sexta-feira, 6 de maio de 2011

Traduzindo e comentando um poema satírico de Ernst Jandl, com menções a certa poesia contemporânea brasileira com veia satírica



O poeta, tradutor e editor alemão Timo Berger me convidou a traduzir o famoso poema de Ernst Jandl (1925 - 2000) intitulado "lichtung", de seu livro de estreia e um dos seus mais queridos, laut und luise (1966), para uma edição sobre tradução da revista alemã Kulturaustausch. O poema, um dos mais curtos que já traduzi, foi também um dos mais trabalhosos. Na verdade, desisti várias vezes, e só por insistência de Timo, que queria um versão lusófona de qualquer jeito, foi que saiu esta minha, para a qual tomei muitas liberdades (como sempre).

O poema trabalha com as palavras alemãs links e rechts, ou seja, esquerda e direita, mas encena algo como um poeta que sofresse de um distúrbio fonético, confundindo o L e o R, criando as palavras "rinks" e "lechts". Jandl segue isso pelo poema, trocando o L e o R a cada ocorrência. Vejam abaixo o original:

............................lichtung
............................Ernst Jandl

............................manche meinen
............................lechts und rinks
............................kann man nicht
............................velwechsern
............................werch ein illtum!



Uma tradução literal seria, ignorando o jogo de troca fonética: "alguns acham / que esquerda e direita / não se confundem / mas que equívoco!"

No terceiro verso, o verbo verwechseln, que significa "confundir", "trocar" (e tem em si ocorrência tanto do L como do R), sofre a mesma troca das letras, assim como a palavra irrtum, em que o R ocorre duas vezes e que significa "confusão", "equívoco", torna-se illtum; welch, "qual" ou "que", torna-se werch.

Parece-me um epigrama satírico muito eficiente. É óbvio que ninguém está sugerindo que isso substitua as Elegias de Duíno. Aos xiitas-órficos, eu recomendo: leiam Ovídio, queridos, mas leiam também Marcial. Cada qual cumpre uma função poética distinta e necessária.

Aqui, Jandl não está fazendo apenas um joguinho de palavras. Pois obviamente não se trata apenas das direções "esquerda" e "direita", mas de política. É quase profético quando pensamos que ele o escreveu na década de 60, muito antes do que se tornaria norma em nosso tempo: a confusão completa entre política de esquerda e política de direita, todos nas águas do neoliberalismo econômico. Basta pensar, por exemplo, na política econômica do Governo de Lula, no Partido Social Democrata alemão, e, de forma gritante, na política econômica de Barack Obama, que mantém no Governo americano os mesmos homens que levaram a economia mundial à beira do desastre em 2008, deixando um rastro de desemprego e pobreza em sua cauda. Sobre este último assunto, recomendo, e muito, assistir ao documentário Inside Job (2010), de Charles Ferguson.



Trailer do documentário Inside Job (2010), de Charles Ferguson


No Brasil, terra dos ótimos Gregório de Matos e Sapateiro Silva, poucos poetas demonstraram talento inato para a sátira, algo muito diferente de "humor em poesia". Poesia satírica é coisa muito séria, não é apenas "poema piada". Em alguns textos, Oswald de Andrade vai além da piada. No pós-guerra, poderíamos mencionar Sebastião Nunes e Zuca Sardan. O Glauco Mattoso do Jornal Dobrabil. Dentre os poetas surgidos na década de 70, há ainda Chacal, dentre os ligados à retomada das estratégias de vanguarda, eu citaria com certeza Affonso Ávila e Paulo Leminski em seus melhores momentos, e em Noigandres isso só comparece em Décio Pignatari, o único concretista que parece ter olhos e ouvidos para a sátira, da qual o "beba coca-cola" é o exemplo mais conhecido e o aproxima de Ernst Jandl.


O famoso poema visual de Décio Pignatari



Há outros, esta lista não se quer completa. Na poesia contemporânea, já escrevi um artigo a respeito da veia satírica de poetas como os gaúchos Angélica Freitas e Marcus Fabiano e o paulista Marco Catalão, por exemplo, em que me referi a textos ainda do paulista Dirceu Villa, do paraense Gabriel Beckman e do carioca Gregorio Duvivier. Poderia ter ainda mencionado alguns poemas de Pádua Fernandes ou Ismar Tirelli Neto, e, mesmo que se refira sempre a Virgílio, os poemas recentes de Érico Nogueira, como "Deu branco" e o inédito "Poesia bovina" (que sairá no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.), o aproximam mais de Catulo e Marcial, em minha opinião. O próximo número impresso da Modo de Usar & Co. terá ainda, entre várias outras coisas legais, um poema satírico inédito da cearense Érica Zíngano de que gostei bastante.

Bem, comecei este artigo para falar sobre minha tradução do poema de Jandl para o português. Há dificuldades imensas: em primeiro lugar, esquerda e direita são palavras muito mais longas que links e rechts, mas o problema principal é sonoro: ao contrário das palavras alemãs, que começam com consoantes, uma das palavras lusófonas começa com vogal, o que gera problemas quase intransponíveis. Em segundo lugar, o poema é muito preciso em sua escolha vocabular, era necessário que a troca em português das letras E e D (esquerda e direita) permitisse a mesma troca nas possíveis traduções de verwechseln e irrtum. Depois de quebrar a cabeça, optei por transformar o epigrama de sátira política de Jandl em um epigrama de sátira ético-estética em português, o que parece estar na pauta das últimas polêmicas literárias no Brasil. Em vez de "esquerda" e direita", optei por "bom" e "ruim", com a troca entre B e R. Não é ideal, mas funciona e foi o que publiquei na revista Kulturaustausch. Para a aliteração em "manche meinen", optei por uma espécie de assonância/aliteração em "alguns alegam". Abaixo, a versão:

............................mobal da históbia

............................alguns alegam
............................rom e buim
............................não se pode
............................enrabalhar.
............................mas que rubbice!

("tradução" minha, publicada na revista alemã Kulturaustausch número 61.)


Verifiquei e consultei uma amiga editora, gramaticalmente tanto "pode" como "podem" seriam aceitáveis, ainda que "podem" seja considerada "boa concordância". Como eu estava trocando "bom" e "ruim", achei por bem evitar a boa concordância! Vocês acham isso ruim? Talvez seja o caso de intitulá-lo apenas "mobal", para manter o título de uma palavra só de Jandl, "lichtung". Eu também creio que em publicação futura tirarei aquele "mas" do último verso, deixando:

............................mobal

............................alguns alegam
............................rom e buim
............................não se pode
............................enrabalhar.
............................que rubbice!

Em tempos de assassinatos políticos, com narrativas de heróis e vilões, mocinhos e bandidos, uma espécie de Hollywoodização da História, eu teria gostado muito de encontrar uma versão que usasse bom e mau, o que teria sido melhor, já que há realmente pessoas que trocam o L e o R, e ocorre também em certos distúrbios a troca entre o B e o M. Mas o simples fato de haver B e M em bom já o impedia, de certa forma. Eu segui, mesmo assim, e cheguei até: "boral // alguns alegam / mob & bau / não se pode" e empaquei em busca de algum verbo que chegasse perto de "trocar" ou "confundir" e no qual houvesse tanto M como B, mas não encontrei. Poderia usar "embaralhar", com "ebmaralhar", mas não sei se funciona. Seria ainda necessário encontrar uma tradução para irrtum em que ocorresse duas vezes o M ou o B. Se alguém tiver uma sugestão, sou todo olhos e ouvidos!

Espero que bom e ruim cumpram papel parecido e funcionem. Vida longa à poesia de Ernst Jandl e aos poetas satíricos do mundo.


Ernst Jandl


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4 comentários:

Anônimo disse...

Ein bisschen in dieser Linie wäre es interessant, ein Versuch zu wagen, das letzte Buch von Uljana Wolf zu ins Portugiesische bzw. Spanische zu übersetzen. O al menos algun poema de ese libro.
Es ist nicht genau dasselbe, aber es ist auch was Interessantes, denn es geht darum, mit den phonetischen Ähnlichkeiten von deutschen und englischen palabras zu spielen, die eigentlich ganz verschiedene Bedeutungen haben, sgnnte. "falsos amigos"...

Ricardo Domeneck disse...

O segundo livro de Uljana Wolf é realmente muito interessante, mas creio que uma tradução, neste caso, seria impossível Seria necessário uma recriação, talvez usando palavras do português e do inglês, ou do português e espanhol, talvez quem sabe até com o alemão, mas seria outro livro. Não tenho o segundo livro dela, apenas o primeiro, "kochanie ich habe brot gekauft". vou comprar o "falsche freunde" e pensar numa tradução possível, mas o próximo germânico jovem que estou traduzindo é Ann Cotten.

beijos!

Ricardo

Angélica Freitas disse...

muito boa a tradução, ric.
um beijo.

Anônimo disse...

Entschuldigen Sie bitte, dass ich mich so spät wieder melde (ich hoffe, die folgenden Bemerkungen werden immer noch aktuell sein).
Pero es que este blog es muy prolífico, publica Ud. tantas cosas interesantes que me dejan pensando (aún estoy reflexionando sobre el "ensayo de ficción" sobre el futuro del poeta en la tradición trovadoresca pero con las nuevas tecnologías ;-))

Yo soy muy lenta pensando ;-))!

Nur kurz: Ja, ich befürchte (?? wenn es etwas zu befürchten gibt ;-), dass eine mögliche Übersetzung vom Buch von Frau Wolf wohl eher eine "recreación" sein sollte. Aber, das ist ja was sie mit den Jandl-Gedicht (tolle Ideen, apropos. Ich kann kein Portugiesich, aber es ist ja sehr interessant gewesen, ihre Entscheidungen nachvollziehen zu können.) machen!!

Die US-amerikanische Übersetzerin Susan Bernofsky hat das Buch von Uljana Wolf ins Englische übertragen. Sie hat auch, wenn ich mich richtig erinnere, in ihrem Blog ein Paar Einträge darüber geschrieben, die ich auch sehr interessant fand.

Und glauben Sie ja nicht dass Ann Cotten leichter su übertragen ist...;-))))! Eso es una tarea nada, pero nada fácil. Aber umso interessanter auch. Es muy interesante también que uno de sus libros se llame precisamente "Fremdwörterbuchsonette". Es ist nicht dasselbe aber es geht auch in dieser Linie von Fremdheit, Sprachunterschiede...
Man kann schon vermuten dass irgendwie die Thematik von den Einflüssen von Fremdsprachen schon zum Motiv geworden ist.

Muchas gracias y perdone por este comentario tan largo.

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