terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poema inédito em livro, com título longuíssimo e todas as minhas obsessões recorrentes, que talvez irrite, mas só quem já estava irritado

Em 2008, quando a língua portuguesa foi o foco do Festival de Poesia de Berlim, com poetas do Brasil, Portugal e países lusófonos da África, alguns de nós fomos convidados a gravar poemas para o portal Lyrikline, que se dedica a registrar leituras de poemas nas próprias vozes de seus autores, armazenando ainda traduções para os textos em várias línguas. Pediram que selecionássemos poemas que tinham pelo menos tradução para o alemão, por isso concentrei-me em poemas do livro Carta aos anfíbios (2005) e do livro a cadela sem Logos (2007), mas incluí alguns inéditos que tinham sido traduzidos especialmente para o festival. Entre eles, havia dois poemas que naquela época eram importantes para mim, pois eu sentia neles uma espécie de momento de transição no meu trabalho. As obsessões estavam todas ali, mas surgindo de outra forma. Um deles alguns de vocês talvez conheçam, chama-se "Mula", foi publicado no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., e já foi também lindamente musicado/vocalizado pelo duo Tetine:


"Mula" (2007)
Texto de Ricardo Domeneck.
Voz e composição do Tetine.
Vídeo de Eugen Braeunig.

O outro poema chama-se "Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria", e é quase exagerado na forma como tentei concentrar nele toda a minha obsessão com a historicidade poética. Iniciei-o mesmo em Budapeste, quando lá estive em 2007, apresentando-me como DJ. Fiquei alguns dias na cidade, lendo seus poetas (como Miklos Radnóti), perambulando, escrevendo. Tem muitas das características dos poemas do livro Sons: Arranjo: Garganta (2009), a composição e encadeamento altamente paratáticos, o sequestro de elementos da tal de Cultura, seja pop ou não, mas da mesma maneira que um poeta romântico do século XIX teria usado a tal de Natureza. Não é apenas um poema sobre a historicidade poética. É um poema à historicidade poética, ante a historicidade, até a historicidade, após a historicidade, com a historicidade, mesmo contra a historicidade, mas também da historicidade, desde a historicidade, na historicidade, entre a historicidade poética e algo outro, para a historicidade, perante a historicidade, pela historicidade, sob a historicidade, sobre a historicidade, atrás/de trás/por trás da historicidade poética. Só uma preposição fica de fora: sem. É tudo que depende da historicidade (saravá Walter Benjamin!), mas nunca sem ela. Não é composto por metáforas... é composto por figuras, na minha leitura pessoal do conceito da teologia cristã. Como já tentei elaborar em vários artigos e aqui o repito: conceito de figura, em minha pesquisa por uma poesia que se faz consciente de sua historicidade, FIGURA, não metáfora, talvez funcionando como metonímia, sinédoque talvez?, FIGURA, em que um acontecimento histórico liga-se a outro acontecimento histórico, prefigurando-o, dois fatos distintos e temporalmente segregados prevendo um último acontecimento que revelaria seus significados. Dito tudo isso, abaixo você tem meu poema irritante para os que já estavam irritados; porque talvez não entendam ou reconheçam minhas figuras; talvez porque acham que estou apenas name dropping para ser pop. Sei que é irritante para qualquer leitor ter que ficar googlando nomes ou fatos para "entender" algo. Compreendo, aceito. Evito quanto posso. Mas não há certas coisas que a poesia nos ajuda a descobrir? Nos ajuda a passar a saber? Este poema, por exemplo, utiliza uma figura bastante específica ao final: a da morte do poeta húngaro Miklos Radnóti. Utiliza vários elementos biográficos e poéticos, por exemplo com o fim (a morte) de Radnóti, que foi fuzilado por nazistas em 1944, mais tarde reconhecido, ao ser exumado, por encontrarem no bolso de sua camisa seus últimos poemas, ligando-o figurativamente ao fim do poema "A step away from them", de Frank O´Hara; conectando, em arco histórico, Joaquim de Sousândrade e Federico García Lorca como poetas nova-iorquinos; não são metáforas, são figuras. Ao mesmo tempo, questiono nossa composição narrativa para a História, ao unir o Twin Peaks (1990), de David Lynch, ao imperador Xerxes I da Pérsia, Heródoto e as graphic novels. O poema talvez seja difícil, chato, peço perdão por isso, mas não peço desculpas. Beijo em vossas almas por vossa paciência com minhas ladainhas. Eis o poema:


Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria

Oblivion não
me assusta,
Claudette Colbert.
Evito praticar o
nado-sincronizado
no formol das evidências
fotográficas de
moi-même & myself.
Se possuísse na geografia
residência fixa em Twin Peaks,
sei que talvez os tupiniquins
elegessem os tons e timbres
de minha sinfonia de ossículos
para martelo, bigorna e estribo:
echolalaica
do silenciável
se a alfândega
rege as adegas
da anomalia.
Meus autobiógrafos
impossibilitados de
narrar meu martírio
em Montmartre,
como não houve
sobreviventes
com meu nome
em Guernica
ou Treblinka.
Em meio à hipoteca
dos meus despejos
não invoco
Hiroshima mon glamour.
Escuta aqui, Titanic:
tão Aristóteles quanto
Heródoto ou aritmético
o erótico,
todo mundo
sabe que o manual
de dança
conspira pelo decreto
dos pés
como obsoletos.
Não venha
mimetizar-me o miasma.
Qualquer Xerxes
a chicotear o mar
sabe que o olvido de Myrna Loy
não é o ouvido de Mina Loy
e Góngora não serve gôndolas
a canais de televisão, jornais
vespertinos em dia
crônico do hodierno
se é
hipótese a manhã.
Tal qual
este planeta
que aceita satélites
ou ser terceiro
em relação
a um sol
localizável mesmo
em seu espiralar
de eixo,
que não
pausa a cada
0:00
ou advoga o
stand by
do meu sono.
Buda não
é Manhattan,
feito aquele Guesa
em vertigem no Stock
Market
ou Lorca
histérico no Harlem.
Narrar o passado
é tal ginástica odisséica,
& ! que ginga, que físico
deste acrobata do empírico.
Eu aceito, sim, da totalidade
o resquício, poderia escrever
sobre Nova Iorque,
Manaus ou Poughkeepsie
mas nunca o pús nos pés
lá, isto aqui é Budapeste,
não as Ilhas Mauritius.
Hoje, ou em 1956, jamais
corresponder-se-ia
como os Poems
by Pierre Reverdy

no bolso de O´Hara,
então aceito a ladainha
da lingueta sem chave
à resistência da História
e a cartografia
inelegível, o mundo.
Sim, Budapest não é New York
& meu miocárdio está no bolso:
pocket book de Miklos Radnóti.

.
.
.

5 comentários:

Carleto Gaspar 1797 disse...

Curti!

Ricardo Domeneck disse...

Meu caro,
então o poema já valeu!
Obrigado.
abraço
Ricardo

adeilton disse...

olá Ricardo D.
TUDO BEM?

"mula" é excelente!
parabéns! Mas o meu preferido é PEQUENO ESTUDO SOBRE OS CIÚMES.
Abraço metafórico
ADEILTON OLIVEIRA

adeilton disse...

olá Ricardo D.
TUDO BEM?

"mula" é excelente!
parabéns! Mas o meu preferido é PEQUENO ESTUDO SOBRE OS CIÚMES.
Abraço metafórico
ADEILTON OLIVEIRA

Ricardo Domeneck disse...

Obrigado, Adeilton!

abraço

Ricardo

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