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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Com certeza, alguma manhã

                            "Forse un mattino andando in un'aria di vetro
                                               Eugenio Montale

Moço, me ouça. Houve
aquele italiano que quis
virar-se e de repente ver
surpreso o nada às costas,
eu porém desde que você
fez-se fumaça vejo
constante o nada
diante do meu nariz
e só agora, não repentino,
mas gradual e lento volto
a notar a faca no chão e não
no pão, e o camundongo,
o gato e o cão pelas sarjetas,
e diferencio entre a margarina
e a manteiga, e vejo a diferença
antes ignorada entre a flor
viva no vaso ou seca, e sinto
ainda que insípida o flúor
n'água, e o copo já não tomba
e quebra, e olho à esquerda
e à direita ao cruzar as ruas,
e os meus ouvidos
registram as buzinas,
as conversas dos amigos,
e o prédio adiante
tem sua cor e difere
do prédio vizinho
em cor (e arquitetura!),
e este e aquele menino
percebo com susto
são na verdade indivíduos
também distintos
quando antes eram pedaços
de carne falante, falante,
mas agora, perplexo, até
os ouço, os escuto, os entendo,
memorizo seus nomes,
e árvores, casas e montes
voltam a compor a paisagem
e o ar de vidro da primavera
chega, mesmo depois
que houve você,
Moço. Me ouve?

§

Berlim, 19 de fevereiro de 2015.

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Perspectivismo amoroso


Nesse exato momento
a leoa olha o leão
e vê
O Moço
e uma baleia canta à baleia
e a outra
ouve
O Moço
e no gelo
memoriza o pinguim
de outro pinguim
o timbre
e no gelo
emitem seus sons
e cada um reconhece
O Moço
e o pássaro estufa o peito e abre
em leque a cauda
e a pássara admira e seleciona
para seu ninho
O Moço
como navega o cisne até o outro
e com seu pescoço
forma a metade do coração
e completa
o Moço
o coração com seu pescoço
e no centro da colmeia
tudo zune em plena atividade
e separada
por uma parede de açúcar
das operárias
reina
O Moço
e em vários países do mundo
um padre
fala em línguas
"até que a morte os separe"
e noivo e noiva
entreolham-se
e dizem SIM a
O Moço
como o último dos neandertais
antes de extinguir-se com sua espécie
desejou houvesse um mais
para que crescessem e se multiplicassem
e este seria
O Moço
e por todos os ecossistemas
em todas as espécies
O Moço
bodeja e zinzilula e gorgulha e regouga
e brama e cucula e cuincha e estruge
e eu
aqui
escrevo
então eis que
O Moço
entra no café
com o outro
e
O Moço
olha o outro
e vê
O Moço
e o outro
olha
O Moço
e vê
O Moço
e então
O Moço
me vê
e diz
"Bom dia, Ricardo."

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domingo, 18 de janeiro de 2015

Texto em que a pseudotrobairitz Rocirda de Bebedouro rouba versos da vera Condessa de Diá, pedindo ajuda ainda às colegas Azalais de Porcairagues e Garsenda de Proença


Com Codax cantei, e Dinis,
Moço, em Vigo, e Ipanema,
e por ti murmurei cantigas
no Cais das Colunas, Tejo,
em Itapuã, perante o farol,
como naquela velha manhã
feliz no Lago de Constança
assoviei "Ne me quitte pas"
no breu, o gênero de Brel
imitando a voz de Maysa,
fui a mulher do "Cotidiano"
de Chico, boca de hortelã
e pavor, os dentes caíram,
carteiro parece ter morrido,
não sou feliz nem sou Elis,
não sou aquelas colegas
antigas, o pó das trobairitz
Azalais de Porcairagues
e Garsenda de Proença,
delas nem textos restam,
cadê Tibors de Sarenom
e Alamanda de Castelnou,
que fariam comigo o coro
contr'essa praga d'homens,
que mira só o próprio tórax
e como seu cors s’orguoilla,
Beatriz, a Condessa de Diá,
segue pedindo que o amigo
atente a seu sens e beltatz,
e nunca saberei, nunquinha,
se virás, mieus amics, Moço,
imploro tão-só ao meteoro
que me pulverize, me jogue
no Hades, qualquer inferno
sem as epidemias de Eros
a pipocar minha epiderme
com brotoejas, não beijos,
vergonha dessa monotonia,
cá estou de novo, a chantar
m’er de so qu’ieu non volria.


Rocirda de Bebedouro, 16 de janeiro de 2015.

§



A chantar m'er de co qu'eu no volria
Beatriz de Diá

A chantar m'er de co qu'eu no volria,
Tant me rancur de lui cui sui amia
Car eu l'am mais que nulha ren que sia:
Vas lui no-m val Merces ni Cortezia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens:

Qu'atressi-m sui enganad' e trahia
Com degr' esser, s'eu fos desavinens.
D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa,
Amics, vas vos per nulha captenensa;
Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa,

E platz mi mout que eu d'amar vos vensa;
Lo meus amics, car ètz lo plus valens;
Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa
E si ètz francs vas totas autras gens.
Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha,

Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha;
Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha,
Per nulha ren que-us diga ni acòlha.
E membre vos quals fo-l comensamens
De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha,

Qu'en ma colpa sia-l departimens.
Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina
E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma;
Qu'una non sai, lonhdana ni vezina,
Si vòl amar, vas vos no si' aclina;

Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens
Que ben devètz conòisser la plus fina:
E membre vos de nòstre covinens.
Valer mi deu mos prètz e mos paratges
E ma beutatz, e plus mos fins coratges;

Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges,
Esta chanson, que me sia messatges,
E vòlh saber, lo meus bèls amics gens,
Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges;
No sai si s'es orgòlhs o mals talents.

Mas aitan plus vòlh li digas, messatges
Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.


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sábado, 17 de janeiro de 2015

Em Vigo

Quando, Moço, chegar o dilúvio,
estarei ainda na praia, em Vigo,
certo que logo virás, num surfe
sobre escombros. Só aí soluço,
voltando-me para Codax, e digo:
perdi a conta das ondas, amigo,
mas eis o amado, é sano e vivo.


Ainda em Vigo


Moço, o nível do mar sobe.
Quanto, até que retornes?
Cansei-me dessas contas
aqui, em Vigo, das ondas.
Vem, antes que me afogue.
Eu sei nadar, sim, o fôlego
porém é curto, fumo. Torre
nenhuma será alta. Corre.


Em Vigo, ainda


Moço, quero tão pouco, tudo
e só, quando o oceano suba,
e casas, carros, todos engula,
que os dois façamos, um a um,
o nado de costas e de bruços,
tu no crawl, eu feito um poodle,
aí o de borboleta, natação pura,
e então, sincronizados, juntos
apertemos as narinas, um do
outro, no maior dos mergulhos.


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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Vesgo em Vigo, atendo meu amigo

1

Aqui em Vigo,
eu meço o nível:
chega já o dilúvio.
Aprendamos hinos
como nos códices
de Martim Codax e
do rei-cantor, Dinis.
Afundaremos mais
juntinhos, e felizes.

2

Deixa-os querer ser Pounds,
deixa-os querer ser Virgílios.
Cantarei como Meendinho
o teu mindinho e o teu pau.

Com Codax, aqui, em Vigo,
espero como Dom Dinis
venha o amigo, sano e vivo,
venha o amado, vivo e sano.

Cadê as flores, cadê as flores
do seco pinho?

Cadê as flores, cadê as flores
do seco ramo?

3.

Temo
aqui na ermida
de San Simion
as ondas
enquanto atendo
meu amigo.
Que me
cerquem
em breve
teus braços,
ó Moço,
que também
grandes son!

4.
Não vê o amado
que, de um lado,
secou-se a água,
camará, potável?

Não ouve o amigo
como sobe o nível
dos mares salinos?
És surdo, querido?

Já está quase submersa Vigo.
Serás um dos escafandristas?

Façamos como os pinguins
que memorizam os timbres
dos seus parceiros
e os acham no gelo.

Há-de servir-nos enfim
na secura do deserto.

5.

É-me chegad´um fax
por meu colega Codax,
há voltado meu amigo.

E irey, madr' ao Berlimbo!

É-me chegad´um tuitaço
do meu colega Meendinho,
há voltado meu amado.

E irey, madr' ao Berlimbo!

6.

És um bárbaro não-latino
nesse degelo sem pinguins,
então, repete só, comigo,
e reconhecerei teus timbres:

"Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo?
Ei ai Deus! Se verra cedo?

Ondas do mar levado, se vistes meu amado?
Ei ai Deus! Se verra cedo?

Se vistes meu amigo, o por que eu sospiro?
Ei ai Deus! Se verra cedo?

Se vistes meu amado, o por que ei gran coidado?
Ei ai Deus! Se verra cedo?"




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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Texto em que o poeta deixa de fingir dores que deveras sente e passa a folclorizá-las, em pleno México, no trigésimo aniversário d'O Moço


Moço,
hoje você completa
trinta anos. Tem a idade
de uma guerra
que acaba. Ontem,
em Coyoacán,
na casa de Rivera e Kahlo,
quisera dizer a você,
tal um árabe: Ya'aburnee.
Mas já estou morto
e enterrado.
Encontro-me onde
me perco, nesse bairro
que tem por nome
“lugar de lobos”,
Moço, lobos.
Eis-me no México,
todo barroco,
rememorando destroços.
Pensei no poema
de Mayröcker,
“Wolf wie ein Wolf”,
e também cá estou,
lobo como um lobo,
corcunda em Coyoacán,
“peso peludo suspenso”.
Eros homini lupus est.
Sobre a mesa: Sor Juana,
café e os cigarros.
No peito, o mesmo pigarro,
a mesma noz na garganta.
Há guerras que acabam,
outras que duram tanto,
como aquela de cem anos,
e creio que eu também, fiel
a um código anacrônico
de honra, caí em Agincourt,
numa saraivada de flechas.
Virá um João D´Arc
garantir minha vitória?
Faça o favor, alguém
espanque ou achincalhe
esse cupido puto.
Ele merece há séculos
uma boa surra.
Sor Juana sussurra
“sólo los celos ignoran
fábricas de fingimientos”
Cansei-me de fingir dores,
Moço, sinta-as ou não de feras,
agora quero folclorizá-las.
De poncho, canto
como Los Panchos:
"Lo dudo, lo dudo..."
É mais um exemplo
dos meus excessos,
que tanto o molestam,
quando hoje bastaria
um Feliz Aniversário.
Então, retrato-me
do poema acima
e digo apenas:
Feliz aniversário.
Espero que o outro
o tome hoje
nos braços
com amor redobrado.
Esse mesmo,
que com ele
comparto.

§

Cidade do México, 17 de outubro de 2014.



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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Burocracia no céu ou senso de humor no inferno?





Domeneck & Nikolaus - "Heaven Burocracy" (2014)

maybe heaven burocracy
or sense of humor in hell
that I was meant for you
but you for someone else

maybe the postman mixed
or confused our addresses
in the end we got drafted
to these opposite trenches

maybe this entire time
you were a double agent
or your loyalty wavered
left me on the loser side

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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ó Moço, vem reexistir comigo

Seguir amando você, Moço,
sem receber algo em troca,
quando os amigos ao redor
me chamam de tolo, idiota,
é a minha única resistência
efetiva contra este sistema
capitalista, que agora reina.
De algum ponto da estante,
Rumi sorri, e Simone Weil.


§

Berlim, 2 dias antes de cumprir anos sem ele.
Claramente, o bem deste mal mostra-se incurável.

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sábado, 31 de maio de 2014

Eros IV

Tudo o que sobra
é a trilha sonora.

§

Os outros três, publicados em Ciclo do amante do substituível (2012):




Eros

Optas, amo.
Queima-nos.


::: via tradução por homofonia/homosignia do fragmento 38 de Safo de Lesbos:


ὄπταις ἄμμε
thou burnest us

§

Eros II

meteoro
que chegou
não
como soco
mas beijo
de todos
os cafunés
e não cavou
crateras
mas ferindo
as tais leis
da física
massageou
meu físico
macérrimo
detendo-se
a um
centímetro
da minha
atmosfera
fez de mim
seu satélite


Berlim, tarde amorosa à distância, sem cigarros ou cegueiras, na qual Eros fez do mais verborrágico dos poetas contemporâneos brasileiros um líricozinho lacônico, 07 de junho de 2011. Agora: descer, comprar cigarros e sorvete de chocolate.

§


Eros III

Quiçá Eros
decidira que minha data
de validade
como receptáculo expirara,
ou talvez eu tenha sido
tão-só incubador
de um alienígena,
hospedeiro de um verme
ou varejo de um vírus
que agora segue no atacado
sua existência externa.
Quem sabe eu apenas
viva o momento
do carteiro incompetente
que confunde remetente
por destinatário,
o bilhete de SOS
na garrafa
acaba engolida
por uma orca,
a carta retorna
deslida, selada.
Carmen: L´amour
est un microraptor,
rapta-nos e domestica
antes de servir-nos,
presa e merenda,
para seus filhotes
ávidos, e nada
se compara a
este nutricionista
quando se trata
de excitar anemias.
Pensar nele
é como estar sentado
numa cadeira
sob uma árvore
da mesma espécie
da qual extraiu-se
a sua madeira.
Jatos, aviões
cruzam os céus
deixando como feridas
cortes no azul
que se cicatrizam
por dispersão,
diferente
de nossa pele,
que se encrosta
para cerrar os portos
para o sangue.
Veraneio
no inferno,
bronzeio
o cenho
e estas cãs
que me dás.

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carta aberta à mulher desesperada num poema de Jacques Prévert


Encontre-me
em qualquer esquina
da Rue de Seine
e tomaremos juntos um porre
de uísque tequila champanha
pois eu entendo a necessidade
por trás de sua pergunta
que o francês chamou
de grandiosa e estúpida
diga-me a verdade
diga-me a verdade
eu quero saber tudo
Pierre ou ____________
(insira o nome do macho)
também não me importa
que ele titubeie ou agite
os braços
feito um náufrago um afogado
eu também quis saber tudo
diga-me a verdade
diga-me a verdade
Moço
você quebrou minhas pernas
ponha com a verdade
os ossos no lugar
deixe-me purgar as fraturas
com a veritas
e só depois fazer o mergulho
in vino
não me faça perder tempo
precioso de cicatrização
com mensonges e menções
à bibliografia universal
dos estudos erológicos
sobre o pé na bunda
diga-me a verdade
que é sempre grandiosa
e estúpida
que me importa tua vontade
de partir sumir morrer
eu estou do lado dela
a desesperada a histérica
com sua gana de viver
Moço diga-me a verdade
Moço mas agora é tarde
dois anos tarde demais
para a verdade e os ossos
fora do lugar
veja e ria-se de como ora
caminho torto
pelas ruas da sua cidade
que sequer conta
com uma Rue de Seine
Moço diga-me
Moços digam-nos
então por ora quiçá
qualquer mentira
que nutra
nossa vontade nossa gana
de continuar
às costas às nucas
de um qualquer
Pierre ou Moço
pelas calçadas
da Rua Augusta
da Rue de Seine
da Kastanienalllee
da Madison Avenue
das Ramblas
carregando nos ossos
nossa verdade
que é deveras
grandiosa e estúpida


§


Rue de Seine
Jacques Prévert

Rue de Seine dix heures et demie
le soir
au coin d’une autre rue
un homme titube… un homme jeune
avec un chapeau
un imperméable
une femme le secoue…
elle le secoue
et elle lui parle
et il secoue la tête
son chapeau est tout de travers
et le chapeau de la femme s’apprête à tomber en arrière
ils sont très pâles tous les deux
l’homme certainement a envie de partir…
de disparaître… de mourir…
mais la femme a une furieuse envie de vivre
et sa voix
sa voix qui chuchote
on ne peut pas ne pas l’entendre
c’est une plainte…
un ordre…
un cri…
tellement avide cette voix…
et triste
et vivante…
un nouveau né malade qui grelotte sur une tombe
dans un cimetière l’hiver…
le cri d’un être les doigts pris dans la portière…
une chanson
une phrase
toujours la même
une phrase
répétée…
sans arrêt
sans réponse…
l’homme la regarde ses yeux tournent
il fait des gestes avec les bras
comme un noyé
et la phrase revient
rue de Seine au coin d’une autre rue
la femme continue
sans se lasser…
continue sa question inquiète
plaie impossible à panser
Pierre dis-moi la vérité
Pierre dis-moi la vérité
je veux tout savoir
dis-moi la vérité…
le chapeau de la femme tombe
Pierre je veux tout savoir
dis-moi la vérité…
question stupide et grandiose
Pierre ne sait que répondre
il est perdu
celui qui s’appelle Pierre…
il a un sourire que peut-être il voudrait tendre
et répète
Voyons calme toi tu es folle
mais il ne croit pas si bien dire
mais il ne voit pas
il ne peut pas voir comment
sa bouche d’homme est tordue par son sourire…
il étouffe
le monde se couche sur lui
et l’étouffe
il est prisonnier
coincé par ses promesses…
on lui demande des comptes…
en face de lui…
une machine à compter
une machine à écrire des lettres d’amour
une machine à souffrir
le saisit…
s’accroche à lui…
Pierre dis-moi la vérité


(Paroles. Paris: Gallimard, 1946).

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domingo, 22 de dezembro de 2013

Sítio arqueoerológico

sítio arqueoerológico

                    I don´t like that stranger sneezing over our love
                                               Frank O´Hara

se nos enterrassem juntos e passássemos séculos e milênios
fazendo concha primeiro com a pele então músculos ossos
um do outro mais tarde um grupo tedioso de arqueólogos
nos encontrasse e perturbasse os nossos sonhos de poeira
enamorada quem nos dera querido sejam meros amadores
e confundam nossos ossos na hora das análises e tua tíbia
passasse por minha a minha ulna passaria por tua oxalá
nem encontrem as nossas bigornas martelos e estribos
porque de ouvir bobeiras já nos cansamos ao extremo
fofocas boatos sobre nós bastam os de nosso tempo
mas ao menos percebam ao datar o nosso cálcio
que essa história é mais velha que nossos corpos
e respeitem nossos restos e os de aqueles todos
a quem não foi dada a glória da convivência
seguida pela sorte tamanha da comoriência
e que não ousem engavetar-nos separados
mas nos devolvam por fim ao silêncio
que só nós quebramos em cochichos
que soletram soerguem só o nosso
o nosso próprio tão-só pó


Ricardo Domeneck, 22 de dezembro de 2013.



Texto em que o poeta apaixonado pensa n´O Moço e regride até na linguagem


moço, êêê moço perdidu
nêssi múndu grândi sem portêra

ocê é um pão, diria minha mãi
lá pros idos di 84

quando ocê nasceu má não
na terrinha rôxa de Bebedôro

muitu mênus aqui nu mêiu da famía
penhorada, comu dizia meu pai

i assim minha vó num pôde
fazê pirão de frângu pru resguárdu

da sua mãi, moço, nem interrá
seu cordão umbilical nu meu quintal

pra protegê seu futuro dos roedô
nem pudéru as muié da famía

fazê gemada ou chá di cidrêra
quando ocê tava adoentádu

nem assoprá os raládu dos seus tômbu
i dizê "upa! caiu!" i esticá u bandêidi

amorosamenti, eu oito ânu mais véio
num púdi ouví ocê dizê "pega eu, pega!"

pela primêra vêiz, nem brincá peládu
nu mêiu da rua sem a menó vergonha

na cara, i num púdi fazê seu lânchi
pra hora du recrêiu, moço,

ocê tava na lonjura e num sabia
das minhas vergonha di bíchu-du-mátu,

tímidu di fazê duê, au lôngi,
eu numa cidadizinha ocê n´ôtra

mas c´um oceânu pelu mêiu
i línguas nem mêsmu prima

enquântu crescia suas perna
mais rápidu qui u trôncu

intão num vi ocê adolescênti
desengonçádu di ispinha

só discubri ocê quându já era
essa tôrri pálida di áltu tesão

ocê é u mais grândi di todos
ocê é u mais piqueno di tudo

i óia como ocê cabeu aqui
nu meu bôlsu da calça

fazênu eu andá di banda gastâno
assimetricamênti as havaiana

má depois foi uma lasca di madêra
uma ferpa nas cutícula nus dêdu

i duêu, moço, duêu
pra diacho pra caramba

eu quiria podê iscrevê
um poema procê

má não na língua de Camõis
i sim nu meu idiolêtu d'infânça

chêiu de referêncinhas difícil
pru zóio ateu mas não os seu

dizê assim ao seu pé d´ôvidu
qu´eu tô na caverna, moço

i ocê saberia a qui peleja
i furdúnçu di reis mi refíru

i quando eu lacrimejássi ocê
mi disafogasse du choradô

porque óia só, moço,
cômu mi deu até solúçu

dizênu: "êita! num seja
tão boca-de-Leandro!"

u qui só minha mãi i as irmã
entenderiam si tivêssi têmpu

da labuta pra lê meus poema
i eu intão choramingandim

diria: "juízu, êin, moço!"
i pidiria assim: "sua bença!"

i ocê respondiria "deus,
ti abençôi, meu fio"

i quâno desse paúra du iscúru
i o véiu cagáçu di morrê

eu imploraria que mi fizéssi
um cafuné nu pé

i si fôssi dessa prá pió
ocê mi ressuscitássi

si eu descêssi a Campos Salles
inquanto eu repetia sem pará

cê jura? cê jura
que num mi lárga

nunca nunquinha?


§

Bebedouro, interior de São Paulo, 22 de dezembro de 2013, 
depois de passar uma tarde com minha sobrinha.

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Almoço com O Moço

Almoço
com O Moço,
primeiro encontro
(intencional)
com O Moço
após 2 anos
de danos
e ossos.

Que eu seja,
que seja O Moço,
que tudo seja
carnavalesco,
arlequíneo e garboso:
e ao mesmo tempo
tão simoneweilesco.

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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Quem poderá fazer aquele amor morrer?


Ai,

por favor

quem

por favor

poderá

por favor

fazer

por favor

aquele

por favor amor

morrer

por favor?






Drão
Gilberto Gil

Drão!
O amor da gente
É como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela noite escura...

Drão!
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão!
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão
Drão!
Drão!

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sábado, 17 de agosto de 2013

Da lírica jurisprudente


eu, teu
premorto
nesta sucessão
ilegítima, ó meu
cônjuge meeiro,
prefiro falecimento
à falência
de ser teu supérstite,
dulcíloquo de cujus,
ainda que o espúrio
beneficie-se da partilha
dos nossos bens
por cabeça e estirpe,
já que o Grande Juiz
não nos legou
a comoriência,
vem, sentença
definitiva e doa
a ele, o Moço
que fez de mim o
não-facultativo,
a bem-aventurança
de todas as heranças.


Ricardo Domeneck. Berlim, 17 de agosto de 2013

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sexta-feira, 31 de maio de 2013

"Canto da castanheira em ou sem flor"

As castanheiras em flor na Kastanienallee (Aleia das Castanhas), em Berlim.


Canto da castanheira em ou sem flor

Safo
Diz-me por que me deixou o que outrora fora só meu O Moço.
Safo Safo
Diz-me por que ora a outro dispensa os seus beijos meu Moço.

Não me importam na aleia as castanhas em flor sem sua pança.
Sem o menos casto dos moços é tão-só casmurra essa andança.
Agora se me assemelham simples castigo na aleia as castanhas.
Kastanienallee Kastanienallee sem seu tórax é carga tamanha.

Catulo
Por que me encasulo entre as castanheiras em flor sem O Moço?
Catulo Catulo
Com outro se encastela o que antes à flor de minha pele castanha.

A meus pés às castanhas sem O Moço na aleia é sempre outono.
É sem tom a Kastanienalle e o clima ensimesma sem O Moço.
Que diferença há nessa febre se inverno ou verão sem doutor.
Dão nojo sem castanhas a neve e o sol por entre galhos em flor.

Ovídio
Nenhuma Metamorfose há-de tornar-me o suor suábio d´O Moço.
Ovídio Ovídio
De Amores não há o que outrora fora O Moço e eu eu e O Moço.

Topônimos são todos anônimos se não servem a cantar dele o couro.
As metáforas já não ligam fonemas na Comunhão dos Jovens Touros.
Pai mãe poetas irmãs dai-me no mundo sem fundos o glabro senhor:
Eu sou Ricardo Domeneck o desMoçado entre as castanheiras em flor.

Arnaut
Sem O Moço sou eu para os judeus o zen e o cristão entre os mouros.
Arnaut Arnaut
Que cessem Cruzadas se não cruzo na aleia com o Todo-Glamuroso.

Meus pais Cida e João que me adiantou jogar-me no Mundo pré-Moço.
João e Cida meus pais antes o Nada que esse nadar em oceano desMoço.
Irmãs Elisângela Elaine não se irmana a meu corpo o glabro d´O Moço.
Elaine Elisângela quede o sangue que me aqueça na gleba pós-Moço.

Cavafy
Sem O Moço é além o lá e ali o aí e nenhures de nunca o agora o aqui.
Cavafy Cavafy
DesMoço estraga-me o tomate bigata-me a goiaba azeda-me o caqui.

Doravante
E para sempre
O´Hara Codax
Brecht Dufrêne

E assim
Por diante
Pasolini Hilst
Eliot Lavant

Pelos séculos
Dos séculos
Amém
Que amem

Mas não há pajé
Ou xamã
Que desapodreça
A maçã

Desse almoço
Sem O Moço.


§

31 de maio de 2013. Ricardo Domeneck, Berlimbo de primavera chuvosa, pensando no "Canto da Castanheira" do poeta-pajé Kãñïpaye-ro Araweté, lido na tradução de Eduardo Viveiros de Castro, e retrabalhada e comentada por Antônio Risério.

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Último passo para consumar o exorcismo: publicar este poema, "Texto em que o poeta dispara sua ulterior torrente de elogios, neste que oxalá seja o último poema para O Moço"





Texto em que o poeta dispara sua ulterior torrente de elogios, 
neste que oxalá seja o último poema para O Moço


Cavalinho de desequilíbrio, geringonça desastrada,
espargidor no meu carpete dos cafés sucessivos,
peixe de lago constante, camundongo do mato,
coisa alta, ninfo palidíssimo para novos poetas
decadentes, filhote albino de tigre, loa de sertã,
guia da trilha ao descampado de meu bosque,
enguia-de-muco, alface-de-cão, dente-de-leão,
insistência heróica na busca dos sobreviventes
de mim, aquele que transporta o meu cale-se,
arquivista de minhas enumerações caóticas,
com esta minha cachoeirinha de atributos
ao teu tórax e cóccix, eu juro que juro
que esta é a última vez que te canto.

Ricardo Domeneck, 2012.

terça-feira, 27 de março de 2012

Na mais profunda escuridão, buscamos asilo na luz. Concerto do duo Light Asylum e discotecagem da Planningtorock esta noite, no Berlimbo.

"Expor-se à luz do domínio público, como pessoa, este é o primeiro risco, ousadia.
O segundo é: começamos algo, lançamos nosso fio em meio à malha das relações, sem saber quais suas consequências.
Todos nós fomos ensinados a dizer: `Senhor, perdoai-os, eles não sabem o que fazem´. Isso aplica-se a toda ação,
é um risco, uma ousadia, pois não se pode saber. Hoje, eu acrescentaria para encerrar, que esta ousadia só é possível
por confiança nos seres humanos, algo difícil de formular, mas fundamentalmente uma confiança nos seres humanos,
no humano de cada ser humano. Não é possível de outra forma". ---- Hannah Arendt, em conversa com Günter Gaus.


Organizo hoje em nosso clube um concerto do duo nova-iorquino Light Asylum, com uma discotecagem especial da minha heroína e amiga Planningtorock. É uma noite importante para mim, não apenas por ser um dos melhores eventos que já pude organizar, mas por outras questões. Oh, lá vem o poeta lírico expor-se em seus melodramas, eu sei, mas é a carnadura de minha criaturização tudo o que tenho a oferecer, minha recusa a ser paciente anestesiado sobre a mesa, por incapacidade de ser forte como vocês. Mas também "porque sentir é estar vivo", dixit cummings. Ou

the great advantage of being alive
e. e. cummings

the great advantage of being alive
(instead of undying) is not so much
that mind no more can disprove than prove
what heart may feel and soul may touch
--the great(my darling)happens to be
that love are in we,that love are in we

and here is a secret they never will share
for whom create is less than have
or one times one than when times where--
that we are in love,that we are in love:
with us they've nothing times nothing to do
(for love are in we am in i are in you)

this world(as timorous itsters all
to call their cowardice quite agree)
shall never discover our touch and feel
--for love are in we are in love are in we;
for you are and i am and we are(above
and under all possible worlds)in love

a billion brains may coax undeath
from fancied fact and spaceful time--
no heart can leap,no soul can breathe
but by the sizeless truth of a dream
whose sleep is the sky and the earth and the sea.
For love are in you am in i are in we



No verão do ano passado, esta canção abaixo, do Light Asylum, serviu de trilha sonora para uma minitragédia almodovaricada e salvou-me do colapso numa noite escura. Como escreveu Murilo Mendes:


"Há noites que são intransponíveis."

É por isso que quando um poeta ou artista nos ajuda a transpor uma delas, quedamos em estase agradecido. A primeira e única vez em que eu, todo Catarina de Aragão, fui submetido à experiência de estar entre as mesmas quatro paredes e teto em presença de Henrique VIII e Ana Bolena, era Shannon Funchess quem estava no palco, e quando meus olhos os encontraram sorridentes em meio à escuridão da sala em que se apinhava a corte noturna berlinense, a americana havia acabado de começar a cantar "Dark Allies", esta canção. Eu fiz o único que qualquer um pode fazer numa situação como esta: eu dancei, dancei, dancei, com os olhos fechados, evitando sobrevoar a sala e ver os dois lado a lado, magníficos em sua beleza apaixonada e triunfante, enormes, extáticos em meio a meu peso estático trazendo-me de volta ao chão a cada vez que meus pés lançavam-me em impulso ascendente, cantando "Nail me to the cross in the darkest alley / I said, the Prince of Peace doesn’t have to know about it", tentando, tentando, tentando não cantar aquele refrão "I’ll wait for you, forever / And ever, and ever / And ever”, ah, não haver algoz que fizesse a minha cabeça rolar ali e imediatamente, como são privados certos desastres, Auden já havia dito que só os Velhos Mestres o compreenderam bem,

"About suffering they were never wrong,
The Old Masters; how well, they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along"

ah, Moço, Moço, eu estava em meio ao Apocalipse enquanto você comportava-se como se tudo não passasse da mera troca da Guarda em frente ao Palácio de Buckingham. Hoje que uma paz precária em sua delicadeza já se instalou no meu peito, quando hoje à noite Shannon Funchess começar a cantar esta canção, pensarei naquela noite, pensarei em você, e sentirei uma espécie de vitória, a do náufrago que sente os primeiros sinais de proximidade da areia, avistando ao longe a primeira palmeira da ilha deserta.


Dark Allies
Shannon Funchess

Nail me to the cross in the darkest alley
I said, the Prince of Peace doesn’t have to know about it
Say three Hail Marys, turn around, pray about it
C’mon, nail me to the cross in the darkest alley

Heartbeats through the dark that spread like a poison
And the tears ran hot like black tar of emotion
Inherit the earth where no words are spoken
And the sky like a veil was our wounds torn open

As she lies dying in a dark alleyway
Her lips, ruby red
And her eyes were morning green
But she whispered to me “Come closer, come closer”
And as I knelt down beside
With her dying breath, she said to me
“I’ll wait for you, forever
And ever, and ever
And ever”.



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Furando o bloqueio numa manhã de Valentine´s Day

Dessarte, ao sétimo dia, enquanto Deus dormia o sono dos justos, a Natureza, esta cavala-cã, deu-nos o amor e o instinto de sobrevivência, feito um Jano ou quiçá Mogwai-Gremlin, exigindo equilíbrio, não contradição, para que não pura e simplesmente corrêssemos à chegada do leão ou urso, abandonando nossa geringonça amorível predileta à devoração do mundo, mas ao mesmo tempo soubéssemos o instante da fuga quando esta estivesse já entre as garras e presas do predador-mor, sabendo talvez que um dia dominaríamos o ambiente fazendo-o mais seguro, e então nos legaríamos ainda o direito unilateral à separação - como pré-requisito à próxima alegria momentânea para um e morte no tempo mas não no espaço, para o outro, e impossibilitada de doar-nos o dom completo da regeneração, deu-nos a memória física dos membros fantasmas para compensar as amputações.

Ricardo Domeneck, manhã de Valentine´s Day no espaço cultural que habito no Hemisfério Norte, 14 de fevereiro de 2012.


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Antídotos matinais, o primeiro cigarro e xícara de café, as pernas bambeiam, a cabeça fica leve, é como experimentar o primeiro amor por três segundos toda manhã.


*

it may not always be so;and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another's,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be--
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.


e.e. cummings


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Não quero mais cantar feito Orfeu,
mas como se as Bacantes volvessem
seu generoso ventríloquo, no exato
momento em que o esquartejam.


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Eu já sabia que meu usual bloqueio pós-publicação terminaria hoje. Mas quanta tolice. Eu preferiria estar dançando.


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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tarde com Marília Garcia pelas ruas de Bruxelas, gravação da minha cantiga de escárnio "Quadrilha irritada" e leitura na Maison de la Poésie, em Namur

Ricardo Domeneck e Marília Garcia, editores-coruja da Modo de Usar & Co.,
na Maison de la Poésie, Namur, Bélgica. Foto de Arnaud de Schaetzen.

A manhã de sexta-feira começou com rojões, mas não era exatamente para celebrar a presença de quatro poetas brasileiros na cidade. Era a vez dos habitantes da capital oficial da Europa protestarem contra os planos de austeridade do Governo Belga, por conta e consequência das catástrofes de especuladores norte-americanos que explodiram em 2008. Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, após o café-da-manhã no hotel, saímos para as ruas para acompanhar e observar os slogans e reivindicações da população bruxelense.

Os protestos estão explodindo por toda a Europa, da Espanha à Grécia, da Inglaterra à França. Na Alemanha, que tenta equilibrar os pratos bambos da União Europeia, as coisas parecem calmas, ainda que a população comece a se perguntar se o país pode mesmo dar ordem à confusão deste novelo embaraçadíssimo. É muito esclarecedor observar o que ocorre nos países vizinhos. O Brasil e a Alemanha parecem ter-se saído com arranhões mas sãos da crise iniciada em 2008, ou será ilusão? Meus amigos e eu temos sentido na carne o aumento abusivo dos aluguéis em Berlim, do preço da comida. Berlim já não é a cidade que era quando cheguei.

Mais tarde, Marília e eu seguimos para livrarias, queríamos pesquisar poesia belga para futuras traduções e artigos na Modo de Usar & Co.. Eu queria também tentar encontrar mais livros de Gerard Reve (ver postagem anterior). Encontramos algumas coisas interessantes, mas fomos aconselhados a tentar a Librarie Quartiers Latins, onde há tudo o que se busca de prosa e poesia belgas. Como era justamente a livraria onde faríamos a leitura de Bruxelas, deixamos o resto da pesquisa para o dia seguinte.

Almoçando, Marília e eu tivemos uma ideia muito legal para um volume de ensaios, para o qual pretendemos convidar alguns poetas em breve. Mais informações assim que a coisa se concretizar.

Estamos filmando as leituras no Europalia para prepararmos um vídeo para a Modo de Usar & Co.. Como eu havia escrito em Bruxelas uma cantiga de escárnio intitulada "Quadrilha irritada", paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade, Marília quis que gravássemos a porrada maysada e lupiciníaca a quente. O resultado é o vídeo abaixo:



Ricardo Domeneck - "Quadrilha irritada", cantiga de escárnio e poema satírico-paródico, gravado em Bruxelas, Bélgica, a 2 de dezembro de 2011. Vídeo de Marília Garcia.

Mais tarde, seguimos para Namur, onde lemos novamente os quatro juntos na Maison de la Poésie, numa noite que foi realmente muito legal. O vídeo das leituras seguirá em breve.

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