De volta a Berlim desde segunda, enfiado na tela do computador com trabalho atrasado. O melhor desta semana de volta ao Berlimbo foi poder assistir ao primeiro concerto de minha queridíssima Anika, a poeta anglo-germânica Annika Henderson. "Officer Officer" é uma espécie de muder ballad enlouquecida. Foi ótimo ouvir uma das canções novas também, do álbum em que está trabalhando.
officer officer
Anika (Annika Henderson)
so i said, officer officer
maybe i saw something, maybe i didn't
maybe i did it and maybe i didn't
maybe i should have lied that day the officer he came on by
maybe i should have held my hands up high and said i did it
but i didn't..
hold my hands up high..
and now it's too late
because my neck is in a noose and my feet are on a chair
and there's hacks and there's hacks and they're everywhere
and there's people and they're shouting murderer
and there's people and they're shouting murder her
so i said, officer officer
i swear i didn't see the dreadful dead
i didn't see them put the gun to his head
i didn't see them stick the knife into his leg
and the officer he said
i didnt say nothing about no knife
and i said oh
and the officer he said oh
and now it's too late
because my neck is in a noose and my feet are on a chair
and there's hacks and there's hacks and they're everywhere
and there's people and they're shouting murderer
and there's people and they're shouting murder her
so i said officer officer,
can i get you a drink
and he gratefully accepted
and as he took the first sip
the poison it dropped from his bottom lip
and i said oh shit
there's an officer on my floor
and now it's too late
because my neck is in a noose and my feet are on a chair
and there's hacks and there's hacks and they're everywhere
and there's people and they're shouting murderer
and there's people and they're shouting murder her
Convite e cartaz de maio de 2011 para a SHADE inc. Para quem nunca os viu antes: a ideia é apropriar-se, reencenar ou parodiar imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Este mês o jogo foi com uma de minhas favoritas: "Le saut dans le vide" (1960) – o salto para o vazio de Yves Klein (1928 – 1962). Eu diria que desta vez foi menos uma paródia que uma homenagem escancarada.
Clique na imagem para aumentá-la.
Maio de 2011. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado e produzido por Niklas Goldbach.
Para quem não reconhece a foto, veja a original de Yves Klein abaixo.
Yves Klein - "Salto para o vazio" (1960)
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Programa ilustrado deste mês
our little tiny private Cabaret Voltaire
Quarta-feira, 4 de maio de 2011.
A noite de ontem foi uma daquelas que ficarão na minha memória por algum tempo, forte o bastante para resistir a todos os goles de tequila por vir. Dois ícones do nosso subterrâneo abriram a noite: um concerto cowpunk do canadense Glen Meadmore, com participação especial da lendária e única Vaginal Davis. Por volta das 2:30 da manhã, uma apresentação divertidíssima e sorridente da nova-iorquina Cherie Lily, deliciosa. Além destas criaturas de outra dimensão, DJ sets dos meus queridos Marius Funk e Dickey Doo. Na plateia: Peaches, Larry Tee, Joel Gibb, Danni Daniels e outros queridos.
Glen Meadmore e seu cowpunk
Cherie Lily e sua houserobics
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Quarta-feira, 11 de maio de 2011.
Na próxima quarta, teremos um show de uma banda de Frankfurt chamada Les Trucs e um DJ set do meu amigo Florian Pühs, vocalista e letrista da banda synthpunk alemã Herpes e também produtor de música eletrônica.
Les Trucs (Frankfurt) - "Waiting for my superhero skills to come out"
Florian Pühs - "Reproduction"
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Quarta-feira, 18 de maio de 2011.
Nesta noite, discoteca nosso companheiro de coletivo Daniel Reuter, também conhecido como Almost Straight, e trago novamente Bryan Kessler a Berlim, um moço muito novo de Colônia, que eu acho muito talentoso. Ficando aos poucos bastante conhecido como singer/songwriter, mas que eu tenho convidado a cada três meses para vir nos visitar e tocar um belo set de tecno. Muito fofo o moço. Ele é da nova geração de rapazes aqui na Alemanha que levam as macacas de auditório à l-o-u-c-u-r-a quando sobem ao palco. Acho muito divertido assistir às/aos groupies que vêm ao clube só para vê-lo discotecar. Bom, eu sou obrigado a entender um pouco... estas madeixas dele são mesmo um sonho. Ele vem para um DJ set, mas mostro aqui a vocês uma das suas canções mais bonitinhas, é a minha favorita.
Bryan Kessler - "Memorization is treason"
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Quarta-feira, 25 de maio de 2011.
Por fim, encerrando o mês, voltam ao clube meus queridos Marius Funk e Simon Zachrau, que discotecam pelo menos uma vez por mês. Dois queridos. Deixo vocês com mix de Marius Funk.
Após os excessos de ontem à noite, nada melhor que litros de água e uma bela dieta de ibuprofeno, na falta de minha querida aspirina. Não é apenas a dor de cabeça cabralina que me assola, mas também aquela deliciosa garganta que decide tornar dolorosa a mera tentativa de engolir uma sopa. Senti vontade de reler aquele poema brilhante do João Cabral, "Num monumento à aspirina", do livro A Educação pela Pedra (1966).
Num Monumento à Aspirina João Cabral de Melo Neto
Claramente: o mais prático dos sóis, o sol de um comprimido de aspirina: de emprego fácil, portátil e barato, compacto de sol na lápide sucinta. Principalmente porque, sol artificial, que nada limita a funcionar de dia, que a noite não expulsa, cada noite, sol imune às leis de meteorologia, a toda hora em que se necessita dele levanta e vem (sempre num claro dia): acende, para secar a aniagem da alma, quará-la, em linhos de um meio-dia.
Convergem: a aparência e os efeitos da lente do comprimido de aspirina: o acabamento esmerado desse cristal, polido a esmeril e repolido a lima, prefigura o clima onde ele faz viver e o cartesiano de tudo nesse clima. De outro lado, porque lente interna, de uso interno, por detrás da retina, não serve exclusivamente para o olho a lente, ou o comprimido de aspirina: ela reenfoca, para o corpo inteiro, o borroso de ao redor, e o reafina.
Enquanto isso, vou também escutando o novo álbum dos nerds britânicos Chemical Brothers. Eu já estava achando que seu trabalho estagnara, depois dos dois últimos álbuns sofríveis, mas este Further (2010), com oito faixas e vídeos, mostra que os master nerds de álbuns inovadores para a música pop como Exit Planet Dust (1995) e Dig Your Own Hole (1997) ainda estão em plena capacidade de fazer dançar. Comento e mostro o vídeo para o primeiro single, além da minha faixa favorita no álbum, chamada "Escape velocity", com 12 minutos, na plataforma digital de nossa SHADE inc, assinando como Kate Boss, meu codinome de DJ. Mostro aqui o primeiro single e vídeo oficial, para a faixa "Swoon".
"Swoon", do álbum Further (2010), dos Chemical Brothers.
Agora acho que vou tomar mais um ibuprofeno, querido irmão químico.
A cidade que eu costumo chamar de Berlimbo existe em um espaço geográfico específico, mas principalmente no tempo: trata-se da cidade que você encontra pelas coordenadas 52° 31′ N, 13° 24′ O no espaço-tempo que se manifesta nestas paragens entre setembro e maio, quando o frio impera. Não se trata, porém, apenas da temperatura, que pode ser horrorosa, chegando às vezes a 20 graus abaixo de zero. O problema principal é a falta de luz. As cidades do norte da Alemanha são escuras e cinzentas durante o inverno. O céu permanece nublado de forma quase incessante.
O inverno berlinense é particularmente brutal, e eu creio por vezes que a única coisa que mantém as pessoas nesta cidade é saber que entre junho e agosto, pelo menos, teremos sob nossos pés uma das cidades mais deliciosas do mundo. Pois, se Berlim pode ser inclemente por cerca de 9 meses, tornando-se o Berlimbo, quando chega o sol esta cidade se torna um dos lugares mais bonitos e prazerosos que você possa imaginar.
Meu caro comparsa Uli Buder, que se apresenta como Akia (e é um dos músicos mais talentosos que tenho a sorte de conhecer) acabou de postar em seu canal um vídeo novo, para uma faixa recente intitulada "Kuku", que mostra a luz solar gloriosa que está sobre nossas cabeças e circundando nossos corpos no momento.
"Kuku", de Uli Buder, mais conhecido como Akia.
Conheci Uli no início de 2009, quando ele estreou como DJ na festa de um amigo. Algumas semanas mais tarde, convidei-o para fazer um live set com sua música no nosso evento às quartas-feiras. Desde então, ele já tocou inúmeros live sets e DJ sets em nosso palco. Gosto bastante da delicadeza do seu trabalho, que pode também ser violentamente dançante quando ele se apresenta como DJ. Mas o mais bonito do que ele faz, em minha opinião, está nas faixas delicadas em que ele mistura de forma bem alemã o minimal techno e o electro. O trabalho de artistas conterrâneos como Apparat e Alva Noto são referências, creio.
Temos trabalhado juntos e tenho muito respeito por seu talento sonoro. Colaboramos até agora em apenas uma única peça, que já mostrei aqui, um vídeo que havia rodado com o tatuador Julian Greif alguns meses antes e que estava encalhado em meu computador. Uli editou o vídeo e também o texto oral que escrevi para o trabalho, fazendo uma paisagem sonora interessante com os sons do meu corpo (voz-língua) e os sons da máquina sobre o corpo de Julian Greif, enquanto este tatua a si mesmo.
Date of manufacture (2009). Imagem, texto e voz: Ricardo Domeneck. Edição e composição sonora: Uli Buder. Tattoo artist: Julian Greif.
to become or not to become the item one is supposed to describe specific aching and etching only to appreciate the design of the time we share with fellow machines for whom expiring is a verb of action oh skin against mass customization aid us while our intestines question ownership & predate our fabrics and tissues for our predators
§ - Na companhia de DJs, coletivos e outros performers.
Nosso novo projeto semanal /// chamado SHADE inc ///, produzido com o coletivo de que faço parte e, como o anterior, ainda às quartas-feiras, entrou em seu segundo mês. Tenho prometido escrever a respeito aqui, indicando alguns dos performers e músicos experimentais que têm se apresentado at our own sweet Cabaret Voltaire, mas ando tão atarefado, sem um segundo de respiro, sem ao menos poder editar os vídeos que tenho feito às quartas-feiras, com os DJs e artistas convidados. Estou muito feliz com o trabalho, voltamos a nos conectar com o que há de mais interessante e ponta-de-lança acontecendo em música eletrônica e performance no Berlimbo.
No primeiro mês, convidamos alguns veteranos como Wolfgang Müller (do coletivo Die Tödliche Doris, da década de 80), Peaches (XL Recordings), Ellen Allien (BPitch Control) e Heartthrob (M_nus Records).
Nesse mês de maio, teremos alguns excelentes jovens, alguns já bastante conhecidos, como o parisiense Thomas Muller, dividindo as turntables com o jovem alemão Florian Pühs. Uma das melhores performances até agora foi a "Lecture on the Intellectual History of Cannibalism", da britânica Leila Peacock. No mês que vem, algumas lendas e novas estrelas, como Apparat, os Gebrüder Teichmann e o coletivo AIDS-3D.
Nosso website já está no ar e servirá também como revista e blog, com sugestões de artistas e músicos e novas bandas. Quem estiver interessado em música eletrônica e performance produzida no Berlimbo, tem novo endereço na Rede: a página da nossa SHADE inc.
Vou tentar desaguar algo do material por aqui também.
Abaixo, a filipeta para maio de 2010. Todo mundo reconhece a foto que parodiamos/reencenamos?
Assisti ontem à noite, com O Moço, ao último filme de Roman Polanski, The Ghost Writer (2009).
O filme me pareceu um bom suspense de conspiração. Pelo menos, manteve minha atenção o tempo todo e me divertiu muito com os diálogos.
Citação mais divertida:
(Ghostwriter) __ Didn´t you want to be a proper politician?
(Wife of former Prime Minister) __ Sure, didn´t you want to be a proper writer?
As personagens, quase todas britânicas, exercitam a wit no ego alheio o tempo todo. Poucas coisas me agradam tanto quanto um bom conjunto de diálogos, bem atuados. Há também as típicas atitudes de pirraça de Polanski, com suas alusões à administração Bush e Blair.
A admiração que O Moço e eu nutrimos pelo polonês vem em particular de Rosemary´s Baby (1968), um dos melhores filmes de terror já feitos. Este último filme ainda traz uma aparição-relâmpago do ótimo Eli Wallach, além da performance maravilhosa de Olivia Williams, candidata à lista de divas onipotentes em minha cabeça, depois deste filme.
§
A exposição de Wangechi Mutu
Antes disso, passamos pelo Deutsche Guggenheim, que tem entrada gratuita às segundas-feiras, para ver a exposição da artista plástica africana Wangechi Mutu, nascida em Nairobi, Quênia, em 1972. Mutu trabalha com nossa velha amiga e estimada técnica da colagem, em imagens que remetem sincrônica e sincreticamente às da alemã Hannah Höch (1889 - 1978).
Wangechi Mutu busca manter a técnica nos níveis de violência, apropriação e resistência, com sua função em diatribe, com um vigor que une a beleza e o grotesco, forma e deformação. Gosto bastante do resultado.
Seria interessante (e necessário) discutir o uso, em geral preguiçoso, que se faz do adjetivo novo na crítica contemporânea. O MAKE IT NEW de Pound segue sendo macaqueado. O conceito de vanguarda como mera fabricação de novidades estilísticas, sem discutir a função que estas novas formas assumiam em seus contextos, leva a essa atitude blasé dos críticos despreparados com que somos obrigados a lidar.
A função da colagem, tal qual foi criada pelos dadaístas, ainda pode fazer sentido em nosso contexto, pois não era mera novidade ou brincadeira para épater les bourgeois, mas crítica a um sistema que persiste, onde a Beleza torna-se, cada vez mais, apenas entretenimento para a elite, decoração para gigantescas salas-de-estar. Podemos discutir a eficiência crítica destas técnicas, mas seria mais interessante a discussão se evitássemos a atitude "de quem acha tudo tão déjà vu, mesmo antes de ver", como diz a canção. Aliás, quando ouço esta canção de Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, sempre me pergunto por que o que canta não joga aquela Água Perrier na cara do chato.
Abaixo, uma pequena seleção de imagens de Wangechi Mutu:
Há alguns pontos que gostaria de acrescentar à postagem da semana passada, em que volto a discutir a questão do GENDER, especialmente após as intervenções muito boas e inteligentes de Érico Nogueira e Dirceu Villa, dois poetas com quem me é sempre muito estimulante debater. Não se trata, por fim, apenas da questão de gênero, como em GENDER. Eu acho que seria muito interessante trazer a própria questão de gênero como GENRE a esta discussão, assim como uma conversa mais ampla sobre os papéis e funções possíveis para o poeta em nosso contexto histórico, meditando sobre os vários papéis e funções que os poetas já exerceram em suas respectivas comunidades, ao longo dos tempos, como os poetas-xamãs, que eram (e ainda são em muitas regiões) os médicos e sacerdotes da comunidade; os aedos na Grécia antiga, fundadores dos mitos "nacionais" (uso o conceito anacrônico com parcimônia) em seus épicos, unificadores da comunidade; os bardos medievais, que acompanhavam os senhores em batalhas, para registrar-lhes a História; o sofisticadíssimo serviço de entretenimento dos trovadores provençais/occitanos, etc.
Penso nos cataclismos e transformações na relação entre o poeta e sua comunidade após a Revolução Francesa, algo que pode claramente ser sentido em Baudelaire e Rimbaud, ou mesmo nos jacobinos Wordsworth e Coleridge. E, não nos enganemos, ainda estamos sob os efeitos, como poetas, dos novos cataclismos e transformações catalisados pela Revolução Russa na relação entre o poeta e sua comunidade. Se Maiakóvski e Mandelshtam os sentiram nos ossos, ainda os sentimos na pele, pelas ondas de choque que nos chegam. Tenho me esforçado para esclarecer os meandros de minha defesa por um trabalho crítico que englobe forma, função e contexto.
Mas voltarei a isso na próxima postagem, tentando dialogar com a postagem de Érico Nogueira e a de Dirceu Villa.
Hoje, gostaria apenas de fazer alguns anúncios rápidos.
§ - HILDA magazine, que edito aqui no Berlimbo com um amigo, o designer britânico Oliver Roberts, está novamente no ar. Após alguns problemas com nosso servidor, mudamos o endereço da revista eletrônica, que agora é
http://www.hildamagazine.com
Lá você encontrará trabalhos que cruzam as fronteiras dos gêneros e das nacionalidades, em fotografia, vídeo, música e textualidade, de artistas contemporâneos e primordialmente jovens, que iniciaram seus trabalhos neste século, neste contexto histórico, com algumas exceções sempre necessárias, já que deixamos o dogma para os cinquentões.
Esta é a mission statement da revista:
HILDA magazine recognizes no borders between genres or national identities, and wishes to gather artists who are residents of various metropoles around the globe such as Berlin, London, São Paulo, New York, Moscow, Buenos Aires or Tokyo, where they settled in the interest of word and image exchange. We are in the business of cross pollination between lands, languages and artistic practices.
HILDA magazine is interested in cultural interventionists, political activists and any creature who has chosen to follow the code of freaks. The magazine likes to chant "one of us, one of us" at each new update. For those who do not quite fit in the puzzle.
Assim como fizemos com o poeta Caio Valério Catulo (84 a.C. - 54 a.C.), uma das fontes da est-É-tica que seguimos, convidamos cinco poetas brasileiros contemporâneos brasileiros para o ciclo, discutindo a obra de Cavalcanti, um dos melhores exemplos do que venho chamando de poesia tesa, mais que densa, concreta ou concisa. Inicia o ciclo crítico o poeta paulistano Dirceu Villa. O ciclo contará ainda com artigos e traduções de Eduardo Sterzi (RS), Érico Nogueira (SP), Bruno Brum (MG) e Rodrigo Damasceno (BA).
§ - Na semana que vem, o coletivo de que faço parte funda nosso novo projeto, que substituirá o evento semanal Berlin Hilton (2005 - 2010), que organizamos por cinco anos no clube Neue Berliner Initiative. O novo projeto chama-se SHADE inc. A estreia será no dia 07 de abril, com uma performance de Wolfgang Müller, do lendário coletivo berlinense Die Tödliche Doris (1980 - 1987), apresentando seu trabalho sonoro Seance Vocibus Avium (2008); uma pequena apresentação do cantautor berlinense Petula; uma intervenção do duo de videoartistas AlexandLiane; e DJ sets das lendas berlinenses Peaches e T.Raumschmiere.
(T.Raumschmiere - "Monster Truck Driver")
O projeto traz-nos ainda mais próximos do sonho de ter our own private Cabaret Voltaire. Primeira filipeta e programa abaixo.
§ - Ocorre hoje, no Rio de Janeiro, o evento Estrondo, organizado pela editora 7 Letras para marcar o lançamento do projeto Lado7, no qual a editora vem reunindo, há vários meses, a oralização de textos, feita pelos próprios poetas no estúdio montado por Jorge Viveiros de Castro na editora.
Chacal e Carlito Azevedo participam do evento, além dos jovens poetas cariocas Alice Sant´Anna e Gregorio Duvivier. O programa do evento o apresenta nestas palavras:
"Uma nova forma de veicular a poesia brasileira será lançada com Estrondo pelo selo Lado7, da editora 7Letras. O espetáculo traz os consagrados poetas Chacal e Carlito Azevedo e os jovens Alice Sant’Anna e Gregorio Duvivier interpretando ao vivo seus poemas com o acompanhamento musical do grupo Lado7. A versão de estúdio de Estrondo, com produção musical de Newton Cardoso e Nelson Duriez, será lançada no formato de audiolivro durante o evento, que comemora os vinte anos do CEP 20.000."
Espaço Cultural Sérgio Porto – Rua Humaitá 163 – tel. (21)2266-08696 quarta-feira, dia 31 de março de 2010 a partir das 20h30.
§ - O poeta carioca/gaúcho Marcelo Sahea lançou este mês o livro Nada a dizer (São Paulo: E, 2010).
O autor o apresenta com as seguintes palavras:
"Do meu livro anterior (Leve), lançado há quatro anos até hoje, progressos significativos ocorreram nas minhas buscas dentro do que aos poucos reconheço como arte da palavra.
É que embora ainda não as tenha abandonado, poesia, bem como poeta, são estanques denominações que vêm se mostrando insuficientes para definir o esforço que tenho feito no sentido de ampliar o alcance e a potência (que só é possível pela contaminação por outras formas de expressão – música, arte sonora, artes visuais, eletrônica, arte digital, etc – ) da minha produção poética.
Este Nada a Dizer, oficialmente meu terceiro livro, apresenta impressões desses avanços e abre picadas para o que ainda há de vir.
Nele, os poemas inéditos (a maior parte) despontaram a partir das minhas pesquisas e experiências no terreno da performance e da poesia sonora. A outra parte é composta por poemas e textos que andavam dispersos em revistas, antologias e sites literários desde 2005 e que decidi aglutinar em um suporte único.
São poemas em verso, poemas visuais, textos para página e palco, poemas objeto, textos-colagens, códigos, poema QR-Code, contágios, perquirições e tal.
A célebre e uma das definitivas definições de poesia (“I have nothing to say/ and I am saying it/ and that is poetry/ as I needed it”) que o compositor, músico, pintor e poeta norte-americano John Cage deu em seu livro Silence (1961) foi, desde a concepção deste Nada a Dizer, decisiva para a escolha do seu nome de batismo.
Coisa natural para poetas (ou artistas da palavra) como eu, sabedor de que quanto mais se diz, mais da poesia se dista. --- Marcelo Sahea, março de 2010.
Hoje à noite, aqui no Berlimbo, o evento que venho organizando todas as quartas-feiras há cinco anos, com o coletivo de que faço parte (que inclui videastas, DJs, autores e artistas gráficos), celebra seu quinto aniversário e também seu grand finale. No melhor espírito dadaísta/berlinense, por cinco anos ignoramos as fronteiras entre criação e curadoria, buscando ser um local de produção artística e de intervenção est-É-tica. Nestes cinco anos, alguns de nossos heróis e várias das criaturas mais interessantes do subterrâneo berlinense passaram pelo nosso palco, com performances, intervenções e DJ sets de criaturas como Stereo Total, Apparat, Modeselektor, Kevin Blechdom, Planningtorock, Lo-Fi-Fnk, as riot-girrrls do Le Tigre: JD Samson and Johanna Fateman, The Presets, Electrocute, Bianca Casady do duo CocoRosie, No Bra, Joe And Will Ask?, Tetine, T.Raumschmiere, Hanayo, Phon.o, Jeans Team, Schneider TM, Herpes, Akia, Stabil Elite, Rich & Kool, Bruce LaBruce, Angie Reed, Sex In Dallas, Barbara Panther e DJs como Lemercier, Shir Khan, Eric D. Clark, Jake The Rapper ou os residentes do Panoramabar/Berghain nd_baumecker and Boris, entre outros.
Hoje é a última vez da festa intitulada, em espírito dada-pop, de Berlin Hilton, como comentário-piada sobre certa herdeira loira. Durante a festa, lançaremos o novo projeto que, a partir de abril, nos trará ainda mais próximos do sonho de ter our own private Cabaret Voltaire.
Como convidado especial hoje à noite, o artista sonoro londrino David E. Sugar, além de sets de outros amigos DJs.
Na semana passada, o moço e eu decidimos fazer algo diferente e tomamos o trem para o lado extremo-ocidental de Berlim.
"Extremo" é apenas modo de dizer. Eu moro no antigo lado oriental da cidade, em Prenzlauer Berg, e só me mexo para o lado ocidental quando visito o moço em Neukölln. Berlim permanece sendo uma cidade extremamente descentralizada. Talvez sempre tenha sido, mas o muro acabou intensificando a existência de muitos centros distintos. Quem mora na West-Berlin raramente perambula pela Ost-Berlin e vice-versa. O meu centro continua sendo a Alexanderplatz e eu quase nunca vou para bairros do interior ocidental da cidade, como Charlottenburg ou Schöneberg. A famosa Bahnhof Zoo (Estação Zoo), no extremo oeste da cidade, é como outra cidade. Berlim é esquisitíssima neste aspecto. Ela não só muda completamente entre o verão e o inverno. 20 anos sem o muro não foram suficientes para fazer desta Frankenstein urbana um homem-cidade vitruviano.
Pois então, o moço e eu pegamos e trem e descemos na Savignyplatz, numa região com várias livrarias boas. Após visitar algumas, chegamos à melhor livraria da cidade, em minha opinião, a Autorenbuchhandlung (Livraria dos autores), com a mais impressionante estante de poesia da cidade, de uma qualidade que só em Barcelona e Buenos Aires cheguei a ver, mesmo que tenha me impressionado com algumas livrarias em São Paulo nesta última visita.
Eu comprei uma antologia do poeta coreano Ko Un (n. 1933) e o moço comprou o número 73 daquela que me parece uma das melhores revistas de poesia da Alemanha --- Schreibheft: Zeitschrift für Literatur. A revista é editada por Norbert Wehr e é semestral, dedicando cada número com frequência a poetas. Números anteriores trouxeram Ezra Pound, Jorge Luis Borges, Joan Brossa, Inger Christensen, Ghérasim Luca, William Gass, Daniil Charms, entre outros. O número 64 foi inteiramente dedicado a Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
Este último número, de setembro de 2009, traz na capa um jovem e bonito Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975), motivo pelo qual o moço a comprou, obcecado que é por Pasolini, um de seus heróis, a figura central que nós dois compartilhamos. Com frequência, o moço desconhece meus heróis, em geral poetas, e eu desconheço os seus, em geral romancistas. Isso tem mudado: por causa dele, comecei a ler autores como Stanislaw Lem e William Burroughs, por minha causa ele começou a ler poetas como Frank O´Hara e H.C. Artmann, além de brasileiros como Clarice Lispector. Dei a ele uma tradução alemã de A hora da estrela (1977) e ele se apaixonou, como eu já esperava. O Pasolini que ele ama é o cineasta, mas este número 73 da Schreibheft traz alguns de seus lindos poemas traduzidos para o alemão, além de ensaios que discutem o sofisticado poeta que foi Pier Paolo Pasolini.
Non è di maggio questa impura aria che il buio giardino straniero fa ancora più buio, o l'abbaglia
con cieche schiarite... questo cielo di bave sopra gli attici giallini che in semicerchi immensi fanno velo
alle curve del Tevere, ai turchini monti del Lazio... Spande una mortale pace, disamorata come i nostri destini,
tra le vecchie muraglie l'autunnale maggio. In esso c'è il grigiore del mondo, la fine del decennio in cui ci appare
tra le macerie finito il profondo e ingenuo sforzo di rifare la vita; il silenzio, fradicio e infecondo...
Tu giovane, in quel maggio in cui l'errore era ancora vita, in quel maggio italiano che alla vita aggiungeva almeno ardore,
quanto meno sventato e impuramente sano dei nostri padri - non padre, ma umile fratello - già con la tua magra mano
delineavi l'ideale che illumina
(ma non per noi: tu morto, e noi morti ugualmente, con te, nell'umido
giardino) questo silenzio. Non puoi, lo vedi?, che riposare in questo sito estraneo, ancora confinato. Noia
patrizia ti è intorno. E, sbiadito, solo ti giunge qualche colpo d'incudine dalle officine di Testaccio, sopito
nel vespro: tra misere tettoie, nudi mucchi di latta, ferrivecchi, dove cantando vizioso un garzone già chiude
la sua giornata, mentre intorno spiove.
--- primeiro movimento de Le ceneri di Gramsci (1956) ---
O número é dividido entre Pasolini e o poeta norte-americano Robert Duncan (1919 - 1988), com poemas traduzidos para o alemão, traduções de ensaios, de parte de sua correspondência com Denise Levertov (outra poeta ligada à Black Mountain College) e uma longa entrevista, em que Duncan discute seu trabalho e também o de Olson, Cage, Ginsberg, Pound, Whitman, Levertov, Creeley, etc. Quitute. Vou terminar esta postagem, fazer outro café e voltar para a leitura.
Often I Am Permitted to Return to a Meadow
as if it were a scene made-up by the mind, that is not mine, but is a made place,
that is mine, it is so near to the heart, an eternal pasture folded in all thought so that there is a hall therein
that is a made place, created by light wherefrom the shadows that are forms fall.
Wherefrom fall all architectures I am I say are likenesses of the First Beloved whose flowers are flames lit to the Lady.
She it is Queen Under The Hill whose hosts are a disturbance of words within words that is a field folded.
It is only a dream of the grass blowing east against the source of the sun in an hour before the sun's going down
whose secret we see in a children's game of ring a round of roses told.
Often I am permitted to return to a meadow as if it were a given property of the mind that certain bounds hold against chaos,
that is a place of first permission, everlasting omen of what is.
O moço trabalhando, a família e os tantos amigos que falam a língua materna do outro lado do charco atlântico, os amigos estrangeiros deste lado do charco ainda de ressaca da noite de ontem, como eu, confundindo já quem é o nacional, quem o forasteiro nesta terra, eu enfio carvão no forno (sim, meu apartamento no Berlimbo é à moda antiga, sem aquecimento a gás) que deve(ria) aquecer meu quarto. Mais tarde, vou vestir o casaco grosso e as botas, caminhar na neve até encontrar o rosto do moço na multidão, procurar os amigos europeus e ateus nos bares lotados do Berlimbo, dizer Frohe Weihnachten a quem acredita em sacrifícios mas não em redenção, abraçar um dois três corpos queridos, ouvir uma duas três vozes queridas em línguas que eu não falava quando ainda acreditava em Santa Claus, pensando como é bom ter os pés sobre a terra, mesmo quando ela pode se abrir para tragar-nos a qualquer momento. Na rua, cantarei um dos poemas líricos prediletos, imaginando que minha voz soa nos ouvidos da minha mente como a voz desse morto lindo, ai meus queridos, consider Jeff Buckley, who was once handsome and tall as you.
Cheguei hoje à tarde em Berlim. Após dez dias de verão brasileiro, caminhadas por Copacacabana sem camisa e pela Avenida Paulista em pleno sol, é difícil pisotear neve. O Berlimbo está soterrado na coisa branca.
A viagem foi maravilhosa. Peço desculpas pelas postagens dos últimos dias, mais relatórios de viagem (quase coluna social), mas quis compartilhar alguns dos encontros felizes. Foram muitos, nem pude escrever sobre todos.
Muitas ideias e conversas importantes aconteceram nestes dias. Devem render artigos e postagens por várias semanas.
Passei os dias lendo os livros que agora trouxe do Brasil e que devem formar as leituras das próximas semanas. A viagem a Bebedouro foi acompanhada por uma leitura intensa do Monodrama (RJ: 7Letras, 2009), de Carlito Azevedo, e do emocionante A geração que esbanjou seus poetas (SP: Cosac Naify, 2006), de Roman Jakobson. A viagem de avião, retornando a Berlim, foi na companhia de Alfonso Berardinelli e seu Da prosa à poesia (SP: Cosac Naify, 2008).
(Lotte Lenya, esposa de Kurt Weill, cantando a famosa "Seeräuber Jenny", da Ópera dos Três Vinténs (1931), do duo Weill/Brecht, aqui em cena da adaptação cinematográfica de G.W. Pabst)
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Um dos prazeres de organizar, todas as quartas-feiras, o evento que chamamos de Berlin Hilton (ironia pop guiando mais que a escolha deste nome), e que eu às vezes gosto de chamar de my own private Cabaret Voltaire, é a oportunidade de conhecer e trabalhar com algumas das criaturas mais interessantes do Berlimbo, sejam berlinenses nativos ou metecos como eu. Berlim teve seus momentos mais interessantes do século XX quando se fez Meca para estrangeiros, em busca de sua vida nortuna e liberdade sexual, como nos anos 20, uma das eras mais liberais da história da Alemanha com a República de Weimar (1918 - 1933), quando os cabarés da cidade abrigavam Kurt Weill, os poetas dadaístas de Berlim, como Raoul Hausmann, e ainda poetas como Bertolt Brecht, críticos como Walter Benjamin ou estrangeiros como W.H. Auden e Christopher Isherwood.
Obviamente, a vida pós-Grande Guerra não era nada fácil, como podemos ler em livros como Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, ou em filmes como O ovo da serpente (1977), de Ingmar Bergman.
Outro momento semelhante ocorreria na década de 70, com o movimento punk-industrial, trazendo à cidade estrangeiros como David Bowie ou Iggy Pop, onde lançariam, respectivamente, os antológicos Low e Lust for life, ambos em 1977. Sem estar na cidade, Lou Reed lança a ópera-rock Berlin (1973), considerado, ao lado de Transformer (1972), um de seus melhores álbuns. Foi também, é claro, a década da Facção do Exército Vermelho, da conversão de uma escritora e jornalista pacifista como Ulrike Meinhof em uma das líderes do grupo terrorista, tempo dos filmes de Alexander Kluge e Rainer Werner Fassbinder. Um filme perfeito para compreender a Berlim e a Alemanha de então é justamente o filme coletivo Deutschland im Herbst (Alemanha no outono), de 1978, do qual participam tanto Fassbinder como Kluge.
Muitos crêem que a queda do Muro de Berlim trouxe um momento parecido, e realmente a década de 90 assemelhou-se em muitos aspectos à efervescência da década de 20 e 70, com uma explosão de clubes e o surgimento de toda a cena de música eletrônica que ainda domina a cidade. Ainda sendo uma das capitais mais baratas da Europa, a cidade passou a atrair novamente artistas estrangeiros. Muitos dos artistas visuais contemporâneos de maior renome vivem na cidade. A cena musical geraria, entre os alemães, nomes como Sasha Ring, também conhecido como Apparat, Ellen Allien, Modeselektor e outros.
(O gigantesco, imprescindível Walter Benjamin)
Entre os estrangeiros, muitos se estabeleceram na cidade, como Janine Rostron, também conhecida como Planningtorock, Jamie Lidell, Olof Dreier do duo The Knife, assim como toda uma série de artistas interessantíssimos, ainda que menos conhecidos, como Kevin Blechdom e Angie Reed.
A cidade tornou-se o centro poético do país, reunindo em bairros dos antigos Oeste e Leste alguns dos poetas jovens competentes da língua, como Monika Rinck, Daniel Falb ou Ann Cotten, assim como alguns dos enfants terribles do país, como o diretor de teatro René Pollesch ou o artista visual Jonathan Meese.
Nos quase cinco anos em que organizamos a Berlin Hilton, já tive a oportunidade de convidar algumas de minhas criaturas favoritas, incluindo três mulheres que respeito muito, três de minhas divas favoritas do Berlimbo: Kevin Blechdom (que já deixou a cidade, retornando à sua San Francisco natal), Angie Reed e Janine Rostron a.k.a. Planningtorock.
Entre os metecos de Berlim, Janine Rostron é o que mais me impressiona, uma artista interessantíssima, com um trabalho musical e visual excelente. Ela apresentou-se na Berlin Hilton no dia 4 de julho de 2007, mas infelizmente não tenho um vídeo de sua performance. Mostro abaixo sua performance na Casa das Culturas do Mundo (Haus der Kulturen der Welt), em abril deste ano.
(Janine Rostron a.k.a. Planningtorock, performance em Berlim, 2009)
Kevin Blechdom e Angie Reed apresentaram-se na Berlin Hilton em junho e novembro de 2006, respectivamente. A noite com Kevin Blechdom foi muito bonita, alugamos um piano e ela convidou o francês Mocky como baterista, algo incomum.
(Kevin Blechdom @ Berlin Hilton, 2006)
Angie Reed apresentou sua música divertidíssima, com letras inteligentes e sua presença maravilhosa no palco.
(Angie Reed @ Berlin Hilton, 2006)
Chegou o outono, com o frio insuportável de Berlim, e por esta época sempre me confronto com minha condição de meteco, pensando também em meus companheiros de condição. Tenho dois poemas em que trabalho em parte com a ideia do "poeta exilado", um deles escrito em meu primeiro ano em Berlim ("Sempre o exílio"), quando minha situação no país não era exatamente muito legal, e o outro escrito alguns anos mais tarde, quando já me sentia em casa e à vontade em minha condição de meteco. "Sempre o exílio" foi publicado em Carta aos anfíbios (2005) e "Cão são da ex-ilha" está no meu próximo livro, Sons: Arranjo: Garganta (no prelo).
Sempre o exílio
a Roberto Borges
a.
surpreso a quanta terra não me pertence, que engraçado descobrir (mais uma vez) que trocar de país não significa trocar de corpo e a mudança de língua é acompanhada pela permanência da produção da mesma saliva.
b.
esta ilegalidade do meu corpo desaloja-me a comida no estômago que permanece em ângulo suspeito, a boca arqueia-se, tesa – e o barbante frouxo dos braços a nenhum peito estreita-me, esta pele estrangeira, este cheiro novo.
c.
a certeza finalmente de que a mão é incapaz da linha reta, os ouvidos mais atentos, as pontas dos dedos mais ativas, despertas, os ombros caídos, menos por cansaço que por pesos acumulados ao longo de outros sonos; quando as noções de segurança e cidadania desaparecem e resta-nos a condição.
(Carta aos anfíbios, 2005)
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Cão são da ex-ilha
a Carlito Azevedo
o desgosto de cada passo confirmar o mapa e o diafragma contraído entende o queixo no joelho, meio-dia e meia o centro da certeza que caminha do “quero“ ao “não-quero“, palha, fênix, Joana d’Arc, como perceber que abismo e precipício não são sinônimos exatos, ou acordar no meio da noite sem energia elétrica e sussurrar com a calma do fim da força: equivalendo silêncio e escuridão, real apenas a escolha da língua, entre- tanto a memória das possibilidades morre para que o fato entre inassistido nas atas do verídico; saiu o sol, deve estar tudo bem; subiu a lua, deve estar tudo bem; trocar de pele continuamente talvez leve-me ao centro e a ausência me escame como quem diz “eu sinto a falta”
Um dos espaços de artes visuais de que mais gosto, aqui no Berlimbo, é a Berlinische Galerie, museu de arte moderna, fotografia e arquitetura que se dedica, primordialmente, a recuperar e divulgar o trabalho de artistas visuais que nasceram ou produziram em Berlim.
No caso de exposições coletivas de grande porte, este enfoque acaba tendo um efeito bastante negativo, gerando abordagens provincianas. No entanto, já tive a oportunidade de ver, ali, retrospectivas de artistas excelentes, como foi o caso da exposição que resgatou o trabalho fotográfico do alemão Herbert Tobias (1924 - 1982), que fotografou a vida subterrânea da Berlim do pós-guerra, onde pôde criar imagens de rapazotes e moçoilas que, uma década mais tarde, tornar-se-iam importantes na História da Alemanha, jovens (até então desconhecidos) como o ator Klaus Kinski, a cantora-ícone Nico e aquele que viria a se tornar um dos líderes da Facção do Exército Vermelho: Andreas Baader.
(Herbert Tobias, "Andreas Baader em Berlim", 1961)
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(Herbert Tobias, "Klaus Kinski e Thomas Harlan", 1952)
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(Herbert Tobias, "The Berlin-Party is over!", 1961)
Dedicando-se à arte produzida em Berlim, há naturalmente um foco no grupo berlinense de DADA. Foi ali que, no ano passado, foi possível ver a impressionante retrospectiva de Hannah Höch (1889 - 1978).
(colagem de Hannah Höch, 1919)
(Hannah Höch, "A menina linda", 1919)
Berlim produz, eu creio, uma característica bastante marcante na personalidade de seus artistas. Aqui, sempre houve uma obsessão pela investigação da historicidade do fazer artístico. Foi a cidade que gerou críticos como Walter Benjamin e dramaturgos como Bertolt Brecht e Heiner Müller. O grande romance modernista berlinense é a obra Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin, publicada em 1929, que destrinça a Alemanha da República de Weimar. Em Berlim, a revolta ética e estética dadaísta assumiu seus contornos mais combativos e politizados, nas obras de Raoul Hausmann, Hannah Höch e John Heartfield; da mesma maneira, o expressionismo de Otto Dix e George Grosz. Isso pode ser sentido com força na arte alemã em geral, em artistas do pós-guerra como Joseph Beuys, Gerhard Richter e Sigmar Polke, ou no cinema de Alexander Kluge e Rainer Werner Fassbinder, que morreu na cama, com um cigarro na boca e o roteiro de seu próximo filme nas mãos, que se chamaria "Rosa Luxemburg".
(John Heartfield, "Auto-retrato", 1920)
Este mês, a Berlinische Galerie está mostrando os trabalhos de dois artistas ligados à cidade. Um deles é o dadaísta John Heartfield (1891 - 1968), pouco mencionado na historiografia das artes visuais, sempre mais preocupada com movimentos gerais, do que com os artistas que os formaram. Heartfield foi um dos artistas gráficos mais importantes dentre os dadaístas. Foi também um combatente incansável e dissidente contra a propaganda nazista, criando sua contra-propaganda.
Fotomontagens de John Heartfield
(John Heartfield, "Carvalhos alemães", 1933)
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(John Heartfield, "Acabou a manteiga, comamos aço", 1933)
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(John Heartfield, "Göring, o carrasco do Terceiro Reich")
São pessoas que não buscam tanto o papel do artista obcecado com sua tekhne e seu daimon, mas que decidem se tornar interventores (gosto do neologismo "intervencionista"), fascinados pela conjunção entre ética e estética, história e arte. Precisamos dos dois grupos, tanto dos artistas, como destes interventores.
O outro berlinense, este de adoção, recebendo uma retrospectiva no espaço é o continuador, de certa forma, do trabalho de dadaístas como John Heartfield: o artista gráfico Klaus Staeck.
(Anna & Bernhard Blume, "Wahnzimmer", 1984, série fotográfica em 10 partes, cada foto com 200 x 126 cm. O título é um trocadilho com a palavra "Wohnzimmer", que significa "sala-de-estar" em alemão. O casal de artistas troca o "wohn", de morar, por "Wahn", de loucura, criando algo como "sala-de-esgar")
Visitei esta semana a exposição 60 Jahre - 60 Werke, no Martin-Gropius-Bau, que se propõe a celebrar, como diz o título, com 60 obras os 60 anos da República Federal da Alemanha (1949 - 2009). Este ano de 2009 é cheio de oportunidades para os alemães se pensarem a si e sobre si, também com os 20 anos da queda do Muro de Berlim.
Meus amigos alemães todos, sem exceção, torcem o nariz e se recusam mesmo a pôr os pés no Martin-Gropius-Bau para uma exposição como essa, cheia de overtones nacionalistas. Compreendo e compartilho da repulsa, mas queria ver a exposição por dois motivos: primeiro, por uma curiosidade, digamos, sociológica, pois me interessa a tendência histórica revisionista da sociedade alemã atual; em segundo lugar, ainda que uma mostra coletiva tenha uma curadoria idiota, há sempre a possibilidade de ver bons trabalhos individuais de artistas específicos. E eu não perco a oportunidade de lançar os olhos sobre as obras dos meus alemães favoritos, muitos presentes na exposição, em especial certos grandes da década de 60, como Sigmar Polke, Gerhard Richter, Georg Baselitz, Jörg Immendorf, Joseph Beuys, assim como seres esquisitos e exquisite como Wols (1913 - 1951) e Blinky Palermo (1943 - 1977). A exposição trazia ainda vários artistas que eu desconhecia, alguns muito interessantes, como Karl Otto Götz, além de artistas menos conhecidos fora da Alemanha, como Willi Baumeister, Hans Hartung, A.R. Penck ou o casal Anna & Bernhard Blume.
Assim, diria que valeu muitíssimo a pena da viagem à waste land da Potsdamer Platz e os 7 euros de entrada. Mas seria necessário não possuir um cérebro para ignorar os aspectos irritantes da curadoria idiota desta exposição.
Não vou discutir os aspectos celebratórios e pouco críticos de tal posição comemorativa. Nem mesmo a mentalidade adolescente que levou os curadores a escolherem 60 trabalhos, por estarem celebrando 60 anos da mais recente república alemã, um conceito que demonstra apenas a preguiça de pensar em um conceito mais inteligente e interessante para a exposição. Há algo na exposição que demonstra os aspectos mais deprimentes do mercado de arte atual, algo que percebi claramente também ao visitar em 2007 a exposição USA Today, na Royal Academy of Arts, em Londres.
A presente exposição consiste, basicamente, de pinturas a óleo de grandes proporções. Claro, havia o desejo de uma mostra de narrativa "épica", mas há aspectos mais tristes. Intercaladas a poucas esculturas, caminhar pela exposição é percorrer salas cobertas de pintura após pintura. Em 60 anos de arte neste território, os curradores, oops, I mean: curadores, apresentam apenas um único trabalho em vídeo (bastante ruim, diga-se de passagem) e uma única instalação sonora, do maravilhoso Carsten Nicolai, mais conhecido como Alva Noto. Vivemos um momento de inflação gigantesca no mercado de arte (ainda que a última crise econômica comece a se fazer sentir), que transformou a produção artística nas duas últimas décadas em mero mercado de decoração para as salas-de-estar dos nouveaux riches. A proliferação da pintura de grande dimensão está ligada a isso. Na mentalidade do mercado de arte atual e dessas pessoas, um quadro grande é ("obviamente", eles diriam) mais valioso que um quadro pequeno. É a "arte por metro" e a "arte por quilo". Um amigo meu, videasta alemão, recebeu uma mensagem perturbadora de sua galeria este ano. O galerista pedia a ele que fizesse seus vídeos um pouco mais longos, pois era difícil convencer colecionadores a pagarem por vídeos de poucos minutos. O videasta respondeu com a reação mais lógica, diante de um pedido desses: "Mas meus vídeos são loops!". O galerista simplesmente seguiu com o mesmo raciocínio: "Sim, mas um loop de 5 minutos valeria mais dinheiro que um loop de 2 minutos."
Que esta mentalidade comece a influenciar as coleções de arte de instituições como museus e institutos é apenas uma questão de causalidade.
Nunca foi tão necessária a discussão das implicações est-É-ticas de certas escolhas, assim como o período atual prepara o terreno para a revitalização de algumas práticas que me interessam demasiado, como a necessidade da retomada da performance como prática artística, em um mundo que segue obcecado com a manufatura de objetos e produtos, mundo onde a arte delimita-se à decoração de salas-de-estar, enquanto os preguiçosos seguem falando em "pós-utópico" e os reacionários tentam neutralizar as implicações est-É-ticas dos trabalhos de poetas como os do Cabaret Voltaire. Neste ambiente, o trabalho dos pintores do irônico "Realismo Capitalista", de Gerhard Richter, Sigmar Polke, Wolf Vostell e Konrad Lueg, torna-se incrivelmente atual, tal qual o pensamento de gente como John Cage, Lygia Clark, Joseph Beuys ou Yoko Ono.
A artista Janine Rostron apresenta-se como Planningtorock, hoje à noite, após meses à surdina, produzindo seu segundo álbum. Não perderia a chance de ver uma das criaturas mais interessantes e deliciosas do Berlimbo, uma das minhas favoritas. Tê-la como convidada para uma performance na Berlin Hilton, na noite do meu aniversário, em 2007, foi um dos punti luminosi de minha carreira como curador daquela pocilga.
Ela se apresenta hoje no Festival Pictoplasma, que está ocorrendo na Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo). O moço e eu já compramos os ingressos.
Suas performances estão entre as coisas mais eletrizantes que já presenciei.
Eu sou um viciado em vocais femininos. Para mim, nada melhor que mulheres fazendo música. Billie Holiday, Kate Bush, Patti Smith, Cat Power, Planningtorock.
Se vocês não conhecem Planningtorock, meus queridos, aqui vai a deliciosa: