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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Textos dos 3 autores já confirmados para o Festival Artes Vertentes 2014



Festival Artes Vertentes 2014 - Tiradentes, Minas Gerais 
- de 12 a 21 de setembro. 

Curadoria de literatura: Ricardo Domeneck. 
Direção artística: Luiz Gustavo Carvalho.

Já anunciadas as presenças do brasileiro Leonardo Fróes (n. 1941) e do ucraniano Andriy Lyubka (n. 1987). Confirmada hoje também a participação do maranhense Reuben da Cunha Rocha (n. 1984). Leia abaixo um poema de cada um dos autores. Os outros escritores, brasileiros e internacionais, serão anunciados ao longo dos próximos meses.




Aberto para os dedos de Deus
Leonardo Fróes

se eu fizer pelo menos a manhã começar
dos meus cabelos e tirar mais um pouco
da última fatia e não ficar lamentando
a primeira oportunidade perdida, e se eu não der
bola para os preconceitos que me reduzem até
eu mesmo achar que sendo um ser humano eu me explico
na complicação cósmica desses bagaços distantes
que são tão simples,
se eu realmente não puser mais o pé na fantasia
do dia que está à minha espera e represa
tantas demonologias ferozes que eu esqueço de olhar,
se eu não ficar completamente maluco
por isso e o desejo de cumprimentar
deus em pessoa.



§


[Essa mulher em seu banheiro, depilando-se]
Andriy Lyubka

Essa mulher em seu banheiro, depilando-se,
celebrará o vigésimo-quarto aniversário amanhã.
Talvez "celebrar" seja palavra ruidosa demais,
ela simplesmente telefonará para pai e mãe
e fará suas orações antes de ir para a cama.
Você não entende as orações, nem seus olhares misteriosos,
a língua que usa nos menus de seu telefone.
Vocês não estão predestinados a ficar juntos, e é melhor assim,
você diz para si mesmo: "é melhor assim".
Em momentos de ternura incomum, você diz
que acredita que eles não têm armas nucleares,
destruição em massa nenhuma, e sente-se um idiota.
E então você tem um sonho no qual o corpo dela
cheira a armas nucleares, como os desertos, as canções dos ciganos.
"Mas por que ciganos?", você se pergunta na manhã seguinte,
pena, não há resposta para esta pergunta. Você não sabe nada
sobre a infância dela, sobre o território em que recebeu sua 
              [educação em língua inglesa,
e por que exatamente ela escolheu você e não outro.
Vocês estão juntos há três semanas. E às vezes você examina 
              [o mapa-múndi,
avaliando a localização do Irã, seus vizinhos,
seus recursos, naturais e humanos.
Você considera que, com o passar do tempo, a compreenderá melhor.
Às vezes, você faz perguntas sobre o Irã, e promete a ela que visitarão 
             [o país juntos,
e ela ainda cheira a verão cigano e armas nucleares,
o deserto dela é entre vocês dois, a noite aproxima-se,
e ela está em seu banheiro, depilando-se.

(tradução de Ricardo Domeneck, a partir da tradução inglesa).

§


Praça do Sol às 3 da tarde
Reuben da Cunha Rocha

Praça do Sol às 3 da tarde
risca o fósforo do incendiário
Praça do Sol às 3 da tarde
abre as narinas p/ o fedor dos muros
Praça do Sol às 3 da tarde
esconde a senha dos holocaustos
Praça do Sol às 3 da tarde
enerva cada coração covarde
Praça do Sol às 3 da tarde
aponta os mísseis à glória
Praça do Sol às 3 da tarde
depila as tuas rameiras
Praça do Sol às 3 da tarde
apascenta teus ambulantes
Praça do Sol às 3 da tarde
despista o fumo dos policiais
Praça do Sol às 3 da tarde
oculta o raio do cego
Praça do Sol às 3 da tarde
acode o baque das ondas
Praça do Sol às 3 da tarde
distrai o tédio do pipoqueiro
Praça do Sol às 3 da tarde
loas ao biquíni túrgido
Praça do Sol às 3 da tarde
acorda a renca dos ventos
Praça do Sol às 3 da tarde
diz a gíria do guardador de carros
Praça do Sol às 3 da tarde
toma gosto c/ as empregadas
Praça do Sol às 3 da tarde
pendura a nuvem nos galhos
Praça do Sol às 3 da tarde
trocados ao vendedor de coco
Praça do Sol às 3 da tarde
ouvido ao reggae das bacantes
Praça do Sol às 3 da tarde
Praça do Sol às 3 da tarde
Praça do Sol às 3 da tarde 
devora a muvuca das gentes
cede teus bancos às fodas
legisla a rixa dos traficantes
senhora injuriada das trapaças
abre tuas pernas p/ os pivetes
engole o mijo da criança

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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um poema de Andriy Lyubka


Andriy Lyubka é um poeta, prosador e crítico ucraniano, nascido em 1987. Publicou os livros Oito meses de esquizofrenia (2007), pelo qual recebeu o prêmio destinado em seu país ao melhor livro de estreia do ano, e ainda Terrorismo (2008), a coletânea de contos Killer (2012, já traduzida para o polonês) e sua última coletânea de poemas, 40 Mangos e Uma Gorjeta por Cima (2012). Uma antologia de seus poemas foi traduzida para o alemão e publicada na Áustria, com o título Notaufnahme (2012).

Participou ontem à noite da sexta edição do READING: a night of text / sound / video, organizada por mim e por Black Cracker aqui em Berlim. Participaram da leitura ainda os poetas Jon Sands (de Nova Iorque, via Skype) e Matilde Campilho. A noite encerrou-se com uma performance de Markus Nikolaus.

Leia outro poema de Andriy Lyubka, em tradução direta do ucraniano por Vira Vovk, aqui na Modo de Usar & Co.

§

POEMA DE ANDRIY LYUBKA


Essa mulher em seu banheiro, depilando-se,
celebrará o vigésimo-quarto aniversário amanhã.
Talvez "celebrar" seja palavra ruidosa demais,
ela simplesmente telefonará para pai e mãe
e fará suas orações antes de ir para a cama.
Você não entende as orações, nem seus olhares misteriosos,
a língua que usa nos menus de seu telefone.
Vocês não estão predestinados a ficar juntos, e é melhor assim,
você diz para si mesmo: "é melhor assim".
Em momentos de ternura incomum, você diz
que acredita que eles não têm armas nucleares,
destruição em massa nenhuma, e sente-se um idiota.
E então você tem um sonho no qual o corpo dela
cheira a armas nucleares, como os desertos, as canções dos ciganos.
"Mas por que ciganos?", você se pergunta na manhã seguinte,
pena, não há resposta para esta pergunta. Você não sabe nada
sobre a infância dela, sobre o território em que recebeu sua 
              [educação em língua inglesa,
e por que exatamente ela escolheu você e não outro.
Vocês estão juntos há três semanas. E às vezes você examina 
              [o mapa-múndi,
avaliando a localização do Irã, seus vizinhos,
seus recursos, naturais e humanos.
Você considera que, com o passar do tempo, a compreenderá melhor.
Às vezes, você faz perguntas sobre o Irã, e promete a ela que visitarão 
             [o país juntos,
e ela ainda cheira a verão cigano e armas nucleares,
o deserto dela é entre vocês dois, a noite aproxima-se,
e ela está em seu banheiro, depilando-se.

(tradução de Ricardo Domeneck, a partir da tradução inglesa).

§

Жінка, яка голить ноги у твоїй ванній,
Завтра відсвяткує свої 24.
Хоча «відсвяткує» - заголосно сказано,
Просто подзвонить додому батькам
І помолиться ввечері.
Ти не розумієш її молитов, її загадкових поглядів,
Мови меню в її телефоні.
Вам не суджено бути разом, воно й на добре,
Кажеш собі, воно й на добре.
У хвилини особливої ніжності ти кажеш,
Що віриш, що в них немає ядерної зброї,
Жодної ядерної зброї, і відчуваєш себе придурком.
Потім тобі сниться, що її тіло
Пахне ядерною зброєю, пустелями і циганськими піснями.
Чому циганськими – питаєш себе зранку,
Але відповіді на це немає, ти не знаєш
Як минало її дитинство і де вона вивчила англійську,
Чому обрала саме тебе.
Ви разом три тижні. Часом ти розглядаєш карту світу,
Оцінюючи розташування Ірану, його сусідів,
Природні й людські ресури.
Тобі здається, що розумієш її все краще.
Іноді розпитуєш її про Іран, обіцяєш поїхати туди з нею,
А вона все пахне циганським літом і ядерною зброєю,
І така пустеля між вами, і насувається вечір,
І вона голить ноги в твоїй ванній.

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Nesta quarta, em Berlim: Leitura com Matilde Campilho (Portugal), Andriy Lyubka (Ucrânia), Jon Sands (EUA) e performance de Cunt Cunt Chanel


Nesta quarta-feira, sexta edição do evento que organizo com Black Cracker: READING: a night of text / sound / video, desta vez no clube SchwuZ. Com a presença do ucraniano Andriy Lyubka e da portuguesa Matilde Campilho, assim como o americano Jon Sands lendo via Skype. A noite encerra-se com uma performance de Markus Nikolaus, mais conhecido como Cunt Cunt Chanel. Amostras abaixo. Também me apresento.

Sobre os poetas:

ANDRIY LYUBKA



Andriy Lyubka é um poeta e crítico ucraniano, nascido em 1987. Publicou os livros Oito meses de esquizofrenia (2007), pelo qual recebeu o prêmio destinado em seu país ao melhor livro de estreia do ano, Terrorismo (2008), a coletânea de contos Killer (2012, já traduzida para o polonês) e sua última coletânea de poemas, 40 Mangos e Uma Gorjeta por Cima (2012). Uma antologia de seus poemas foi traduzida para o alemão e publicada na Áustria, com o título Notaufnahme  (2012).

   

Seus poemas foram traduzidos para o húngaro, tcheco, polonês, alemão, inglês, russo e português, neste último caso pela renomada poeta ucraniana Vira Vovk, que vive há décadas no Rio de Janeiro, onde vem traduzindo clássicos e contemporâneos da literatura ucraniana, mais recentemente no volume 25 Poetas Ucranianos: Antologia (Rio de Janeiro: Contraste Editora, 2009), do qual foi extraída, com permissão da tradutora e do autor, a tradução abaixo. Andriy Lyubka publicou ainda em revistas como Kiyvska Russ, SHO, Vsesvit e Potyag-76. O poeta vive e trabalha em Varsóvia, na Polônia.

união

o que significa a união dos escritores
é sem falta fazer assinatura
do jornal ucrânia literária
lembrar os bons tempos soviéticos
quando havia moradias gratuitas
deixar crescer bigodes cossacos
uma vez por ano escrever um artigo
sobre a degradação espiritual da nação
em cada ocasião citar a si próprio
levar colegas para tomar um gole
enxaguando-o com um suco de tomate para dois
inflamar-se no jubileu seguinte
conseguir comer o último sanduíche
ou então embrulhá-lo no guardanapo
e meu deus em toda a vida
não escrever nada que preste

(tradução de Vira Vovk)

:

спілка

що  таке  спілка  письменників 
це  обов`язково  передплатити 
газету  літературна  україна 
згадати  про  добрі  радянські  часи 
про  безплатні  квартири 
відпустити  козацькі  вуса 
раз  на  рік  писати  статтю 
про  духовну  деградацію  нації 
при  кожній  нагоді  цитувати  самого  себе 
водити  колег  на  п`ятдесят  грам 
запивати  одним  томатним  соком  на  двох 
побухати  на  черговому  ювілеї 
встигнути  з`їсти  останній  бутерброд 
а  якщо  ні  то  завернути  в  серветку 
і  о  боже  за  ціле  життя 
не  написати  нічого  путнього


§

MATILDE CAMPILHO



Matilde Campilho é uma poeta portuguesa, nascida em Lisboa no ano de 1982. Estudou Literatura na capital portuguesa e teve poemas publicados no jornal O Globo, na página "Risco" do caderno Prosa & Verso, dirigida mensalmente por Carlito Azevedo, e no quarto número impresso da Modo de Usar & Co.. É inédita em livro. Escreve em português e inglês, e trabalha também com poesia vocal em vídeo. Matilde Campilho vive e trabalha em Lisboa.



§

JON SANDS


Jon Sands é um poeta norte-americano, nascido em Cincinatti, Ohio. Publicou The New Clean (2011). Vive e trabalha em Nova Iorque. Lerá via Skype.


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MARKUS NIKOLAUS a.k.a. CUNT CUNT CHANEL


Markus Nikolaus é um músico e poeta alemão, nascido em Erfurt em 1989. Apresenta-se com o codinome Cunt Cunt Chanel. Vive e trabalha em Frankfurt am Main.


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sábado, 28 de setembro de 2013

Jovens poetas europeus: Andriy Lyubka




Andriy Lyubka é um poeta e crítico ucraniano, nascido em 1987. Publicou os livros Oito meses de esquizofrenia (2007), pelo qual recebeu o prêmio destinado em seu país ao melhor livro de estreia do ano, e ainda Terrorismo (2008), a coletânea de contos Killer (2012, já traduzida para o polonês) e sua última coletânea de poemas, 40 Mangos e Uma Gorjeta por Cima (2012). Uma antologia de seus poemas foi traduzida para o alemão e publicada na Áustria, com o título Notaufnahme  (2012).


Seus poemas foram traduzidos para o húngaro, tcheco, polonês, alemão, inglês, russo e português, neste último caso pela renomada poeta ucraniana Vira Vovk, que vive há décadas no Rio de Janeiro, onde vem traduzindo clássicos e contemporâneos da literatura ucraniana, mais recentemente no volume 25 Poetas Ucranianos: Antologia (Rio de Janeiro: Contraste Editora, 2009), do qual foi extraída, com permissão da tradutora e do autor, a tradução abaixo. Andriy Lyubka publicou ainda em revistas como Kiyvska Russ, SHO, Vsesvit e Potyag-76.


 O poeta vive e trabalha em Varsóvia, na Polônia.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMA DE ANDRIY LYUBKA

união

o que significa a união dos escritores
é sem falta fazer assinatura
do jornal ucrânia literária
lembrar os bons tempos soviéticos
quando havia moradias gratuitas
deixar crescer bigodes cossacos
uma vez por ano escrever um artigo
sobre a degradação espiritual da nação
em cada ocasião citar a si próprio
levar colegas para tomar um gole
enxaguando-o com um suco de tomate para dois
inflamar-se no jubileu seguinte
conseguir comer o último sanduíche
ou então embrulhá-lo no guardanapo
e meu deus em toda a vida
não escrever nada que preste

(tradução de Vira Vovk)

:

спілка

що  таке  спілка  письменників
це  обов`язково  передплатити
газету  літературна  україна
згадати  про  добрі  радянські  часи
про  безплатні  квартири
відпустити  козацькі  вуса
раз  на  рік  писати  статтю
про  духовну  деградацію  нації
при  кожній  нагоді  цитувати  самого  себе
водити  колег  на  п`ятдесят  грам
запивати  одним  томатним  соком  на  двох
побухати  на  черговому  ювілеї
встигнути  з`їсти  останній  бутерброд
а  якщо  ні  то  завернути  в  серветку
і  о  боже  за  ціле  життя
не  написати  нічого  путнього

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Andriy Lyubka em entrevista a programa televisivo ucraniano.

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