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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Coração de fã partido com a morte de Trish Keenan esta manhã

Foi anunciada há pouco a morte de Trish Keenan, às nove desta manhã, por complicações de uma pneumonia contra a qual ela lutava já há duas semanas. Algumas fontes têm informado que a pneumonia resultara de uma infecção de gripe suína (H1N1). Keenan foi a letrista e vocalista da banda britânica Broadcast. Seu álbum Tender Buttons, em clara referência a Gertrude Stein (uma das canções do álbum chama-se ainda "Michael A Grammar", brincando com o Arthur A Grammar de Stein) e lançado em 2005, foi um dos trabalhos poético-musicais que mais ouvi nos últimos anos.

Keenan era a letrista e vocalista do grupo, ou seja, sua poeta lírica.

"America´s boy" foi o primeiro poema lírico seu que eu escutei e me apaixonei imediatamente, por sua voz, seu texto, sua música.




America´s boy
Trish Keenan

Quaker toil & Texan oil
Rockets on we're arm in arm
Nasa nude you're manly you

Oi American soldier
America's boy

Gun me down with yankee power
Cock pit tom with army charm
The eagle lands army commands

Oi American soldier
America's boy

Cowboy corn & bugle horn
On son don't post me on
You are dean and me the queen

Oi American soldier
America's boy



Que literatozinho infeliz seria capaz de texto tão conciso, crítico e ao mesmo tempo quase erótico em seu poder de sugestões, unindo símbolos fálicos de poder, militarismo e sexo?

§




Corporeal
Trish Keenan

Under the white chalk
Drawn on the black board
Under the X-ray
I'm just a vertebrate

Do that to me
Do that to my anatomy
Corporeal
Corporeal

We are mankind
We are manikin
With and without mind
With or without Darwin

Classify me
The strings of my autonomy
Corporeal
Corporeal

A thorny red heart
Around a thin arm
Inside a white bone
The love is inborn

Close up to me
Up close to my anatomy
Corporeal
Corporeal


§




Tears in the typing pool
Trish Keenan

Succumb to the line
The finishing time
The long distance runner
Has stopped on the corner
But i won't give up
Although i've stopped too

Before the end of me and you
The patchwork explains
The land is unchanged

Interpret the rooms
My tears in the typing pool
The letters are sighing
The ink is still drying
I told you the truth
And now i sigh too

The page turns on me and you
Across that white plain
The land is unchanged



§




Tender Buttons
Trish Keenan

The coal
The coal light
The callous
The caress

The comb
The calm
The colour
The cortex

The code
The codine
The comma
The context

The collector
The green
The fine
The fall
The financer
The dream
The fen
The fine
The fin
The defend
The fawn
Then do

The coal
The coal light
The colours
The caress

The comb
The calm
The colour
The caress
The cortex

The comb
The codine
The comma
The context

The corpse
The likeness

Die cut
Die cut
Die cut
Die cut
Die cut
Die cut
Die



§


QUERIDOS POETAS, POR FAVOR PAREM DE MORRER.

sábado, 3 de julho de 2010

Morre na São Paulo de pesadelos o poeta Roberto Piva (1937 - 2010)



Após passar esta semana toda escrevendo sobre as mortes de poetas, fiquei muito triste ao ler nos jornais que Roberto Piva falecera esta tarde em São Paulo. Ainda ontem referia-me a ele em um artigo sobre o poeta nigeriano Christopher Okigbo (1932 - 1967), seu contemporâneo-de-inícios, e conterrâneo no território da poesia visionária.

Descobri o trabalho de Roberto Piva no mesmo ano em que descobri o de Hilda Hilst, em 1997, quando ele lançou a coletânea de poemas intitulada Ciclones, e ela lançou o romance Estar sendo. Ter sido, que encerrava com o poema fenomenal "A Mula de Deus". Lembro-me de alguns artigos sobre o poeta paulista que chamavam de transgressor, revolucionário, xamânico. Ele não chegaria a ter o impacto que Hilda Hilst teve sobre minha sensibilidade, mas sua poesia ficaria em meu radar por algum tempo. Só alguns anos mais tarde descobri seus primeiros livros, quando relançaram o volume Paranóia (1963), que tem alguns poemas de grande imaginação e com uma energia que parecia haver se exilado da poesia brasileira. Foi, no entanto, a descoberta de Piazzas (1964) e Abra os olhos e diga Ah! (1976) que me fariam respeitar imensamente a potência imaginativa de Piva. Apenas em Hilda Hilst eu encontrara aquela crueza corporal. Obviamente, a carnalidade sexualizada da poesia de Piva me atraía muitíssimo, parecia-me muito mais potente em sua ferocidade que a maioria dos poetas modernistas, mesmo entre aqueles que eram tecnicamente muito superiores a Piva.

Não há motivos para meias palavras: Piva não foi exatamente um poeta inovador. Não há técnicas novas ou algo nele que já não estivesse na poesia de Murilo Mendes e Jorge de Lima, se ficarmos apenas entre os brasileiros. Mas isso, afinal, não importa muito. Pouquíssimos poetas brasileiros no pós-guerra possuíram imaginação tão fértil. Roberto Piva foi, além disso tudo, um dos mais dignos representantes do revival neo-romântico do pós-guerra, o que gerou, nos Estados Unidos por exemplo, toda a melhor poesia do indispensável movimento Beat (que tampouco fez qualquer coisa que fosse nova), assim como dos poetas da chamada Escola de Nova Iorque - neo-romântica é também a poesia linda de Frank O´Hara, como muitos poemas estimulantes de John Ashbery, Kenneth Koch e James Schuyler. Na América Latina, talvez possamos pensar em Arturo Carrera nestes termos. Se nós tivéssemos lido poetas como Roberto Piva e Hilda Hilst com mais atenção e muito mais cedo, talvez teríamos hoje maior equilíbrio em nossos parâmetros poéticos. Sinceramente, não me importa muito se o poeta está "inovando" ou não quando me vejo diante desta potência imaginativa:

A piedade
Roberto Piva

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos



Em 2008, Fabiano Calixto e eu preparamos uma postagem sobre Piva para a Modo de Usar & Co.. Nela, reproduzimos aquele que é meu poema favorito de Piva, extraído do excelente Piazzas, um dos melhores livros da poesia brasileira na década de 60.


Piazza I
Roberto Piva

.......Uma tarde
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani .... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado ... provado ...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue & os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte


§

É uma perda muito grande. O Brasil torna-se ainda mais pobre hoje, com a morte de Piva. Reproduzo abaixo o pequeno artigo que escrevi sobre ele em 2008.

§

Roberto Piva e a fidelidade a si mesmo

por Ricardo Domeneck

Roberto Piva nasceu na cidade de São Paulo, em 1937. Sua primeira publicação importante deu-se na Antologia dos novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961), e sua estréia em livro ocorreu em 1963, com o livro Paranóia, um livro criado na linhagem visionária de William Blake, ligado aos experimentos em fanopéia dos surrealistas, e no qual Roberto Piva invoca e alinha-se às figuras dos brasileiros Mário de Andrade e Murilo Mendes, proclamando o desregramento dos sentidos e posturas em sua cruzada pessoal pela cidade de São Paulo.

Publicou mais tarde os livros de poemas Piazzas (1964), Abra os olhos e diga ah! (1975), Coxas (1979), 20 poemas com brócoli (1981), Quizumba (1983), Antologia poética (1985) e Ciclones (1997). Com a abertura pluralizante da década de 90 e o arrefecimento da hegemonia construtivista na poética brasileira, ocorre no final da década a valorização da obra de Roberto Piva, assim como a de Hilda Hilst, estabelecendo-os como figuras notáveis e exemplares no início do século XXI, e levando à publicação, por uma grande editora comercial, de suas obras reunidas. Os livros de Roberto Piva foram reunidos em três volumes, publicados pela Editora Globo: Um estrangeiro na legião, Mala na mão & asas pretas e o recém-lançado Estranhos sinais de Saturno.

Ainda que um livro como Paranóia possa ressentir-se de um certo "tardo-surrealismo", os livros publicados por Roberto Piva entre as décadas de 60 e 80 demonstram uma grande liberdade de espírito e fidelidade a suas próprias convicções poéticas em meio ao silêncio crítico retumbante, que imperou sobre seu trabalho por décadas, lançando-o à margem dos debates poéticos do período. A década de 60 presenciou o surgimento de poetas bastante distintos, e que nos 15 últimos anos passaram a comandar a atenção tanto da crítica como dos poetas mais jovens. Entre os poetas mais fortes surgidos na década de 60 e influentes sobre os poetas de hoje, Roberto Piva assume seu papel constante de estranho-no-ninho, sua vocação maior, entre os outros poetas notáveis do período como, por exemplo, Orides Fontela (1940 - 1998), Sebastião Uchoa Leite (1935 - 2003), Torquato Neto (1944 - 1972) e Sebastião Nunes, o outro sobrevivente, assim como Piva, tanto do silêncio da crítica como das agruras políticas do período.

Não há mais motivos para oposições e trincheiras. Tempo para semear e para colher, sim, mas momentos também para o visionário e momentos para o projetista, para o vates e para o faber, instantes em que precisamos de poetas que nos incitem corporalmente ao embate (a lover´s quarrel, nas palavras de Robert Frost) com o mundo, e instantes em que precisamos de poetas que nos afiem o intelecto. A maioria dos bons poetas é capaz de ambos, ao mesmo tempo. No entanto, se há dias em que necessitamos do lirismo contido-condensado de Lorine Niedecker, George Oppen e Augusto de Campos, há outros dias em que apenas o expansionismo mítico de Robert Duncan, Roberto Piva e Hilda Hilst pode servir de fertilizante para os nossos nervos à flor-da-pele. Enquanto, em lugares como São Paulo, alguns grupos de poetas ainda dedicam-se exclusivamente a garantir sua hegemonia no seio da atenção crítica da década, tentando transformar sua poética em sinônimo de contemporâneo, nada melhor que aprender com Roberto Piva sobre a fidelidade às próprias crenças est-É-ticas.

(2008)

§




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quarta-feira, 30 de junho de 2010

COMO MORREM OS POETAS: Segunda parte: "A morte, sempre privada, também pública"

Possível local do fuzilamento de Federico García Lorca


É sempre fácil e tentador circundar de glamour a vida miserável e a morte triste de nossos poetas, especialmente quando se é um jovem poeta a sonhar com o que sonhamos ser uma vida-de-poeta. Naquele poema de Jack Spicer, que, como seu conterrâneo Edgar Allan Poe, bebeu até ser encontrado desacordado numa sarjeta e morreu mais tarde em um hospital público, praticamente indigente, ele fala sobre "The death / That young men hope for."


Thing Language
Jack Spicer

This ocean, humiliating in its disguises
Tougher than anything.
No one listens to poetry. The ocean
Does not mean to be listened to. A drop
Or crash of water. It means
Nothing.
It
Is bread and butter
Pepper and salt. The death
That young men hope for. Aimlessly
It pounds the shore. White and aimless signals. No
One listens to poetry.


Língua Coisa: Este oceano, humilhante em seus disfarces / Resiste a tudo. / Nem um sintoniza na poesia. O oceano / Emite ondas para a sintonia de ninguém. Gota / Ou tromba d´água. Omite / Significados. / É / Manteiga e pão / Pimenta e sal. A morte / Que os jovens almejam. Sem mira / Alveja as margens. Sinais sem mira, alvos. Nem / Um sintoniza na poesia. (tradução de Ricardo Domeneck)

§

Mas Wittgenstein escreveu, em uma de suas proposições que parecem indicar que só chegamos à verdade pela tautologia e então por suas implicações, que a morte não é um evento da vida, que não vivemos para ter a experiência da morte.

Nossa morte, então, pertence aos outros. Talvez a mais íntima de nossas experiências possa tão-somente ser experimentada por outrem. Ou seja, a nós mesmos isso significa que a própria morte pertence a ninguém.

Entre os muitos poemas elegíacos escritos por poetas para poetas, um dos meus favoritos é sem dúvida "In Memory of W. B. Yeats", de W.H. Auden. Imortalidade de poeta será isso?

Now he is scattered among a hundred cities
And wholly given over to unfamiliar affections,
To find his happiness in another kind of wood
And be punished under a foreign code of conscience.
The words of a dead man
Are modified in the guts of the living.


(fragmento de "In Memory of W. B. Yeats", de W.H. Auden)

§

Anjo nenhum desceu à terra para erguer Rilke aos céus. Benjamin morreu na fronteira, o Anjo da História o observou como observou a tudo, de olhos arregalados, assustados. Trasladados foram apenas Enoque e Elias, e há teólogos que afirmam que eles são as duas testemunhas que serão mortas durante o Apocalipse, pois também eles terão que passar pelo vale da sombra da morte. Como diz a canção meio assustadora de PJ Harvey com John Parish, chamada "Taut": "even the Son of God had to die, my darling."



("Taut", de PJ Harvey & John Parish)

§

Toda morte é então privada e pública? Algumas parecem ter se tornado símbolos do século, e talvez seja apenas cruel nossa necessidade de alegorizar estas mortes. Penso, por exemplo, em uma das mais famosas mortes-de-poeta do século XX, a de Federico García Lorca. Aquele que escreveu um dos poemas mais bonitos do século passado para lamentar a morte de alguém, em seu "Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías", com aqueles versos lindos "No te conoce el toro ni la higuera, / ni caballos ni hormigas de tu casa. / No te conoce el niño ni la tarde / porque te has muerto para siempre." Ele próprio, Lorca, mais tarde fonte de inspiração para novos lamentos.

§

Alguém terá sido tentado, ao fim daquele ano, a ver em retrospecto na morte de Manuel Bandeira, no dia 13 de outubro de 1968, um augúrio tristíssimo de que tudo ainda haveria de ficar pior e mais horrendo no país, principalmente com o que seria escrito naquela sexta-feira 13, em dezembro de 1968, não um poema, mas o AI-5? Mas o que pode um poeta contra um governo, quando o poema de Auden a Yeats já nos alertava que:


...poetry makes nothing happen: it survives
In the valley of its making where executives
Would never want to tamper, flows on south
From ranches of isolation and the busy griefs,
Raw towns that we believe and die in...


Será que a única imortalidade ao escrever poemas é a de não ser, quando morto, carta completamente fora do baralho? O poeta morre e torna-se carta na manga dos vivos? Mesmo os que estão ocupados demais, absortos demais na vida?

Momento num Café
Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes da vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.


Talvez possamos apenas nos lembrar de outros versos do poema de Auden a Yeats, que dizem, se poetry makes nothing happen, ao menos "it survives, / A way of happening, a mouth." Isso sempre me intrigou: que Auden dissesse da poesia que ela makes nothing happen, mas que é, ao mesmo tempo, a way of happening.

§

Algumas mortes, no entanto, parecem carregar tanto magnetismo em sua ânsia por narrativa, que é difícil não buscar nelas FIGURAS, mensagens-em-garrafa ao oceano dos tempos para entendermos nosso FIM. Penso então em um poeta desconhecidíssimo no Brasil, o húngaro Miklos Radnóti, que, prisioneiro em um campo de concentração nazista, carregou no bolso de sua camisa os últimos poemas que escreveu, até ser fuzilado por um soldado alemão. Mais tarde, ao exumarem a vala comum, puderam reconhecer o corpo desfigurado de Miklos Radnóti apenas pelos poemas que carregava no bolso da camisa.

Mas esta é uma experiência histórica IRREDUTÍVEL, não pode ser transposta em metáfora ou alegoria de uma outra experiência. A forma como a poesia de autores como Radnóti foi metaforizada e alegorizada, no Brasil por exemplo, não está longe de poder ser vista como o ato de barbárie de que falou Adorno. Refiro-me à alegorização por que a poesia destes autores passa, transformando-se em metáfora de algum sofrimento humano anônimo. A poesia e escrita de Simone Weil, Paul Celan, Edmond Jabès, Rose Ausländer, Dan Pagis, Etty Hillesum ou Primo Levi, entre outros artistas e autores do que passaria a ser estudado como "Literatura do Holocausto", são, como já disse e repito, experiências históricas irredutíveis, indivisas, que não podem ser lidas ou saqueadas como metáforas ou alegorias para a tal de "condição humana". Isso sim poderia ser chamado de ato de barbárie, especialmente se feito por poetas em busca da perdida "aura de autoridade", aquela auréola que Baudelaire perdeu na rua e que, ouso dizer, sem a qual vivemos e morremos melhor.

And so will I wonder...?
Miklos Radnóti (translated by Gina Gönczi)

I lived, but then in living I was feeble in life and
always knew that they would bury me here in the end,
that year piles upon year, clod on clod, stone on stone,
that the body swells and in the cool, maggot-
infested darkness, the naked bone will shiver.
That above, scuttling time is rummaging through my poems
and that I will sink deeper into the ground.
All this I knew. But tell me, the work--did that live on?



Miklos Radnóti (1909 – 1944)

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

COMO MORREM OS POETAS: Primeira parte: "Por que eu tento fazer com sinédoques o que se deveria fazer com metáforas"

Pasolini, o mestre, diante do túmulo de Gramsci


Quando penso em minhas memórias de infância, entre as que têm alguma ligação com a poesia, há uma que se sobressai. É claro que há a lembrança dos primeiros poemas lidos, todos descobertos em manuais escolares de Literatura Brasileira, os antológicos de poetas do século XIX, como Cruz e Sousa ou Alphonsus de Guimaraens, mas principalmente os poetas da primeira metade do século XX, como Augusto dos Anjos e os modernistas Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Murilo Mendes. Mas a memória a que me refiro é outra, algo mais presente e estranho. Eu me lembro por algum motivo esquisito, e esquisito porque eu tinha apenas 10 anos de idade, do anúncio televisivo sobre a morte de Carlos Drummond de Andrade, no dia 17 de agosto de 1987. Eu tenho esta memória-imagem (terei imaginado?) de estar sentado na frente da TV, quando o programa foi interrompido por aquela composição meio assustadora e um tanto ridiculamente frenética do Plantão do Jornal da Globo, que sempre lançava minha mãe em disparada da cozinha ou quarto para a sala, gritando "Ai, meu Deus! Quem morreu?!". Apesar de muito menino, o fato de que ele morrera doze dias após a sua filha, a cronista Maria Julieta Drummond, me deixou muito impressionado. Eu acho que o que me marcou nada tinha a ver com o fato de Drummond ser um poeta... eu tinha apenas dez anos, não me lembro se eu sequer sabia o que era um poeta. O que me impressionou naquele momento foi o fato de que ele morrera doze dias depois da filha, o fato de que ele morrera de tristeza, do que me pareceu de desespero. Creio que minha mãe disse algo assim na sala, algo como "Coitado, morreu de tristeza, de desespero". A ideia de que alguém podia morrer de tristeza (e eu acredito que Drummond morreu realmente de tristeza) me impressionou muito como criança.

Muitos anos depois, escrevendo os poemas do meu primeiro livro, Carta aos anfíbios, publicado em 2005, isto me voltou à mente enquanto escrevia talvez o poema mais seco do livro, o texto que o encerra, chamado "Lembrete". Creio que já o comentei aqui. Em seu artigo sobre o livro, o poeta Pádua Fernandes comentou este poema, num ensaio muito generoso, ainda que cheio de discordâncias, em que, curiosamente, mencionava que os versos sobre Drummond lhe pareciam o único momento em que o poema resvalava no sentimentalismo. Enquanto a morte dos outros poetas era apresentada de forma extremamente seca e crua, a de Drummond, talvez enraizada em minha "emocionalidade de criança", deixava vir pela fresta a comoção (sentimental?).

Lembrete

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
............e escamas.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a secobarbital.

Carlos Drummond de Andrade,
em meio à maior perda na vida,
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
...................................cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.


(Carta aos anfíbios, 2005)


Este poeminha, que acho que passa bem despercebido no livro, tem na verdade uma importância muito grande para mim. Já escrevi aqui sobre o fato de que busquei trabalhar, durante a escrita do livro Carta aos anfíbios, com a noção de figura, que sempre tento explicar, em ensaios ou entrevistas, com esta definição pessoal: figura como conceito da teologia cristã, FIGURA, em que um acontecimento histórico liga-se a outro acontecimento histórico, prefigurando-o, dois fatos distintos e temporalmente segregados prevendo um último acontecimento que revelaria seus significados, ligado à ideia de parúsia. Isso é central para a composição (e compreensão) do meu trabalho, ligado ainda ao meu uso da metonímia, em especial a sinédoque, evitando a metáfora. É muito difícil conversar sobre isso sem cair em auto-exegeses, o que é sempre ridículo. Se comento isso aqui, é no espírito de conversa e debate com meus colegas-poetas e com meus colegas-leitores. Pois isso também explicita as discordâncias que tenho com algumas poéticas contemporâneas, por vezes hipermetafóricas em minha leitura pessoal. Mas isso seria apenas uma birra contra a metáfora? De maneira nenhuma. É simplesmente uma leitura pessoal, fincada em uma poética que não busca abstrair a historicidade do fazer poético, mas a ler, usá-la.

É como se a metáfora, que no mundo arcaico estava baseada fortemente na fé na ligação cósmica entre todas as coisas do Universo, passasse a perder sua eficiência por não encontrar mais nos leitores esta base e crença religiosa e mística. Eu acreditava que, equilibrando a metáfora com a sinédoque ou a metonímia em geral, talvez fosse possível seguir de maneira mais eficiente com o trabalho contemporâneo, já que muitas poéticas do passado buscaram este equilíbrio. Há ainda aí a crença de que as manifestações divinas estão às claras no mundo, nos próprios acontecimentos históricos, como o Velho Testamento prefigura o Novo. Se para isso eu tinha que recorrer mesmo à tautologia, buscando uma poética de implicações, que assim fosse.

É difícil falar sobre isso sem se tornar um candidato sério, aos olhos de muitos aqui, ao ingresso em um manicômio, mas durante a escrita do Carta aos anfíbios eu acreditava que era possível, se estivéssemos atentos para o ranger da roldanas da História, eu acreditava que era possível ouvir a Máquina do Mundo. Que talvez fosse possível, com esta música quase inaudível sob os barulhos do século, barulhos que eram ao mesmo tempo a própria música que escondiam, que fosse possível até mesmo prever o futuro. Eu acredito até hoje que é isso o que Orides Fontela chamava de "a lucidez que alucina", ou o que ela descreveu tão maravilhosamente bem nos versos:

A um passo
do pássaro
res
piro.


É por isso que durante aqueles anos eu evitava quase por completo o uso de neologismos ou palavras-valise, e preferia usar palavras "pobres", fossem concretas ou abstratas aos olhos dos cabralinos-noigandristas (esta separação ainda me espanta), concentrando-me na sintaxe, "relação entre as coisas", mais que em sua suposta "concretude" ou "objetividade". Pois essa noção de objetividade, em minha opinião, era de qualquer maneira minada pela relação entre estas tais objetividades, no contexto. Não estou dizendo nada de novo: isso é Wittgenstein da juba às patas, quando ele afirma, por exemplo, que "o significado de uma palavra é seu uso na língua". Eu acreditava que as manifestações e possíveis revelações estavam aos olhos de todos, não era necessário buscar "o indizível". Essa história de poeta "que busca dizer o indizível" sempre me cheirou a charlatanismo.

Talvez seja loucura maior o que eu buscava, já que eu acreditava, naquela época, que uma rima não era apenas uma ferramenta de embelezamento do poema. Eu acreditava que rimas flagravam as ligações cósmicas entre as coisas. Eu acreditava que a língua escondia, em suas malhas, revelações que não precisavam sequer das metáforas. Elas estavam já nas rimas que a língua nos provê, assim como a sintaxe era nosso momento humano de construção da realidade. Para mim era algo assustador poder rimar Celan com Sena, João Cabral de Melo Neto com cego, ecoar com assonâncias e aliterações em "à beira da indigência" o nome de Orides Fontela, ou, com "pau e pedra", o nome de Pier Paolo Pasolini.

Voltando ao poema, é acima de tudo um lembrete a mim mesmo, algo que diz:

Se estes, que eram infinitamente melhores que você, morreram como morreram, você espera fim melhor por quê?

Trata-se de uma vigilância como, por exemplo, a que Miguel de Unamuno preconizava em seu Do Sentimento Trágico da Vida (1933), um dos livros que, ao lado talvez das Investigações Filosóficas (1951) de Wittgenstein, mais marcaram minha vida (recomendo muito a vocês a leitura dos dois), lembrando-nos que somos o pó do pó do pó do pó do pó.


(continua)

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Morre, aos 79 anos, o poeta italiano Edoardo Sanguineti

Mesmo que o título desta postagem imite o estilo das manchetes de jornais brasileiros, o que se segue não é exatamente um artigo sobre Sanguineti e sua morte. Trata-se mais do relatório de uma surpresa. Estava em correspondência eletrônica com o tradutor Maurício Santana Dias, conversando sobre sua futura postagem para o ciclo crítico sobre Guido Cavalcanti na Modo de Usar & Co., quando ele me informou sobre a morte do poeta genovês. O baiano Maurício Santana Dias, nascido em Salvador e residente em São Paulo, onde leciona Literatura Italiana na USP, é hoje, ao lado de Geraldo Holanda Cavalcanti, um dos tradutores brasileiros mais atentos e produtivos no trabalho de manter-nos informados sobre o que ocorreu na poesia italiana do século XX. No ano passado, publicou-se no Brasil sua tradução para o importantíssimo Lavorare Stanca (1936), de Cesare Pavese (1908 - 1950), com o título Trabalhar Cansa (São Paulo: Cosac Naify, 2009), que eu desejo de todo o coração que venha a ter no país a mesma influência que as traduções de Creeley e Celan tiveram na década de 90. A notícia da morte de Edoardo Sanguineti trouxe-me a constatação de como eu conhecia pouco de seu trabalho e da poesia italiana do pós-guerra.

§

Poema de Edoardo Sanguineti (1930 - 2010),
do livro Reisebilder (1971),
em tradução de Maurício Santana Dias:


à funcionária da aduana em minissaia, que me escolheu com seus
[olhos de sibila
e de pomba, de dentro de uma fila interminável de viajantes em
[trânsito, eu disse
toda a verdade, confinado num
séparé-confessionário de madeira
compensada:
.................disse que tenho um filho que estuda russo e alemão;
que
Bonjour les amis, curso de língua francesa em 4 volumes, era
para minha mulher;
.................e estava pronto a dizer mais: sabia que foi
[Rosa Luxemburgo
quem lançou a palavra de ordem "socialismo ou barbárie"; e podia
fazer disso um madrigal estrepitoso:
........................mas suava, vasculhando os bolsos,
buscando em vão a conta do Operncafé; e então você irrompeu
arrastando atrás de si até os meninos, maravilhosos e maravilhados:
(a expulsávamos com os mesmos gestos duros, eu e minha beatriz
democrática de farda):
.................mas para mim o irreparável já se tinha consumado,
ali, na fronteira entre as duas Berlins: quarentão aos pés da guarda.


§


Com a exceção da poesia de Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975), que li sempre com muita paixão e interesse, conheço apenas poemas esparsos de Edoardo Sanguineti e de alguns de seus companheiros do chamado Gruppo 63, como Nanni Balestrini, Amelia Rosselli, Elio Pagliarani e Antonio Porta.

§


Poema, no original italiano, de Amelia Rosselli (1930 – 1996),
do livro Variazioni belliche (1964):

Tutto il mondo è vedovo se è vero che tu cammini ancora
tutto il mondo è vedovo se è vero! Tutto il mondo
è vero se è vero che tua cammini ancora, tutto il
mondo è vedovo se tu non muori! Tutto il mondo
è mio se è vero che tu non sei vivo ma solo
una lanterna per i miei occhi obliqui. Cieca rimasi
dalla tua nascita e l'importanza del nuovo giorno
non è che notte per la tua distanza. Cieca sono
chè tu cammini ancora! cieca sono che tu cammini
e il mondo è vedovo e il mondo è cieco se tu cammini
ancora aggrappato ai miei occhi celestiali.



§


O que me surpreendeu também é que não houvesse me ocorrido, até então, pesquisar a chamada Neovanguardia italiana para o nosso debate sobre as retomadas das estratégias das vanguardas do início do século XX, assim como o trabalho do Gruppo 63 parece ser um campo frutífero para a meditação sobre a conjunção entre ética e estética, e as implicações políticas do trabalho poético.

§

Poema, no original italiano, de Nanni Balestrini (n. 1935),
do livro Il pubblico del labirinto (1992)


PROLOGO EPICO

Eccomi qua ancora una volta
seduto di fronte al pubblico della poesia
che seduto di fronte a me benevolmente
mi guarda e si aspetta la poesia
come sempre io non ho niente da dirgli
come sempre il pubblico della poesia lo sa benissimo
certamente non si aspetta da me un poema epico
visto anche che non ha fatto niente per ispirarmelo
l’antico poeta epico infatti come tutti sappiamo
non era il responsabile della sua poesia
il suo pubblico ne era il vero responsabile
perché aveva un rapporto diretto
con il suo poeta
che dipendeva dal suo pubblico
per la sua ispirazione
e per la sua remunerazione

la sua poesia si sviluppava dunque
secondo le intenzioni del suo pubblico
il poeta non era che l’interprete individuale
di una voce collettiva che narrava e giudicava

questo non è certamente il nostro caso
non è per questo che siete qui oggi in questa sala
purtroppo quello che state ascoltando non è
il vostro poeta epico

e questo perché da tanti secoli
come tutti sappiamo
la scrittura prima
e successivamente la stampa
hanno separato con un muro di carta e di piombo
il produttore e
il consumatore della poesia scritta
che si trovano così irrimediabilmente separati
e perciò oggi il poeta moderno
non ha più un suo pubblico da cui dipendere
da cui essere ispirato e remunerato
solo pubblici anonimi e occasionali
come voi qui ora di fronte a me
non più una voce collettiva
che attraverso la sua voce individuale
racconta e giudica

il suo rapporto col pubblico ha perso ogni valore dicono
non gli rimane che concentrare il suo interesse
sui problemi dell’individuo singolo
sui suoi comportamenti particolari

il poeta moderno è autosufficiente
praticamente mai remunerato
non pronuncia alcun giudizio
ciò che conta per lui ci dicono

è soltanto il suo
immaginario
le sue ossessioni consce
e inconsce
perché per lui non esiste ci dicono
che l’individuo come singolo
irriducibilmente diverso
e separato dagli altri
e così il poeta moderno
solo
o anche davanti al pubblico della poesia
dialoga individualmente con la sua poesia
la immagina naturalmente come un’affascinante signorina
e vorrebbe che anche voi la immaginaste così
che si trova in questo momento qui di fianco a lui
cioè a me e cioè dunque lì di fronte a voi.



§


Meu trabalho de pesquisa sobre as estratégias ético-estéticas do pós-guerra concentrou-se nos grupos do pós-guerra imediato, como o Grupo de Viena, os Lettristes de Paris, o Dau al Set de Barcelona, o Noigandres de São Paulo, a Escola de Nova Iorque, ativos entre o fim dos anos 40 e o início dos anos 60, quando começa o trabalho de alguns dos poetas incluídos na antologia I Novissimi (1961), talvez uma das antologias mais famosas do mundo, ao lado da New American Poetry (1960), editada por Don Allen.

§

Poema, no original italiano, de Antonio Porta (1935 - 1989),
do livro Passi passaggi (1980):


Amleto, 3

che cosa significa dunque che il linguaggio tende
ad agghindarsi
che lo scrivente stia in calzamaglia a controllare
un’erezione che non c’è che non ci sarà

la madre vuole essere penetrata e apre, ecco
sul pavimento la sua vulva fiorita
lei ha preparato il momento e tu richiudilo
Ofelia nel pelo della tua mente seppellendoci
il padre sotto il pavimento

e a me stesso, infine:
se hai coraggio l’insemini, fra nove mesi
in questa stessa ora potrai riconoscere, allora
sì fingere sul serio di essere vivo
se un non-nato può nascere.
Nessuno può raggiungere Ofelia
(ancora non mi chiamo: Nessuno)
chi le toglie l’ingombrante verginità la rende
uguale alla madre
il ciclo della riproduzione riprende il suo corso
la specie è salva.



§

Estudei italiano por seis meses, para poder ao menos ler os poemas de Cesare Pavese e Pier Paolo Pasolini no original. Meu conhecimento da língua é mais que sofrível, mas é a única maneira de ter contacto com a poesia do país, já que as editoras no Brasil decidiram matar-nos de subnutrição.



§

Poema, no original italiano, de Elio Pagliarani (n. 1927)
do livro La Ballata di Rudi (1995)

A spiaggia non ci sono colori


A spiaggia non ci sono colori
................................la luce quando è intensa uguaglia
la sua assenza
................perciò ogni presenza è smemorata e senza trauma
acquista solitudine
.............................Le parole hanno la sorte dei colori
disteso
sulla sabbia parla un altro
.................................sulla sabbia supino con le mani
dietro la testa le parole vanno in alto
............................... chi le insegue più
bocconi con le mani sotto il mento
..............................le parole scendono rare
chi le collega più
................... sembra meglio ascoltare
in due
............. il tuo corpo e tu
............................... ma il suono senza intervento è magma è mare
non ha senso ascoltare
...................Il mare è discreto il sole
non fa rumore
..............................il mondo orizzontale
..................è senza qualità
.................................. La sostanza
è sostanza indifferente
..............precede
................................. la qualità disuguaglianza.



§


Encerro esta postagem com a reprodução de um artigo de Alfonso Berardinelli, publicado por ocasião da morte de Edoardo Sanguineti.



"Così Sanguineti cambiò il clima della poesia"

Alfonso Berardinelli ricorda il poeta scomparso oggi a 79 anni

Bisogna ammettere che il suo arrivo sulla scena letteraria italiana ha cambiato il clima, tra la fine degli anni Cinquanta e gli anni Sessanta. Sembrava che sapesse tutto, che avesse letto tutto, che fosse in grado di avere l’idea giusta – la sua – su tutto. Ideologo e poeta marxista, come del resto Pier Paolo Pasolini. Ma più marxista di Pasolini, e in più sembrava ‘senza cuore’, un distruttore della continuità letteraria e della tradizione. Le sue poesie erano come schegge aliene, meteoritiche. Sembravano scritte per non essere capite o per essere studiate. Spaventava la sua capacità di mescolare e combinare le parole in una forma mai vista. Era l’avanguardia in laboratorio. Ma in lui c’era anche l’accademico, il lettore interprete di Dante, l’erudito e soprattutto il dialettico, capace di dimostrare che era vera anche una cosa, se non falsa, comunque quasi insostenibile.

E sembrava anche che Sanguineti avesse in mano la formula per risolvere una volta per tutte il problema del rapporto giusto fra marxismo rivoluzionario e avanguardie irrazionaliste, fra materialismo dialettico e psicanalisi. Il suo momento sono stati gli anni Sessanta, quando i suoi competitori e avversari, dotati degli stessi strumenti ma con animo diverso, erano gli altri due poeti ideologi: Pasolini, appunto, e Franco Fortini, a loro volta in polemica ma con un maggiore rispetto reciproco. Sanguineti invece ha sempre voluto essere e restare solo con la sua idea dell’avanguardia come unico tipo di letteratura novecentesca che avesse prodotto qualcosa di buono.

Come critico ai suoi esordi sembrò un grande, imbattibile critico. Una delle punte della neoavanguardia italiana, con caratteristiche analoghe, come tipo di intellettuale, ad Arbasino e a Eco, straordinari divoratori di cultura. I loro articoli, i loro libri, rispetto a quelli dei letterati precedenti, sembravano usciti direttamente da un seminario universitario, da esplorazioni sconfinate di tutto il sapere e dell’attualità contemporanea. Critico apprezzatissimo, dunque. Ma anche, cosa che lo ha danneggiato, prigioniero delle sue formule dialettiche alle quali è rimasto sempre molto affezionato. E se in lui una revisione dei presupposti marxisti e avanguardisti avrebbe potuto esserci, con il passare degli anni, quella è un’operazione che non ha voluto fare. Ha mantenuto una quasi incredibile, avara coerenza, che in un certo senso lo ha fatto rimanere (come forse lui voleva, perché si sentiva uomo d’avanguardia) per sempre giovane.

Non è mai cambiato. In ogni dibattito, anche fino a poco tempo fa, era difficile sentirgli dire qualcosa di diverso da quello che aveva detto nel corso dei decenni precedenti. Questo da un lato ha ipnotizzato certe ondate generazionali di seguaci assoluti, dall’altro lo ha molto isolato, perché nel frattempo sono cambiati tutti i fondamenti del ragionamento sulla letteratura. Credo che negli ultimi anni si sentisse piuttosto fuori. Con soddisfazione, probabilmente, perché era bravissimo a giustificare con le sue categorie di letterato rivoluzionario qualsiasi cosa gli capitasse o capitasse nel mondo”. (testo raccolto dalla redazione)


di Alfonso Berardinelli - © - FOGLIO QUOTIDIANO

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Max Martins (1926 - 2009)

Na segunda-feira, publiquei aqui um texto em que discutia a noção de cânone, o papel de antologias em sua formação, e mencionava poetas soterrados-vivos e submersos-em-morte, esquecidos, apesar de apresentarem a mesma qualidade (ou ainda mais) que os celebrados em vida e após a morte.

No final do texto, mencionei o poeta paraense Max Martins, como exemplo de um poeta negligenciado pela crítica, pelas antologias, ainda que apresentasse muitas das características e qualidades de poetas que começaram a ser celebrados (justamente) na última década, como Hilda Hilst (1930 - 2004) e Roberto Piva (n. 1937).

Ao mesmo tempo, trocava mensagens com o poeta Caco Ishak, que vive em Belém do Pará, conversando sobre Max Martins.

Tudo isso um dia antes de Max Martins morrer. O poeta faleceu ontem em Belém do Pará.

Talvez o cânone-necrófilo movimente suas enzimas agora que ele se foi, dessa para algures ou nenhures.


Isto por aquilo


Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O rancor do motor numa garrafa

...........................................Ou isto

(por aquilo
que vibrava
dentro do peito)........o coração na boca
......................atrás do vidro........a cavidade
......................o cavo amor roendo
......................o seu motor-rancor
......................................................– ruídos

(do livro 60/35, Belém, 1985)

Max Martins (1926 - 2009)

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Max Martins nasceu em Belém do Pará em 1926. A partir de 1934, fez estudos nas áreas de Literatura, Poesia, Artes e Filosofia, nunca abandonando o estatuto de autodidacta. Colaborou na revista literária Encontro, em 1948, e publicou os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte em 1946 e 1951. Lançou o seu primeiro livro, O Estranho, em 1952 (edição do autor). Publicou sempre em edições pouco divulgadas, de curta distribuição. Era director de um núcleo de cursos na área de linguagem verbal, aberto a estudantes de nível médio, universitários e interessados na literatura de um modo geral, conhecido como Casa da Linguagem. O poeta faleceu em Belém do Pará em fevereiro de 2009.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Inger Christensen (1935 - 2009)

Este ano teve como um de seus marcos de início, a morte de um poeta. Assim como 2008 ficou marcado para mim com a perda de Henri Chopin logo a 3 de janeiro, este ano apressa-se em diminuir nosso número logo a de 2 de janeiro, com a morte da poeta dinamarquesa Inger Christensen.

Descobri o trabalho de Christensen apenas no ano passado, quando ela fez sua leitura na noite de abertura do Festival de Poesia de Berlim, a mesma noite em que Arnaldo Antunes fez a performance de encerramento. (Alguns dias depois, Angélica Freitas e eu leríamos com outros poetas lusófonos e germânicos). A leitura de Christensen foi tratada com reverência e só mais tarde percebi que se tratava de uma das mais respeitadas poetas européias do pós-guerra. Quando o diretor do festival apresentou-a, vi apenas uma naniquinha de velhice compacta erguer-se da cadeira e cambalear com seu vestido impecável e bolsa até o palco.

O trabalho mais conhecido de Inger Christensen é o poema-em-série/livro Alfabeto, de 1981, em que a poeta usa as letras do alfabeto, de A a N, e a chamada seqüência de Fibonacci para conduzir um dos mais belos poemas que li nos últimos tempos. Esta prática a encaixava na gaveta da "poesia experimental", ainda que as constrições formais de Christensen funcionem de forma bastante diferente do que vemos nos poetas dos grupos OuLiPo e L=A=N=G=U=A=G=E. Vale dizer que seu último trabalho importante foi um ciclo de sonetos.

Tenho pensado em como o Brasil está atrasado e faminto em termos de poetas traduzidos. Não me refiro sequer aos poetas mais obscuros, como Pierre Albert-Birot, Umberto Saba ou Jack Spicer. O país passa ao largo até mesmo do que no mundo poderia ser chamado de "estrelato da poesia", com aqueles nomes mais famosos. Mesmo poetas como Czeslaw Milosz, Derek Walcott e Joseph Brodsky, que foram "estrelas" da poesia do pós-guerra, não têm volumes de poemas traduzidos no Brasil. Hoje em dia, penso em poetas como o estadunidense John Ashbery, o russo Yevgeny Yevtushenko ou o esloveno Tomaž Šalamun, também pouquíssimo divulgados no Brasil.

Busquei algo de Inger Christensen em português, para poder postar aqui e na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. Nada encontrei. Não em português, pelo menos até agora.

O poema-em-série "Alfabeto", em dinamarquês, começa assim: "1. abrikostræerne findes, abrikostræerne findes / 2. bregnerne findes; og brombær, brombær / og brom findes; og brinten, brinten". Vai aqui o início do poema em inglês:

Alphabet

1

apricot trees exist, apricot trees exist



2

bracken exists; and blackberries, blackberries;
bromine exists; and hydrogen, hydrogen



3

cicadas exist; chicory, chromium,
citrus trees; cicadas exist;
cicadas, cedars, cypresses, the cerebellum



4

doves exist, dreamers, and dolls;
killers exist, and doves, and doves;
haze, dioxin, and days; days
exist, days and death; and poems
exist; poems, days, death



5

early fall exists; aftertaste, afterthought;
seclusion and angels exist;
widows and elk exist; every
detail exists; memory, memory's light;
afterglow exists; oaks, elms,
junipers, sameness, loneliness exist;
eider ducks, spiders, and vinegar
exist, and the future, the future



6

fisherbird herons exist, with their grey-blue arching
backs, with their black-feathered crests and their
bright-feathered tails they exist; in colonies
they exist, in the so-called Old World;
fish, too, exist, and ospreys, ptarmigans,
falcons, sweetgrass, and the fleeces of sheep;
fig trees and the products of fission exist;
errors exist, instrumental, systemic,
random; remote control exists, and birds;
and fruit trees exist, fruittherein the orchard where
apricot trees exist, apricot trees exist
in countries whose warmth will call forth the exact
colour of apricots in the flesh



7

given limits exist, streets, oblivion

and grass and gourds and goats and gorse,
eagerness exists, given limits

branches exist, wind lifting them exists,
and the lone drawing made by the branches

of the tree called an oak tree exists,
of the tree called an ash tree, a birch tree,
a cedar tree, the drawing repeated

in the gravel garden path; weeping
exists as well, fireweed and mugwort,
hostages, greylag geese, greylags and their young;

and guns exist, an enigmatic back yard;
overgrown, sere, gemmed just with red currants,
guns exist; in the midst of the lit-up
chemical ghetto guns exist
with their old-fashioned, peaceable precision

guns and wailing women, full as
greedy owls exist; the scene of the crime exists;
the scene of the crime, drowsy, normal, abstract,
bathed in a whitewashed, godforsaken light,
this poisonous, white, crumbling poem


Alphabet, de Inger Christensen, traduzido para o inglês por Susanna Nied.

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