segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tradução para um poema de Horst Bienek (1930 - 1990)

Descobri o trabalho de Horst Bienek em uma gigantesca antologia que recolhia a poesia germânica desde os seus primórdios. Este poema, que traduzi para o segundo número impresso da Modo de Usar & Co., tornou-se um dos meus favoritos. Em janeiro de 2011, preparei a postagem abaixo para a franquia eletrônica da revista. Este poema me veio à mente hoje, reli-o e quis compartilhar sua tradução também aqui.





Horst Bienek foi um poeta e romancista alemão, nascido em 1930 na cidade de Gleiwitz, na região da Silésia, quando esta ainda pertencia à Alemanha. Com o fim da Segunda Guerra, grande parte da região é incorporada à Polônia, a língua alemã é proibida e a maioria dos alemães é expulsa. Horst Bienek tinha 16 anos quando a família fixa residência na Alemanha Oriental. Em 1951, Bienek conhece o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht e é convidado a lecionar no teatro Berliner Ensemble, mas, neste mesmo ano, é preso pela Stasi (a Polícia Secreta da Alemanha Oriental) sob acusação de agitação anti-soviética e é condenado a 25 anos de prisão. O poeta tinha 21 anos. É deportado para o campo de trabalhos forçados de Vorkuta, em uma região da Rússia que fica ao norte do Polo Norte, parte do que Alexander Soljenítsin viria a chamar de "Arquipélago Gulag". Quatro anos depois recebe anistia e emigra para a Alemanha Ocidental, onde passa a trabalhar como jornalista para a rádio estatal do estado alemão de Hesse, coeditor do jornal blätter + bilder, e ainda lector da editora Deutsche Taschenbuch Verlag (Editora Alemã de Livros de Bolso) e diretor do setor literário da Academia Bávara de Belas Artes em Munique. Horst Bienek morreu em decorrência da AIDS em 1990, na capital bávara.

Sua estreia literária em livro foi com Traumbuch eines Gefangenen (1957), algo como "diário de sonhos de um prisioneiro", ao qual se seguiram peças de teatro, roteiros cinematográficos, crítica, poemas e romances. Em 1970, escreveu e dirigiu o filme Die Zelle.

O poema apresentado e traduzido abaixo chama-se "Die Zeit danach", algo como a época seguinte, na mesma construção sintática que usaríamos para o filme de catástrofe nuclear "O Dia Seguinte". O cenário apresentado pelo poema é justamente o de uma catástrofe histórica, escrito por este poeta que sobreviveu à brutalidade da Segunda Guerra e às brutalidades do pós-guerra, nos campos de concentração do Gulag.

Horst Bienek foi contemporâneo de poetas e intelectuais germânicos como Hans Magnus Enzensberger, Heiner Müller, Thomas Bernhard e Ingeborg Bachmann que, tanto na Alemanha como na Áustria, herdaram de seus pais países em ruínas (a Alemanha estava arrasada) e moralmente em frangalhos. Acusar e ao mesmo tempo buscar redenção onde a maioria não a merecia representaram dilemas est-É-ticos gigantescos para esta geração de poetas. Bienek parece-me tê-los enfrentado com brilho, inteligência e delicadeza.


--- Ricardo Domeneck


§


POEMA DE HORST BIENEK
em tradução de Ricardo Domeneck, publicado originalmente
na segunda edição impressa da Modo de Usar & Co.

A época seguinte

I

Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?

II

Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão

Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos

Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares

Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição

III

Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte

IV

Por compaixão jogam-nos palavras no colo


:


Die Zeit danach: / I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss


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Um comentário:

veronika paulics disse...

não é fácil traduzir Zeit. que poesia bonita.

acusar e ao mesmo tempo buscar redenção onde a maioria não a merecia...

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