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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Cinco lusófonos jovens

 William Zeytounlian

William Zeytounlian (Brasil, 1988)

[tudo está às voltas]

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto

tudo se repete
num fazer que
descortina:

          compre
          uma flor
          no mercado
          e sê Monet
          jardinando em
          Giverny –

          refaça
          no entulho
          de uma casa
          o dia que os
          mesopotâmios
          recensearam
          seus deuses
          mortos

não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe
teu agora e teu antes

voltei-me a mim
e parti mais além
fui-me aqui
e assim por diante

      – toda tessitura
      é a vela na
      gávea de Cabral
      e o trapo no
      torso de
      Zumbi –

      sê olhar do rei cruel e indigesto
      sê o olho que temeu a guilhotina

               tudo se repete
               num fazer que
               descortina

               tudo está às voltas
               no lastro de teu gesto

§

Golgona Anghel (Romênia/Portugal, 1979)

COMODISTA HESITANTE,

protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
Em contos naturalistas
E reality showers.


Nós, aqui, little stranger,
Degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
E vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
Já alugámos as trincheiras,
Mas custa tanto tirar os pijamas.

§

João Bosco da Silva (Portugal, 1985)

Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.


§

Ederval Fernandes (Brasil, 1985)

Como quando

Como os dedos
que rasgaram
o papel do
presente.
Como o ausente
dos vários
segredos
que não
revelaram.
Como o café
que repousa
na mesa
e será bebido.
Como o livro
lido
duas, três
vezes até
ser amada
a sua beleza.
Como quando
entrei
em você
pela
primeira
vez e entendi.
Como, por uma
besteira, não sei,
minha vó chora
e depois ri.
Como os dias
em que Vivo
e não quando
estou morto
e respirando
feito verme.
Como a tua mão
procurou ver-me
no escuro
de mim e do quarto:
como quando um
coração
faz um Uivo.

 §

Raquel Nobre Guerra (Portugal, 1979)

Se sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro por que
rodaram mãos e jeitos de luz? Sim.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como acontece na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão vivido.


Lê assim.

Podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
— e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias —
mas cairei por aqui.

Meu amor.

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.

.
.
.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tradução de William Zeytounlian para poema vocal de Efrim Menuck & Godspeed You! Black Emperor

Efrim Menuck

Efrim Menuck é um poeta-músico canadense, nascido em Montreal, a 21 de novembro de 1970. É conhecido como membro fundador dos coletivos Godspeed You! Black Emperor e Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra. O poema vocal abaixo, "The Dead Flag Blues", vem do álbum F♯ A♯ ∞ (1997), do Godspeed You! Black Emperor, e o texto é um monólogo que faz parte do roteiro de Menuck para seu Incomplete Movie About Jail, filme no qual vem trabalhando há alguns anos. A mim me parece um dos poems vocais mais fortes da década de 90,  com o qual aprendi muito. Sua visão distópica de nossa sociedade seria profética se não demonstrasse já as mazelas do momento em que surgiu. Sempre que ouço os versos iniciais, penso no poema de William Carlos Williams intitulado "To Elsie" (também conhecido como "The pure products of America"), especialmente os últimos versos:


the stifling heat of September
somehow
it seems to destroy us

It is only in isolate flecks that
something
is given off

No one
to witness
and adjust, no one to drive the car


Sim, "ninguém / que testemunhe / e ajuste, ninguém que guie o carro", como no poema de Menuck, "O carro está em chamas e não há condutor ao volante", transcrito abaixo com a tradução de William Zeytounlian para o português. 


POEMA DE EFRIM MENUCK

Blues das bandeiras mortas

I.

O carro está em chamas e não há condutor ao volante
E os esgotos se enlameiam de um milhar de suicidas sós
E um vento tenebroso sopra

O governo é corrupto
E nós doidos de drogas
Com o rádio ligado e a cortina levantada

Somos compelidos ao ventre dessa maquina atroz
e a máquina sangra fatalmente

o sol se pôs
os outdoors olham de esguelha
e as bandeiras estão todas mortas no cimo de seus mastros


II.

aconteceu assim:

os prédios caíram um sobre os outros
a mães agarraram os bebês
entre os escombros
puxando-os pelo cabelo

o horizonte estava lindo em chamas
o metal retorcido se alongando ao céu
tudo aquarelado em uma fina névoa laranja

eu disse, “Me beija, você é linda –
esses são mesmo os últimos dias”

você segurou a minha mão
e embrenhamos ali
como em um devaneio
ou numa febre


III.

acordamos numa manhã
e nos sentimos afundar um pouco mais
certamente é o vale da morte

eu abro a carteira
e está cheia de sangue

(tradução de William Zeytounlian)




The Dead Flag Blues


The car is on fire, and there's no driver at the wheel
And the sewers are all muddied with a thousand lonely suicides
And a dark wind blows

The government is corrupt
And we're on so many drugs
With the radio on and the curtains drawn

We're trapped in the belly of this horrible machine
And the machine is bleeding to death

The sun has fallen down
And the billboards are all leering
And the flags are all dead at the top of their poles

It went like this:

The buildings tumbled in on themselves
Mothers clutching babies 
Picked through the rubble
And pulled out their hair

The skyline was beautiful on fire
All twisted metal stretching upwards
Everything washed in a thin orange haze

I said, "Kiss me, you're beautiful -
These are truly the last days"

You grabbed my hand 
And we fell into it
Like a daydream 
Or a fever

We woke up one morning 
And fell a little further down
For sure it is the valley of death

I open up my wallet
And it's full of blood

.
.
.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"Fios", de William Zeytounlian

I.

Haverá realmente
tempo perdido?
Não o dizemos somente
por tempo passado?

Se o que se investe
entrementes
não passasse de gasto,
como haveria
sempre o risco
em retomar sempre
esse rastro?


II.

Haverá realmente
Tempo passado?
Não o dizemos somente
Por tempo perdido?

Se o rastro que falo
Está sempre às voltas,
O único risco
É ser intraduzido –
Às voltas sempre
De um ser-se tão vago.


III.

Parcas de si:

Entre os dedos
Da mão
O fio do
Vivido -

Barcas ao léu:

Mas se ata
Ao tronco
O fio do
Passado.


William Zeytounlian (São Paulo, 1988).

.
.
.






quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de William Zeytounlian


William Zeytounlian, o esgrimista francófilo


Descobri e tive o prazer de conhecer alguns novos poetas este ano. Dentre eles, William Zeytounlian é certamente um dos que acompanho com maior interesse, e de quem espero poder em breve ler o livro de estreia. Os poemas espalhados pela Rede já mostram o talento auspicioso do jovem paulistano. Postei vários já na Modo de Usar & Co., da qual Zeytounlian tornou-se colaborador assíduo, com poemas, artigos e excelentes traduções. Ele foi também traduzido para o castelhano por Paula Abramo, que comparte comigo do entusiasmo por seu trabalho. Uma das traduções foi postada na revista que coeditamos, Area de Libre Poesía de las Américas. Li recentemente este novo poema dele, que demonstra mais uma vez a qualidade do que vem fazendo. Excelente poema. Encerro com o último que publicamos na Modo de Usar & Co. Os nascidos nos 80 vêm chegando. Aliás, jamais compreenderei os poetas mais velhos que ignoram o trabalho dos mais jovens. Alguns dos diálogos mais intensos e frutíferos que tive nos últimos anos foi com autores dez anos mais jovens que eu. Bem, também não estou tão velho assim (wishful thinking). Mas ao que importa: dois belos poemas de William Zeytounlian.


DOIS POEMAS RECENTES DE WILLIAM ZEYTOUNLIAN (São Paulo, 1988)


Monumentos à barbárie (toda parte)

sobra sobre sobra –
assim se desdobra
a intraduzível sombra
que ombro a ombro
assombra a estranha
soma que escombra
os monumentos;

pedra sobre pedra –
assim se manifesta,
à margem da imagem,
no abismo de uma fresta,
a larva que infesta a cesta,
a malha que a lama orvalha.

§

[noite fora]


noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida

*
não basta

*

página de
acético ph

quebradiço
o papel como
um biscoito

as
promessas
nunca tardam
–
nunca tardam
em falhar.

*
não basta

*

banal
holocausto

do século
infausto:

por um
celular

a substância
vacila

entre as
facas
de cozinha.

*
não basta

*

noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida


.
.
.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Poema recente de William Zeytounlian


passado

o que assoviar
quando se esquece
a última das
canções?

a aposta
absurda foi
para que não
precisássemos
mais delas

nesse ínterim,
pensar sobre
os rumos
da poesia
enquanto há
sem-teto
expatriados
ruínas
famintos
e nosso passado
e seus mortos
e nós, envergonhados de nossa responsabilidade sobre ele
e nós, envergonhados por não assumirmos nossa responsabilidade sobre ele
e nós, envergonhados de nossa vergonha,
incapazes de sentir a vergonha,
incapazes de vergonha
incapazes de qualquer capacidade
incapazes até de incapacidade
e envergonhados por isso,

enquanto se projeta o passado como uma sombra sob nossos pés
enquanto ele se estende interminável até perder-se de vista
olhamos para o passado como para uma sombra
mas nos enganamos
ele é uma sombra,
mas olhamos para ele como para um deserto
e ele é, de fato, um deserto
era,
é,
e no fundo inimaginável deste deserto a perder de vista
se aproxima a ideia de um inimigo
um inimigo a encarar
inimigo afrontável
um inimigo que é maior que qualquer inimigo, pois é gigantescamente ideia
uma ideia amiga sobre a qual nos enganamos
ideia amiga que tomamos por inimiga pois nos afronta
e nos envergonha

essa ideia:
nossa amiga

enquanto
procuramos
dinheiro e
trabalhamos
por comida.



São Paulo, 1988.

.
.
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quinta-feira, 3 de abril de 2014

"Confissão (1964 - 1985)", poema de William Zeytounlian


CONFISSÃO (1964–1985)
    William Zeytounlian

“– come si chiama la tua ragazza?
– Margherita”.
P. P. Pasolini


toda
a conta
feita:

ato final,
evidência
contrafeita.

eu sou
o cálice
sacrificial.

eu sou
o cálice
sacrificial
no altar.

eu sou
o cálice
sacrificial
no altar
e seu
próprio
conteúdo.

eu sou
o bode
à borda
da faca,

eu sou
o homem
desnudo.


eu sou
o grito

eu sou
o grito
inquieto

eu sou
o grito
inquieto
que busca
o ouvido.

eu sou
o grito
inquieto
que busca
o ouvido
que busca
o gozo.

eu sou
o gozo.

eu sou
o gozo
atroz.

eu sou
o gozo
atroz e
inquieto.

eu sou
o gozo
atroz e
inquieto
do algoz;

do algoz
inquieto.

eu sou
o esquecido

eu sou
a areia
que me
enterra.

eu sou
a cova
que se
encerra.


eu sou
este objeto
decorativo

este
abjeto
esquecido
pendendo.

eu sou
esta gota
que me
escorre

eu sou
esta gota
que me
escorre
agora.

eu sou
o sonho
que se
esgota

o sonho
que se
esgota
em mim.

eu sou
a encruzilhada
de acertos,

o emblema
do escrúpulo

um gesto,
um estupro,
a vida nua.

eu sou
o erro
da virtude.

eu sou
a minha
dúvida.





sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Com William Zeytounlian e Ondřej Buddeus em Berlim


Tive o prazer de hospedar o poeta brasileiro William Zeytounlian e o poeta tcheco Ondřej Buddeus em Berlim, no fim de semana passado. William e seu amigo Fábio Zuker passaram uma semana aqui, e pudemos ter conversas ótimas sobre literatura e afins. William é o mais novo colaborador da Modo de Usar & Co., e um poeta que respeito muito, de uma geração que já vem nos surpreendendo. Sou um admirador declarado dos autores brasileiros nascidos na década de 80, que já têm nos presenteado com romances, poemas e traduções que eu considero importantes. Basta pensarmos em Reuben da Cunha Rocha, Ismar Tirelli Neto, Victor Heringer, para mencionar apenas três que considero bençãos. E, agora, William Zeytounlian.

A soma
William Zeytounlian

trás um verso,
estranho léxico
em regresso –

inversa assim
a dúvida que
assoma a dívida
  reincidente,
  antiga,
   rediviva:

o velho dedo
que envereda
na ferida.

§

Ondřej Buddeus é um poeta que já parece ter-se firmado como uma das vozes mais importantes de sua geração na República Tcheca, bastante ativo como autor, crítico e editor. Foi muito bom poder conversar com ele sobre os debates est-É-ticos em seu país, e falamos muito sobre como encontrávamos paralelos entre o que ele falava sobre a República Tcheca e eu sobre o Brasil.

Traduzi, a partir do inglês, alguns de seus poemas para a Modo.

Estado de equilíbrio (Fazer o bem I)

ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira.

ele sentou-se
ele disse nada
ele fez o bem.


:

Estado de equilíbrio (Fazer o bem II)


ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira
e começou.

com o tempo
pedimos a ele
fosse fazer o bem
em outro lugar.

§


Cada vez mais acredito que a noção de uma comunidade plural de poetas, para além da ideia de grupo com programas unificados, é algo saudável e importante para nosso trabalho.

Encerro com o vídeo que gravei de William para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto", em que ele lê sua tradução para o poema "Doomsday", de Jorge Luis Borges.




William Zeytounlian traduz o poema "Doomsday", de Jorge Luis Borges (1899 - 1986), 
e então empresta sua voz ao poeta argentino. Gravado em Berlim a 25 de fevereiro de 2014.

Doomsday
será quando a trombeta ressoar, como escreve são joão, o teólogo.
foi em 1757, segundo o testemunho de swedenborg. 
foi em israel (quando a loba cravou na cruz a carne de cristo),
         [mas não só então.
ocorre em cada pulsação de teu sangue.
não há um instante que não possas ser a cratera do Inferno.
não há um instante que não possas ser a água do Paraíso.
não há um instante que não estejas carregado como uma arma.
em cada instante podes ser caim ou siddharta, a máscara ou o rosto.
em cada instante pode revelar-te seu amor helena de tróia.
em cada instante o galo pode ter cantado três vezes.
em cada instante a clepsidra deixa cair a última gota.

(tradução de William Zeytounlian)

:



Doomsday
Jorge Luis Borges

Será cuando la trompeta resuene, como escribe San Juan el Teólogo.
Ha sido en 1757, según el testimonio de Swedenborg.
Fue en Israel cuando la loba clavó en la cruz la carne de Cristo, 
            [pero no sólo entonces.
Ocurre en cada pulsación de tu sangre.
No hay un instante que no pueda ser el cráter del Infierno.
No hay un instante que no pueda ser el agua del Paraíso.
No hay un instante que no esté cargado como un arma.
En cada instante puedes ser Caín o Siddharta, la máscara o el rostro.
En cada instante puede revelarte su amor Helena de Troya.
En cada instante el gallo puede haber cantado tres veces.
En cada instante la clepsidra deja caer la última gota.


in Los conjurados (1985)

.
.
.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poemas de William Zeytounlian



William Zeytounlian é um poeta brasileiro, nascido em São Paulo, em 1988. O poeta nasceu no seio da comunidade armênia paulistana, e este é um fator determinante em sua escrita. Formado em História, o autor desenvolve hoje um trabalho de pesquisa sobre a História do século XVII, uma "História dos comportamentos silenciosos", a partir de tratados e máximas morais da época de Luís XIV. Sua história familiar e memória contituem outro aspecto importante, com o relato do massacre de sua família no Genocídio Arménio, perpetrado pelo Governo Otomano (hoje Turquia) em 1915. 

Esse genocídio, que os armênios chamam de Mets Yeghem, ou Grande Crime, é pouco discutido e conhecido, e até hoje ainda não foi reconhecido pelo Governo Turco. Este silêncio sobre ele, segundo historiadores, serviria de inspiração e incentivo para aquele genocídio que outro povo sofreu no século XX, chamando-o de Shoah, a Catástrofe. O armênios também usam a palavra Aghet, catástrofe, para o extermínio de seu povo nas mãos do governo dos Jovens Turcos, liderado por Talaat Pasha (1874–1921).

Nas palavras de Zeytounlian, "a violência como estratégia política e o cínico processo de construção de uma subjetividade em uma cidade que se destroi (SP)" estão ainda entre seus interesses como poeta.

O protesto político é um terreno escorregadio para a poesia. Mas acredito que os poemas de William Zeytounlian fincam seus pés, nos melhores momentos, em uma clara preocupação melopaica e no que me parece uma leitura atenta do trabalho de Maiakóvski (via Schnaiderman/Campos), como se pode notar especialmente em um texto como "A morte de um homem livre". Sua lírica concisa em alguns dos outros poemas, se ligada à prática objetivista na cidade de São Paulo dos últimos anos do século passado e início deste, diferencia-se mais uma vez por um claro talento e preocupação com a sonoridade. Há experimentação de linguagem ainda em textos plurilíngues, como o interessante "Shibolet II".

Seu trabalho foi incluído na antologia de poesia contemporânea É Que Os Hussardos Chegam Hoje (São Paulo: Editora Patuá, 2014). William Zeytounlian é, além de poeta, um dos principais esgrimistas brasileiros. Vive entre São Paulo e Paris, e escreve sobre literatura no espaço I Beg Your Pardon, no qual também publica poemas e traduções. Pretendo acompanhar seu trabalho com atenção.

E conforme vou acompanhando seu trabalho, vou pensando que ainda não posso dizer se, como esgrimista, ele é um poeta, mas ele me parece certamente ser um poeta com talento de esgrimista.



POEMAS DE WILLIAM ZEYTOUNLIAN

divina violência

O CINISMO PEDE AOS DESPOSSUÍDOS QUE ACEITEM O ULTRAJE COMO UM DEVER MORAL. O ÚNICO DEVER MORAL DOS DESPOSSUIDOS É DESTRUIR O CINISMO COM ULTRAJE.

haveria –
ode ou elogio –
senda sutil
ou suportável –
em que eu pudesse
ponderar o indizível,
em que eu pudesse
inscrever o que é
execrado;
                     para que um
                     entendimento
                     transtornado
                     se tornasse,
                     enfim,
                     inteligível?


§

A soma

trás um verso,
estranho léxico
em regresso –

inversa assim
a dúvida que
assoma a dívida
  reincidente,
  antiga,
   rediviva:

o velho dedo
que envereda
na ferida.

§


[Gesto alheio]

Gesto alheio
eco do afeto
há muito
dispensado:

eu te
acreditava
morto.

do rastro
de que lapso
te recuperei?

como no mastro
da mente
icei
o pano do rosto
difuso,
novamente?

Gesto alheio
eco do afeto
há muito
dispensado:

a tudo escapado,
menos ao ato
de um átimo,
ao traço esparso
de um
momento.


§

Armênia

há uma dimensão dupla da história escrita a partir dos depoimentos de um sobrevivente. certamente é um discurso sobre o passado. mas antes de tudo, é um discurso sobre o presente, ou antes, um discurso sobre o projeto que o sobrevivente tem sobre o interlocutor. com um sobrevivente, entramos na vala coletiva do passado com nossas roupagens atuais, como os apóstolos de um quadro renascentista ou dante no inferno.

o alfabeto sobre o escudo
revela a relva, a areia abreviada
nós, devir débil sopro surdo
nós, memória e olvido de uma raça


§

Debater política

NA CRISE, UM ROMPANTE DE LOUCURA É UM DELÍRIO DO REAL.

tudo
melífluo,
incerto,
certos versos
insistiam
em voltar:

vagavam
aqui e acolá
em raros
intervalos –
interstícios
do hospício.

hoje, têm
sentido;
têm abrigo:

loucos
são os
outros.

§

Imperativo categórico

A NÃO-VIOLÊNCIA É UM LUXO DO QUAL NEM TODOS PODEM SE SERVIR.

oráculo manual
um gesto desenha
palavras:

o passado se funde
ao futuro
com um passo –

a verdade de si
tem o vigor das
verdades –

nada mais
senão unir
o ser ao tempo
o dever ao devir.

§

A morte de um homem livre


A ‘L’ MAIÚSCULO QUE DEVEMOS À PALAVRA ‘LIBERDADE’ É TÃO PROVISÓRIO QUANTO NECESSÁRIO

I.

um tempo cego
descortina –
desgarra-se
impassível
à rotina:

um homem livre
está morto
e minha mente vaga
na neblina virgem
do dia.


cedo ou tarde
brotaria a lástima
a contrapelo
de nossos gritos –
a contratempo
de nossos apelos 
a vida lavra
o momento
da palavra:


                       morto.

vã é a luta
(é sabido de tudo):
sobretudo o luto
bebeu e brindou
sua cota de versos.


nova é a batalha
rasgada com a navalha
no horizonte
do hoje;
na aurora da hora
que desatina o
presente
é preciso estar vivo
é preciso ter força
matar o cinismo
jovem
antes que sepulte
a ideia de um homem
junto com seu corpo.

II.

do palácio
um inimigo da liberdade
brinda a coragem
do homem livre;
a palavra ‘humanismo’
ressoa pálida
entre seus lábios.

na catedral fria
o governador
encomenda um réquiem
hipócrita,
reza com ardor
olha ao teto absorto:
agradece a deus
que um homem livre
está morto.

o partido encomendou munição
para homenagear
o homem livre:
a saraivada
será disparada
contra a fila
trêmula
de dissidentes.

um presidente
lamenta
sinceramente
todos riem
todos choram
há palavras
e gestos
o suficiente
para deixar o ar
com náuseas.


mas um homem livre
sabe
que um homem livre
não precisa
de carícias falsas
para dormir tranquilo:
menos ainda
para
MORRER.

III.

gravamos
nossos nomes
nos muros
onde fuzilaram
uma raça
e querem apagar
o único alfabeto
que nos restou –

sentam-se sobre
as dobras
de um milênio
de barbáries
e querem fumar
a memória
da humanidade
em um cachimbo.
o momento é incerto,
                       é obscuro.
mesmo a poesia
queima
na fogueira
do absurdo.
até a crise
está em crise:
a saída
é um tiro surdo,
no escuro.

mas é verdade
que vagamos demais
sobre a vala comum
da humanidade
para esquecermos
por vaidade
e tão cedo.

§

poema shibbolet II (experimentação)

de acordo com a bíblia (juízes 12:1-7), na guerra travada entre os efraimitas e os galaaditas, os efraimitas eram reconhecidos (e consequentemente mortos) por não conseguirem pronunciar a palavra 'shibbolet' (pronunciavam 'sibbolet'). hoje, diz-se que um shibbolet é a palavra de uma língua qualquer cuja pronunciação é impossível para estrangeiros. há muitos casos históricos e fictícios de genocídios baseados na prova do shibbolet: distinguia-se o outsider por uma frase ou palavra e, em seguida, o matava.

o poema abaixo se utilizou de shibbolets em catalão, português, dinamarquês, russo, polonês, castelhano, frísio, finlandês e holandês.


schibbolet II
william zeytounlian

Setze jutges d’un mengen
Fetge d’un penjat
Pão, garbanzo, scheveningen,
En griene tsiis wa’t dat.

Soczewica, net sizze kin
Francisco höyryjyrä
Rødgrød med młyn
Doroga, fløde, brea.

Se a fenda boquiaberta
Abismasse o verbo enfim
Ao intent d’alma inquieta

No words would claim within.
Encore…
dans la rive
        sonnerait
Son
profond
 schibbolet.

§

poema shibbolet


shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
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hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
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hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhibbolet   
§

[Do pacto dos viventes]

Do pacto dos viventes
O ato final seja selado

Que a sela dos carros
De sol nenhum coroado
Hasteie enfim o surdo
E pálido murmúrio
Que treme nervoso e silente
Dentre os gritos vãos
De nossas chagas.

§


Festa monstra
(detalhe epigramático)

asco? nojo?
aqui não!
não hoje!

resistir ao
doce gozo
é coisa pouca,
é coisa vã:

eu adoro
o cheiro
de napalm
de manhã.

§


atraso e eminência

beckett cioran proust certeau rochefoucauld agamben
todas as frases que li nos últimos 10 anos são viscerais
absolutamente vitais. imprescindivelmente exigentes
é preciso que se viva de alguma forma           aquilo
as penas mergulhadas nas trevas do presente
intempestivamente exige-se um sacrifício ou gesto
shakespeare dostoiévski foucault levi baudelaire


                          não sei o que fazer.


§

Sobre a História do silenciado genocídio armênio, assista ao perturbador Aghet - Um Genocídio (2010), de Eric Friedler.



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