Mostrando postagens com marcador poesia contemporânea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia contemporânea. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Seminário de Poesia Contemporânea na UFPR e a homenagem à poeta pernambucana Tereza Tenório

DESTA VEZ, AQUI, AGORA: VOZES DA POESIA CONTEMPORÂNEA.



Terceira edição. Organização de Sergio Maciel, Guilherme Delgado, Renata Mocelin e Luciane Alves. Universidade Federal do Paraná.
DIA 1 (14/09)
Wellington de Mello
Henrique Provinzano Amaral
Anelise Freitas
DIA 2 (21/09)
Paulo Henriques Britto
Diego Alves Amancio
Margarida Vale de Gato
DIA 3 (28/9)
Edimilson de Almeida Pereira
Ronald Augusto
Márcia Brito
POETA HOMENAGEADA: Tereza Tenório (Recife, 1949–2020).

*


POEMAS DE TEREZA TENÓRIO
CORPO DA TERRA Pela janela o verde nos revela o coração da mata acesa o úmido veio das aromáticas resinas dentre nossas raízes enlaçadas a destilar a essência do teu hálito em mim corpo da terra desvelado * A FACA SOBRE A ÁGUA Existe o duplo silêncio: o da flauta e do tempo (que há mundos paralelos). Há o movimento rítmico: o do pêndulo no silêncio partido do hemisfério. E foi teu último engano: a ferida rubra e sangrenta. A branca madrugada transformou-te de louca suicida em clara manhã de pássaros e fadas. Houve também a faca sobre a água com o brilho mortal das escamas rápidas e houve o encontro da terra com os astros na rota dourada do fim de tarde. * A CASA NA COLINA Quem sempre quis uma casa na colina pra que pudesse namorar as árvores Tanto sonhou o rosto de uma menina sua cabeleira a refletir as vagas Eu que amarguei a solidão da sina de uma infância sofrida além da margem de tanto amar o amor como a saudade transformei-me ao sol dessa menina Tendo na boca o gosto da menina do crescer na paisagem do silêncio degustando a palavra enquanto sina transformando o silêncio enquanto tempo em meio ao sonho que a estrela move em meio à sina que se mofe ao vento * CASO O meu primeiro amor morreu de fome O meu segundo amor não teve jeito O meu terceiro amor se fez amante recebendo-me à tarde radiante Até hoje vivemos do seu jeito como meu último amor fatal perfeito * VIRTUAL No epicentro das ondas invisíveis edifiquei mandalas para os celtas habitantes dos últimos milênios guelras de peixes e barbatanas retas Onde o mar arrastara nossas redes para morder-nos tênues fios de espera o fluir das espumas retalhou os tecidos da carne contra as pedras nos módulos lunares dissolvi toda a sombra da superfície líquida seus cardumes de tubarões-martelo entre indormidos teoremas míticos arremessei ao lume destes versos nossa imagem virtual de estranhos ritos * TRÍPODES Queimados os corações no sacrifício dos remos sobre a pedra dos oráculos reedificamos o templo Marujos noutro avatar fomos mortos ao relento entre carvalhos e trípodes no temor ao deus sangrento No corolário da lenda filha dos quatro elementos fertilizamos a terra na fenda ao sul do oriente ao fim do embate mortal a seiva do sol no zênite .
.
.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"Fios", de William Zeytounlian

I.

Haverá realmente
tempo perdido?
Não o dizemos somente
por tempo passado?

Se o que se investe
entrementes
não passasse de gasto,
como haveria
sempre o risco
em retomar sempre
esse rastro?


II.

Haverá realmente
Tempo passado?
Não o dizemos somente
Por tempo perdido?

Se o rastro que falo
Está sempre às voltas,
O único risco
É ser intraduzido –
Às voltas sempre
De um ser-se tão vago.


III.

Parcas de si:

Entre os dedos
Da mão
O fio do
Vivido -

Barcas ao léu:

Mas se ata
Ao tronco
O fio do
Passado.


William Zeytounlian (São Paulo, 1988).

.
.
.






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Reuben da Cunha Rocha

Reuben da Cunha Rocha, ou cavaloDADA, ou o xamazenexu da poesia nata nos 80

Primeiro ouvi falar do senhor Cunha da Rocha por Fabiano Calixto, que recomendava publicarmos poemas do maranhense na Modo de Usar & Co. impressa. Eu poderia usar o atalho agora e dizer apenas: "O resto é História", pois desde então o xamazenexu (não procure no dicionário, pus as palavras na valise agora) da poesia nata nos 80 se tornou um dos maiores colaboradores da revista, com inúmeros artigos sobre poetas brasileiros, como Celso Borges (São Luís do Maranhão, 1959) e Cátia de França (João Pessoa, 1947), e traduções de estrangeiros como Allen Ginsberg (1926-1997), e.e. cummings (1893-1962) e Linton Kwesi Johnson (n. 1952).

No terceiro número impresso da revista, publicamos seu ensaio "Poesia inútil, poesia irrelevante?", fundamental para quem pensa hoje a poesia contemporânea e já disponível na franquia eletrônica. Vários poemas seus podem ser lidos por lá, assim como os artigos e traduções. Publico aqui, nesta série dedicada à poesia-nata-nos-80, dois poemas recentes do xamazenexu da década.


DOIS POEMAS RECENTES DE REUBEN DA CUNHA ROCHA (São Luís do Maranhão, 1984)


Reuben da Cunha Rocha / cavaloDADA : "Apokalypse Nau" (2014)

§


LOGO ACIMA DO SILÊNCIO DO ÍNDIO Q SE SUICIDA
o enforcado sonha em disparada desta atmosfera pesada p/ outros mistérios + esferas
logo acima
dos abacates suspensos podres 1tupi akira
vara a febre do mosquito galopa aflito p/1lugar longínquo + escapa
às tentativas de assassinato
vista multidimensional do universo
amplo ataque do enxame sobre o exército

dura a pedra dura a pétala dura o bicho cada qual cada vez cada séc.
é o arroto do raio o trovão na imaginação do cego
depósitos de mão
de obra pobre
p/ as impraticáveis
monoculturas currais + covas
chamadas de reservas
o país q em favor do capital opera criminosamente a transferência brutal de indígenas terras
a homens rudes c/ rostos ocultos sem qqr relação c/ elas
gira o sumo no seio da panela morde a língua entre toras de palmito nasce o fogo q nasce do atrito enqto aspiram os seus cachimbos magníficos nova forma de banzo embalada pela nau do desdém LIMITE DE EMBARQ: 1100

papo rente nas vielas tortuosas nas cabeças nas rasantes calçadas talagadas entraves + tragadas ferve o sumo nas veias transtornadas

sem convívio
sobrevoa o continente o vestígio
d1 animal q achava q era gente espíritos nativos represados fantasmas samurais entre os guarani-kaiowás a curva ascendente dos casos de suicídio
tendência > 20x + 
q entre os cidadãos brasileiros doutras classes sociais

ouve o rio
q ñ tem direção + q ñ anda a esmo
1000caminhos
entre a carne + o esqueleto corre o sangue avoado círculo ambíguo pragmático crespo lácteo mel ígneo magnético moro no olho q espelha 1velho espírito íntimo casa rua raiz campo fértil
microrganismo incisivo ligado respirando fundo + pelo mundo respirado 1calângo jubiloso + lânguido ágil réptil respirando fundo + indo à toda pela deslizante dentição da roda fétida
24h x 7
a mente vegetal prepara lenta a réplica
lépido radiante assalto à serra elétrica
p/ além do esgotamento q provém da ganância
suavidade p/ extirpar o veneno da vingança
nas entocas nas ferrugens do progresso
vai prudente
+ ñ se esquece
q a experiência é o +astuto mestre
+ a trilha longa em q caminha a luz dos corpos celestes
+ q só vamos saber o q é suficiente qdo soubermos o q é + q suficiente
na curva da cobra nos cornos do touro no couro
do tigre na pata
do elefante
percepções sutis na sombra de 1sutil caminhante
q desapareceu pq era agricultor + 1guardinha o confiscou = 1vil transeunte
relato q ele ouviu d1 pescador
da planta q depois do sol se pôr o ajudava a ver o mar brilhante
a vaga vaza + vai entre a enchente + a vazante

verdades estão além das certezas violência se vence c/ delicadeza equilibrismo dos pés em convictos barbantes grosseiros o sol calmo centro dentro vagueia atenção plena + inteira na linha descontínua d1 flecha fina q dissipa a espessa púrpura neblina + se dissemina c/ o coração à frente do caminho 1vivente insiste se afina no instante + amanhece
sem pino sem trava
sem tolice





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Luísa Nóbrega


Luísa Nóbrega, “ventríloquo ou talvez tudo já tenha sido dito” - 2012, 
ação em que passou 21 dias em silêncio, se comunicando apenas por faixas pré gravadas em um gravador digital


Descobri o trabalho de Luísa Nóbrega (São Paulo, 1984), graças a Érica Zíngano, que preparou para a Modo de Usar & Co. uma postagem sobre a poeta paulista, com o artigo "Mercúrio em Conjunção com o Ascendente", publicado em agosto deste ano. Foi uma descoberta para mim, que não conhecia seu trabalho em performance ou textual. Gosto muito de ambos. Temos alguns pontos de contato, a obsessão pelo corpo, a recusa a escapar dele, pela consciência da impossibilidade.

"gorge", de Luísa Nóbrega



Compartilho com vocês. Poesia nata nos 80.


DOIS POEMAS RECENTES DE LUÍSA NÓBREGA (São Paulo, 1984)

meu salto engancha
em escadas rolantes
derrapa, enfático
sobre pisos úmidos

quase sempre
 mantenho o equilíbrio
- o difícil é que eu queria tentar
algo de vidro


chaleira, leiteira
tem que poder ir no fogo
tenho respostas-reflexo
de modo que não chega
a haver tombo


não rolei da escada
graças à risonha destreza
dos meus dedos mindinhos


faz a conta:
o que de mim se conserva?

.

para não ter um filho esmagado
Inga, da Bielorússia
ergueu um carro vermelho
de uma tonelada.

estourou as fibras musculares.
será que o vidro é impossível?

.

meu caso é menos dramático
não há garotos soterrados
a resgatar

.

vez ou outra arremesso a testa
contra um muro de tijolos

(será que é muito complicado
caminhar para trás?)

§

tive a prova definitiva da existência de deus


marcas de sisal nos antebraços que não esticam nunca.

qualquer outro teria passado indiferente:
eu paro, por falta do que fazer.

.

o cotovelo dele não vira ao contrário, como o meu.
parece um monstro sem cabeça, mas é só um sujeito
algo franzino
com o pescoço apoiado no espaldar de madeira.

tem resignação de uma cabeça aplainada
que espera a guilhotina.

.

dois nós firmes nas extremidades da corda esticada
perturbada de quando em quando
por pequenos, nítidos socos.

tudo é mórbido. essa é minha última grade ou portão.

.

os pés dianteiros são morcegos que esvoaçam.
esticam e encolhem num movimento irregular/ atordoado
como se alguém sacudisse escandalosamente
um livro de salmos.

ah, esses mamíferos cegos de radar infalível –
sua precisão é insuportável.

.

agacho atrás de uma moita para não fazer xixi nas calças.
enquanto minhas coxas se molham
cantarolo uma ode

- qualquer coisa que esgarce a oposição entre
carne mortificada x
espírito eterno e sublime.


não dá muito certo, mas sinto uma espécie de alívio.
anacrônico, não faz mal.

.

não espero salvação. a gente não se livra de um susto assim tão fácil.

.

por falta de milagres, faz tempo que eu não durmo –
quisera ter a convicção grosseira dos santos.

.

mas entenda:
é imprescindível que haja uma grade ou portão fechado.
duas colunas. um gancho.
qualquer coisa capaz de suportar dignamente
esses nós paralelos intermináveis.

.

de olhos fechados
o grunhido cheio de muco de um
penitente


nenhum céu adiante
nem mesmo inventado

.
.
.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Philippe Wollney

O poeta pernambucano Philippe Wollney


Não conheço Philippe Wollney pessoalmente. Descobri seu trabalho no ano passado, quando vi seu nome entre os convidados do Festival Internacional de Poesia do Recife, do qual eu havia participado no ano anterior. Tento me manter informado sobre o que está sendo publicado no Brasil, responsabilidade de editor e crítico, e pesquisei sobre seu trabalho. Em correspondência esparsa com o poeta pernambucano, preparei uma postagem para a Modo de Usar & Co. e venho seguindo suas publicações.


Vídeo baseado em texto de Philippe Wollney

Philippe Wollney nasceu na cidade de Goiana, Pernambuco, em 1987. Lançou o livro Poemas de um eu cretino (2014) e publica trabalhos ainda pelo selo Porta Aberta. Pelo que pude ver e ler até o momento, parece-me um autor com clara formação na tradição oral de Pernambuco, bastante ativo na cena cultural de sua cidade, e com um talento claro para a vocalização e a performance. Gosto muito dos poemas abaixo, e recomendo localizar o pernambucano em seus radares. Espalho aqui as boas novas, natas nos 80.


DOIS POEMAS RECENTES DE PHILIPPE WOLLNEY (Goiana - PE, 1987)


[o que aconteceu conosco]

o que aconteceu conosco

que neste inverno
o que nos tira o frio
são as fagulhas de nosso inferno

o que aconteceu conosco

o sarcasmo de nossos olhares
transmutado
na tragédia do zodíaco a dois

o que aconteceu conosco

a manhã sorridente de papel celofane
dasanuviado
a sobra apenas dos caninos

o que aconteceu conosco

abraços carregados nos dentes
afagos nas cáries
e um delicado carinho de barbárie

o que aconteceu conosco

brotoejas de anêmonas no pescoço
trocando colares
de dedos e dentes de crianças

o que aconteceu conosco

tórax essa caixa de muambas
coração do paraguai
um futuro made in china

o que aconteceu conosco

o reduto do vinho, o umbigo
parada obrigatória
da língua na chaga no ventre

o que aconteceu conosco

assovios de encantar serpente
da cobra
a pele morta do dia aparente

o que aconteceu conosco

o que se abria em lábios
do beijo
o sobejo de uma carne que não se digere

o que aconteceu conosco

pés que tilintam são ecos
em um salão vago
e uma sinfonia de calos e vida encravada

o que aconteceu conosco

que de morno os nossos nomes
o mofo
e a fome de pastores tangendo o rebanho

o que aconteceu conosco
o que aconteceu com nós
com os nós

§

[quando eu disse, eu te amo]

quando eu disse, eu te amo
já haviam se passado quatro anos
que se estouravam cravos
e se cravavam unhas roídas
em meus cabelos secos.

quando eu disse, eu te amo
todos os livros de nosso poema
já estavam com as bordas das páginas
cheias de tártaros
e flores de café em nossas leituras.

quando eu disse, eu te amo
os discos haviam perdido suas capas
todas as faixas eram chamadas pelos primeiros versos
e não havia mais autoria
todas eram nossas.

quando eu disse, eu te amo
o bojo do violão no canto da sala
já havia servido de bandeja para cerveja
assento para nossa filha
e assistiu todas as minhas falhas.

quando eu disse, eu te amo
resolvi mudar todos os quadros da sala
plantei agrião na pia
e interditei a geladeira para servir de jardim
para alecrins, erva-doce e coentro.

quando eu disse, eu te amo
finalmente compreendi porque geraldo azevedo é foda
e sua música penteou meus lábios
e revirou a tábua de marés de meu coração.

quando eu disse, eu te amo
não me senti melhor, nem pior
nem tão pouco dizendo algo de especial
apenas me senti pequeno e inundado
por um segredo que quase esqueci.

quando eu disse, eu te amo
criaturas abissais dos mares frios de meu peito
fizeram vanguarda em meu desespero
tomaram absinto e se habituaram
a sentimentos profundos.

quando eu disse, eu te amo
mais uma criança velava seus pais
mais pais velavam seus filhos
e se retomava o habito de criar
presos políticos.

quando eu disse, eu te amo
havia me tornado angústia e espera
como os quadros do chirico
e escondi embaixo do lençol vermelho
a antologia de poemas de brecht.

quando eu disse, eu te amo
aquele cão dos infernos zombeteiro
passou a mão em minha bunda
e me deu uma rasteira.
- a vida não é literatura, porra!

quando eu disse, eu te amo
de minha boca fez-se espuma
e como animal em cólera
mordi o próprio rabo
e dormi lambendo ossos.

quando eu disse, eu te amo
havia chegado tão tarde
que o bonde do desejo
já havia passado há dias
e por outros 23 dias, queimava a parada,
e plantei bredos no asfalto.

quando eu disse, eu te amo
o tempo havia fechado
e por mais que quiséssemos
os nossos tênis não secaram atrás da geladeira
- nos tornamos pés frios.

quando eu disse, eu te amo
a barra havia ficado pesada
nas mochilas não cabiam todos os livros
e por mais que precisássemos carregar
móveis e eletrodomésticos
comemos pão frio, lendo manoel de barros.

quando eu disse, eu te amo
já não adiantava chorar pelo leite derramado
ou pelo aumento dos alugueis
compramos uma barraca de acampe
um colchão de ar
e seja o que deus quiser nos arrecifes da vida.

quando eu disse, eu te amo
minhas palavras precisavam de fiador
e de um seguro contra perdas e danos
e todas as minhas senhas de e-mail e dos bancos
estavam apregoadas na porta da geladeira.

quando eu disse, eu te amo
tenha dito tarde demais
com um amor demais
para um eu em menos.

quando eu disse, eu te amo
eu disse.

.
.
.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Ederval Fernandes


O poeta de Feira, Ederval Fernandes

Conheci Ederval Fernandes, nascido em Feira de Santana em 1985, quando estive em Salvador para ministrar uma oficina na Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ederval Fernandes é crítico e poeta de mão firme, especialmente quando usa o corte ágil. Tem, além disso, um dos trabalhos mais interessantes, que li nos últimos tempos, na pesquisa dialetal e de léxico local, como no poema "O cobrador da van disse" e, de outra maneira, em outro poema seu recente, "A cabeça do preto", publicado por ele nas redes sociais, poema também de força política diante de nosso racismo sistêmico. Nesta postagem, tentando mostrar dois aspectos de seu trabalho, posto "O cobrador da van disse", com vocalização dialetal do poeta, e o ótimo "Da minha boca". Seu livro de estreia, O Livro Conta Corrente (Feira de Santana: Sarò, 2014), será lançado este mês.

§

DOIS POEMAS RECENTES DE EDERVAL FERNANDES (Feira de Santana, 1985)




O cobrador da van disse

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

§

Da minha boca

a vertigem
do dia são estas
horas:

luz e fogo
levando
embora a noite
calma.

um nada
no nada,
meu adágio
sai e segue.

e um deus (morto)
bebe um café
comigo.

 *

“perigo”,
ele me diz,
“não sou eu,
amigo,
o infeliz
que te trouxe
ao veneno”.

eu sei, eu
digo,
desde pequeno

(cravado
no umbigo)
trago comigo

este jogo
de ases.

e não
vou, eu sei,
fazer
as pazes:

se as fiz,
eu falhei.

 *

do som,
quero a canção;
da mão

(é verdade),
quero e não sei
a liberdade.

não da forma
oca - o veneno
é da boca.

se a língua
portuguesa
é pouca,

isto não é
problema?

não aqui,
assim,
no meu poema.

.
.
.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de William Zeytounlian


William Zeytounlian, o esgrimista francófilo


Descobri e tive o prazer de conhecer alguns novos poetas este ano. Dentre eles, William Zeytounlian é certamente um dos que acompanho com maior interesse, e de quem espero poder em breve ler o livro de estreia. Os poemas espalhados pela Rede já mostram o talento auspicioso do jovem paulistano. Postei vários já na Modo de Usar & Co., da qual Zeytounlian tornou-se colaborador assíduo, com poemas, artigos e excelentes traduções. Ele foi também traduzido para o castelhano por Paula Abramo, que comparte comigo do entusiasmo por seu trabalho. Uma das traduções foi postada na revista que coeditamos, Area de Libre Poesía de las Américas. Li recentemente este novo poema dele, que demonstra mais uma vez a qualidade do que vem fazendo. Excelente poema. Encerro com o último que publicamos na Modo de Usar & Co. Os nascidos nos 80 vêm chegando. Aliás, jamais compreenderei os poetas mais velhos que ignoram o trabalho dos mais jovens. Alguns dos diálogos mais intensos e frutíferos que tive nos últimos anos foi com autores dez anos mais jovens que eu. Bem, também não estou tão velho assim (wishful thinking). Mas ao que importa: dois belos poemas de William Zeytounlian.


DOIS POEMAS RECENTES DE WILLIAM ZEYTOUNLIAN (São Paulo, 1988)


Monumentos à barbárie (toda parte)

sobra sobre sobra –
assim se desdobra
a intraduzível sombra
que ombro a ombro
assombra a estranha
soma que escombra
os monumentos;

pedra sobre pedra –
assim se manifesta,
à margem da imagem,
no abismo de uma fresta,
a larva que infesta a cesta,
a malha que a lama orvalha.

§

[noite fora]


noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida

*
não basta

*

página de
acético ph

quebradiço
o papel como
um biscoito

as
promessas
nunca tardam
nunca tardam
em falhar.

*
não basta

*

banal
holocausto

do século
infausto:

por um
celular

a substância
vacila

entre as
facas
de cozinha.

*
não basta

*

noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida


.
.
.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Poema recente de William Zeytounlian


passado

o que assoviar
quando se esquece
a última das
canções?

a aposta
absurda foi
para que não
precisássemos
mais delas

nesse ínterim,
pensar sobre
os rumos
da poesia
enquanto há
sem-teto
expatriados
ruínas
famintos
e nosso passado
e seus mortos
e nós, envergonhados de nossa responsabilidade sobre ele
e nós, envergonhados por não assumirmos nossa responsabilidade sobre ele
e nós, envergonhados de nossa vergonha,
incapazes de sentir a vergonha,
incapazes de vergonha
incapazes de qualquer capacidade
incapazes até de incapacidade
e envergonhados por isso,

enquanto se projeta o passado como uma sombra sob nossos pés
enquanto ele se estende interminável até perder-se de vista
olhamos para o passado como para uma sombra
mas nos enganamos
ele é uma sombra,
mas olhamos para ele como para um deserto
e ele é, de fato, um deserto
era,
é,
e no fundo inimaginável deste deserto a perder de vista
se aproxima a ideia de um inimigo
um inimigo a encarar
inimigo afrontável
um inimigo que é maior que qualquer inimigo, pois é gigantescamente ideia
uma ideia amiga sobre a qual nos enganamos
ideia amiga que tomamos por inimiga pois nos afronta
e nos envergonha

essa ideia:
nossa amiga

enquanto
procuramos
dinheiro e
trabalhamos
por comida.



São Paulo, 1988.

.
.
.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Luca Argel - "diversão para os soldados no deserto" (2014)


Luca Argel - "diversão para os soldados no deserto", de O livro de reclamações (Lisboa: Escalpo de Mársias, 2014).

.
.
.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rubens Akira Kuana vocaliza Luca Argel

Rubens Akira Kuana


"Uma hora para as caixas de som pararem de funcionar", 
poema de Luca Argel vocalizado por Rubens Akira Kuana.


Luca Argel

Uma hora para as caixas de som pararem de funcionar
conheci você no banheiro da cantina
cantando muito alto uma marchinha famosa
não era roxo ainda seu cabelo
não era roxa ainda sua voz
conheci você num leilão de frangos
fugindo do plantão
não era roxo ainda seu nome
não era roxa ainda sua mão
conheci você no maior município em área deste país
roubando uma canoa
não eram roxas ainda suas fotos
não era roxa ainda sua língua
conheci você andando de bicicleta
na primeira manhã de uma guerra
não eram roxos ainda seus amigos e o seu corpo
não era roxo ainda

.
.
.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poemas de William Zeytounlian



William Zeytounlian é um poeta brasileiro, nascido em São Paulo, em 1988. O poeta nasceu no seio da comunidade armênia paulistana, e este é um fator determinante em sua escrita. Formado em História, o autor desenvolve hoje um trabalho de pesquisa sobre a História do século XVII, uma "História dos comportamentos silenciosos", a partir de tratados e máximas morais da época de Luís XIV. Sua história familiar e memória contituem outro aspecto importante, com o relato do massacre de sua família no Genocídio Arménio, perpetrado pelo Governo Otomano (hoje Turquia) em 1915. 

Esse genocídio, que os armênios chamam de Mets Yeghem, ou Grande Crime, é pouco discutido e conhecido, e até hoje ainda não foi reconhecido pelo Governo Turco. Este silêncio sobre ele, segundo historiadores, serviria de inspiração e incentivo para aquele genocídio que outro povo sofreu no século XX, chamando-o de Shoah, a Catástrofe. O armênios também usam a palavra Aghet, catástrofe, para o extermínio de seu povo nas mãos do governo dos Jovens Turcos, liderado por Talaat Pasha (1874–1921).

Nas palavras de Zeytounlian, "a violência como estratégia política e o cínico processo de construção de uma subjetividade em uma cidade que se destroi (SP)" estão ainda entre seus interesses como poeta.

O protesto político é um terreno escorregadio para a poesia. Mas acredito que os poemas de William Zeytounlian fincam seus pés, nos melhores momentos, em uma clara preocupação melopaica e no que me parece uma leitura atenta do trabalho de Maiakóvski (via Schnaiderman/Campos), como se pode notar especialmente em um texto como "A morte de um homem livre". Sua lírica concisa em alguns dos outros poemas, se ligada à prática objetivista na cidade de São Paulo dos últimos anos do século passado e início deste, diferencia-se mais uma vez por um claro talento e preocupação com a sonoridade. Há experimentação de linguagem ainda em textos plurilíngues, como o interessante "Shibolet II".

Seu trabalho foi incluído na antologia de poesia contemporânea É Que Os Hussardos Chegam Hoje (São Paulo: Editora Patuá, 2014). William Zeytounlian é, além de poeta, um dos principais esgrimistas brasileiros. Vive entre São Paulo e Paris, e escreve sobre literatura no espaço I Beg Your Pardon, no qual também publica poemas e traduções. Pretendo acompanhar seu trabalho com atenção.

E conforme vou acompanhando seu trabalho, vou pensando que ainda não posso dizer se, como esgrimista, ele é um poeta, mas ele me parece certamente ser um poeta com talento de esgrimista.



POEMAS DE WILLIAM ZEYTOUNLIAN

divina violência

O CINISMO PEDE AOS DESPOSSUÍDOS QUE ACEITEM O ULTRAJE COMO UM DEVER MORAL. O ÚNICO DEVER MORAL DOS DESPOSSUIDOS É DESTRUIR O CINISMO COM ULTRAJE.

haveria –
ode ou elogio –
senda sutil
ou suportável –
em que eu pudesse
ponderar o indizível,
em que eu pudesse
inscrever o que é
execrado;
                     para que um
                     entendimento
                     transtornado
                     se tornasse,
                     enfim,
                     inteligível?


§

A soma

trás um verso,
estranho léxico
em regresso –

inversa assim
a dúvida que
assoma a dívida
  reincidente,
  antiga,
   rediviva:

o velho dedo
que envereda
na ferida.

§


[Gesto alheio]

Gesto alheio
eco do afeto
há muito
dispensado:

eu te
acreditava
morto.

do rastro
de que lapso
te recuperei?

como no mastro
da mente
icei
o pano do rosto
difuso,
novamente?

Gesto alheio
eco do afeto
há muito
dispensado:

a tudo escapado,
menos ao ato
de um átimo,
ao traço esparso
de um
momento.


§

Armênia

há uma dimensão dupla da história escrita a partir dos depoimentos de um sobrevivente. certamente é um discurso sobre o passado. mas antes de tudo, é um discurso sobre o presente, ou antes, um discurso sobre o projeto que o sobrevivente tem sobre o interlocutor. com um sobrevivente, entramos na vala coletiva do passado com nossas roupagens atuais, como os apóstolos de um quadro renascentista ou dante no inferno.

o alfabeto sobre o escudo
revela a relva, a areia abreviada
nós, devir débil sopro surdo
nós, memória e olvido de uma raça


§

Debater política

NA CRISE, UM ROMPANTE DE LOUCURA É UM DELÍRIO DO REAL.

tudo
melífluo,
incerto,
certos versos
insistiam
em voltar:

vagavam
aqui e acolá
em raros
intervalos –
interstícios
do hospício.

hoje, têm
sentido;
têm abrigo:

loucos
são os
outros.

§

Imperativo categórico

A NÃO-VIOLÊNCIA É UM LUXO DO QUAL NEM TODOS PODEM SE SERVIR.

oráculo manual
um gesto desenha
palavras:

o passado se funde
ao futuro
com um passo –

a verdade de si
tem o vigor das
verdades –

nada mais
senão unir
o ser ao tempo
o dever ao devir.

§

A morte de um homem livre


A ‘L’ MAIÚSCULO QUE DEVEMOS À PALAVRA ‘LIBERDADE’ É TÃO PROVISÓRIO QUANTO NECESSÁRIO

I.

um tempo cego
descortina –
desgarra-se
impassível
à rotina:

um homem livre
está morto
e minha mente vaga
na neblina virgem
do dia.


cedo ou tarde
brotaria a lástima
a contrapelo
de nossos gritos –
a contratempo
de nossos apelos 
a vida lavra
o momento
da palavra:


                       morto.

vã é a luta
(é sabido de tudo):
sobretudo o luto
bebeu e brindou
sua cota de versos.


nova é a batalha
rasgada com a navalha
no horizonte
do hoje;
na aurora da hora
que desatina o
presente
é preciso estar vivo
é preciso ter força
matar o cinismo
jovem
antes que sepulte
a ideia de um homem
junto com seu corpo.

II.

do palácio
um inimigo da liberdade
brinda a coragem
do homem livre;
a palavra ‘humanismo’
ressoa pálida
entre seus lábios.

na catedral fria
o governador
encomenda um réquiem
hipócrita,
reza com ardor
olha ao teto absorto:
agradece a deus
que um homem livre
está morto.

o partido encomendou munição
para homenagear
o homem livre:
a saraivada
será disparada
contra a fila
trêmula
de dissidentes.

um presidente
lamenta
sinceramente
todos riem
todos choram
há palavras
e gestos
o suficiente
para deixar o ar
com náuseas.


mas um homem livre
sabe
que um homem livre
não precisa
de carícias falsas
para dormir tranquilo:
menos ainda
para
MORRER.

III.

gravamos
nossos nomes
nos muros
onde fuzilaram
uma raça
e querem apagar
o único alfabeto
que nos restou –

sentam-se sobre
as dobras
de um milênio
de barbáries
e querem fumar
a memória
da humanidade
em um cachimbo.
o momento é incerto,
                       é obscuro.
mesmo a poesia
queima
na fogueira
do absurdo.
até a crise
está em crise:
a saída
é um tiro surdo,
no escuro.

mas é verdade
que vagamos demais
sobre a vala comum
da humanidade
para esquecermos
por vaidade
e tão cedo.

§

poema shibbolet II (experimentação)

de acordo com a bíblia (juízes 12:1-7), na guerra travada entre os efraimitas e os galaaditas, os efraimitas eram reconhecidos (e consequentemente mortos) por não conseguirem pronunciar a palavra 'shibbolet' (pronunciavam 'sibbolet'). hoje, diz-se que um shibbolet é a palavra de uma língua qualquer cuja pronunciação é impossível para estrangeiros. há muitos casos históricos e fictícios de genocídios baseados na prova do shibbolet: distinguia-se o outsider por uma frase ou palavra e, em seguida, o matava.

o poema abaixo se utilizou de shibbolets em catalão, português, dinamarquês, russo, polonês, castelhano, frísio, finlandês e holandês.


schibbolet II
william zeytounlian

Setze jutges d’un mengen
Fetge d’un penjat
Pão, garbanzo, scheveningen,
En griene tsiis wa’t dat.

Soczewica, net sizze kin
Francisco höyryjyrä
Rødgrød med młyn
Doroga, fløde, brea.

Se a fenda boquiaberta
Abismasse o verbo enfim
Ao intent d’alma inquieta

No words would claim within.
Encore…
dans la rive
        sonnerait
Son
profond
 schibbolet.

§

poema shibbolet


shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhibbolet   
§

[Do pacto dos viventes]

Do pacto dos viventes
O ato final seja selado

Que a sela dos carros
De sol nenhum coroado
Hasteie enfim o surdo
E pálido murmúrio
Que treme nervoso e silente
Dentre os gritos vãos
De nossas chagas.

§


Festa monstra
(detalhe epigramático)

asco? nojo?
aqui não!
não hoje!

resistir ao
doce gozo
é coisa pouca,
é coisa vã:

eu adoro
o cheiro
de napalm
de manhã.

§


atraso e eminência

beckett cioran proust certeau rochefoucauld agamben
todas as frases que li nos últimos 10 anos são viscerais
absolutamente vitais. imprescindivelmente exigentes
é preciso que se viva de alguma forma           aquilo
as penas mergulhadas nas trevas do presente
intempestivamente exige-se um sacrifício ou gesto
shakespeare dostoiévski foucault levi baudelaire


                          não sei o que fazer.


§

Sobre a História do silenciado genocídio armênio, assista ao perturbador Aghet - Um Genocídio (2010), de Eric Friedler.



.
.
.

Arquivo do blog