sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Presente de esloveno para garganta de poeta

Enquanto me recupero de uma infecção na garganta, que me confinou ao retângulo da cama a semana toda, leio o presente do meu amigo esloveno Dražen Dragojević que, ao me encontrar numa ruela berlinense lendo Paul Zumthor, debruçado sobre um café, disse que eu deveria ler seu conterrâneo Mladen Dolar, que escrevera todo um livro sobre a metafísica da voz, a política da voz, a ética da voz, a voz. Duas semanas depois, ele me presenteava com o dito-cujo.

Entre um gole de chá de camomila, uma canção de Cat Power e páginas de A Voice and Nothing More, de Mladen Dolar, assim como de Nowhow On, de Samuel Beckett, a garganta deste poeta vai deixando de comportar-se como se três anzóis a osculassem a cada gole da própria saliva.


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Aleixo na Modo / Waldrop na Hilda

Poemas novos nas duas revistas que me fazem feliz como editor:

a) três poemas inéditos de Ricardo Aleixo, com pequeno ensaio deste que vos digita, poemas sonoros e em vídeo, na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., revista que tenho o prazer de editar com Angélica Freitas, Fabiano Calixto e Marília Garcia, parte-cerne do meu mãedeuma.

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b) traduções de Rosmarie Waldrop para os nove poemas iniciais de Ulf Stolterfoht em seu livro fachsprachen I - IX, traduzido na íntegra por Waldrop e publicado como Lingos I - IX pela sua Burning Deck Press. Gentilmente cedidas pela poeta alemã/americana, é uma honra ter Rosmarie Waldrop e Ulf Stolterfoht na minha singela HILDA MAGAZINE.

Divirtam-se.

domingo, 19 de outubro de 2008

Jeff ou Chet?

Jonas Lieder e eu temos uma conversa de boteco recorrente, em torno de alguns nomes e nossos ideais de belezura-perfection. Nossas obsessões-mulherosas coincidem, às vezes. Ambos consideramos a senhora Björk Guðmundsdóttir uma das criaturas mais especiais que já pisaram neste pedaço de coisa que chamamos de planeta. Assistimos os vídeos da criatura cantando coisísticas como "Pagan Poetry" e "Jóga" com awe e ave e arre.

Depois, bifurcamos. Ele segue com sua obsessão por Róisín Murphy, eu com minha obsessão por Chan Marshall. Ele não entende muito bem o que eu vejo e ouço em Kate Bush, mas ambos somos devotos de Janine Rostron (Planningtorock).

Ele diz: "olha o machucado desta criatura (Nina Simone) cantando ´I put a spell on you`!", eu retruco: "olha a sangria desta (Billie Holiday) cantando ´Strange fruit`!".

Quanto aos rapazes, ah! os rapazes, discordamos quase sempre. Os dois lêem Frank O´Hara com sorrisos largos nas caras de cavalo, citando versos de "Having a coke with you" e "Meditations in an emergency" para situações várias, mas bêbados em botecos berlinenses, brigando sobre quem é o homem mais lindo do planeta, ele sempre gritando "Jeff Buckley! Jeff Buckley!", e eu indignado exclamando "Chet Baker! Chet Baker!", enquanto ele pede outra cerveja e eu peço outro copo de vinho tinto, "and the warm weather is holding".










sábado, 18 de outubro de 2008

Segunda visita à livraria pela tarde: Marjorie Perloff

Ao chegar à minha querida caverna, leio a mensagem eletrônica da livraria Dussmann, dizendo que minha encomenda do livro 21st Century Modernism: The "New" Poetics, de Marjorie Perloff, havia chegado. Após ler A Singular Modernity: Essay on the Ontology of the Present, de Fredric Jameson, fiquei com vontade de reler alguns dos ensaios de Perloff sobre os relacionamentos conturbados entre os conceitos de vanguarda, modernismo e pós-modernismo. Os únicos críticos que conseguem me entusiasmar, ensinar e divertir mais que Perloff são Walter Benjamin e Hugh Kenner. Bom, é bem verdade que Ezra Pound me diverte mais que todos eles juntos, mas o humor de Pound em seus ensaios é insuperável.

Já disse que o poeta brasileiro que ainda não começou a ler a tradução de Aurora Bernardini para o Wittgenstein´s Ladder, da Perloff, está perdendo uma delícia de trabalho crítico? Está dito agora.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Visita à livraria pela manhã: Unica Zürn

Passagem de manhã pela livraria Schwarze Risse, uma das minhas favoritas em Berlim, onde se encontra muita coisa rara. A livraria assume uma posição claramente politizada e tenta oferecer a "outra face" da literatura alemã. Na semana passada, eu encomendara o primeiro volume das obras reunidas de Unica Zürn (1916 - 1970), uma maravilhosa poeta e artista visual alemã.



O primeiro volume contém seus anagramas impecáveis, com uma potência imagética que lembra certos poemas torturados de Christine Lavant e Ingeborg Bachmann, mas com uma materialidade lingüística potente, fundamentada em sua escrita anagramática. Há algo desta materialidade também em Guérasim Luca.



Um poema com este "grau" de materialidade impede qualquer noção ingênua de tradução. Outro poeta pode apenas entregar-se à tarefa de "fazer o que ela fez".

Unica Zürn nasceu em Berlim, em 1916. Conheceu o (espetacular) Hans Bellmer em 1953, com quem passaria a viver e colaborar, mudando-se para Paris.



A poeta sofreu por anos com ataques implacáveis de depressão.
Passa a visitar um médico ligado aos surrealistas parisienses, o mesmo que cuidara de Antonin Artaud. A poeta é diagnosticada como "esquizofrênica" e passa a ser hospitalizada com freqüência.


(desenho de Unica Zürn)

Unica Zürn encerrou a própria vida em 1970, pulando da janela do apartamento que dividia com Hans Bellmer em Paris, como Ana Cristina César e Ana Mendieta fariam na década seguinte.


(Unica Zürn 1916 - 1970)

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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

4´33" of Eugen´s presence (2006)

Assista em volume alto. Este vídeo pertence à minha série "The Forced Disappearance of Vast Portions of the World through the Selection of Desire"


(Ricardo Domeneck, "4:33 of Eugen´s presence", DV-PAL, 4min 33sec, 2006)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Das heranças das decepções

Seja para sair pela porta da frente ou receber pelo correio o convite para retirar-me, carrego as próprias pernas com os dentes, cão com o rabo entre as costelas, e faço ligação a cobrar para o serviço de atendimento ao perdedor que derrota o derrocado. Minhas mandíbulas desacostumaram-se das mordidas, culpa dos meses em que ladrei apenas com legendas. Existir foi um interurbano dublado. Meu filho, cessar fogo não é anistia universal. Promessa é dúvida? Exijo metade dos pratos, metade da água e da penicilina, metade da cicatriz e do triz por que não me salvei, metade das canções expulsas da república de plantão: a primeira inundação passou e declarei estado de calamidade pública, no deserto pós-coito da segunda instituí estado de sítio, de agora em diante decreto entre os dentes: Medéia pouca é bobagem. Só quem carregou navalhas entre os dedos dos pés, para pisar leve e não despedaçar o peito de plexiglass alheio sob os cascos, sabe o que é um hipopótamo triste. Na vitrola, a morta cantarola "Meu mundo caiu" e digo com toda a honestidade da queda e do mundo: Tomara que caia, Maysa. Sempre confundi massa e peso, vocês sabiam que sou dessas colheres que só dizem sim. Rotação e translação já me cansaram como desculpas para as elipses dos outros, mas perdôo tudo se for bom o vinho tinto. Do primeiro herdei umas canções dos Cocteau Twins, do segundo nada além da escabiose da insônia e o terceiro está me devendo os olhos hipotecados da cara. Minhas exigências eram simples, bastava aceitar a osmose, as estações. Hibernarei mais uma vez até que vossos miocárdios de plástico se biodegradem e fertilizem o rádio-relógio que me despertará. Retornarei, serei uma Medéia-Maysa de marshmellow gigante, e ghostbuster nenhum há-de salvar-vos, desertores dos meus cafunés em guerrilha.

Hoje em SP

Meu "Pequeno estudo sobre os ciúmes" está circulando hoje pelas ruas de São Paulo, nos ônibus, na linha verde do metrô e, segundo o amigo Marcelo Sahea, também nas livrarias Cultura, Nobel e Siciliano. A curadoria foi de Ricardo Silveira. Abaixo, a programação:

Dia 11/10: Chacal
Dia 12/10: Rodrigo Garcia Lopes
Dia 13/10: Ricardo Domeneck
Dia 14/10: Marcelo Montenegro
Dia 15/10: Ricardo Silveira
Dia 16/10: Angélica Freitas
Dia 17/10: Bruna Beber
Dia 18/10: Marcelo Sahea
Dia 19/10: Ana Rüsche
Dia 20/10: Leo Gonçalves

sábado, 11 de outubro de 2008

Alemanha no outono

Acordar cedo, sábado de manhã, enquanto o moço ainda dorme, sentar na sala com uma xícara de café, pensar em poéticas, em políticas, na figura de Ulrike Meinhof, no silêncio ativista de George Oppen. Pensar nos alemães que não aceitaram o naufrágio das utopias como desculpa para estéticas-cosméticas de neo-neo, mantendo-se como alarmes da distopia. Pensar em Joseph Beuys, em Rainer Werner Fassbinder, em Alexander Kluge. Fazer outro café, ver o filme coletivo Deutschland im Herbst (1978), com os diretores Fassbinder, Kluge, Volker Schlöndorff, o poeta-trovador Wolf Biermann, entre outros, tratando do chamado "Outono alemão" de 1977, quando a violência entre o grupo de guerrilha urbana da Facção do Exército Vermelho e o governo alemão chega a seu ápice, o seqüestro do avião da Lufthansa, o misterioso suicídio dos líderes da Facção na prisão.

À noite, no cinema, o último filme dos irmãos Jean-Pierre & Luc Dardenne, Le Silence de Lorna. Bolsas em colapso. Qual palavra, qual ação, George Oppen? Ceder ao discurso pós-utópico e fazer bibelôs poéticos? Produzir "belezuras" para a elite? Ou seguir com o trabalho de resistência à distopia, a outra face da vanguarda?

Querido áporo, contemplamos os insetos enquanto a década instaura-se como reino da aporia. Tristeza do discurso que segue a lógica-em-vácuo da crença de que a ineficácia das soluções até agora apresentadas constitui em si a solução final do problema, ou o carimba como inexistente.

A única resposta aos que abusam das falhas do passado para nublarem com cosmética a est-É-tica é seguir repetindo o nome das vozes dissonantes, a vanguarda como resistência à distopia: Vladimir Maiakóvski, Tristan Tzara, Kurt Schwitters, Lygia Clark, John Cage, Susan Howe, Oswald de Andrade, Joseph Beuys, Paulo Leminski, Louise Bourgeois, Glauber Rocha, Henri Chopin, Jean-Luc Godard, Jean-Marie Straub, Danielle Huillet, Denise Stoklos, etc, etc, etc, até que o último tombe.

Abaixo, Fassbinder discute arte e política (EST-É-TICA) em relação a outro trabalho seu, o épico Berlin Alexanderplatz.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Pequeno estudo sobre os ciúmes

Este é o meu poema que estará circulando pelas TVs de alguns ônibus em São Paulo, como parte do projeto "Poema Passageiro", com curadoria de Ricardo Silveira, da Mostra SESC de Artes 08.


("Pequeno estudo sobre os ciúmes", Ricardo Domeneck, 2007)

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