sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"O Prisma das Muitas Cores: Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Fafe: Labirinto, 2010)



Recebi esta semana meu exemplar da antologia portuguesa O Prisma das Muitas Cores: Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira (Fafe: Labirinto, 2010), com organização do poeta português Victor Oliveira Mateus. São muitos poetas (apenas os vivos) dos dois lados do Atlântico lusófono, de várias gerações, comparecendo com um poema cada. Entre os portugueses, vale mencionar a presença de Ana Hatherly, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral, António Ramos Rosa, Luís Filipe Cristóvão, Casimiro de Brito, E.M. de Melo e Castro, Maria Teresa Horta e valter hugo mãe; entre os brasileiros, poetas de gerações e poéticas tão diferentes quanto Dirceu Villa, Antonio Cicero, Olga Savary, Donizete Galvão, Ivan Junqueira, Renata Pallotini ou Ruy Espinheira Filho. É bastante eclética, o que sempre traz suas vantagens e seus problemas, mas descobri nela alguns poetas que não conhecia, reli outros que haviam despencado da esfera da minha atenção, pude pensar em alguns que são espécies de fantasmas na poesia contemporânea, poetas mais velhos ou poetas líricos que estrearam na década de 50 e acabaram obscurecidos pela atenção muitas vezes exclusiva dada aos poetas de vanguarda daquela década. É o caso, por exemplo, de Pallotini, que tem poemas muito bonitos, em uma linhagem por vezes de lírica pura, algo similar à de Hilda Hilst poeta, ou de Marly de Oliveira. Victor Oliveira Mateus selecionou para a antologia um poema do meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005), que é um dos meus favoritos, chamado "O pão partido" e que reproduzo abaixo.


O pão partido

Houvesse um telefonema,
haveria uma voz; eu
emagreço, que prazer
ajustar-se melhor
aos ossos. Levitar
até o teto; basta mover-se
na direção certa
para viver de inverno
em inverno. Meu corpo
seu estrado, o colchão
a falta, em concha
peito e costas
aconchegam-se
em útero: e a falta
redobrada.
O cordão umbilical uma
ausência explícita, que
digestão suporta
uma hóstia?
A boca abre-se à
expectativa,
saliva
produzida nas glândulas
da anunciação.
Pão partido, corpo prurido
every single time.
Mas separam-nos
o jejum e as
orações de minha mãe,
a possibilidade
de um oceano
e seu condiloma
imaginado.
É 1654 e cavalos
(oito) tentam separar
as duas metades de
uma esfera unidas
pelo vácuo; em apenas
dois por cento das caças
um urso polar
tem sucesso mas
seu pêlo é branco! e oco
para conduzir melhor o sol;
brilhar e desaparecer:
camuflagem perfeita e o único
predador a fome.
A hóstia sempre
um prelúdio,
não uma rememoração.


Ricardo Domeneck, Carta aos anfíbios (2005).

§

QUATRO OUTROS POEMAS DA ANTOLOGIA


Lyra aragonesa: refram de abril
Dirceu Villa

"Pero mi fez e faz Amor mal"
Martim Moya

Não amor não pode
mal fazer
nenhum;
ou torna o senhor escravo,
escolhe em mil a mais
gentil
e colhe a dor do cravo
no amargo
mês de abril?

[Se então tal mal me vem
eu, sábio,
o torno logo em bem:
tolice é ter em sol tão certo
deserto só
& desolação;
e se esse é o preço
que pago,
bem pouco parece:
um pequeno estrago
no brio
que bem o merece.]

Pois tal fervor demove o frio,
e traz ardor à alma;
e então a flecha erra
a calma
e põe o peito em guerra:
torna o senhor
escravo,
o gentil prazer des
terra,
o estio já desfalece,
é um pássaro sem
pio
no amargo mês
de abril.

§


Carta de Amor Informático
Ana Hatherly

Penetraste no meu coração
Como um vírus no meu processador

Vindo de lado nenhum
Ofereces-me agora
O vazio da não opção

Estragaste-me o real
Obrigaste-me a reinventá-lo:
Para quê?

Agora estás
No meu cemitério de textos
Já não te posso reencaminhar

Arquivei-te no lixo da memória
Do meu Pentium IV
Que aliás já vendi

Troquei-o por um lap top*
Mais leve
Mais portátil
Mais facilmente descartável


§

Venha a nós o vosso reino
Olga Savary

Cheios de imagens os olhos
e de silêncio os ouvidos.
Palavras: quase nada.

A cor do barro primitivo em tua pele,
terra-mãe, vinho de frutos, fogo, água,
em ti se nasce e em ti se morre.

Vais me recolhendo e recompondo
no labirinto-búzio-alto-das-coxas,
presságio de submerso jardim,

um ideal jardim em que me apresso
e tardo retardar a troca das marés
quando para ti me evado.

O que é amor senão a fome rara,
o susto no coração exposto
que com a chama ou a água devora,

é devorada, que desdenha a mente
por uma outra fome, vago pasto
água igual a fogo, fogo como lava?

Amor foi uma volta inteira de relógio mais 7 horas.
Amor: chega de gastar teu nome:
agora arde.


§


Emotional Turn
Hugo Milhanas Machado

"Ir en busca de lenguaje y regresar sin nada"
Julia Otxoa


O nosso embalo vem à direita da letra
e já vem tempo que parece ser fatal
o que no fim do dia arrepende
Temos uma toada emocional, embora fria
Disputamo-las nas pequenas imagens
truques travas e toques
de potentes linguagens que algum dia
até são nossas, e logo se nos espraiam
mas mesmo, reparo Praia e praia
Eu aqui só digo praia
Temos uma toada emocional, tão fria
como o favorito do Pessoa, e isso sim
o amor todo dobrado
também uma grande galeria
de coisas que ainda fazem chorar
como na escola as festas de fim de ano
com grupos de língua inglesa e
tremendamente enamorados
já ninguém diz

.
.
.

Um comentário:

Valdecy Alves disse...

Nietzsche dizia que o mundo é um imenso pântano e que a arte é a orquídea colorida e bela que nasce no alto da árvore podre.
Digo então que BLOGS DE POESIA SÃO ORQUÍDEAS NO PÂNTANO DA WEB.
Convido a ler poesia da minha autoria, escrita ontem 05/03/2011. Se gostar comente e divulgue:
http://valdecyalves.blogspot.com/2011/03/canto-vida-peregrina.html

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