"With the commons no longer protected for co-operative nurturing and use, the rights of the common people were restricted to what could not be privatised, a category that continues to shrink to virtual invisibility. In Bolivia, the attempt to privatise water was, in the end, beaten back by an uprising that brought the indigenous majority to power for the first time in history. The World Bank has just ruled that the mining multinational Pacific Rim can proceed with a case against El Salvador for trying to preserve lands and communities from highly destructive gold mining. Environmental constraints threaten to deprive the company of future profits, a crime that can be punished under the rules of the investor-rights regime mislabeled as "free trade". And this is only a tiny sample of struggles underway over much of the world, some involving extreme violence, as in the Eastern Congo, where millions have been killed in recent years to ensure an ample supply of minerals for mobile phones and other uses, and of course, for ample profits." ---- do artigo abaixo, publicado hoje no Al Jazeera.
Faço aqui uma pausa nas postagens de poemas, mas não uma pausa nos trabalhos, para chamar a atenção para uma séria infração contra os direitos humanos na Rússia. Há algum tempo, convoquei/implorei aos leitores deste espaço que se juntassem a nós na tentativa de deter um projeto de lei em São Petersburgo, que tornaria ilegal, um crime, a discussão, menção, publicação ou assembleia de qualquer coisa identificada como gay, transgênero ou um desvio da norma politicamente hegemônica dos homens heterossexuais. Apesar dos esforços de ativistas russos e internacionais, o projeto de lei foi aprovado em São Petersburgo. A situação está agora nas mãos de Georgy Poltavchenko, governador de São Petersburgo, quanto à decisão de promulgar ou não a lei.
É essencial que a comunidade internacional faça pressão para que Poltavchenko não assine esta lei, uma infração séria contra os direitos humanos dos cidadãos russos e contra uma parcela gigantesca da população humana. Peço aos leitores deste espaço que assinem a petição contra a lei e postem o vídeo abaixo em suas redes sociais. Homossexual ou não, ajude os cidadãos russos a protegerem sua voz e liberdade de expressão. Sei que estou escrevendo isso em grande parte para brasileiros, cidadãos de um país que é campeão em violência contra mulheres e homossexuais, o Brasil, esta República onde sequer a constituição protege seus cidadãos do sexo feminino e de sexualidades distintas da que está violentamente no poder, a dos homens brancos heterossexuais, mas é justamente isso que faz a luta de nossos irmãos russos também nossa. Assista ao vídeo e, ao final, clique nele para ser direcionado para a página da petição.
Born in flames é um daqueles filmes que nos surpreendem quando imaginamos que saíram dos Estados Unidos. O mais cultuado da diretora Lizzie Borden, o filme se passa em uma América que comemora os 10 anos de uma fictícia revolução socialista, que passa a ser questionada por grupos organizados de mulheres, em especial o Women´s Liberation Army, que inicia uma série de ataques quando uma de suas líderes, Adelaide Norris, é assassinada por agentes do governo e da polícia. É um docudrama dos melhores que já vi, lembrando-me muito do filme Punishment Park, de Peter Watkins. No entanto, enquanto Watkins cria uma América distópica e sob ditadura, Borden imagina a sobrevivência da distopia em meio a um país que acredita ter atingido uma democracia social utópica.
Berlin Fashion Week. Saltos altos picotando o gelo endurecido das neves acumuladas na calçadas sujas de Berlim. Hotéis abarrotados, restaurantes cheios de senhores e senhoras em Dior Gucci Prada, sonhando-se membros do senhorio. Como olhar em seus olhos e emitir a opinião sensata sobre a moda, sobre o design, sobre a publicidade, atividades tão ligadas à maquinaria do status quo? Discorrer sobre elas, de forma crítica, exige imediatamente um posicionamento político. Ou exagero?
Minha relação com estas atividades e as implicações destas, assim como com as pessoas que "mexem com moda", como se diz em São Paulo, ou o design e as criaturas inteligentes da publicidade, dentre as quais conto vários amigos muito próximos, tanto em São Paulo como em Berlim, sempre foi complicada e creio que só possa ser realmente complicada. Especialmente para um poeta? Por que especialmente para um poeta? Aí é que entra a questão velha, velhíssima (será mesmo velha) da participação política do poeta? Ou de qualquer cidadão?
A relação do grupo Noigandres, por exemplo, com a publicidade sempre coçou-me em mil pulgas detrás dos lóbulos e outras extremidades arredondadas, assim como a idéia do poema como "objeto útil"... mas, alguém poderia perguntar-me, qual a diferença então entre o "objeto útil" noigândrico e o seu "make it necessary", sr. Domeneck?
Não creio que seja realmente eficiente (e totalmente honesto) bancar o poeta-juiz que se posiciona acima destas práticas e se crê acima de qualquer suspeita, elegendo modelos (Kate Moss, por exemplo, a exquisite esquisita) como bodes-expiatórios do ssiisstteemmaa. O perigo da resistência que se crê fora do sistema e assim busca sitiar a cidadela é a de acordar entre os colaboracionistas. Sim?
Eu gostaria muito de encontrar uma forma de resistência interna, algo como uma guerrilha, já que estamos dentro do Império e este já venceu. Só nos resta a sabotagem deslumbrada? Sujando as mãos lambuzadas? O poeta como espião ou como agente duplo? Tento buscar a ironia nesta relação, ainda que ela possa facilmente ser vista, por críticos, como a tentativa de "jogar dos dois lados", aproveitar-se das vantagens do Império e da Resistência.
Mas hei-de confessar que a base desta ironia é o conflito pessoal de atração & repulsa pelo ssiisstteemmaa do qual a moda parece ser a capa brilhante, o embrulho melodioso. Ah! Como é tentador fazer odes à BBBeleza!
Busco "expor o imposto" desta relação de atração e repulsa em alguns poemas, como este, que não é um portrait of Miss Moss, devo avisar:
Kate Moss
Pergunto-me se confortável o centro da margem. Irrita-se com freqüência ao descobrir na rua mais familiar e conhecida o prédio novo que sempre estivera ali na desatenção da realidade. Hesito no silêncio do respiro e não respiro. Desejo, processo de aquisição, pequenos jogos de poder, deliciosos e alheios, atentos. Você me leva à mão no fogo de novo e de novo; e o grito substitui a palavra fogo, mas não explica as bolhas ao redor do pus. Epiderme contínua. Se eu sangrasse, o que das regiões do abdômen responderia, não adianta que a mão arrisque-se a cada toque no papel "j´y suis! j´y suis toujours." Contribuição das circunstâncias. Talvez a velocidade ao limite traga a fadiga e anestesia às pernas para a trilha menos consciente. Não vejo você em meio à sintaxe e me pergunto sobre os seus meios de produção, meu querido, digo: estimativa, presença.
(escrito em 2005, publicado originalmente no número de estréia da Modo de Usar & Co. (2007), incluído no livro Sons: Arranjo: Garganta, no prelo)
Iconizo com isso a criatura? Mas, ora, por que deveria estapeá-la em iconoclastia?
Foi numa tentativa de honestidade-em-ato que, no meu ensaio "Ideologia da percepção", publicado na revista Inimigo Rumor em 2006, tentei abordar o problema também com algumas propostas de resistência política através da escrita, sem querer ser taxativo (ainda que possa acabar tendo sido, algo em que meu entusiasmo muitas vezes incorre) e sem querer ser apenas uma das sereias da catástrofe sem saída, sugerindo, entre outras propostas:
"* instaurar uma resistência interna no sistema que parece querer desumanizar-nos, guerrilha cultural de sabotagem de discursos, apropriando-se da própria linguagem econômica, da moda, da ciência, para explorá-las, investigá-las e desarticulá-las por dentro, cautelosos, no entanto, à admoestação proposta por Umberto Eco, em seu Opera Aperta, do perigo de, ao mimetizar na arte as transformações contextuais do mundo, para resistir-lhes, o artista acabe por instituí-las, justificá-las e concretizá-las, tendo que escolher entre este perigo e o que creio ser a ineficiência da resistência externa (com o perigo de também acordar entre os colaboracionistas); propor a possibilidade de, num borrar último das separações entre arte e vida, sublime e grotesco, objetivo e subjetivo, levar o homem a uma nova unidade realmente libertária de inclusão total (ou pelo menos mais eficiente) de diferenças;"
§
Atração e repulsa?
Como, se diante de um vídeo/canção como este, fico sem saber em qual dos dois, Moss ou Gillespie, primeiro introduzir partes de minha anatomia, eriçada em reações e outros anagramas?
Canção do Primal Scream, liderado por Bobby Gillespie, antigo bateirista da banda The Jesus and Mary Chain, autor de alguns dos meus favoritos hinos contra o ssiisstteemmaa nos últimos anos, como o ótimo "Swastika Eyes"... aqui, Bobby Gillespie e Kate Moss "cobrem" a incrível "Some Velvet Morning", de Lee Hazlewood e Nancy Sinatra, sobre a qual quero escrever mais, mais tarde.
§
"Pois há outras formas de resistência além da negação, como propôe Theodor Adorno no ensaio "Lírica e Sociedade", ou Alfredo Bosi no ensaio "Poesia Resistência": nem só o refúgio na Idade de Ouro, nem apenas a invocação da parúsia, mas também a inserção de resistência dentro do próprio sistema. E exilar-se numa linguagem pura, não contaminada pelo mercado, pela nova configuração tecnológica do mundo, tem gerado meros ouvidos moucos por parte do público. Marjorie Perloff expôs da seguinte maneira as opções de resistência:
One may, as do the bulk of 'creative writing' teachers and students in workshops across the country, turn one's back on contemporary technology and write 'personal' poems in which an individual 'I' responds to sunsets and spiders and moths flickering on windowpanes or remembers a magical incident that occurred on a fishing trip with Father. Or one can take on the very public discourses that seem so threatening and explore their poetic potential. (grifo meu)
Precisamos rever nossas estratégias."
"Ideologia da percepção" in Inimigo Rumor n. 17 (SP/RJ: Cosac Naify/7 Letras, 2006)
Amigos perguntam-me às vezes o porquê de minha insistência e quase ferocidade no combate a certos conceitos críticos de alguns poetas contemporâneos, como o de "trans-historicidade poética", por exemplo. Já expus em alguns textos os argumentos para minha divergência e como este conceito me parece equivocado. Isso não explica, é verdade, a minha "insistência", minha "ferocidade", como dizem os amigos. Talvez o fato de morar em um país como a Alemanha, em uma cidade como Berlim, realmente faça com que a mera noção de "trans-historicidade" me gele crânio, costelas e cóccix; me faça ainda mais sensível para as implicações da prática poética engendrada por este conceito, a elefantíase semântica, o retorno a uma poesia decadentista e exotizante disfarçada de experimentalismo, a mitificação do poeta baseada em uma espécie de "hierarquia" espiritual, morbidez e leviandade est(É)ticas que tentam passar por "seriedade no tratamento da língua".
Um poeta que caminha pelas ruas de uma cidade como Berlim tem certa dificuldade em dar-se ao luxo de facilitações críticas como esta. Mas, um poeta no Brasil, em uma cidade como São Paulo, ou como o Rio de Janeiro, pode dar-se a esses luxos? A maneira como os defensores do conceito de "trans-historicidade" tentam usar a falácia de afirmar que poetas com o meu tipo de "constituição", digamos, se interessam mais pela "realidade" que pela "linguagem" torna tudo ainda mais absurdo, pois são justamente dicotomias como estas, separando realidade e linguagem como se ainda estivéssemos no século XIX, que deveriam (creio eu) ser questionadas por poetas hoje.
O poeta usa a linguagem que pertence a toda uma comunidade, em práticas que têm implicações políticas e artísticas ou, no campo em que política e arte se encontram, est(É)ticas. Ludwig Wittgenstein: "Ética e estética são uma só." Não se trata de facilitar o trabalho do poeta, mas de complicá-lo. Trabalho formal já não basta, o poeta é obrigado a pensar em forma, função e contexto. Um poeta com consciência histórica (não apenas de seu passado em tradição ou de seu futuro em parúsia, mas em seu presente) escreve em estado de emergência, sítio, tentando alertar para as calamidades públicas que se acumulam, sem separá-las entre espirituais e físicas. Nossa penúria é completa.
Descobri esta semana o trabalho do cineasta inglês Peter Watkins (n. 1935) e estou estupefato. Seus longas e curtas em estilo docudrama são simplesmente geniais. Assisti ontem à noite o longa Punishment Park (1970), que imagina um governo totalitário nos Estados Unidos de Nixon, e o curta The Forgotten Faces (1960), este último sobre a Revolução Húngara de 1956. Seu trabalho transformou-o em dissidente político na Inglaterra e o diretor vive há anos em exílio "voluntário", na Suécia, Canadá e, hoje em dia, França. Vou caçar esta semana o longa-metragem La Commune (de Paris, 1871) (2000), que tem (!) mais de 5 horas de duração.
Bão balalão, Senhor capitão, Tirai este peso Do meu coração. Não é de tristeza, Não é de aflição É só de esperança, Senhor capitão! A leve esperança, A aérea esperança... Aérea, pois não! - Peso mais pesado Não existe não. Ah, livrai-me dele, Senhor capitão!
(Manuel Bandeira)
Entre terça-feira e a manhã de quarta, passamos horas diante de uma tela de TV, aguardando resultados, experimentando entre amigos este momento muito, muito bonito em que os americanos, ridicularizados e detestados por 8 anos por terem "cometido" George W. Bush, dão este passo corajoso, democrático, correto. Há duas semanas, eu ainda acreditava ser muito difícil ver Barack Obama na presidência dos Estados Unidos, mas quando sua vitória surgiu no horizonte, contemplei com uma alegria imensa a forma como os americanos entregaram-se a um instante de esperança, não ingênua, mas aquela delicadíssima esperança que se equilibra no possível.
Esta semana, o país que foi às urnas foi aquele que podemos e devemos respeitar, o país onde nasceram Henry David Thoreau, Gertrude Stein, Miles Davis, John Cage, Patti Smith, entre tantos outros.
A eleição de Barack Obama mostra que passos coletivos ainda são possíveis, e que talvez possamos salvar este planeta, que segue caminhando para a devastação completa por corporaçoes que poluiriam até nossa saliva, se tivessem acesso a ela.
Acordar cedo, sábado de manhã, enquanto o moço ainda dorme, sentar na sala com uma xícara de café, pensar em poéticas, em políticas, na figura de Ulrike Meinhof, no silêncio ativista de George Oppen. Pensar nos alemães que não aceitaram o naufrágio das utopias como desculpa para estéticas-cosméticas de neo-neo, mantendo-se como alarmes da distopia. Pensar em Joseph Beuys, em Rainer Werner Fassbinder, em Alexander Kluge. Fazer outro café, ver o filme coletivo Deutschland im Herbst (1978), com os diretores Fassbinder, Kluge, Volker Schlöndorff, o poeta-trovador Wolf Biermann, entre outros, tratando do chamado "Outono alemão" de 1977, quando a violência entre o grupo de guerrilha urbana da Facção do Exército Vermelho e o governo alemão chega a seu ápice, o seqüestro do avião da Lufthansa, o misterioso suicídio dos líderes da Facção na prisão.
À noite, no cinema, o último filme dos irmãos Jean-Pierre & Luc Dardenne, Le Silence de Lorna. Bolsas em colapso. Qual palavra, qual ação, George Oppen? Ceder ao discurso pós-utópico e fazer bibelôs poéticos? Produzir "belezuras" para a elite? Ou seguir com o trabalho de resistência à distopia, a outra face da vanguarda?
Querido áporo, contemplamos os insetos enquanto a década instaura-se como reino da aporia. Tristeza do discurso que segue a lógica-em-vácuo da crença de que a ineficácia das soluções até agora apresentadas constitui em si a solução final do problema, ou o carimba como inexistente.
A única resposta aos que abusam das falhas do passado para nublarem com cosmética a est-É-tica é seguir repetindo o nome das vozes dissonantes, a vanguarda como resistência à distopia: Vladimir Maiakóvski, Tristan Tzara, Kurt Schwitters, Lygia Clark, John Cage, Susan Howe, Oswald de Andrade, Joseph Beuys, Paulo Leminski, Louise Bourgeois, Glauber Rocha, Henri Chopin, Jean-Luc Godard, Jean-Marie Straub, Danielle Huillet, Denise Stoklos, etc, etc, etc, até que o último tombe.
Abaixo, Fassbinder discute arte e política (EST-É-TICA) em relação a outro trabalho seu, o épico Berlin Alexanderplatz.
Feriado nacional na Alemanha. Dia da reunificação. Vento gelado, de cortar cada um dos pêlos que guarnece a orla das pálpebras. País unido na superfície fria da terra alemã, onde ninguém cava muito fundo por medo daquilo que pode encontrar, e se o faz, o faz com luvas, fobia alemã das mãos sujas. Com o amigo Jonas Lieder, café-da-manhã em nosso boteco berlinense de escolha, na velha Berlim Oriental em que vivemos. Bonde até a Friedrichstrasse, visita ao Berliner Ensemble para ver a programação, passagem melancólica pela estátua de Brecht. Caminhada ao longo do rio Spree até o Parlamento e o Portão de Brandemburgo, onde uma bandinha alemã qualquer canta em inglês, patrocinada pela Coca-Cola.
Os passantes empanturram-se de cerveja e salsichas. Berlim, Berlim, ângulo privilegiado para a contemplação do campo de batalha ideológico contemporâneo, cidade pós-cratera.
Jonas Lieder e eu decidimos então ir ao cinema, para ver o filme de Uli Edel sobre a Facção do Exército Vermelho, baseado no livro de Stefan Aust, sim, em pleno dia da reunificação contemplar imagens da divisão alemã, num filme em que o melhor, provavelmente, é a interpretação brilhante da atriz Martina Gedeck para a personagem da jornalista e escritora Ulrike Meinhof, que em 1970 participa da fundação do grupo de guerrilha urbana.
Hoje, querida Berlim, quero ouvir as vozes alemãs, mas aquelas que Denise Stoklos no contexto brasileiro chamou um dia de vozes dissonantes, em meio à hipocrisia ao sul do Equador, tristeza de São Paulo, tristeza de Berlim, é como um banho frio amar duas cidades tristes.
(Joseph Beuys)
(Heiner Müller)
(Hannah Höch)
(vídeo para a canção "Geld/Money" do grupo Malaria!)
Die Tödliche Doris - Naturkatastrophenballet (1984)
§- Segue pela rua digital o cortejo de madres superioras, sublimes eternitites sem-telhas, trans-histöricas, que talvez nunca tenham lido Benjamin ou Kenner, pois parecem confundir todo e qualquer estudo da poesia como manifestação histórica (imagino que mesmo de grandes críticos como estes), com leituras limitadas de sociologia determinista. Afinal de contas, qualquer um pode abrir um livro de 40 anos atrás e fingir-se de seu eco, naquela espécie de citação que serve apenas para legitimar, de forma bastante vaga, a própria incompreensão das relações entre história e estética, numa atitude pueril que segue opondo as duas como se fossem irreconciliáveis, gaguejando de emoção ao abrir a obra já arreganhada.
§- Engraçado como se convoca o óbvio ululante para nublar o céu limpo do debate. O que eu me pergunto é: se estes poetas não estão interessados no debate das implicações estÉticas e políticas da obra de arte, por que tentam impedir o debate dos que estão interessados? Suponho que por medo do que estas mesmas implicações fariam à recepção de seus trabalhos. E porque, no Brasil, não se discute poesia, discute-se o cânone. É a velha questão de hegemonia: qual grupo ocupará as poucas vagas dos manuais de História da Literatura, este barco furado. No fim das contas (quem paga?), os trans-históricos defensores do sublime incondicionado preocupam-se com os aspectos mais seculares da História da poesia: ser leitura obrigatória no vestibular de 2147. E esta é a última coisa que eu desejo aos poetas que eu respeito.
§- Quem negaria que a sociologia pode distorcer o debate est(É)tico? Ninguém está interessado na ressurreição do determinismo. É muito fácil angariar "aliados" quando se distorce o debate desde o princípio, manipulando a discussão como se esta se tratasse da guerra santa de poetas puros contra poetas que querem "trair a poesia", cerceando sua liberdade criativa em nome de qualquer ideologia política. Já leram o debate entre Lukács e Bloch em torno da obra dos expressionistas na década de 30? O posicionamento de ambos é político e histórico. Mesmo assim, chegam a vereditos muito distintos. Nada é muito simples no terreno da estÉtica. No entanto, tentar fazer com que se confunda historicidade com sociologia rasa é uma tentativa de desviar o debate de seu eixo de importância.
§- Mas quando foi que História virou sinônimo de sociologia? A sociologia há de fazer sociologia. Deixe que diga e faça. Isto nada tem a ver com obras capitais da EstÉtica do século XX, escritas sem oposições simplistas entre estética e história, como os estudos da obra de Charles Baudelaire feitos por Walter Benjamin, ou qualquer um de seus ensaios; livros como The Mechanic Muse ou The Pound Era, de Hugh Kenner; ou Wittgenstein´s Ladder e Poetry On and Off the Page, de Marjorie Perloff... para ficar com 3 exemplos conhecidíssimos. Além do mais, é uma questão de ênfase, e também de ingenuidade dos que crêem que uma mera discussão formal seria realmente mais completa e atingiria algum tipo de "essência". Mas, a esta altura do campeonato, ainda há quem defenda tais essencialismos? Mesmo Jakobson afirmou que reduzir o estudo da poesia ao mero estudo do que ele chamou de "função poética" seria um equívoco.
§- Criar uma oposição dualista entre história e estética é pueril, a invenção de mais uma dicotomia por poetas que delas dependem para justificarem suas obras feitas de mera Literatice, como se a Literatura fosse um sistema hermeticamente fechado em si.
§- Serei mesmo o único que falha em entender como o pobre do Maiakóvski pode ser invocado a defender como revolucionária uma forma baseada em vegetação metafórica, elefantíase semântica e orientalismo exotizante, do mesmo teor do decadentismo (em minha opinião) do fim do século XIX? Esta dita "influência do Oriente", diga-se de passagem, NADA tem a ver com o movimento EASTWARD de alguém como John Cage. De quem eu não me canso de citar o seguinte trecho do livro Silence:
"Why, if everything is possible, do we concern ourselves with history (in other words with a sense of what is necessary to be done at a particular time?) And I would answer, 'In order to thicken the plot'. In this view, then, all those interpenetrations which seem at first glance to be hellish - history, for instance, if we are speaking of experimental music - are to be espoused. One does not then make just any experiment but does what must be done." John Cage.
§- Isto é sincronia histórica. Sincronia HISTÓRICA. Queridas Madres Superioras, leiam bem, mais uma vez: "Why, if everything is possible, do we concern ourselves with history...?" §- Não para fazer qualquer experimento, para atingir qualquer novidade, mas para fazer o que precisa ser feito. Fazer, não dizer. Há algo de leviano em traduzir "news that stays news" simplesmente como "novidade que permanece novidade", pois perde-se justamente o caráter também histórico do "news" como "notícia". O que não parece importar aos que crêem que a Literatura (não é o momento de discutir a relação entre poesia e literatura, cada trincheira em seu sulco) é um sistema lacrado, auto-suficiente, sem contato com a saúde do ar de seu século. Coisa mofada.
§- Mas estes poetas, que confundem historicidade com aula de sociologia da USP, justificam-se em sua mítica trans-historicidade saqueando ainda autores como Paul Celan, um dos poetas mais intrinsecamente históricos do século XX, e o fazem para sentirem as cócegas perdidas da autoridade do poeta, de forma parecida com que a Geração de 45 saqueava Rilke. Defendem trans-historicidade, mas recorrem ao contexto de TERROR HISTÓRICO de um poeta como Paul Celan, saqueando justamente a aura de terror histórico do Holocausto para se sentirem como autoridades poéticas em seus apartamentos de SP e do RJ, sonhando que algo desta autoridade sobreviva na importação e resgate seus textos do limbo da desimportância. E ainda se surpreendem que haja quem se enoja.
§- Posso recorrer a Auerbach? Eis uma das citações que eu geralmente uso para justificar os meus atos de vilão historicista, investindo com minha mula sincronicamente contextual contra os cowboys-mocinhos que passam zunindo em pégasos incondicionados, babando ambrosia trans-histórica pela boca:
"A realidade, dentro da qual os homens vivem, modifica-se, torna-se mais ampla, mais rica em possibilidades e ilimitada; assim, ela também se modifica, no mesmo sentido, quando se torna objeto da representação."
§- Saudades dos situacionistas. Mas não é este o caso, e o mundo, já dizia aquele judeu homossexual austríaco, é tudo o que é o caso. Pois bem. Algo ligado ao que chamamos de mundo como construção de um discurso, talvez. Ou discurso de uma construção?
§- A possibilidade de um debate seria saudável, seria até bonita. É difícil no Brasil, mas creio que seja difícil em todos os lugares. Hoje, entendo bem o que Carlos Drummond de Andrade estava almejando, de certa forma, ao escrever “Estes poetas são meus. Não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias… É toda a minha vida que joguei.” Cito de memória, memória, a dita-cuja. Arrisca-se tanto quem dedica a própria vida a esta atividade esquisita de « ser, agir, viver como poeta », é normal que se defenda a própria carne com unhas e dentes. Quem há de culpar a mãe-coruja?
§- Encerremos com uma visão um pouco mais complexa da historicidade, que não recorra a dualismos engessados e obsoletos. Que tal Giorgio Agamben? Ele anda na moda entre os poetas com diploma universitário, deve ter uma certa autoridade. Eu também gosto muito do rapaz italiano. Leia bem, madre superiora:
"...the object of history is not diachrony, but the opposition between diachrony and synchrony which characterizes every human society... Every historical event represents a differential margin between diachrony and synchrony, instituting a signifying relation between them."
§- Mas se estes poetas, surgidos em meados da década de 90, precisam fazer de diacronia e sincronia oposições puras, assim como opõem história e estética para servirem de muletas a sua poesia neo-na-verdade-decadentista, sejam muito felizes, é o que desejo. Em breve, nas livrarias, o novo biscoito do forno de uma madre superiora trans-histörica, chamado Besta Difásica. Faz sentido, ó dicotômica senhora. Aposto que sairá por uma ótima editora, apesar de vossa senhoria bancar a vítima, a sofrer nas maos de vilões poeticotidianos. Não se esqueça de fazer uma auto-entrevista por ocasião do lançamento, especialmente para lembrar aos pupilos que vêm pedir a benção que os mocinhos seguem sendo mocinhos e os bandidos seguem sendo bandidos.
§- Apesar do discurso de vitimização de muitos poetas, são publicados por ótimas, excelentes editoras do país, e não parecem ter portas fechadas, até onde sei. Julgo pela minha caixa de correio eletrônico, sempre entupida com convites para eventos muito interessantes no Itaú Cultural, Academia de Cinema, Casa das Rosas (onde fiz minha única leitura no Brasil, e onde fui muito bem recebido e tratado). Em SP, por exemplo, são convidados de honra em palestras, oficinas pagas, leituras, eventos, de várias instituições públicas e privadas, muitas em lugares nobres da capital paulistana, como na Avenida Paulista. Eu vejo o nome dos malvados poetas quotidianos com muito menos freqüência nos convites que se encaixotam pelo espaço virtual.
§- As implicações est(É)ticas do trabalho poético são importantes demais para deixarmos madres superioras, com suas auréolas de Aurélio, nublarem o debate. Porque o resto é picuinha entre poetas ou, como diz Angélica Freitas, briga de macho-alfa em busca da liderança do bando e do direito de comer mais fêmeas.
On Saturday night, June 7th, a group of 7 homosexual women was attacked in Berlin, in the Kreuzberg area. They had just left SO36, (the now legendary gay club founded by Martin Kippenberger and others), when a group of men jumped out of 3 cars and attacked them on Heinrichplatz. The cars had stickers with the logo of the neonazi group known as Grauen Wölfe. One of the girls had to be taken to the hospital due to the bleeding.
There will be a demonstration tonight, beginning at 7pm, walking from Mariannenplatz.
*Demo 9. Juni 2008 Smash Homophobia! Treffpunkt 19:00 Uhr Mariannenplatz