Mesmo a memória mingua,
amarelam-se as fotos, acovardam-se,
querem também morrer, e as paredes
onde agarram-se, tal como o último
dedo que tenta fincar-se no parapeito
antes que o corpo caia, carcomem-se,
são comidas pelos ratos, os guaxinins,
e sobra, por fim, apenas o cálcio
que, aos poucos, devolvemos
também à terra, que gira,
se esfria.
Ricardo Domeneck, no hotel, Frankfurt, 20 de março de 2013.
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Grey gardens (1975), de David & Albert Maysles
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Fotografia da holandesa Rineke Dijkstra, que tem retrospectiva
no Museu de Arte Moderna de Frankfurt neste momento.
Assisti ontem à noite, com O Moço, ao último filme de Roman Polanski, The Ghost Writer (2009).
O filme me pareceu um bom suspense de conspiração. Pelo menos, manteve minha atenção o tempo todo e me divertiu muito com os diálogos.
Citação mais divertida:
(Ghostwriter) __ Didn´t you want to be a proper politician?
(Wife of former Prime Minister) __ Sure, didn´t you want to be a proper writer?
As personagens, quase todas britânicas, exercitam a wit no ego alheio o tempo todo. Poucas coisas me agradam tanto quanto um bom conjunto de diálogos, bem atuados. Há também as típicas atitudes de pirraça de Polanski, com suas alusões à administração Bush e Blair.
A admiração que O Moço e eu nutrimos pelo polonês vem em particular de Rosemary´s Baby (1968), um dos melhores filmes de terror já feitos. Este último filme ainda traz uma aparição-relâmpago do ótimo Eli Wallach, além da performance maravilhosa de Olivia Williams, candidata à lista de divas onipotentes em minha cabeça, depois deste filme.
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A exposição de Wangechi Mutu
Antes disso, passamos pelo Deutsche Guggenheim, que tem entrada gratuita às segundas-feiras, para ver a exposição da artista plástica africana Wangechi Mutu, nascida em Nairobi, Quênia, em 1972. Mutu trabalha com nossa velha amiga e estimada técnica da colagem, em imagens que remetem sincrônica e sincreticamente às da alemã Hannah Höch (1889 - 1978).
Wangechi Mutu busca manter a técnica nos níveis de violência, apropriação e resistência, com sua função em diatribe, com um vigor que une a beleza e o grotesco, forma e deformação. Gosto bastante do resultado.
Seria interessante (e necessário) discutir o uso, em geral preguiçoso, que se faz do adjetivo novo na crítica contemporânea. O MAKE IT NEW de Pound segue sendo macaqueado. O conceito de vanguarda como mera fabricação de novidades estilísticas, sem discutir a função que estas novas formas assumiam em seus contextos, leva a essa atitude blasé dos críticos despreparados com que somos obrigados a lidar.
A função da colagem, tal qual foi criada pelos dadaístas, ainda pode fazer sentido em nosso contexto, pois não era mera novidade ou brincadeira para épater les bourgeois, mas crítica a um sistema que persiste, onde a Beleza torna-se, cada vez mais, apenas entretenimento para a elite, decoração para gigantescas salas-de-estar. Podemos discutir a eficiência crítica destas técnicas, mas seria mais interessante a discussão se evitássemos a atitude "de quem acha tudo tão déjà vu, mesmo antes de ver", como diz a canção. Aliás, quando ouço esta canção de Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, sempre me pergunto por que o que canta não joga aquela Água Perrier na cara do chato.
Abaixo, uma pequena seleção de imagens de Wangechi Mutu:
Há alguns artistas conceituais alemães que trabalham também como DJs e produtores de música eletrônica, algo que parece bastante incomum no Brasil, onde tudo é muito separado, especializado, onde poeta é poeta, artista é artista, músico é músico e cada mico-leão-dourado em seu galho.
Aqui na Alemanha, em alguns casos, há uma união entre as duas práticas, e não consigo pensar em outra maneira de ver/ouvir coletivos como o Kraftwerk.
("Heimcomputer", do Kraftwerk, ao vivo em 1981)
Hoje em dia, talvez o melhor exemplo seja o do artista conceitual Carsten Nicolai, mais conhecido por seu trabalho musical sob o codinome de Alva Noto.
("Spray", de Alva Noto - persona musical de Carsten Nicolai)
Outro exemplo bastante conhecido na Alemanha é o do artista conceitual David Lieske, nosso convidado desta semana em nossas intervenções quarta-feirísticas, que se apresenta como DJ, produtor musical e diretor do selo Dial Records sob o codinome Carsten Jost.
Colo aqui apenas alguns exemplos de seu trabalho como David Lieske, o artista conceitual, colhidos pela Rede, e como Carsten Jost, o DJ e produtor musical.
("The Nature Of Your Oppression Is The Aesthetic Of Our Anger", de David Lieske)
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("Il mio solo idolo è la realità", de David Lieske)
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("The metaphysics of youth", de David Lieske)
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("Dice thrown", de David Lieske)
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(Sem título (Anagramma), de David Lieske, 2006)
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("Make pigs pay", de Carsten Jost, persona musical de David Lieske)
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("Love", de Carsten Jost, persona musical de David Lieske)
(Anna & Bernhard Blume, "Wahnzimmer", 1984, série fotográfica em 10 partes, cada foto com 200 x 126 cm. O título é um trocadilho com a palavra "Wohnzimmer", que significa "sala-de-estar" em alemão. O casal de artistas troca o "wohn", de morar, por "Wahn", de loucura, criando algo como "sala-de-esgar")
Visitei esta semana a exposição 60 Jahre - 60 Werke, no Martin-Gropius-Bau, que se propõe a celebrar, como diz o título, com 60 obras os 60 anos da República Federal da Alemanha (1949 - 2009). Este ano de 2009 é cheio de oportunidades para os alemães se pensarem a si e sobre si, também com os 20 anos da queda do Muro de Berlim.
Meus amigos alemães todos, sem exceção, torcem o nariz e se recusam mesmo a pôr os pés no Martin-Gropius-Bau para uma exposição como essa, cheia de overtones nacionalistas. Compreendo e compartilho da repulsa, mas queria ver a exposição por dois motivos: primeiro, por uma curiosidade, digamos, sociológica, pois me interessa a tendência histórica revisionista da sociedade alemã atual; em segundo lugar, ainda que uma mostra coletiva tenha uma curadoria idiota, há sempre a possibilidade de ver bons trabalhos individuais de artistas específicos. E eu não perco a oportunidade de lançar os olhos sobre as obras dos meus alemães favoritos, muitos presentes na exposição, em especial certos grandes da década de 60, como Sigmar Polke, Gerhard Richter, Georg Baselitz, Jörg Immendorf, Joseph Beuys, assim como seres esquisitos e exquisite como Wols (1913 - 1951) e Blinky Palermo (1943 - 1977). A exposição trazia ainda vários artistas que eu desconhecia, alguns muito interessantes, como Karl Otto Götz, além de artistas menos conhecidos fora da Alemanha, como Willi Baumeister, Hans Hartung, A.R. Penck ou o casal Anna & Bernhard Blume.
Assim, diria que valeu muitíssimo a pena da viagem à waste land da Potsdamer Platz e os 7 euros de entrada. Mas seria necessário não possuir um cérebro para ignorar os aspectos irritantes da curadoria idiota desta exposição.
Não vou discutir os aspectos celebratórios e pouco críticos de tal posição comemorativa. Nem mesmo a mentalidade adolescente que levou os curadores a escolherem 60 trabalhos, por estarem celebrando 60 anos da mais recente república alemã, um conceito que demonstra apenas a preguiça de pensar em um conceito mais inteligente e interessante para a exposição. Há algo na exposição que demonstra os aspectos mais deprimentes do mercado de arte atual, algo que percebi claramente também ao visitar em 2007 a exposição USA Today, na Royal Academy of Arts, em Londres.
A presente exposição consiste, basicamente, de pinturas a óleo de grandes proporções. Claro, havia o desejo de uma mostra de narrativa "épica", mas há aspectos mais tristes. Intercaladas a poucas esculturas, caminhar pela exposição é percorrer salas cobertas de pintura após pintura. Em 60 anos de arte neste território, os curradores, oops, I mean: curadores, apresentam apenas um único trabalho em vídeo (bastante ruim, diga-se de passagem) e uma única instalação sonora, do maravilhoso Carsten Nicolai, mais conhecido como Alva Noto. Vivemos um momento de inflação gigantesca no mercado de arte (ainda que a última crise econômica comece a se fazer sentir), que transformou a produção artística nas duas últimas décadas em mero mercado de decoração para as salas-de-estar dos nouveaux riches. A proliferação da pintura de grande dimensão está ligada a isso. Na mentalidade do mercado de arte atual e dessas pessoas, um quadro grande é ("obviamente", eles diriam) mais valioso que um quadro pequeno. É a "arte por metro" e a "arte por quilo". Um amigo meu, videasta alemão, recebeu uma mensagem perturbadora de sua galeria este ano. O galerista pedia a ele que fizesse seus vídeos um pouco mais longos, pois era difícil convencer colecionadores a pagarem por vídeos de poucos minutos. O videasta respondeu com a reação mais lógica, diante de um pedido desses: "Mas meus vídeos são loops!". O galerista simplesmente seguiu com o mesmo raciocínio: "Sim, mas um loop de 5 minutos valeria mais dinheiro que um loop de 2 minutos."
Que esta mentalidade comece a influenciar as coleções de arte de instituições como museus e institutos é apenas uma questão de causalidade.
Nunca foi tão necessária a discussão das implicações est-É-ticas de certas escolhas, assim como o período atual prepara o terreno para a revitalização de algumas práticas que me interessam demasiado, como a necessidade da retomada da performance como prática artística, em um mundo que segue obcecado com a manufatura de objetos e produtos, mundo onde a arte delimita-se à decoração de salas-de-estar, enquanto os preguiçosos seguem falando em "pós-utópico" e os reacionários tentam neutralizar as implicações est-É-ticas dos trabalhos de poetas como os do Cabaret Voltaire. Neste ambiente, o trabalho dos pintores do irônico "Realismo Capitalista", de Gerhard Richter, Sigmar Polke, Wolf Vostell e Konrad Lueg, torna-se incrivelmente atual, tal qual o pensamento de gente como John Cage, Lygia Clark, Joseph Beuys ou Yoko Ono.