HOMENAGEM A JOHN CAGE - Zeitkunst 2012 - Rio de Janeiro
Nesta sexta-feira, 16/11, no Rio de Janeiro, começa a turnê brasileira do Festival Zeitkunst 2012.
A performance será no auditório da Rádio MEC às 17:00, com entrada gratuita. O festival homenageia John Cage este ano, centenário de seu nascimento.
Com os poetas Johannes CS Frank (Inglaterra), Max Czollek (Alemanha), Maya Kuperman (Israel) e Ricardo Domeneck (Brasil).
Músicos: Luiz Gustavo Carvalho (Brasil, piano e piano preparado), Caspar Frantz (piano preparado) e Julian Arp (violoncelo).
No programa, peças de Cage como "Music for Marcel Duchamp" e "In a landscape", além de uma homenagem a ele, composta pelo húngaro György Kurtág (n. 1926).
Não me lembro ao certo da última vez que viajara ao Rio de Janeiro. Eram 4 anos sem vir ao Brasil, mas, creio, 7 sem visitar os amigos na capital carioca. Caminhar por Copacabana ao sol, numa manhã, ouvindo todos os passantes tagarelando naquela língua que Manuel Bandeira um dia chamou de "carioca federativo", foi tremendo. Percebi como me fazia falta vir ao Brasil com mais frequência.
A primeira vez que visitei o Rio de Janeiro foi na virada do ano de 1995/1996. Fiquei hospedado na casa de meu amigo (o hoje arquiteto) Rafael Segond, que eu conhecera nos Estados Unidos, quando lá estudávamos, os dois com 16 ou 17 anos. Essa viagem foi muito importante para mim, na verdade. Os pais de Rafael, Otávio e Cláudia Segond, tinham uma coleção maravilhosa de música brasileira, haviam vivido muitos anos na França, formam uma família adorável, com quem aprendi muito. Naquele mês, em seu apartamento próximo do Aterro do Flamengo e do Largo do Machado, quando eu tinha apenas 18 anos, pude ouvir e mais ouvir, discutindo com eles, discos de Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros.
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Foi nessa viagem que também conheci outro amigo importante em minha vida, o hoje cineasta brasiliense Pablo Gonçalo (diretor dos curtas Vestígios, de 2006, e o recém-lançado Roteiro para minha morte), com quem mais tarde dividiria apartamento em São Paulo. Foi muito bom rever Rafael Segond, poder passar alguns dias com Dimitri Rebello, Marília Garcia e Carlito Azevedo, a quem finalmente pude conhecer um pouco melhor, já que nos encontráramos até então apenas duas vezes. Cada vez mais percebo a beleza do que Ron Silliman chama de "uma comunidade de poetas", algo que, vejo mais e mais, pode suster uma vida.
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O LANÇAMENTO NO RIO DE JANEIRO
A Livraria Berinjela é um dos lugares mais simpáticos em que já li, gostei muito, imensamente, de conhecer seu dono, o nosso parceiro editorial Daniel Chomsky. O lançamento da Modo de Usar & Co. 2, assim como Monodrama (Carlito Azevedo), Ambiente (Walter Gam), Mapoteca (a reunião dos livros de Felipe Nepomuceno) e meu Sons: Arranjo: Garganta foi muito bom. Foi um prazer poder conhecer pessoalmente poetas que respeito, como Lu Menezes e Júlio Castañon Guimarães, assim como finalmente encontrar, pela primeira vez, a poeta carioca Juliana Krapp. Também encontrei pela primeira vez a poeta Masé Lemos, com quem já tive debates interessantes. Revi Laura Erber, a quem eu conhecera quando nós lemos no Festival de Poesia de Buenos Aires, em 2006, conheci poetas com quem me correspondo e mantenho um diálogo, como Franklin Alves Dassie, e alguns colaboradores da Modo de Usar & Co. impressa, como os simpáticos Ismar Tirelli Neto e Nora Fortunato. Várias pessoas queridas e interessantes estiveram na livraria, pessoas com quem gostaria de ter tido mais tempo de conversa. Conheci Walter Gam, que lançava seu livro de estreia; Márcio-André, com quem divido o interesse gigantesco pela pesquisa sonora; revi Guilherme Zarvos, que conhecera em Berlim; conheci Paulo Scott, Isadora Travassos, com quem conversei muito sobre Berlim, e Valeska de Aguirre, que organizou com Marília Garcia a antologia A Poesia Andando: 13 Poetas no Brasil (Lisboa: Cotovia, 2008). Ambas trabalham na editora 7 Letras, escrevem (em 2007, Valeska de Aguirre lançou o bonito Atos de repetição) e traduzem. Os simpáticos editores da revista Bliss estiveram na Berinjela, Lucas Matos e Clarissa Freitas, trouxeram meu exemplar da revista com a qual colaborei com um poema. É difícil mencionar uns e não todos, se não menciono todos, perdoai, é culpa do fluxo de emoções dos acontecimentos dos últimos dias. Conheci também o próprio editor da 7 Letras, o querido Jorge Viveiros de Castro. Não poderia deixar de mencionar meu caro editor, o generoso Augusto Massi, que tornara possível minha vinda ao Brasil para os lançamentos.
Por volta do meio-dia, Carlito Azevedo e eu fizemos uma leitura, acompanhados de Ismar Tirelli Neto. Carlito fez sua já clássica leitura do poema "Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno"; Ismar leu dois de seus belos poemas (quando Ismar acerta a mão, os textos são realmente memoráveis) e eu encerrei a leitura, não apenas com poemas meus, abrindo minha leitura com o poema "O cineasta do Leblon", de Hilda Machado (1952 - 2007), texto que abre também o segundo número impresso da Modo de Usar & Co., meu poema "Linear" e encerrei com o poema "Receitas para engolir e curar o fracasso", de Leonardo Martinelli (1971 - 2008). Foi minha homenagem a estes dois poetas, que eu gostaria muito de ter conhecido.
De Hilda Machado conhecemos apenas 6 poemas, dois publicados na Inimigo Rumor e 4 publicados agora na Modo de Usar & Co. 2.
Leonardo Martinelli e eu estávamos em contacto mais constante nos últimos meses de sua vida, por mensagens eletrônicas. Ele foi muito generoso comigo em vários momentos. Foi com muita tristeza que soube de sua morte.
Os próximos dias foram passados na companhia de Marília Garcia, fazendo planos e mais planos de colaboração, com Carlito Azevedo, conversando sobre poesia, poetas, poética.
No dia 13, Dimitri Rebello e Silvia Rebello lançaram os quatro primeiros números de seu novo selo, a Coleção Compacto Simples, que reúne o trabalho literário de escritores mais conhecidos como compositores de música popular. Os primeiros números trazem dois contos (Lado A e Lado B) dos escritores/compositores Dimitri Rebello, Fernando Paiva, Flávia Muniz e Ismar Tirelli Neto.
Escrevo sobre os dias e o lançamento em São Paulo na próxima postagem. Encerro com o poema de Leonardo Martinelli.
POEMA DE LEONARDO MARTINELLI
Receitas para engolir e curar o fracasso
Origem, compra, preparo e sabor
1. Ave sertaneja de porte médio fibrosa, rija de vida noturna
Preços: vinte e sete contos o quilo no Mercadão de Madureira ou
trinta e sete (ágio de dez paus) nos açougues febris da rede Mundial
O jeito é pegar um 254 na madruga ou encarar de frente o trem da Central
2. Embrulhe o fracasso com jornal de ontem
3. Afogue duas postas numa panela de barro contendo dois litros de vinho barato
Salgue e asse em fogo alto
Enfeite o prato com uma dúzia de
amóreas secas + 100 g de fios de óvulos
4. Aí vai ele numa baixela dourada ridícula - duas palavras em francês fajuto farão sorrir amarelo
o rapaz de meia-idade e enrubescer as bochechas gentis suburbanas à mesa
Cheguei ao Rio de Janeiro na noite de quinta-feira, após dois voos, o primeiro de Berlim a Madri e o segundo, muito cansativo, de Madri ao Rio. Na noite de quarta-feira ainda tive que discotecar em Berlim, pois era quarta-feira, a noite do evento semanal que coorganizo. Fui para o clube com malas e às 5 da manhã peguei um táxi para o aeroporto.
Ao chegar ao Rio, por volta das oito da noite, o mundo despencava em água, a cidade toda alagada. Chegar a Copacabana, onde devia encontrar meus queridíssimos Dimitri Rebello e Marília Garcia para jantar (a quem não via há 4 anos) foi uma maratona. Revê-los fez tudo valer a pena muitíssimo. Para completar o encontro, estava também Silvia Rebello, a irmã de Dimitri. Marília me aguardava com uma cópia do segundo número da Modo de Usar & Co., que está linda, especialmente com aquela capa em que sorri O Moço, meu moço. Duplo orgulho.
Dimitri é um amigo de longa data, de outros carnavais e também de outras quartas-feiras de cinzas. Um cantautor e poeta que respeito, já escrevi sobre ele aqui, quando ele gravou a canção "Mercado Negro", uma de minhas favoritas. Marília, como todos sabem, é coeditora da Modo de Usar & Co., além de responsável pelo seu aspecto gráfico e uma das criaturas mais doces que conheço. Sou leitor admirado de seu trabalho e compartilhamos a obsessão por alguns poetas, especialmente o francês Emmanuel Hocquard, que ela vem traduzindo lindamente. Já disse isso ao ar livre, repito-o aqui em letras: quando se trata do trabalho destas três mulheres - Marília Garcia, Angélica Freitas e Juliana Krapp - minha relação é de respeito mamute, "e se ele vier, defenderei, e se ela vier, defenderei, e se eles vierem todos, numa guirlanda de flechas, defenderei, defenderei, defenderei."
Estar com Dimitri, Marília e Silvia foi uma das melhores recepções que poderia imaginar. Dormi depois como uma pedra no belo hotel que a Cosac Naify reservou para os autores de fora, esperando sol no dia seguinte. O sol veio e caminhei pela praia de Copacabana agradecendo a Deus por cada segundo. Há outro agradecimento a ser feito: ao querido Augusto Massi e à Cosac Naify pelo convite incrivelmente generoso, que fez possível que eu voltasse ao Brasil depois de quatro anos, permitindo até agora que eu pudesse rever amigos como Dimitri Rebello, Rafael Segond, Marília Garcia, Carlito Azevedo, Bruno Learth Soares e os muitos amigos virtuais a quem pude finalmente dar uma face de carne e osso. Esta manhã ocorreu o lançamento lindo do segundo número da Modo de Usar & Co., na Livraria Berinjela de nosso querido parceiro Daniel Chomsky, assim como do meu livro Sons: Arranjo: Garganta, do Monodrama de Carlito Azevedo, do Mapoteca de Felipe Nepomuceno e do Ambiente de Walter Gam. Mas isso é assunto para outra postagem. Deixo vocês com meus queridíssimos Dimitri Rebello e Marília Garcia e vou dormir, dormir no Rio de Janeiro depois de um dia feliz, feliz.