sábado, 6 de novembro de 2010

Poema inédito recente: "As canções como álibis para meus excessos"

As canções como álibis para meus excessos
Ricardo Domeneck

A culpa não
é minha, querido. O mau
exemplo foi de Maysa,
quase lançando-se, Brasília
azul e tudo, da Rio
-Niterói abaixo. Por isso,
esta minha falta
de pose,
esta minha recusa
a respeitar mãos
únicas, a gravidade.

Tenho meus álibis, moço.
Que esperava, se Ângela
Rô Rô
tampouco me ensinou
a aceitar o horror
do copo só, testa
contra o balcão, prática
da primeira pessoa
do singular.

Que você atire
a primeira
pedra, Dolores
Duran. Curta
é sempre a vida,
quando se habita
a letra
da fossa, ou se fala
com a língua no oco
a língua do sim.

Carpe diem,
diziam os árcades,
hoje nem reconhecíveis
por suas arcadas
dentárias.
Prefiro carpir ou cuspir
meus dentes
a deixar de chocá-los
com os seus.

Moço, quisera fôssemos
como dois corpos
de água,
a que basta
um toque
para que se tornem
o único e o mesmo.
Você gargalha
enquanto pesquiso
em sua glote
o dicionário
do riso
e eu aguardo sua voz
para guardá-la num cofre
forte como uma noz.


Berlim, agosto de 2010.

Dedicado obviamente a ele, O Moço.
(mas também à amiga Adelaide Ivánova,
que é, como eu, experta em excessos)

.
.
.

3 comentários:

vodca barata disse...

Prefiro carpir ou cuspir
meus dentes
a deixar de chocá-los
com os seus.

...

Vinícius Mendes disse...

Olá,
sei que gosta de Dada/dadaismo.

Dá uma olhada neste blog, tem um acervo bacana de trabalhos:
http://fuckyeahmanray.tumblr.com/page/3


Vinicius.

Ricardo Domeneck disse...

Obrigado, Vinícius.

abraço

Ricardo

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