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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Um par de coisas ao redor de Ederval Fernandes

Ederval Fernandes (retrato por Igor Fernandes)


Em 2014 estive pela segunda vez na vida em Salvador, ministrando uma oficina de escrita na Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi uma viagem importante para mim como crítico e como poeta por ter me colocado em contato com algumas das figuras que vêm trabalhando na cidade, como Milena Britto e Sarah Rebecca Kersley – que viriam a fundar a Livraria Boto Cor-de-Rosa e a editora Paralelo 13S mais tarde – assim como Alex Simões e James Martins. Fiz uma pequena homenagem aos poetas do estado naquela semana, com uma seleção na postagem Alguns poetas baianos.

Foi nessa oficina também que conheci o jovem poeta Ederval Fernandes, ainda inédito à época. Como viria a escrever mais tarde neste espaço na postagem "Dois poemas recentes de Ederval Fernandes":

          "Ederval Fernandes é crítico e poeta de mão firme, especialmente quando usa o corte ágil. Tem, além disso, um dos trabalhos mais interessantes, que li nos últimos tempos, na pesquisa dialetal e de léxico local, como no poema 'O cobrador da van disse' e, de outra maneira, em outro poema seu recente, 'A cabeça do preto', publicado por ele nas redes sociais, poema também de força política diante de nosso racismo sistêmico. "


Já comentei o poema dialetal de Ederval Fernandes em algumas postagens. Foi o poema que me levou a querer prestar atenção ao desenvolvimento de sua poesia.


O cobrador da van disse
Ederval Fernandes

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

(Fernandes, Ederval. Novas propostas de emprego para Ederval Fernandes. Salvador. Paralelo 13S. 2018.)


Naquele momento, quando o ouvi da própria boca do poeta em 2014,  ele vinha ao encontro de certas preocupações minhas, pois havia também começado a trabalhar com alguns textos dialetais a partir da linguagem interiorana de minha avó, como em "Texto em que o poeta apaixonado pensa n'O Moço e regride até na linguagem", de 2013. Lembro-me de termos conversado sobre isso à época.

O Brasil gerou certos experimentos com a poesia dialetal. No modernismo do Sudeste, com Mário de Andrade, Antônio de Alcântara Machado e – talvez o caso mais notório – Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, melhor conhecido por todos como Juó Bananère. No Nordeste, poderíamos pensar nessas escolhas linguísticas no trabalho de Catulo da Paixão Cearense, Solano Trindade ou num poema tão belo de Humberto Teixeira como é "Assum preto", imortalizado pela voz e sanfona de Luiz Gonzaga. Há no Sul ainda o caso excepcional e tão pouco conhecido da poesia cantada de Jayme Caetano Braun (1924—1999). Na poesia contemporânea, eu diria que o caso mais paradigmático seria o de Douglas Diegues. Na língua alemã, foi um aspecto forte na poesia do Grupo de Viena, especialmente na de H. C. Artmann (1921-2000).

O que rege e nubla nossa recepção destes trabalhos está além dos problemas de hegemonia do eixo Rio-São Paulo, ainda que nossa miopia seja muito agravada por ela. Eu creio que o problema seja ainda o de hegemonia da cultura urbana e das capitais sobre o rural e o interiorano. O asfalto é imperialista. O supostamente culto em nossa terra de bacharéis. E isso acaba gerando entre eixos de pixe a nossa historiografia literária com suas escolas e agrupamentos questionáveis e com conceitos, entre outros, que mais atrapalham do que ajudam. Como o Regionalismo que, se faz justiça aos grandes romancistas da década de 1930 no Nordeste, por vezes esconde sulistas como o gaúcho Simões Lopes Neto (1865-1916), nortistas como o paraense Dalcídio Jurandir (1909-1979) ou até mesmo um paulista como Valdomiro Silveira (1873-1941). Estes autores, junto de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rêgo fazem parte da ala de nossa Modernidade que se desdobra sob o influxo do realismo de Machado de Assis.

§

Mas o dialetal talvez seja apenas incidental à poesia de Ederval Fernandes. O que a rege é principalmente o minimalismo que guia muito da nossa poesia contemporânea a partir dos trabalhos de João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos, assim como na influência do norte-americano Robert Creeley entre nós na década de 1990.



Para a orelha para seu segundo livro, Novas propostas de emprego para Ederval Fernandes (Salvador: Paralelo 13S, 2018), eu tentaria exprimir isso da seguinte forma, dizendo que o poema:

"concentra em si o movimento interessante na poesia de Ederval Fernandes entre uma textualidade centrípeta e centrífuga. Explico-me: se em grande parte da poesia lírica acredita-se que o movimento da voz é sempre o pessoal que se expande para o público, do centro do eu para as margens da comunidade, aqui é o público que se concentra em pessoal. O comum que retorna ao seio individual do poeta. O externo que se internaliza para novamente externalizar-se. É poesia conceitual, que tem sua raiz nos desvios contextuais dos textos de um poeta como Oswald de Andrade, ao mesmo tempo que honra a atenção ao particular. Conceitual e dialetal. Ideia e carne. Lírico e político. Outro lado desta moeda encontra-se em [poema que dá título ao título ao livro] 'Novas ofertas de emprego para Ederval Fernandes', formado pela justaposição e colagem de trechos extraídos de um caderno de classificados. Os usos do corpo no corpo político. Estes dois textos são como as faces da mesma moeda. Além das moedas que nos compram e vendem, nas várias imagens de caráter econômico que perpassam o livro. Se vemos neste livro o minimalismo  que caracterizou uma porção da boa poesia brasileira a partir do final da década de 1990, em especial sob o influxo de João Cabral de Melo Neto e Robert Creeley, o que diferencia o trabalho de Ederval Fernandes está na subordinação do imagético ao sonoro, ligando seu trabalho ao de mestres vivos como Augusto de Campos e Ricardo Aleixo. É o minimalismo de uma voz que diz e mostra o mínimo múltiplo comum das experiências, muitas vezes traumáticas, do nosso próprio corpo ao contato de outro corpo, e em negociação com todos os corpos da comunidade. Os vivos. Os mortos. As vozes deles todos."

– Ricardo Domeneck, Texto de orelha para a primeira edição de Novas propostas de emprego para Ederval Fernandes (Salvador: Paralelo 13S, 2018).

§

Novas ofertas de emprego para Ederval Fernandes

Precisa-se de trolha com experiência
para França.
Pintor à pistola em Viana
do Castelo.
Ajudante familiar
em regime interno
na zona das estrelas, em Lisboa.
Gestor de Stocks; Business
Analyst; Comprador.
Pasteleiro e ajudante
de pasteleiro – URGENTE! –
em Ponte de Lima.
Procura-se ajudante familiar
cuja carta de condução
leve-a até Bruxelas.
Externa, de segunda à sexta,
das 9:30 às 20:00, Carnaxide.
Care Assistant (UK).
Precisa-se de serralheiro.
Administrador Share Point.
Procura-se advogado
para o Timor Leste. Account
Manager.
Técnico de controlo de qualidade
de indústria de detergência.
Precisa-se de cabeleireiro
em Paços de Ferreira.
Account New Business, LX;
Stylist Assistant;
Pai Natal (em São João
da Madeira).
Professores de Português em Oeiras.


É difícil saber o que leva alguns poetas a serem primordialmente imagéticos, outros a terem ouvido atento aos aspectos sonoros. A preocupação de Ederval Fernandes com a importância da oralidade em nossa cultura talvez fique clara ainda mais em seu trabalho crítico, como no importante ciclo de ensaios sobre o rap brasileiro que preparou para a revista Modo de Usar & Co., com ensaios sobre Nega Gizza, Sabotage, Mano Brown e outros.

Em sua própria poesia, isso se demonstra em textos diversos, como "Magia" e "A voz":

Magia
Ederval Fernandes

TEU poder
vem do som

SIETE actos
exactos

JUEGO de los
signos altos

AND it comes
from your eyes

BULLET sound e mais
o teu chamado

MA non
puedo explicar
o que já foi explicado

MÁS
eres blanco impuro
umbigo obscuro

ERES um feixe
um furo
a fish
on a clear water
sem muro

TEU poder
vem do sol
do som

LIKE desert
profundo

E me saravá
dos pecados
DEL mondo

§


A voz
Ederval Fernandes

verde, ser
de
sopro.
vento lento,
mundo
oco.
se tudo É
como É?
o vento, o sopro
o tempo morto
e o engodo...

águia voa febril
no branco, comigo.
à sorte,
amigo. a morte
é o lance tardio.

o jogo É
assim.
se isto É
tudo (o fim),

meu espelho
conservo
convexo neste
verso.

dentro,
dentro
do mistério,
escrevo.
escravo,
escavo o minério:

gravo a voz
em vós.

Feira de Santana, Bahia, cidade natal de Ederval Fernandes, aí nascido em 1985.

Certamente, o que aprecio no minimalismo de Ederval Fernandes – como em outro baiano de sua geração, Rodrigo Lobo Damasceno – é que ele jamais se torna desculpa para esterilidade emocional. É a melhor lição que deveríamos ter tomado de Robert Creeley naqueles idos de transição dos milênios, lição que já aparecia em poemas de Ferreira Gullar, Mário Chamie, Augusto de Campos, Adão Ventura e Paulo Colina.


No bolso as moedas
Ederval Fernandes

perder o amor
não é perder o lápis
o relógio
de preguiça perder o poema
ou o comboio o elétrico 15E
sentido algés
por 6 minutos
a mais na cama
nas contas a serem
pagas nas culpas
nunca suturadas
perder o calor
do café
o amor perdê-lo não é
como precisar ir
mas ficar
andar e não correr
atrás disso
que fácil e lento passa
em frente à porta (ouvir
Dylan para entender
o uso deste sample)
perdê-lo o amor não é
como ir à praia sem querer
ir embora
e descobrir depois:
o melhor era ficar
perdê-lo o amor
é impossível
no bolso as moedas
se escondem
mas não
desaparecem


Por estes motivos, sigo querendo acompanhar o trabalho de Ederval Fernandes, hoje amigo e colega em correspondência constante sobre poesia, a nossa e a de outros. E é por isso que encerro com este poema meu, incluído na edição especial e limitada de Doze cartas, lançada juntamente com meu último livro, Odes a Maximin (Rio de Janeiro: Garupa, 2018).


Texto em que o poeta medita sobre fronteiras como cercas e pontes ao lado de Ederval Fernandes em Lisboa
Ricardo Domeneck

Na manhã em que acordei de um pesadelo
comprido e detalhado, hollywoodiano,
de grande produção e parco elenco,
no qual meus irmãos tentavam roubar
a herança que não tenho
e enquanto seguia entretido
com o apocalipse que denuncia
em mim o terror velho
de me saber menos
Jacó do que Esaú,
sob esse teto em Portugal
beberico café importado do Brasil.
A carne, moída
de um sono suado
e sem reabastecimentos.

Pela janela, vê-se a Torre
de Belém e não a de Babel,
uma espécie de árvore
de natal sólida, permanente,
ou versão da Árvore do Bem
e do Mal, suas mais de cinquenta
cruzes dela pendem
como se pejada de frutos,
e ela finca suas raízes
nas águas do Tejo.
Em algum ponto, sua foz
desagua no Atlântico,
onde nossa desgraça desemboca.

Na cafeteria, olho o rosto mestiço
de Ederval Fernandes, vejo
minha mão mestiça
tomar a xícara donde o vapor
sobe dessa bebida inexistente
nestas plagas
antes do descobrimento da catástrofe,
aquela que no entanto fez possíveis
o rosto mestiço de Ederval Fernandes
e as mesmas mãos mestiças minhas.

Cá estamos, baiano e paulista,
enquanto nossos compatriotas
digladiam-se
pelos espólios dos portugueses
do outro lado do Atlântico,
baiano também estrangeiro para o paulista,
paulista também estrangeiro para o baiano,
ambos estrangeiros para os portugueses
que nos cercam, e bebemos todos
nossos cafés, calados.

Enquanto isso, as águas do Tejo e do Atlântico
deslizam indiferentes às dores e às delícias
de sermos portugueses, baianos ou paulistas.

Não há volta no tempo, não há conserto,
mas esperamos, balbuciando
nessa língua comum, familiar e estrangeira,
que se torne viável
algum concerto. Alguma concórdia.


.
.
.



sábado, 7 de fevereiro de 2015

Cinco lusófonos jovens

 William Zeytounlian

William Zeytounlian (Brasil, 1988)

[tudo está às voltas]

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto

tudo se repete
num fazer que
descortina:

          compre
          uma flor
          no mercado
          e sê Monet
          jardinando em
          Giverny –

          refaça
          no entulho
          de uma casa
          o dia que os
          mesopotâmios
          recensearam
          seus deuses
          mortos

não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe
teu agora e teu antes

voltei-me a mim
e parti mais além
fui-me aqui
e assim por diante

      – toda tessitura
      é a vela na
      gávea de Cabral
      e o trapo no
      torso de
      Zumbi –

      sê olhar do rei cruel e indigesto
      sê o olho que temeu a guilhotina

               tudo se repete
               num fazer que
               descortina

               tudo está às voltas
               no lastro de teu gesto

§

Golgona Anghel (Romênia/Portugal, 1979)

COMODISTA HESITANTE,

protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
Em contos naturalistas
E reality showers.


Nós, aqui, little stranger,
Degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
E vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
Já alugámos as trincheiras,
Mas custa tanto tirar os pijamas.

§

João Bosco da Silva (Portugal, 1985)

Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.


§

Ederval Fernandes (Brasil, 1985)

Como quando

Como os dedos
que rasgaram
o papel do
presente.
Como o ausente
dos vários
segredos
que não
revelaram.
Como o café
que repousa
na mesa
e será bebido.
Como o livro
lido
duas, três
vezes até
ser amada
a sua beleza.
Como quando
entrei
em você
pela
primeira
vez e entendi.
Como, por uma
besteira, não sei,
minha vó chora
e depois ri.
Como os dias
em que Vivo
e não quando
estou morto
e respirando
feito verme.
Como a tua mão
procurou ver-me
no escuro
de mim e do quarto:
como quando um
coração
faz um Uivo.

 §

Raquel Nobre Guerra (Portugal, 1979)

Se sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro por que
rodaram mãos e jeitos de luz? Sim.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como acontece na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão vivido.


Lê assim.

Podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
— e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias —
mas cairei por aqui.

Meu amor.

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.

.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uyatã & A Ira de Rá



Uyatã & A Ira de Rá é um coletivo de Feira de Santana, Bahia. 
Um dos membros é o poeta contemporâneo Ederval Fernandes.




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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Ederval Fernandes


O poeta de Feira, Ederval Fernandes

Conheci Ederval Fernandes, nascido em Feira de Santana em 1985, quando estive em Salvador para ministrar uma oficina na Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ederval Fernandes é crítico e poeta de mão firme, especialmente quando usa o corte ágil. Tem, além disso, um dos trabalhos mais interessantes, que li nos últimos tempos, na pesquisa dialetal e de léxico local, como no poema "O cobrador da van disse" e, de outra maneira, em outro poema seu recente, "A cabeça do preto", publicado por ele nas redes sociais, poema também de força política diante de nosso racismo sistêmico. Nesta postagem, tentando mostrar dois aspectos de seu trabalho, posto "O cobrador da van disse", com vocalização dialetal do poeta, e o ótimo "Da minha boca". Seu livro de estreia, O Livro Conta Corrente (Feira de Santana: Sarò, 2014), será lançado este mês.

§

DOIS POEMAS RECENTES DE EDERVAL FERNANDES (Feira de Santana, 1985)




O cobrador da van disse

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

§

Da minha boca

a vertigem
do dia são estas
horas:

luz e fogo
levando
embora a noite
calma.

um nada
no nada,
meu adágio
sai e segue.

e um deus (morto)
bebe um café
comigo.

 *

“perigo”,
ele me diz,
“não sou eu,
amigo,
o infeliz
que te trouxe
ao veneno”.

eu sei, eu
digo,
desde pequeno

(cravado
no umbigo)
trago comigo

este jogo
de ases.

e não
vou, eu sei,
fazer
as pazes:

se as fiz,
eu falhei.

 *

do som,
quero a canção;
da mão

(é verdade),
quero e não sei
a liberdade.

não da forma
oca - o veneno
é da boca.

se a língua
portuguesa
é pouca,

isto não é
problema?

não aqui,
assim,
no meu poema.

.
.
.

domingo, 7 de setembro de 2014

Alguns poemas baianos

Tendo acabado de passar uma linda semana em Salvador, onde ministrei uma oficina na Fundação Cultural do Estado da Bahia, fiz uma fala na Universidade Federal da Bahia e conheci pessoas adoráveis, faço minha homenagem à terra da primeira Capital do país com uma pequena seleção de meus poemas favoritos de poetas baianos. 

§

António Vieira (1608 - 1697)

Sermão da Sexagésima (excerto)


Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

§

Gregório de Matos (1636 - 1696)


Anjo Bento

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:

Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:

Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:

Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:

Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:

Anjo Bento!

Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:

Deus me guarde!

/

[Carregado de mim ando no mundo]

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.

§

Luiz Gama (1830 - 1882)

O Barão da Borracheira

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.

Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!

§


Serei Conde, Marquês e Deputado


Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.

A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.

Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”

Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...


§

Pedro Kilkerry (1885 - 1917)



É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado.  E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda.  E a sala muda, muda...
Áfonamente rufa.  A asa da rima
Paira-me no ar.  Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.......................................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês?  Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

§


O verme e a estrela 

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?

§


Cetáceo

Fuma. É cobre o zênite. E, chagosos no flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada.
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um largo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala  um marujo no banco
Brunindo ao sol brunida a pele atijolada.

Tine em cobre o zênite e o vento arqueja e o oceano
Longo enfroca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d’ água ou do sol vermelho.

§


Sosígenes Costa (1901 - 1968)

O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

§

Duas festas no mar

Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.

Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.

E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.

Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.

Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.

E houve outra festa no mar.

§

O pôr-de-sol do papagaio

O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.

Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.

Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.

Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.


§

Erthos Albino de Souza (1932 - 200) 



(Nota: nascido em Minas, produziu grande parte de sua obra na Bahia, 
onde editou a importante revista Código)


§

Elomar Figueira Mello (Vitória da Conquista, 1937)



§


Caetano Veloso (Santo Amaro da Purificação, 1942)

A terceira margem do rio

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

§

O estrangeiro


§



Gilberto Gil (Salvador, 1942)





§




Waly Salomão (1943 - 2003)

Sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite da pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)

            pois a questão chave é:
            sob que máscara retornará?

§

Vapor Barato

 

§

Duda Machado (Salvador, 1944)


Meridiano

tempestades sem céu
de noites em claro

em que o espírito
rasga a carne
e a memória se contrai
ante um mapa

de linhas equívocas
cujos pontos foram percorridos
ao vivo
entre gestos hipnoticamente acesos

ignorantes
inacessíveis estrelas:
viver também pode
ser longe

acordar é raro
breve

um cochilo, piscar de olhos
por onde irrompe
o entrevisto espanto
do que somos
acordar é um sonho

despertar es raro
breve

§


Antônio Risério (Salvador, 1953)


Via Papua

desamarra a quilha, canoa
desamarra a quilha
e voa

(vai pelo ar
pelo mar
e sobre a ilha;
voa sobre o que
se armadilha)

mas voa leve, canoa
e leva uma estrela
na ponta da proa

cruza o mar, a névoa
o peito, a boca, a língua
almas que invadem nuvens
dobras de angra e de íngua

(mas voa leve, canoa
há uma estrada inteira
na ponta da tua proa)

e que o ar mais leve a leve
e faça das algas do céu
a minha única
e exclusiva
coroa,

canoa.

§

Abaite ya

para augusto de campos

"Their concept of a garden is a reproduction on a dwarfish scale of nature they see around themselves. It makes a characteristic contrast with the modern horizontal park dotted with geometric patterns of flower-beds and shady trees planted at regular intervals in parallel lines as in French gardens of the Cartesian age.- Shunkichi Akimoto.


morai mizu

yumê-sakura
no chão
da lagoa escura

yumê ah
ah yumê ah
ah yumê

yumê-sakura
no chão
da lagoa escura

o sol bashô
à doce brissa
caracol
ka-dô

lua branca
areia branca
uma polegada
escura

odô ya
a conta de vidro kai
o som da água

graveto kanji
kioto ketu
uma cidade:

mairi

asagao ya
oh ipoméia
abaité ya
a ideia
de uma
orquídea

sereia no ideograma
areia no brinquedo
ipupiara em ikebana

semilua em leque
a mulher bem nua
dama kasa não é minha
yamakochi
nem é tua:

sozinha sozinha
a mulher flutua

yamabuki
exu samurai
terreiro kabuki

sendas de okunrin
satoriki
um jardim enfim
onde eu ronin
onde eu chonin
diga sim ao sim

lua na neve

okê aro
me sento dentro
de uma peça nó

noite de outono
emi hakuryo
nenhum hagoromo
os olhos no cio

alakorô alakorô
oh oxotokanxoxô
o rei menos o reino
o cheiro de uma cor

§


Aviso à praça

O humano é um engano do humano.
Divide o humano em humano e desumano.
Sonho insano de se ver a salvo
De crivos e crises e crimes
Cravados no alvo.

Bobagem. Nenhum capitalismo é selvagem.
Puta não é cadela. Nem a vida, feroz.
O homem é o homem do homem.
Todos juntos e a uma só voz.
Humana é a sala de tortura,
A napalm, a navalha, a metralha no gueto
- a pele esfolada no porão.
Humana, humaníssima, a escravidão.

Humano é o arame farpado
O estripador branco, o estuprador preto,
Carndiru, Somália, Khmer, Bopal
O massacre na Praça da Paz Celestial.
Humana a fissão do átomo
Humana a fissura do FIM.

Não consta que roseiras e gaivotas ajam assim.

§

Karina Buhr (Salvador, 1974)



§

João Filho (Bom Jesus da Lapa, 1975)


Louvação ao Morão de Privintina

É Ojasso Margoso
farinhando seu sustento
na curva da duna
alinhavando lamento
na lombada da ponte
todo esforço é nulo
bovinamente bolando
a touceira e o pulo.

É fundura de cova
que tatu não se arrisca
e todo o seu incêndio
no meu capim é faísca
escancarada feito retina
em noite defunta
chumbo espalhado no ar
quenãoseajunta.

É Ojasso Margoso
farinhando proveito
pois a desavença o empurra
prum buraco estreito
a míngua é muita
a cama-de-quiabento
na estirância seca
desse campo restinguento.

Corpo boiando sem peso
na desausência do farto
feiúra pra mais de metro
abarrotando seu quarto
É Ojasso Margoso
garantindo guarnição
raspando até escama
de traíra, lambú e azulão.

É nêgo Bizuíto bizorando
no borralho da quebrada
gamela d’astúcia cheia
por todos ignorada
mas não se fie fidalgo
em luz de ponta-de-faca
da treita sua folia
das tripas sua capa.

O tempo nos assalta
com bala, ruga, confissão
carpindo, curvo, coxo
agregado no gibão
agentingole sapo
sapo, já engoliu brasa
e vai anjo gago, demente
depenar sua própriasa

Tira fina de córgo
vencendo lajedo
na embolada ladeira
malocando seu medo
avesso a ferro e lonjura
enfurecido engodo
comido pela metade
mas já morrido de todo.

Tá no eito largado
sem riso cuia ou lenha
larga logo um gemido
feito cadela prenha
mas é liso gongazeiro
evita beco, barulho
sabe que meganha é guariba
e pocomã engolintulho.

Nos vasos magros do mês
lambança deu embolia
sobrou as estacas do cercado
cruezas de casa vazia
desusos dum déu de desejo
de velhas usanças
despejo de verbos alheios
no meio da contradança.

Pipocam clarões
no lado esquerdo das esquinas
Tõin gongá releva
mas já não tarantina
o que vai dentro da treva
côa sua resina
é zabelê ciscando rumo
no descompasso da chacina.

§

Karina Rabinovitz (Salvador, 1977)



§

Lívia Natália (Salvador, 1979)


Sobre o tempo

Se este vento persistir ainda alguns verões
e a flama acesa ainda banhar a mesa
e dançar nas paredes com suas sombras luminosas,
teremos pão. Teremos corpo,
e algo de um silêncio que não nos corte muito fundo.
Teremos a lâmina com seu fio imperfeito tangendo os tempos.

Em persistindo o vento sobrelevando as estações
Ainda serão seus cabelos que lamberão minha virilha
e terei seus olhos fechados me tateando no ar.

Em persistindo,
para além da chuva imensa e do acre que devora o verão
esta alegria descortinada e estes olhos de lágrima e brisa,
mais seremos um para o outro,
e estaremos mergulhados neste entreentranhas que,
quando venta,
somos nós.

§


Orisa didê

Arranca as percatas de seu cavalo
e nele galopa com os pés no chão.
Solta um grito que se espeta no alto
e,
repetido,
saúda a terra com a majestade de sua presença.

Dança sem a calma das horas,
pois seus braços se erguem para fora do tempo.

Caminha com sua carne de mito
e, quando vai, não parte.
Apenas se banha em seu próprio mistério.


§


Rodrigo Damasceno (Feira de Santana, 1985)



Kosí Ewé, 
Kosí Òrisà

        para Maria Dolores

Onde não
tem mato
mas mesmo
assim folha -
estou.

Onde não
passa rio
mas mesmo
assim pássaro -
estou.

Onde não
bate mar
(coração)
mas mesmo
assim onda -
estou.

Onde não
pega fogo
mas mesmo
assim chama -
estou.

Onde não
chega gente
mas mesmo
assim vamos -
estou.

Aqui
Restou

§

Os peixes vermelhos

estou contando
os peixes
que passam:
somo os vivos
aos mortos -
e conto todos;
e em seguida
ao centésimo
de cor azul,
de cor pedra,
de cor fogo,
vou acender
um teu cigarro
e mergulhar
(apneia, agonia,
certo sufoco)(vou
em teu cavalo
terreno, este
bicho louco -
enxame de músculo
e osso - e ponte):
e passarei com eles,
com os peixes roxos,
aos pés
de quem nos conte,
a todos,
esteja eu vivo
esteja
eu morto.

§

Portugal não descobriu
o mundo,
mas eu conheço
gente que vive
em Maputo, que viu
o Japão,
que ama
o Porto - e este
poema é escrito
com acento
luso. Conheço um
português, (ele é o dono
desta pensão),
que já não tem
sotaque, já não
tem saudades: ao
falar-me de sua
cidade, comparou-a
com o sertão,
ele pensa
que eu vim
do sertão
(que bom, pensa
que sou como
ele, então)
Portugal não descobriu
o mundo,
mas eu conheço
gente que quer
voltar para o Rio de Janeiro,
que já não suporta
o caos, já não suporta
o cheiro
mau
do rio Pinheiros - será
que este também
vai morrer
no meio do mar?
Portugal não descobriu
o mundo,
não é o dono do mar,
mas eu conheço gente,
conheço gente,
conheço
gente.


§


Uyatã Rayra (Feira de Santana, 1987)


§


Encerro esta postagem com 3 poemas, de 3 poetas com quem convivi durante os dias de oficina em Salvador. Meu abraço a todos os novos amigos na Bahia.


Alex Simões (Salvador, 1973)

poesia, pai dê uma
poesia    é
             é round
             é play-ground
             é underground
             é all-around

quem não gosta de brincar
não desce da plêiade

e põe a culpa no Pound

§

Marcio Junqueira (Feira de Santana, 1981)




Ele não era louro, era gallego

(Para ler ao som de "Quero ser justo" - Caetano Veloso)

ele não era louro
era gallego
gallego da galícia
há muitos anos seu avô
tinha vindo de lá

teve duas filhas
a mais nova
- ainda muito nova -
engravidou
casou/separou
e teve esse menino
que não era louro
esse menino
gallego
que comia terra
brincando com o avô
no quintal em paciência
esse avô
que era louro
e mais que isso
era : gallego gallego
(seus pais (os bisavós do menino) eram primos)
essa parte da historia ele não contou
mas eu imagino
muito magro e muito branco
tomando chocolate
e assistindo doug
frágil e assombrado
como agora
(quando o avô já não é mais
quando paciência é um lugar longe
onde, de vez em quando, ele vai)
sentado no sofá azul
na fotografia que não tirei
falando coisas que não ouço
concentrado que estou na sua boca
ou mais cedo
com luva amarela de borracha
mexendo mingau de maizena
e cantando mr. sandman
daqui a pouco vou beijá-lo
depois disso
vão existir duas noites e dois dias
mortos
até ressuscitar ao terceiro dia
e me fazer feliz
e me fazer infeliz depois
mas antes disso
eu olho ele
ele me olha
e nem mesmo
saturno visto de um telescópio
o livro das perguntas de neruda
uma pessoa pintada e deitada na grama
ou uma casa de legos habitada por playmobils
consegue ser mais bonito.

§

Ederval Fernandes (Feira de Santana, 1985)

O cobrador da van disse

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

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