu EP de estreia, "Floating", que Black Cracker e eu estamos lançando por nosso selo/editora Gully Havoc.




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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Carta mal-humorada à santa carioca do pau oco no dia do seu aniversário

diz aí, bicha de risinho modernista, quando é que vão deixar de te tratar feito criança, hein, meio assexuada, meio infantilizada, esses teus machos-viúva que até hoje lucram com as fofocas de namoricos, hein, bicha-santa, será que vão finalmente ter coragem de mencionar tua sapatice lá na FLIP, ou ainda vai ficar no muxoxo, no disse-que-disse que não se diz, na correspondência incompleta, hein, bicha-vândala, até onde vão assaltar teus cadernos, olha só de novo na página 226 desse poética cor-de-rosa aquela tua tradução de marianne moore que deus sabe, hein bicha-coceira, se acharam que era apropriação feito as de jorjão de lima, ou se até hoje não perceberam que era só isso mesmo, uma tradução com rabiscões e comentários de poeta ao lado, até o rabisco de dúvida ("diria?") na mesma linha em que aparece "dizia", diz aí, falarão sobre elas quando as compreenderem? de nós sobra só isso mesmo, essa "paixão chinesa pelo particular" não compartilhada pelos que nos folheiam ao léu. 

que fique claro, bicha-esperta, não ando por aí te chamando pelo primeiro nome, nem por apelido, se te menciono, e o faço pouco, é com nome completo, nunca fiz a íntima, santa de altar meu não é, e para que haja comércio entre nós te juro, te olho de igual pra igual, não te faço de santa não, de mulher-maravilha estilo anos 70 que dá uns giros e fica mais pelada, te olho e vejo uma mulher dona de seus passos haja ou não chão sob eles, não estou aqui para lucrar com os saltos mortais dos outros, tomo o que me interessa como poeta faz com poeta desde que o mundo é mundo e fomos capazes de dizer "mundo", poeta-bicha, bem que sei que concordaria afinal que de bíblia basta uma, que canseira deste não-me-toque, destas luvas não de pelica mas de borracha com que te manuseiam, de sublinharem o que a bicha não escreveu, espero que o chão te seja leve após ter-te sido tão duro.

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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os afazeres domésticos (poema)


                                    "Há-de nascer de novo o micondó — 
                                     belo, imperfeito, no centro do quintal."
                                                Conceição Lima (São Tomé e Príncipe, 1961)


É o nosso trabalho dizer agora que hão-de
renascer o capim-cidreira, o boldo e a hortelã
para os rins, os fígados, os intestinos da família
morta já pela metade, ainda que se espargira sal
sobre a terra dos quintais tomados pelo agiota,
e o dizer em ritmo propício à canção de ninar.

E que as mãos da vó quebrarão o pescoço
dos frangos caseiros para o pirão, que há-de
alimentar por dias as mulheres de resguardo
que ao dar à luz indenizaram a família por velórios,
mesmo que daquelas rugas restem só carpos
e metacarpos brancos de cálcio no jazigo do clã.

E que o vô morto voltará em sonho para ralhar
até a bandeira nacional mudar de cor
com estes desnaturados que não se cansam
de dar desgosto a seus antepassados
que cruzaram oceano não só para a desgraça
trocar de passaporte e vegetação ao fundo.

E é nosso trabalho dizer que os avós sequestrados
d'além mar hão-de alforriar-se em nossos corpos
e que os antepassados deste lado do Atlântico
hão-de reaver seus quinhões de terra preta,
e juntos, entre a hortelã, o boldo e o capim-cidreira,
de mão em mão as xícaras da saúde que nos elide.

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Ricardo Domeneck, Berlim, 29 de maio de 2016, sob o impacto de um poema de Conceição Lima.

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