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quarta-feira, 2 de maio de 2012

A poesia perante o genocídio: três poemas de Heimrad Bäcker

Esta tarde, o poeta André Vallias postou numa das redes sociais um artigo da revista Jacket2, que discute a poesia do austríaco Heimrad Bäcker (1925 - 2003). O pequeno artigo chama-se "Poetic representations of the Holocaust". Trouxe-me à mente as "traduções / anotações" que fiz de três poemas visuais/textuais de Heimrad Bäcker em 2008, para a Modo de Usar & Co., que reproduzo abaixo. Como estamos vivendo a situação atual em que o Governo de Dilma Rousseff mostra-se disposto a colocar-se às portas de cometer genocídio no Brasil, que será a consequência do ecocídio causado pela construção inconstitucional da hidrelétrica em Belo Monte, quis trazer a questão a este espaço, no mesmo espírito de "I have nothing to say / so I let others say it / and that´s poetry / as I need it". É assustador ver o Governo da ex-guerrilheira assumir caráter desenvolvimentista irresponsável, como o da Ditadura Militar. Não se pode esquecer, neste caso específico, que Belo Monte foi idealizada pela Ditadura. Se a alguém parecer exagero o uso da palavra "genocídio" neste contexto, reproduzo aqui as palavras do poeta Pádua Fernandes:

"A Convenção da ONU para a prevenção e a repressão do crime de genocídio foi celebrada em 1948 e o Brasil dela participa desde 1952. A lei federal nº 2889, que tipifica o crime, é de 1956: 


Art. 1º 
Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal: 
a) matar membros do grupo; 
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; 
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; 
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; 
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo; 


Não consigo entender porque ela jaz quase inaplicada enquanto a matança de índios permanece firme no Brasil, sob ou sobre este governo que vê o meio-ambiente como ameaça à sustentabilidade." - Pádua Fernandes, in O Palco e o Mundo, 19 de abril de 2012.

A postagem abaixo, com os poemas de Heimrad Bäcker, poderia levar-nos a várias questões: a possibilidade de representação do horror em linguagem poética, assim como a capacidade horripilante que o humano possui de racionalizar o horror. Não estou dedilhando oxímoros. O impensável teve papel fundamental no sucesso do plano de extermínio nazista, já que a grande maioria das vítimas entregou-se nas mãos dos algozes, mesmo quando ouviam as assustadoras histórias ("boatos") das matanças, pois era-lhes simplesmente impensável que outros seres humanos fossem capazes do que o foram, tão eficiente e energicamente, os nazistas e seus colaboradores internacionais (na França - pesquise "Vélodrome d´Hiver / 1942" -, na Áustria, na Hungria, etc ). Hannah Arendt já escreveu sobre isso de forma tocante e inteligente. É difícil não pensar aqui na última proposição de Wittgenstein no Tractatus (para o austríaco, não há diferença entre o impensável e o indizível): "Sobre o que não se pode falar, deve-se calar" (Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen). Abaixo, vemos como Heimrad Bäcker lidou com o dilema.


Heimrad Bäcker (1925 - 2003) 
por Ricardo Domeneck 
para a Modo de Usar & Co. 
11 de maio de 2008


Heimrad Bäcker nasceu em Viena, Áustria. Estudou filosofia, sociologia e filologia germânica. Mudou-se mais tarde para Linz, onde passou a lecionar. Iniciou um trabalho de pesquisa histórica nos arquivos nazistas austríacos na década de 50. Começa a publicar seus textos na década seguinte e, entre 1968 e 1992, foi editor da revista neue texte, mais tarde transformada em editora, dedicada à literatura experimental. O poeta morreu em Linz, em 2003.

A Modo de Usar & Co. apresenta 3 poemas visuais de Heimrad Bäcker, da década de 80, criados em sua pesquisa histórica sobre o extermínio de judeus pelos nazistas. Sua escolha é pelo silêncio pessoal de respeito e a apresentação de documentos que gritam por si mesmos. Os três poemas são chamados de "epitáfios".

Ontem, 10 de maio de 2008, completaram-se 75 anos da noite em que livros foram queimados numa grande fogueira em Berlim, na Bebelplatz, na frente da Universidade Humboldt. O tom da "comemoração" e memorial do evento aqui na Alemanha tomou, em alguns aspectos e em meio ao vozerio de boas intenções, o sussurro do eufemismo e da banalização espetacular, encabeçados pela epígrafe repetida inúmeras vezes neste contexto: a declaração do poeta judeu Heinrich Heine (1797 - 1856), que foi impedido em seu tempo de exercer a profissão que escolhera por ser judeu e morreu no exílio, banido por seu ativismo político, de que "wo man Bücher verbrennt, verbrennt man auch am Ende Menschen", ou seja, "onde se queimam livros, acabarão por queimar por fim também pessoas." Os poemas de Heimrad Bäcker trazem de forma clara à consciência política e poética esta causalidade expressa na frase de Heine, que se fez verdadeiramente histórica na Alemanha nazista. Outra data se faz importante neste contexto, que apresenta os trabalhos de um poeta austríaco: em 2008 completam-se os 60 anos da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich de Hitler, anexação que foi celebrada pela grande parte dos austríacos da época, prontos para colaborar com o projeto nazista. Após a guerra, o período 1938 - 1945 foi relegado ao eufemismo dos chamados "anos alemães". Esta hipocrisia seria fortemente combatida por poetas e escritores austríacos do pós-guerra, como Thomas Bernhard, Ingeborg Bachmann, H.C. Artmann e Heimrad Bäcker.


epitáfio (1) – 1989

documentos da história dos judeus de frankfurt (1933-1945), capítulos I 1 – XIV 15.

Nota do tradutor: A expressão "nach dem osten nach dem osten" ao final deste primeiro poema pode ser traduzida como "para o leste para o leste".





epitáfio (2) – 1989

texto rotativo com abreviações dos nomes dos campos de concentração alemães de dachau, sachsenhausen, buchenwald, mauthausen, etc. (usadas para comunicação interna)





epitáfio (3) – 1986

plano ferroviário nr. 587 da direção geral da ostbahn (ferrovia do leste), do dia 15 de setembro de 1942: “trem especial para migrantes”


Notas: Sedziszow, Szydlowiec e Kosienice são cidades do interior da Polônia. O campo de extermínio de Treblinka é o mais conhecido dos quatro campos de extermínio da chamada “Operação Reinhard”, nome dado pelos nazistas para o programa de extermínio dos judeus poloneses. Treblinka foi o destino da grande maioria dos judeus do Gueto de Varsóvia. Entre julho de 1942 e setembro de 1943, cerca de 750.000 judeus foram assassinados no campo. Em agosto de 1943, cerca de 1.500 prisioneiros judeus iniciaram uma revolta. Tomando armas de pequeno porte e querosene, conseguiram incendiar a maior parte dos prédios do campo. Alguns soldados nazistas foram mortos na revolta, mas ao fim apenas algumas dezenas dos prisioneiros sobreviveram. O extermínio estava muito próximo de ser completado, mas após a revolta o campo de Treblinka tornou-se inoperável. O campo foi oficialmente fechado em novembro de 1943, após o fuzilamento do último grupo de prisioneiros (cerca de 40 meninas). O diretor do campo de extermínio de Treblinka, o austríaco Franz Stangl, fugiu para o Brasil, onde viveu por quase duas décadas usando seu nome verdadeiro e até mesmo registrado oficialmente no Consulado da Áustria em São Paulo, onde viveu. Só seria extraditado em 1967 e condenado pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças, assassinatos sobre os quais comentou de forma leviana: “Eu apenas fiz meu trabalho.”





9228 de sedziszow para treblinka

9229 trem vazio

9230 de szydlowiec para treblinka

9231 trem vazio

9232 de szydlowiec para treblinka

9233 trem vazio

9234 de kosienice para treblinka

9235 trem vazio



tradução e notas de Ricardo Domeneck

quinta-feira, 22 de março de 2012

Recomendação: "Desarquivando o Brasil: A Comissão da Inverdade, o começo", artigo de Pádua Fernandes

Recomendo aos leitores deste espaço uma visita ao do poeta Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971), no qual tem mantido uma discussão séria e importantíssima sobre a Ditadura Militar no Brasil e seus desdobramentos até os nossos dias. Recomendo muitíssimo a leitura do artigo no link abaixo, importante não apenas pelas informações importantes que divulga, mas também por sua exposição de como a linguagem segue sendo distorcida e manipulada na discussão sobre o período e seus crimes. Para poetas, tal discussão / meditação parece-me simplesmente uma "obrigação". Sim, eu sei que vocês não gostam da palavra, colegas. Digamos, então, "uma função social possível para poetas em suas comunidades, mas não única ou mandatória".


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domingo, 3 de abril de 2011

Desarquivando o Brasil: pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar

Ocorreu este fim de semana a terceira edição da blogagem coletiva pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, iniciativa da jornalista Niara de Oliveira.

A situação de nossa memória histórica em relação à última ditadura parece ser uma das mais lacunares dentre os países latino-americanos que padeceram da mesma catástrofe histórica.

Dos poetas e escritores que produziram sob o regime de Getúlio Vargas, alguns deixaram-nos documentos est-É-ticos de tirar o fôlego, seja na prosa de Graciliano Ramos, primordialmente no póstumo Memórias do Cárcere (1953) mas também de forma difusa na obra-prima que é Angústia (1936), ou na poesia de Carlos Drummond de Andrade em Sentimento do mundo (1942) e A Rosa do Povo (1945). Poderíamos ainda pensar em trabalhos de Dyonélio Machado e Patrícia Galvão.

E quanto à literatura brasileira produzida sob Costa e Silva, Médici e Geisel, para citar os três mais truculentos e sob os quais cometeu-se a grandíssima parte dos Crimes de Terror do Estado? Na poesia, a catástrofe histórica que engoliu nossos pais e nosso futuro naquele momento talvez tenha encontrado algumas de suas gargantas mais potentes em poetas como Wally Salomão e Torquato Neto.

Literato cantabile
Torquato Neto

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:


Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.


Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:


só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:


não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento



O primeiro estudo que li sobre a literatura e poesia produzidas no período da ditadura militar foi publicado por Flora Süssekind pela primeira vez em 1985 e chama-se Literatura e Vida Literária: Polêmicas, Diários e Retratos. Creio que o li aos 20 anos na biblioteca de uma amiga, em meados de 1998. Sempre me lembro do livro, pelo ineditismo que aquela discussão tinha na minha vida e também por me apresentar a poetas e escritores que desconhecia (cito Ronaldo Brito como exemplo).

Já o último livro no qual tenho pesquisado o assunto eu descobri apenas no ano passado e chama-se Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina, publicado por Idelber Avelar pela primeira vez no Brasil em 2000. Nele, Avelar discute as estratégias memorialistas de luto de alguns dos mais importantes romancistas latino-americanos a lidarem com a catástrofe, discutindo entre eles livros brasileiros que já coloquei na lista de leituras urgentes, como Em Liberdade (1981), de Silviano Santiago, e Bandoleiros (1985), de João Gilberto Noll.

Em seu blogue, o poeta Pádua Fernandes participou desta blogagem coletiva publicando alguns textos em que discute a situação deste debate no Brasil, comentando alguns documentos ligados à ditadura militar, e ainda uma entrevista com o poeta Julián Axat, filho de cidadãos argentinos assassinados pelo Regime militar, um dos membros fundadores do grupo H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio) e também editor da coleção Los Detectives Salvages, que se dedica a resgatar o trabalho dos poetas assassinados pela ditadura antes que pudessem publicar seus poemas. Graças à coleção, descobri, por exemplo, o belo trabalho do poeta Carlos Aiub, nascido em 1952 e sequestrado pelo Regime em 1977 - nunca mais foi visto.

Nestas duas últimas semanas estive relendo o que alguns poetas que admiro produziram sob regimes totalitários. Andei com o segundo e o terceiro volumes da poesia completa (Gesammelte Gedichte) de Bertolt Brecht no bornal, que cobrem os anos 1933 - 1941 e 1941 - 1947, respectivamente. Os poemas escritos durante o regime de Hitler. Voltei também a ler o que Carlos Drummond de Andrade escreveu sob o regime de Vargas, sem me esquecer que o nosso grande poeta anarquista-burocrata trabalhou com Gustavo Capanema no governo daquele a partir de 1934. Em minha viagem à Espanha na semana passada reconectei-me com a poesia de Gabriel Celaya, que manteria um trabalho de resistência durante o regime de Franco, assim como Blas de Otero e Carlos Álvarez.

Neles reencontro a maravilhosa flexibilidade da historicidade presente na grande poesia. Aquela que nos transporta a um momento histórico e local específicos, ao mesmo tempo que abre nossos olhos para o nosso momento histórico e local. Poesia que nos permite viajar no tempo e saber como era Roma sob César ou o Rio de Janeiro sob Vargas, e ainda fazer do seu autor, seja Catulo ou Drummond, nosso contemporâneo. Isso, no entanto, nada tem a ver com o que certa crítica (neofriedrichiana e neogreenberguiana) gosta de chamar de "trans-historicidade", conceito criado para justamente poderem ignorar com consciência acrítica tranquila esta incrível flexibilidade histórica da poesia.

Meu interesse é compreender de que maneira estes poemas logram sobreviver ao naufrágio de seus contextos históricos, já que tantos deles sobrevivem com uma youthfulness exemplar. Talvez parte das respostas esteja em um poema de Brecht que traduzi na semana passada. Chama-se "As novas eras", escrito em plena Segunda Guerra Mundial.

As novas eras

As novas eras não começam de uma vez.
Meu avô viveu já nos novos tempos
Meu neto com certeza ainda viverá nos velhos.

A carne nova será comida com o velho garfo.

Não foram os veículos motorizados
Nem os tanques
Não foram os aviões sobre nossos tetos
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vieram as velhas bobagens.
A sabedoria distribuíu-se de boca em boca.


(Bertolt Brecht, tradução de Ricardo Domeneck)


Die neuen Zeitalter: Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal. / Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit. / Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben. // Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen. // Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht / Noch die Tanks. / Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht. / Noch die Bomber. // Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten. / Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.


É necessário alertar que eu NÃO estou defendendo "poesia engajada" e NÃO estou querendo impor a outros escritores com o que devem se preocupar. NÃO se trata de tomar partido ou afiliar-se a um. O poeta paulistano Dirceu Villa escreveu um artigo inteligente (como sempre) a respeito disso na semana passada. Ainda que discorde de alguns pontos, está muito bem exposto ali o perigo do engagée. Basta lermos alguns dos poemas de Brecht publicados no volume do qual retirei o lindo texto acima, ou outros de Vladimir Maiakóvski, Pablo Neruda ou Muriel Rukeyser.

No entanto, serão realmente as únicas opções do poeta o engajamento ou o absenteísmo? Pessoalmente, tudo o que busco é que minha poesia esteja DESPERTA, ACORDADA. Que eu esteja desperto, acordado.

Volto a alguns dos mais vivos poemas de Brecht, Drummond, Oppen, Celaya. Escritos em circunstâncias históricas tão específicas, transportam-nos estes poemas às trevas de datas muito bem marcadas no calendário. Ao mesmo tempo, quem em sã consciência dirá que a obra-prima abaixo envelheceu ou não nos diz mais respeito?



Nosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.



in A Rosa do Povo (1945)

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Brian Kenny na Hilda Magazine e outras recomendações aos amigos, de filmes, poetas e preocupações

Algumas sugestões e recomendações aos amigos e leitores deste espaço.

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Postamos alguns trabalhos recentes do jovem artista americano
BRIAN KENNY (n. 1982) na Hilda Magazine, de sua série "Targets". Brian Kenny pertence a uma geração de artistas que cresceu e educou-se num mundo no qual a internet era já uma realidade, o que me parece claramente perceptível em seu trabalho e metodologia. Um dos jovens ícones da cena gay subterrânea nova-iorquina (em tempos de redes sociais, portanto global) o trabalho dele gera reações de vários tipos. As mensagens de descontentes já chegaram às caixas postais de nossa microscópica redação, assim como disparou o número de visitantes. Em minha leitura, seu trabalho expõe certas relações de poder, conectando de forma erótica símbolos de militarismo e policiamento a uma espécie de iconografia pornográfica. Sua abordagem crítica é ambígua, o que talvez incomode algumas pessoas.




Brian Kenny


Brian Kenny nasceu em 1982, em uma base militar americana na Alemanha. Quando criança, viajou e mudou-se com o pai, militar de carreira, e sua família por muitas bases na Europa e Estados Unidos, vivendo dentro deste ambiente de controle e poder que ele passaria a rever em seu trabalho. Vive e colabora há anos com seu namorado, o fotógrafo e poeta dissidente russo Slava Mogutin (n. 1974), formando o duo SUPERM. Já expôs em Nova Iorque, Berlim, Moscou e Tóquio.


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Recomendo a leitura do ensaio "A revolução acabou. Começa a idade da revolta", do italiano Marco Belpoliti, traduzido por Eduardo Sterzi e publicado no número 43 da revista eletrônica Sopro, que se autodenomina
panfleto político-cultural, ligado ao espaço Cultura e Barbárie. O artigo é muito bom, levantou ótimas perguntas para minha cabeçoila. Em outros números da revista é possível ler textos de Giorgio Agamben, María Zambrano e Georges Didi-Huberman.






§


Quem quer que tenha acompanhado este espaço por meros dias já deverá saber de minha preocupação obsessiva com a função histórica do poeta, a relação de seu trabalho com a linguagem e os acontecimentos que a rodeiam. Pois é... quando penso que estou me acalmando e poderei ser feliz escrevendo poemas de amor e dor-de-cotovelo pelo resto dos meus dias (ainda que os mais atentos já tenham percebido como mesmo estes estão eivados de minhas obsessões), algo acontece, não sei dizer o quê, mas é como se o Anjo de Benjamin e o de Rilke resolvessem fazer piquenique e discutir seu namoro no topo da minha cabeça.

De qualquer forma, há os motivos externos, como ter assistido ultimamente a certos filmes latino-americanos, ou o de Semion Aranovich sobre Anna Akhmátova; leituras recentes de livros de Hannah Arendt, Vassily Grossman e Alexander Soljenítsin; estar lendo o livro
Servarios (Buenos Aires: Zama, 2005), coletânea de poemas do argentino Julián Axat (n. 1976), presente por correio do poeta carioca Pádua Fernandes (n. 1976, autor de Os Cinco Lugares da Fúria), que, por sua vez, tem discutido largamente em seu blogue a relação do Brasil com sua História recente e os crimes da ditadura. Julián Axat tem um trabalho editorial maravilhoso de recuperação do trabalho de poetas assassinados pela ditadura argentina.

Será mesmo que o Brasil NUNCA punirá os crimes da sua ditadura militar, enquanto a Argentina, por exemplo, já pôs Videla na cadeia pelo resto de seus dias?

Recomendo aos leitores deste espaço que passem pelo Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, que mantém aberta esta discussão, no País que esquece tudo depois da ressaca do Carnaval.


§



O novo makar da cidade de Glasgow é a poeta Liz Lochhead (n. 1946). Makar, palavra que segue a mesma ideia de
fabbro, o que faz, é o poeta, o bardo, usado antigamente para referir-se a autores escoceses como William Dunbar (1460 – 1520) e Gavin Douglas (1474 – 1522). Em 2002, a cidade de Edimburgo instituiu novamente o posto de makar, seguida por Glasgow. O último makar da cidade foi Edwin Morgan (1920 - 2010), que tem tido certa recepção no Brasil. Talvez tal tradição pareça estranha a um brasileiro, e somos lembrados do poema de Carlos Drummond de Andrade em que ele satiriza as aspirações de poetas municipais. De qualquer forma, Liz Lochhead é uma poeta com uma veia satírica maravilhosa, e tem poemas realmente muito bons. Gosto muito do poema em que ela escreve:


& just when our maiden had got
good & used to her isolation,
stopped daily expecting to be rescued,
had come almost to love her tower,
along comes This Prince
with absolutely
all the wrong answers.


São versos do livro
True Confessions and New Clichés (1985), do qual vou tentar traduzir alguns poemas para a Modo de Usar & Co.



§



Com um dos melhores atores de sua geração, Ryan Gosling (além de incrivelmente bonito e charmoso), e uma atriz competentíssima e talentosa como Michelle Williams, o filme
Blue Valentine (2010) foi um dos retratos mais delicados e ao mesmo tempo secos que já vi sobre a dissolução de um relacionamento. Recomendo muito. Gosling está (mais uma vez) impecável e Williams não faz nada feio.




Por hoje é só, pessoal.

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