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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Com William Zeytounlian e Ondřej Buddeus em Berlim


Tive o prazer de hospedar o poeta brasileiro William Zeytounlian e o poeta tcheco Ondřej Buddeus em Berlim, no fim de semana passado. William e seu amigo Fábio Zuker passaram uma semana aqui, e pudemos ter conversas ótimas sobre literatura e afins. William é o mais novo colaborador da Modo de Usar & Co., e um poeta que respeito muito, de uma geração que já vem nos surpreendendo. Sou um admirador declarado dos autores brasileiros nascidos na década de 80, que já têm nos presenteado com romances, poemas e traduções que eu considero importantes. Basta pensarmos em Reuben da Cunha Rocha, Ismar Tirelli Neto, Victor Heringer, para mencionar apenas três que considero bençãos. E, agora, William Zeytounlian.

A soma
William Zeytounlian

trás um verso,
estranho léxico
em regresso –

inversa assim
a dúvida que
assoma a dívida
  reincidente,
  antiga,
   rediviva:

o velho dedo
que envereda
na ferida.

§

Ondřej Buddeus é um poeta que já parece ter-se firmado como uma das vozes mais importantes de sua geração na República Tcheca, bastante ativo como autor, crítico e editor. Foi muito bom poder conversar com ele sobre os debates est-É-ticos em seu país, e falamos muito sobre como encontrávamos paralelos entre o que ele falava sobre a República Tcheca e eu sobre o Brasil.

Traduzi, a partir do inglês, alguns de seus poemas para a Modo.

Estado de equilíbrio (Fazer o bem I)

ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira.

ele sentou-se
ele disse nada
ele fez o bem.


:

Estado de equilíbrio (Fazer o bem II)


ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira
e começou.

com o tempo
pedimos a ele
fosse fazer o bem
em outro lugar.

§


Cada vez mais acredito que a noção de uma comunidade plural de poetas, para além da ideia de grupo com programas unificados, é algo saudável e importante para nosso trabalho.

Encerro com o vídeo que gravei de William para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto", em que ele lê sua tradução para o poema "Doomsday", de Jorge Luis Borges.




William Zeytounlian traduz o poema "Doomsday", de Jorge Luis Borges (1899 - 1986), 
e então empresta sua voz ao poeta argentino. Gravado em Berlim a 25 de fevereiro de 2014.

Doomsday
será quando a trombeta ressoar, como escreve são joão, o teólogo.
foi em 1757, segundo o testemunho de swedenborg. 
foi em israel (quando a loba cravou na cruz a carne de cristo),
         [mas não só então.
ocorre em cada pulsação de teu sangue.
não há um instante que não possas ser a cratera do Inferno.
não há um instante que não possas ser a água do Paraíso.
não há um instante que não estejas carregado como uma arma.
em cada instante podes ser caim ou siddharta, a máscara ou o rosto.
em cada instante pode revelar-te seu amor helena de tróia.
em cada instante o galo pode ter cantado três vezes.
em cada instante a clepsidra deixa cair a última gota.

(tradução de William Zeytounlian)

:



Doomsday
Jorge Luis Borges

Será cuando la trompeta resuene, como escribe San Juan el Teólogo.
Ha sido en 1757, según el testimonio de Swedenborg.
Fue en Israel cuando la loba clavó en la cruz la carne de Cristo, 
            [pero no sólo entonces.
Ocurre en cada pulsación de tu sangre.
No hay un instante que no pueda ser el cráter del Infierno.
No hay un instante que no pueda ser el agua del Paraíso.
No hay un instante que no esté cargado como un arma.
En cada instante puedes ser Caín o Siddharta, la máscara o el rostro.
En cada instante puede revelarte su amor Helena de Troya.
En cada instante el gallo puede haber cantado tres veces.
En cada instante la clepsidra deja caer la última gota.


in Los conjurados (1985)

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Jovens poetas europeus: Ondřej Buddeus


Ondřej Buddeus é um poeta, ensaísta e tradutor tcheco, nascido em Praga em 1984. Ele traduz do alemão e norueguês (J. Winkler, J.E. Vold, A. Mortensen, entre outros) e é editor da revista de literatura tcheca contemporânea Psí vino.


 
Ondřej Buddeus - "a me". Criado em conjunção com a exibição "adaptation" (Graz: Steirischer Herbst, 2012), 
da qual o poeta participou. O texto-instalação fará parte de um livro intitulado "a me"
a ser lançado em fevereiro de 2014.


Seus textos foram traduzidos para o alemão, italiano, polonês, galês, húngaro e inglês. Estreou em livro com 55.007 caracteres com espaços (2011) e Swiflty (2013), pelo qual recebeu o Prêmio Jiří Orten




Sua publicação mais recente é um livro infantil em colaboração com o artista David Böhm. As traduções-parâfrases abaixo foram feitas a partir das traduções para o inglês. Ondřej Buddeus vive e trabalha em Praga.



POEMAS DE ONDŘEJ BUDDEUS



O poema flexível

Este poema é flexível
dinâmico
compatível com absolutamente
qualquer coisa
por exemplo Karel que Milena abandonara
ele estava muito bem
até que caiu a ficha
ele leu este poema flexível
que se adaptou a ele
abriu seus olhos
e o centrou
neste mundo louco
dessarte ele está bem de novo
ou veja a pequena Tereza
ele tinha pavor
que eles finalmente viessem
e eles vieram
ela leu para eles este poema
e eles sumiram de imediato
ou como ontem
ainda estava lá
e hoje não mais
o motivo, a consequência
o resultado sumiram
tome três vezes ao dia após refeições
faça suas orações urine e vá pra cama
amanhã
estará lá novamente
Um último exemplo:
você acordou
devorou o café-da-manhã e saiu
por cinco horas
eu me sentei pensando
e então escrevi
não!
por quatro horas
eu me sentei pensando
e então escrevi
sim!
você voltou
e de repente aí está.
este é um poema flexível
ninguém precisa ter vergonha dele
ou por ele
ele está aqui para todos
até mesmo para você
sinta-se à vontade para confissões

(paráfrase de Ricardo Domeneck, a partir da tradução inglesa)

§

Estado de equilíbrio (Fazer o bem I)

ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira.

ele sentou-se
ele disse nada
ele fez o bem.

:


Estado de equilíbrio (Fazer o bem II)



ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira
e começou.

com o tempo
pedimos a ele
fosse fazer o bem
em outro lugar


§

Como sair em busca de Bárbara

Dedique uma tarde à busca de Bárbara.
Passeie pela rua central da vila, pela praça da matriz
ou pelo comércio
e pergunte às mulheres que atraírem seu olhar: "Com licença,
você por acaso seria Bárbara?" Se for negativa a resposta,
desculpe-se. Se for afirmativa a resposta, prossiga:
"Poderia fazer mais uma pergunta - você me reconhece?"
Se for negativa a resposta,
prossiga em sua busca por Bárbara.


§

gatilho

eu puxo o gatilho
viro-me e contemplo
a tela
eu puxo o gatilho viro-me
e contemplo a tela
eu puxo o gatilho viro-me e contemplo
a tela sou eu

você puxa o gatilho
vira-se e contempla
a tela
você puxa o gatilho vira-se
e contempla a tela
você puxa o gatilho vira-se e contempla
a tela é você

eu subo minha camisa tensiono
meu abdômen e puxo
o gatilho viro-me e contemplo
a tela este sou eu
digo e mostro para você

você sobe sua camisa
pesca um seio do sutiã e puxa
o gatilho vira-se e contempla
a tela esta sou eu
você diz e me mostra

há-de haver amor




Ondřej Buddeus (Praga, República Tcheca, 1984)


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