Começa hoje à noite, em São Paulo, e vai até o dia 18 de outubro a Mostra SESC de Artes 08, com uma bela programação voltada para a poesia.
A lista de poetas é invejável, contando com ótimos autores da poesia contemporânea brasileira, como Ricardo Aleixo, Arnaldo Antunes, Angélica Freitas, Chacal, Fabiano Calixto, Leo Gonçalves, Marcelo Montenegro, Marcelo Sahea, Fabrício Corsaletti, Verônica Stigger, Ana Rüsche, entre vários outros.
Participo do projeto "Poema Passageiro", que levará poemas em vídeo para as TVs dos ônibus da cidade de São Paulo. Com curadoria do poeta Ricardo Silveira, que tem um trabalho muito legal na pesquisa de novos suportes para o trabalho poético, estou em ótima companhia: além do próprio Ricardo Silveira, há ainda o excelente poeta Marcelo Sahea, outro pesquisador incansável para a nova poesia verbivocovisual contemporânea.
MOSTRA SESC DE ARTES 08 de 08 a 18 de outubro em várias unidades do SESC e nos ônibus da Grande SP.
dom casmurro c´est moi por tentar diálogo com o fantasma dos natais passados nem "pré" nem "proto" és o "ismo" no Manifesto do Allegro Ma Non Troppo extemporâneo externo excisão de apêndice de prefácio em peça de um ato conheço a trama das minhas unhas que sempre crescem em direção à exit do ex oxigênio exógeno criatura hábil no ex- pectorar-me admiro a graça elefantíaca com que ejectas os obstáculos e disjecta membra sem transplante volto o rosto e vejo num instante não Eurídice evaporar-se mas Hades explodir em riso dont mind me eu me infecciono à toa e só hoje entendo sincronia histórica: diá- logo com monólogo de ex à distância de telefone quando qualquer dia é pós-tudo.
Dizem: questão de atitude. Com um jogo de linguagem talvez reposicionar os fatos numa sentença mais generosa com os meus limites. Sussurrar "One art" pelo dia todo e acalmar-me, loteria das perdas, descoberta do usucapião das minhas falhas. Vamos, Cage ensinou: we possess nothing. Cantarola com Nina Simone, vamos, your heart is not in your pocket, há outrens alhures, vá lamber as feridas em outro canto, cachorro, este tapete é meu. Ignore os últimos versos de Stevens para "Sunday morning" e comece do início, Ricardo, onde a dor acaba, com a voz rouca, vamos: "Birds flying high..."
Feriado nacional na Alemanha. Dia da reunificação. Vento gelado, de cortar cada um dos pêlos que guarnece a orla das pálpebras. País unido na superfície fria da terra alemã, onde ninguém cava muito fundo por medo daquilo que pode encontrar, e se o faz, o faz com luvas, fobia alemã das mãos sujas. Com o amigo Jonas Lieder, café-da-manhã em nosso boteco berlinense de escolha, na velha Berlim Oriental em que vivemos. Bonde até a Friedrichstrasse, visita ao Berliner Ensemble para ver a programação, passagem melancólica pela estátua de Brecht. Caminhada ao longo do rio Spree até o Parlamento e o Portão de Brandemburgo, onde uma bandinha alemã qualquer canta em inglês, patrocinada pela Coca-Cola.
Os passantes empanturram-se de cerveja e salsichas. Berlim, Berlim, ângulo privilegiado para a contemplação do campo de batalha ideológico contemporâneo, cidade pós-cratera.
Jonas Lieder e eu decidimos então ir ao cinema, para ver o filme de Uli Edel sobre a Facção do Exército Vermelho, baseado no livro de Stefan Aust, sim, em pleno dia da reunificação contemplar imagens da divisão alemã, num filme em que o melhor, provavelmente, é a interpretação brilhante da atriz Martina Gedeck para a personagem da jornalista e escritora Ulrike Meinhof, que em 1970 participa da fundação do grupo de guerrilha urbana.
Hoje, querida Berlim, quero ouvir as vozes alemãs, mas aquelas que Denise Stoklos no contexto brasileiro chamou um dia de vozes dissonantes, em meio à hipocrisia ao sul do Equador, tristeza de São Paulo, tristeza de Berlim, é como um banho frio amar duas cidades tristes.
(Joseph Beuys)
(Heiner Müller)
(Hannah Höch)
(vídeo para a canção "Geld/Money" do grupo Malaria!)
Die Tödliche Doris - Naturkatastrophenballet (1984)
(Performance verbivocovisual de David Bowie para seu poema "Life On Mars?")
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David Bowie nasceu em Brixton/Londres, em 1947, como David Robert Jones. Seu primeiro álbum foi lançado em 1967, mas foi com Space Oddity (1969) que David Bowie chamou a atenção do público e crítica, tornando-se um dos mais inventivos poetas verbivocovisuais ativos na década de 70. Neste mesmo ano, une-se a Mary Finnigan e Christina Ostrom para iniciar sua série de eventos e intervenções semanais em um clube de Londres, que em pouco tempo se tornaria o "Beckenham Arts Lab", fazendo de David Bowie, desde o princípio, herdeiro das estratégias dos poetas-performers ligados ao Cabaret Voltaire e à revista DADA.
(Performance verbivocovisual de David Bowie para seu poema "Space Oddity")
É importante declarar que o uso que faço do conceito de "verbivocovisual" neste contexto é consciente e deliberado. Não como foi teorizado ou praticado por Joyce ou o grupo Noigandres, em que que o "voco" era uma espécie de função dormente à espera de ser ativada pelo leitor, mesmo assim de olhos silenciosos na página; ou o "visual" também como emanação do verbal escrito - aspectos que vejo, de certa forma, todos incluídos no próprio verbo; o uso que faço do conceito de verbivocovisual para alguém como David Bowie implica o verbal como o trabalho com a linguagem, o vocal verdadeiro da garganta humana e o visual como performance e gestual, seja ao vivo ou em vídeo. Trata-se de uma tentativa de repensar este conceito, fora de um contexto estritamente literário. Aos que estiverem interessados nos termos em que este debate tem sido conduzido, seria interessante ler minhas postagens sobre Arnaut Daniel e Björk na franquia eletrônica da Modo de Usat & Co.
Em 1970, lança o segundo álbum, The Man Who Sold The World, seguido de Hunky Dory em 1971, no qual Bowie faz um tributo a algumas de suas influências, como na canção "Queen Bitch", dedicada ao poeta verbivocovisual Lou Reed e à sua banda The Velvet Underground, assim como "A song for Bob Dylan", homenagem direta ao poeta-trovador estadunidense, e ainda a canção "Andy Warhol".
O trabalho poético verbivocovisual de David Bowie atingiria um de seus momentos de maior criatividade, em escrita, música e performance em 1972, com o álbum conceitual The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Seu sofisticado trabalho com a linguagem e com a música em performance continuaria no ano seguinte com Aladdin Sane.
(Performance verbivocovisual de David Bowie para seu poema "Ashes to ashes")
Em 1974, David Bowie muda-se para Berlim, lançando nos próximos anos vários importantes álbums de poemas sonoros, como Diamond Dogs (1974), Young Americans (1975), Station to Station (1976) e Low (1977), além de outros nas décadas que se seguiram.
David Bowie é herdeiro da tradição que teve em Arnaut Daniel (1150 - 1210), Bertran de Born (1140 – 1215), Raimbaut d`Aurenga (1147 – 1173) e outros poetas occitanos seu momento de hegemonia e ápice artístico no trabalho do poeta como escritor, vocalizador e performer. Com o naufrágio desta cultura occitana durante a Grande Peste do século XIV e as transformações políticas da Europa, a partir do Renascimento há um gradual deslocamento de atenção e prestígio (ou seja, hegemonia crítica), levando o poeta a privilegiar o trabalho poético como escrita acima de tudo, ainda que a tradição da poesia oral e cantada tenha seguido saudável. O ápice desta hegemonia ocorre em 1897, com o Coup de dés mallarmeano, momento em que claramente o poeta se torna consciente da página como campo de composição poética mais do que mero registro do oral, gerando a tradição a que pertencem poetas visuais, concretos e conceituais do século XX e XXI. No entanto, esta mesma hegemonia receberia seu primeiro golpe mortal pouco menos de 20 anos após a criação de Mallarmé, com os poetas-performers do Cabaret Voltaire, que religam a poesia a sua tradição pluralista medieval. Hoje, convivem a duas tradições de forma criativa, ainda que o diálogo crítico entre elas ainda seja parco, sendo feito em geral pelos próprios praticantes, poetas que buscam unir as duas tradições, como por exemplo John Cage e Jackson Mac Low, levando-nos ao processo em que começa a surgir cada vez mais o novo poeta verbivocovisual, que realmente busca um equilíbrio entre estes três elementos, como o próprio Augusto de Campos pôde fazer a partir da década de 90, ou poetas como o "textualista" Bernard Heidsieck, o poeta-vocalizador Jerome Rothenberg, o poeta corporal Henri Chopin ou o poeta multimedieval David Bowie.
"To cast doubt on each & every `natural´ construction of reality. Not just by articulating the gap between the sign & the referent - or theatracalizing that gap by avoiding meaning altogether - but to show off a more systematic idea of language as a system & play of differences, with its own rules of functioning."