quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Max Martins (1926 - 2009)

Na segunda-feira, publiquei aqui um texto em que discutia a noção de cânone, o papel de antologias em sua formação, e mencionava poetas soterrados-vivos e submersos-em-morte, esquecidos, apesar de apresentarem a mesma qualidade (ou ainda mais) que os celebrados em vida e após a morte.

No final do texto, mencionei o poeta paraense Max Martins, como exemplo de um poeta negligenciado pela crítica, pelas antologias, ainda que apresentasse muitas das características e qualidades de poetas que começaram a ser celebrados (justamente) na última década, como Hilda Hilst (1930 - 2004) e Roberto Piva (n. 1937).

Ao mesmo tempo, trocava mensagens com o poeta Caco Ishak, que vive em Belém do Pará, conversando sobre Max Martins.

Tudo isso um dia antes de Max Martins morrer. O poeta faleceu ontem em Belém do Pará.

Talvez o cânone-necrófilo movimente suas enzimas agora que ele se foi, dessa para algures ou nenhures.


Isto por aquilo


Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O rancor do motor numa garrafa

...........................................Ou isto

(por aquilo
que vibrava
dentro do peito)........o coração na boca
......................atrás do vidro........a cavidade
......................o cavo amor roendo
......................o seu motor-rancor
......................................................– ruídos

(do livro 60/35, Belém, 1985)

Max Martins (1926 - 2009)

§

Max Martins nasceu em Belém do Pará em 1926. A partir de 1934, fez estudos nas áreas de Literatura, Poesia, Artes e Filosofia, nunca abandonando o estatuto de autodidacta. Colaborou na revista literária Encontro, em 1948, e publicou os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte em 1946 e 1951. Lançou o seu primeiro livro, O Estranho, em 1952 (edição do autor). Publicou sempre em edições pouco divulgadas, de curta distribuição. Era director de um núcleo de cursos na área de linguagem verbal, aberto a estudantes de nível médio, universitários e interessados na literatura de um modo geral, conhecido como Casa da Linguagem. O poeta faleceu em Belém do Pará em fevereiro de 2009.

2 comentários:

Rodrigo L. disse...

Conheci a obra de Max Martins há cerca de dois anos e, desde então, só consegui ver um único livro seu - na biblioteca da minha universidade. O descaso com sua poesia é escandaloso. Soube de sua morte através desse post. É aguardar para ver a movimentação dos necrófilos.

Ricardo Domeneck disse...

Rodrigo,

eu creio que li poemas de Max Martins pela primeira vez, se não me engano, em uma antologia portuguesa, na qual o organizador elogiava muito seu trabalho e lamentava a pouca divulgação que este recebia no Brasil.
Mais tarde, passei uns meses em Belém do Pará, onde ele era referência marcante.
Eu imaginei que a abertura a uma maior pluralidade poética, que nos últimos anos levava ao redescobrimento de poetas como Hilda Hilst, Roberto Piva e Orides Fontela, chegaria a Max Martins e o faria mais conhecido no resto do país. Não foi o caso... afinal de contas, Hilst, Piva e Fontela vivem ou viviam no estado de São Paulo. A questão geográfica parece ter sido um fator determinante para que ele não tivesse uma maior divulgação para seus poemas.

Abraço,

Domeneck

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