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terça-feira, 1 de abril de 2014

Imagem & Som para a performance "Quede Qaddish", com Markus Nikolaus, no MMK-Frankfurt


No ano passado, quando fui convidado a fazer uma performance no programa paralelo da retrospectiva de Hélio Oiticica no Museu de Arte Moderna de Frankfurt, preparei em colaboração com meu parceiro alemão Markus Nikolaus uma peça que chamei de "Quede Qaddish", com um poema simples seguido da lista de desaparecidos da Ditadura - lista à qual incluí nomes como o de Amarildo de Souza e Oziel Gabriel. Hoje, incluiria na performance do texto o nome de Cláudia Silva Ferreira. Por imagem, um slideshow com fotos de vários deles, unido ao texto vocalizado e a música composta e tocada ao vivo por Markus. Queria preparar um vídeo com a peça para hoje, mas não consegui terminá-lo. Posto então aqui, apenas pelo dia de hoje e em homenagem aos que foram e são mortos pelos Militares brasileiros desde 1964, o texto da performance, abaixo, com o slide e música no vídeo, acima.

Quede Qaddish

O corpo
também é penetrável.
Bala, eletrochoque,
rato, faca.

O corpo
também é flexível.
Forca, cadeira do dragão,
geladeira, pau-de-arara.

O corpo
também é irrastreável.
Vala comum, deserto,
Oceano Atlântico.

O corpo
também é catalogável.
Arquivos do Exército,
Marinha, Aeronáutica.

Lista de chamada:
Dilma Rousseff, presente.

Ausentes:

Adriano Fonseca Filho
Aluísio Palhano Pedreira Ferreira
Amarildo de Souza
Ana Rosa Kucinski Silva
André Grabois
Antônio ´Alfaiate´
Antônio Alfredo Campos
Antônio Carlos Monteiro Teixeira
Antônio de Pádua Costa
Antônio dos Três Reis Oliveira
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Joaquim Machado
Antônio Teodoro de Castro
Arildo Valadão
Armando Teixeira Frutuoso
Áurea Eliza Pereira Valadão
Aurino Pereira dos Santos Pataxó Hã-Hã-Hãe
Aylton Adalberto Mortati
Bergson Gurjão Farias
Caiupy Alves de Castro
Carlos Alberto Soares de Freitas
Celso Gilberto de Oliveira
Celso Rodrigues Guarani-Kaiowá
Chico Mendes
Cilon da Cunha Brun
Ciro Flávio Salasar Oliveira
Cláudia Silva Ferreira
Custódio Saraiva Neto
Daniel José de Carvalho
Daniel Ribeiro Callado
David Capistrano da Costa
Dênis Casemiro
Dermeval da Silva Pereira
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Sousa
Dorothy Stang
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Edmur Péricles Camargo
Eduardo Collier Filho
Elmo Corrêa
Elson Costa
Enrique Ernesto Ruggia
Ezequias Bezerra da Rocha
Félix Escobar Sobrinho
Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira
Francisco Manoel Chaves
Galdino Jesus dos Santos
Gilberto Olímpio Maria
Guilherme Gomes Lund
Heleni Telles Ferreira Guariba
Helenira Rezende de Souza Nazareth
Hélio Luiz Navarro de Magalhães
Hiran de Lima Pereira
Honestino Monteiro Guimarães
Idalísio Soares Aranha Filho
Ieda Santos Delgado
Isis Dias de Oliveira
Issami Nakamura Okano
Ivan Mota Dias
Jacinto Rodrigues Pataxó Hã-Hã-Hãe
Jaime Petit da Silva
Jana Moroni Barroso
Jayme Amorim Miranda
João Alfredo Dias
João Batista Rita
João Carlos Haas Sobrinho
João Cravim Pataxó Hã-Hã-Hãe
João Gualberto Calatroni
João Leonardo da Silva Rocha
João Massena Melo
Joaquim Pires Cerveira
Joaquinzão
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Jorge Oscar Adur (Padre)
José Humberto Bronca
José de Jesus Silva Pataxó Hã-Hã-Hãe
José Lavechia
José Lima Piauhy Dourado
José Maria Ferreira Araújo
José Maurílio Patrício
José Montenegro de Lima
José Pereira Pataxó Hã-Hã-Hãe
José Porfírio de Souza
José Roman
José Toledo de Oliveira
Kleber Lemos da Silva
Libero Giancarlo Castiglia
Lourival de Moura Paulino
Lúcia Maria de Sousa
Lúcio Petit da Silva
Luís Almeida Araújo
Luís Eurico Tejera Lisboa
Luís Inácio Maranhão Filho
Luiz René Silveira e Silva
Luiz Vieira de Almeida
Luíza Augusta Garlippe
Manuel José Nurchis
Marcos Veron Guarani
Márcio Beck Machado
Marco Antônio Dias Batista
Marcos José de Lima
Maria Augusta Thomaz
Maria Célia Corrêa
Maria Lúcia Petit da Silva
Mariano Joaquim da Silva
Mario Alves de Souza Vieira
Maurício Grabois
Miguel Pereira dos Santos
Nelson de Lima Piauhy Dourado
Nestor Veras
Norberto Armando Habeger
Onofre Pinto
Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior
Orlando Momente
Oziel Gabriel
Paulo César Botelho Massa
Paulo Costa Ribeiro Bastos
Paulo de Tarso Celestino da Silva
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Pedro Alexandrino de Oliveira Filho
Pedro Carretel
Pedro Inácio de Araújo
Ramires Maranhão do Vale
Rodolfo de Carvalho Troiano
Rosalindo Souza
Rubens Beirodt Paiva
Ruy Carlos Vieira Berbert
Ruy Frazão Soares
Sérgio Landulfo Furtado
Stuart Edgar Angel Jones
Suely Yumiko Kamayana
Telma Regina Cordeiro Corrêa
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto
Tobias Pereira Júnior
Uirassu de Assis Batista
Umberto Albuquerque Câmara Neto
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Virgílio Gomes da Silva
Vitorino Alves Moitinho
Walquíria Afonso Costa
Wálter de Souza Ribeiro
Wálter Ribeiro Novaes
Wilson Silva

O corpo
também é penetrável.
Bala, eletrochoque,
rato, faca.

O corpo
também é flexível.
Forca, cadeira do dragão,
geladeira, pau-de-arara.

O corpo
também é irrastreável.
Vala comum, deserto,
Oceano Atlântico.

O corpo
também é catalogável.
Arquivos do Exército,
Marinha, Aeronáutica.

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

#DesarquivandoBR: "Que Bom Te Ver Viva" (1989), filme de Lúcia Murat.



 #DesarquivandoBR: Que Bom Te Ver Viva (1989), filme de Lúcia Murat.

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

#DesarquivandoBR: "AI-5 e soluços"

VIII Blogagem Coletiva

na semana dos 45 anos do Ato Institucional #5



ATO INSTITUCIONAL Nº 5, DE 13 DE DEZEMBRO DE 1968

O PRESIDENTE (sic) DA REPÚBLICA (sic) FEDERATIVA (sic) DO BRASIL, ouvido (sic) o Conselho (sic) de Segurança (sic) Nacional (sic),

e

CONSIDERANDO (sic) que a Revolução (sic) Brasileira (sic) de 31 de março (sic) de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou (sic), fundamentos (sic) e propósitos (sic) que visavam a dar (sic) ao País (sic) um regime que, atendendo (sic) às exigências (sic) de um sistema jurídico (sic) e político (sic), assegurasse autêntica (sic) ordem democrática (sic), baseada na liberdade (sic), no respeito (sic) à dignidade (sic) da pessoa humana (sic), no combate à subversão (sic) e às ideologias contrárias (sic) às tradições de nosso povo (sic), na luta (sic) contra (sic) a corrupção (sic), buscando, deste modo (sic), "os meios indispensáveis (sic) à obra de reconstrução (sic) econômica (sic), financeira (sic), política (sic) e moral (sic) do Brasil (sic), de maneira a poder enfrentar (sic), de modo direto e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração (sic) da ordem interna (sic) e do prestígio (sic) internacional (sic) da nossa pátria (sic)" (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);

CONSIDERANDO que o Governo (sic) da República (sic), responsável (sic) pela execução daqueles objetivos e pela ordem (sic) e segurança (sic) internas (sic), não só não (sic) pode permitir (sic) que pessoas ou grupos anti-revolucionários (sic) contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando (sic) a compromissos (sic) que assumiu (sic) com o povo brasileiro (sic), bem como porque o Poder Revolucionário (sic), ao editar (sic) o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente, que "não se disse que a Revolução (sic) foi, mas que é e continuará" e, portanto, o processo revolucionário (sic) em desenvolvimento (sic) não (sic) pode ser detido (sic);

CONSIDERANDO que esse mesmo Poder Revolucionário (sic), exercido pelo Presidente (sic) da República (sic), ao convocar (sic) o Congresso Nacional (sic) para discutir (sic), votar (sic) e promulgar (sic) a nova Constituição (sic), estabeleceu que esta, além de representar "a institucionalização dos ideais (sic) e princípios (sic) da Revolução" (sic), deveria "assegurar a continuidade da obra revolucionária (sic)" (Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966);

CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente (sic) subversivos (sic), oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos (sic), que a Revolução (sic) vitoriosa (sic) outorgou (sic) à Nação (sic) para sua defesa (sic), desenvolvimento (sic) e bem-estar (sic) de seu povo (sic), estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa (sic) a adoção (sic) de medidas (sic) que impeçam sejam frustrados os ideais (sic) superiores (sic) da Revolução (sic), preservando (sic) a ordem (sic), a segurança (sic), a tranqüilidade (sic), o desenvolvimento (sic) econômico (sic) e cultural (sic) e a harmonia (sic) política (sic) e social (sic) do País comprometidos (sic) por processos subversivos (sic) e de guerra (sic) revolucionária (sic);

CONSIDERANDO que todos esses fatos perturbadores (sic) da ordem (sic) são contrários aos ideais (sic) e à consolidação do Movimento de março (sic) de 1964, obrigando (sic) os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências (sic) necessárias (sic), que evitem sua destruição,

Resolve editar o seguinte

ATO INSTITUCIONAL

Art. 1º - São mantidas a Constituição (sic) de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições (sic) estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.

Art. 2º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá decretar o recesso (sic) do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente (sic) da República (sic).

§ 1º - Decretado o recesso (sic) parlamentar, o Poder Executivo (sic) correspondente fica autorizado (sic) a legislar (sic) em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições (sic) ou na Lei (sic) Orgânica (sic) dos Municípios.

§ 2º - Durante o período (sic) de recesso (sic), os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios.

§ 3º - Em caso de recesso (sic) da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.

Art. 3º - O Presidente (sic) da República (sic), no interesse nacional (sic), poderá decretar (sic) a intervenção (sic) nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição (sic).

Parágrafo único - Os interventores (sic) nos Estados e Municípios serão nomeados (sic) pelo Presidente (sic) da República (sic) e exercerão (sic) todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão (sic) das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.

Art. 4º - No interesse de preservar a Revolução (sic), o Presidente (sic) da República (sic), ouvido o Conselho (sic) de Segurança (sic) Nacional (sic), e sem as limitações previstas na Constituição (sic), poderá suspender (sic) os direitos políticos de quaisquer cidadãos (sic) pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

Parágrafo único - Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados substitutos, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.

Art. 5º - A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:

I - cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;

II - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;

III - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;

IV - aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança (sic):

a) liberdade (sic) vigiada;

b) proibição de freqüentar determinados lugares;

c) domicílio determinado,

§ 1º - O ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.

§ 2º - As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro (sic) de Estado (sic) da Justiça (sic), defesa (sic) a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário (sic).

Art. 6º - Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.

§ 1º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.

§ 2º - O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.

Art. 7º - O Presidente (sic) da República (sic), em qualquer dos casos previstos na Constituição (sic), poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.

Art. 8º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá, após (sic) investigação (sic), decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.

Parágrafo único - Provada a legitimidade (sic) da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.

Art. 9º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário (sic) à defesa da Revolução (sic), as medidas previstas nas alíneas d e e do § 2º do art. 152 da Constituição (sic).

Art. 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes (sic) políticos, contra (sic) a segurança (sic) nacional (sic), a ordem (sic) econômica (sic) e social (sic) e a economia popular (sic).

Art. 11 - Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.

Art. 12 - O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições (sic) em contrário.

Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência (sic) e 80º da República (sic).

A. COSTA E SILVA
Luís Antônio da Gama e Silva
Augusto Hamann Rademaker Grünewald
Aurélio de Lyra Tavares
José de Magalhães Pinto
Antônio Delfim Netto
Mário David Andreazza
Ivo Arzua Pereira
Tarso Dutra
Jarbas G. Passarinho
Márcio de Souza e Mello
Leonel Miranda
José Costa Cavalcanti
Edmundo de Macedo Soares
Hélio Beltrão
Afonso A. Lima
Carlos F. de Simas

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terça-feira, 3 de abril de 2012

"O Dia que Durou 21 anos", documentário de Camilo Tavares.

Documentário O Dia que Durou 21 anos, que apresenta os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no Golpe Militar de 1964. Uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares.








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domingo, 1 de abril de 2012

Ísis Dias de Oliveira (1941 - ?)



Ísis Dias de Oliveira (1941 - ?)

Talvez
ela estivesse agora
entediada num domingo,
cheia de banzo no sofá
ou dormindo
divorciada, talvez.
Talvez ela vivesse
com os três filhos
que jamais teve
numa quitinete
de aluguel, feliz
ou infeliz, como sói
ser, talvez. Talvez
vestisse neste minuto
os sapatos favoritos
já meio gastos, da amiga
com quem não mais falasse,
talvez. Talvez o suicídio
já a houvesse colhido,
ou o segundo marido,
quiçá tão-só um sorvete
de tamarindo, talvez.
Talvez estivesse rindo,
contando a piada
sem graça
que todos os amigos
já não aguentavam
ouvir, talvez. Talvez
questionasse
o que valeram luta
e toda aquela vida
para que o País
acabasse
como acabou, talvez.
Talvez houvesse emigrado
e submetesse suas alegrias
agora a outros climas,
exprimindo-se noutra língua,
esquecida de militâncias
e guerrilhas, talvez.
Seus dedos agora talvez
estivessem sujos de tinta
do jornal matutino
que mente a miúdo,
como já antes o fazia,
talvez, e a tinta agora
se juntasse ao branco
da louça da xícara,
como se transporta
matéria de matéria
a matéria, se viva,
talvez.


Ricardo Domeneck, 1° de abril de 2012, aniversário do Golpe de 64.

§

Da página
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Ísis Dias de Oliveira nasceu em 29 de agosto de 1941, filha de Edmundo Dias de Oliveira e Felícia Mardini de Oliveira.

Desaparecida desde 1972, quando tinha 31 anos.

Iniciou seus estudos no Grupo Estadual Pereira Barreto, onde concluiu o primário. O Ginasial e o Clássico cursou no Colégio Estadual Presidente Roosevelt e no Colégio Sta. Marcelina, respectivamente.

Em 1960 concluiu o seu curso de piano e, posteriormente, estudou inglês na União Cultural Brasil-Estados Unidos.

Além de inglês, falava francês e espanhol. Em 1965 iniciou o Curso de Ciências Socias na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.

Em 1967, casou-se com José Luiz Del Royo, de quem se separou posteriormente.

Ainda em 67 trancou sua matrícula.

Em 1970 passou a morar na cidade do Rio de Janeiro, onde foi presa no dia 30 de janeiro de 1972.

De D. Felícia Mardini de Oliveira, sua mãe:

“Ísis, em sua infância, foi uma menina simples, tímida talvez. Estudava normalmente. Paralelamente fazia curso de inglês e piano, chegando a formar-se nestes dois cursos. Na adolescência interessou-se em aprofundar cada vez mais seus conhecimentos. Lia com entusiasmo tudo o que se relacionava com Psicologia, Filosofia e História Geral.

Decidida a conhecer melhor as relações do homem com a sociedade, ingressou na Faculdade de Ciências Sociais da USP, não chegando a concluir o curso. Ísis mostrava-se segura e coerente com suas definições de vida. Este pareceu-nos ser o traço mais marcante de sua personalidade. Verificamos uma total coerência na sua maneira de pensar e agir.

Em 16 de junho de 1970 Ísis foi morar no Rio de Janeiro. A princípio vinha, sempre, visitar-nos em São Paulo. Outras vezes nós a encontrávamos no Rio, em lugares pré-combinados. Um dia, ao despedir-se ela disse: ‘Mãe, se alguma coisa me acontecer, uma companheira dará notícias para vocês’. Eu fiquei muito nervosa com essa informação. No dia seguinte, conforme havíamos combinado, eu fui ao seu encontro. Esperei por várias horas, Ísis não apareceu. Nunca mais a vi.

Em 22 de novembro de 1971 Ísis fez um telefonema para a casa de um vizinho, chamando-me. Disse não ter sido possível ir ao meu encontro, conforme havíamos combinado, mas que tudo estava bem com ela. Foi a última vez que ouvi sua voz.

Em 23 de janeiro de 1972 Ísis encontrava-se em apuros. Chegou pela madrugada em casa de uns amigos em Niterói. Dormiu e passou o dia seguinte lá. Fez um curativo em um ferimento que tinha no pescoço, indo embora no final da tarde. O nosso amigo foi com ela até as barcas. Foi a última pessoa a ver Ísis.

Em 4 de fevereiro de 1972 meu marido recebeu, em seu escritório, um telefonema de uma moça dizendo: ‘Ísis foi presa, no Rio de Janeiro, pelo I Exército. Vocês devem tomar providências para localizá-la, porque ela corre perigo de vida.’ Mais tarde soubemos que a autora do telefonema era a companheira de Ísis, Aurora Maria do Nascimento Furtado, posteriormente assassinada pela repressão, que fora também colega da Ísis aqui na USP.

Em 10 de fevereiro de 1972, a Dra. Eny Raimundo Moreira, que fora contratada por meu marido, impetrou um habeas corpus em favor de Ísis. Negaram sua prisão. Ao todo foram cinco habeas corpus. A partir do terceiro a resposta era: Ísis Dias de Oliveira ‘encontra-se foragida’.

Trânsito de Ísis nos órgãos de repressão:

• Em meados de fevereiro de 1972, esteve presa no DOI-CODI/RJ.

• Março de 1972, quando era transferida do Rio para São Paulo, juntamente com outros presos, foi desligada desse grupo por apresentar problemas renais.

• No mesmo mês de março, pelos mesmos problemas renais, esteve hospitalizada aqui em São Paulo.

• Ainda no mês de março, foi transferida para a base Aérea de Cumbica/SP.

• Em 13 de abril de 1972, uma Assistente Social, Maria do Carmo de Oliveira, lotada no Hospital da Marinha (Ilha das Cobras) no Rio, informa a mim e a minha sobrinha Sônia: ‘Ísis Dias de Oliveira foi presa pelo I Exército, com duas identidades, encontra-se incomunicável na Ilha das Flores’. Esta informação Maria do Carmo recebeu por telefone de um primo, lotado no serviço de Telex do I Exército.

No dia seguinte, Maria do Carmo, eu e minha sobrinha Sônia fomos intimadas a comparecer no I Exército. Lá nos atendeu um coronel e o primo da Maria do Carmo. Alegaram que ‘fora um lamentável engano’.

Logo em seguida, a Dra. Eny esteve na Ilha das Flores, onde foi negada sua presença. Eu estive por três vezes na Ilha, sem nada conseguir. Mas foi lá que conheci Lêda Medeiros, esposa de Jorge Medeiros. Lêda me falou ter conhecimento de uma família denominada ‘Massa’. Foi assim que eu cheguei até a família do Paulo César Botelho Massa, companheiro de Ísis, que teria sido preso antes da minha filha.

Paulo César Botelho Massa, desaparecido político, filho do General Cristóvão Massa e sobrinho de mais três generais, encontra-se desaparecido como Ísis, sem nenhuma informação a mais.

Em 21 de junho de 1972 soubemos que Ísis estivera no CENIMAR, de lá teria sido transferida para o Aeroporto do Campo dos Afonsos/RJ.

Em 20 de fevereiro de 1974 um conhecido do meu marido, que atuava com Seguros e também no DOPS, prometia conseguir informações da Ísis para nós. Chegando de uma excursão de turismo no exterior, disse-nos que a guia que os acompanhou na cidade de Londres era uma brasileira de nome Íris, e que tinha tudo para ser Ísis. Mostrou fotos da Ísis para outras pessoas que participaram da excursão. Todos acharam que de fato poderia ser Ísis. Meu marido havia sofrido uma cirurgia cardíaca. Então, eu e meu filho não tivemos outra alternativa senão tirar tudo a limpo.

Em 4 de março de 1974 viajamos para Londres e encontramos a moça, que trabalhava na agência de turismo Meliá-Marsans. Realmente era uma brasileira e nada mais, não tinha nada a ver com nossa filha Ísis.

Nós chegamos à triste conclusão que todas essas séries de desinformações serviam a um objetivo específico, que era de confundir-nos e fazer-nos reaver a cada sinal uma esperança.

Cartas: Foram escritas muitas. Eu as escrevia, com sacrifício, para poupar meu marido que havia sofrido um grave enfarte do miocárdio. Com o passar do tempo, fui vendo que os destinatários eram os mesmos, a quem as outras famílias de desaparecidos escreviam: Presidente da República, Ministros das três armas, Comandante do I e do II Exércitos, OAB, OEA, ONU, Anistia Inter-nacional, Arcebispo do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Foram tantas as cartas e inúteis que não gosto de lembrar. Só não esquecerei uma em especial, pelo trabalho e pela satisfação que me deu.

Nós, familiares dos presos políticos desaparecidos, pedíamos informações ao Governo, sobre o destino dos nossos parentes. Quando o Ministro da Justiça, através do líder José Bonifácio, vem de público enumerar uma série de delitos praticados por eles. Eu não me conformei com aquelas informações. Achei que era o fim de tudo. Nós queríamos saber o paradeiro deles e não o que eles haviam praticado. Escrevi uma carta de contestação. Mas, como publicar minha carta? A censura não respeitava nem o malote dos deputados. Não tive dúvidas. Fui pelo caminho mais longo, mas o que me pareceu seguro. Viajei 20 horas até Brasília para entregar minha carta ao deputado Lisâneas Maciel. O deputado Lisâneas não se encontrava em Brasília, entreguei então a minha carta em mãos do deputado Fernando Lira.

Mais 20 horas de volta. No meio do caminho, em uma parada de ônibus, comprei um jornal ‘O Estado de São Paulo’. Lá estava a minha carta publicada. Valeu-me uma grande satisfação no momento. Mas foi só. Porque até hoje estou esperando saber o que eles fizeram com minha filha Ísis.

Foi indiciada em seis (6) processos. Em três, Ísis foi absolvida por falta de provas. Os outros três foram arquivados.”

Em matéria publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 28 de janeiro de 79, um general com responsabilidade dentro dos órgãos de segurança, reconheceu a morte de Ísis e mais 11 presos políticos considerados desaparecidos.

Em 08 de abril de 1987, a Revista “Isto É”, em matéria “Longe do Ponto Final”, traz declarações de Amílcar Lobo que reconheceu Ísis no DOI-CODI/RJ, sem precisar a data.

No Arquivo do DOPS/PR, em uma gaveta com a identificação: “falecidos” foi encontrada sua ficha.

Os Relatórios dos Ministérios da Marinha e do Exército insistem em afirmar que Ísis está “foragida”.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Texto de Dirceu Villa sobre o desmantelamento da universidade pública, a repressão militar no Brasil de hoje, resquícios da ditadura que permanecem

NOVO CAPÍTULO NO PLANO DE DESTRUIR A UNIVERSIDADE PÚBLICA

por Dirceu Villa
O Demônio Amarelo, 20 de novembro de 2011


"Ah, tá vendo, tinha que ser: tudo baderneiro, maconheiro, filhinho de papai".


O governo pensa: "dessa vez vai"


O velho plano de acabar com a universidade pública em São Paulo, que não conta apenas com os anos recentes de democracia mas acha suas raízes no golpe militar de 1964, está a pleno vapor.

Mas é pior, naturalmente: é o triunfo de um tipo de mentalidade regressivo, péssimo sinal.

O melhor dos mundos possíveis: o homem biônico

OU talvez se trate, por outro lado, de uma ótima notícia: significaria que o governo resolveu o problema da segurança pública e não tem nada melhor para fazer com 400 policiais militares, helicóptero & demais aparatos repressivos do que mandá-los dar distração na Universidade de São Paulo ao respeitável público dos telejornais.

E talvez haja uma saudade (sempre ouço gente saudosa daqueles tempos) da figura tutelar do ditador, que indicaria o governador, que então ostentaria o poderoso adjetivo "biônico", com a sugestão dos poderes extra-humanos do Homem de 6 Milhões de Dólares.


Imprensa livre, com sonetos & receitas


O curioso é que brigava-se por liberdade de imprensa nem faz muito tempo; a idéia é a de que a liberdade de imprensa faria com que alguma verdade circulasse.

Durante a ditadura, as verdades inconvenientes eram substituídas por receitas de bolo ou sonetos de Camões; hoje, a imprensa é chamada "livre", porque o governo sabe que não precisa de censura: os donos do poder são também os donos da notícia, e a imprensa é meramente instrumental desse mesmo poder.

Poderiam ao menos nos dar umas boas receitas de bolo ou uns sonetos quinhentistas.


Conhecimento que não serve


Mais curioso ainda é que governo & imprensa podem contar com a opinião pública, como aconteceu em 1964 também. Há uma desconfiança de qqer espécie de conhecimento, mas, sobretudo, desconfiança de um conhecimento que não serve.

Não por ser imprestável, mas porque não é servil.


"Os livros não nos dizem nada"


Quanto à desconfiança contra o conhecimento, basta assistir ao filme que Truffaut fez a partir do livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1966). Naquele futuro, obviamente distante ou impossível, se reprime o pensamento e as liberdades e as pessoas não lêem nem vivem, mas passam seu tempo como zumbis hipnotizados por programas estúpidos em telas enormes de TV na sala.

Na ficção os bombeiros não apagam incêndios, mas incineram os livros que os baderneiros e subversivos insistem em ler e guardar. A cena na qual esses bombeiros invadem a casa de uma senhora que escondia um gigantesca biblioteca nos dá, no discurso feito pelo capitão, o motivo do rancor contra o conhecimento.

Ele afirma: "Os livros não têm nada a dizer"; os romances são histórias sobre pessoas que jamais existiram, que tornam os leitores infelizes com as próprias vidas; a filosofia não dá uma resposta definitiva, e latim, por que alguém estuda latim, não é uma língua morta?

Todos têm de ser iguais, isto é, igualmente ignorantes de tudo, numa satisfação policiada, de ordem imposta, e sedativos de TV e remédios.


A especialidade brasileira continua


Durante a leitura em homenagem a Roberto Piva, dias atrás, tive de mencionar o fato de que vivemos uma época de conservadorismo patológico. A vitória desse governo, que há mais de 20 anos vem destruindo a Universidade de São Paulo, é apenas a parte mais aparente da escravização mental em curso.

A mim foi espantoso saber (não por qualquer veículo de imprensa, que covardemente não se menciona o assunto) que alunos eram revistados saindo da biblioteca.

Coisa do tipo, desse tipo de indignidade, era de quando o país estava sob uma ditadura. Estratégias nazi-fascistas de controle em pleno curso sob a nossa, ah-ham, "democracia".

Mas é muito sintomático que esse coup de grâce, esse golpe do governo, seja feito como é a especialidade brasileira: com uma invasão militar.

Mais espertos ainda: a coisa é proposta agora dentro da legalidade.

E você que achava que eles não aprendiam, é ou não é?


Contra a lavagem mental em curso


Contra a lavagem mental da imprensa sugiro, àqueles que querem saber o que de fato se passa, a aula pública que o professor de literatura brasileira da USP, João Adolfo Hansen, deu há alguns dias diante da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

A aula começa nos 2:30 min. do primeiro link do youtube, e segue pelos restantes.


domingo, 3 de abril de 2011

Desarquivando o Brasil: pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar

Ocorreu este fim de semana a terceira edição da blogagem coletiva pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, iniciativa da jornalista Niara de Oliveira.

A situação de nossa memória histórica em relação à última ditadura parece ser uma das mais lacunares dentre os países latino-americanos que padeceram da mesma catástrofe histórica.

Dos poetas e escritores que produziram sob o regime de Getúlio Vargas, alguns deixaram-nos documentos est-É-ticos de tirar o fôlego, seja na prosa de Graciliano Ramos, primordialmente no póstumo Memórias do Cárcere (1953) mas também de forma difusa na obra-prima que é Angústia (1936), ou na poesia de Carlos Drummond de Andrade em Sentimento do mundo (1942) e A Rosa do Povo (1945). Poderíamos ainda pensar em trabalhos de Dyonélio Machado e Patrícia Galvão.

E quanto à literatura brasileira produzida sob Costa e Silva, Médici e Geisel, para citar os três mais truculentos e sob os quais cometeu-se a grandíssima parte dos Crimes de Terror do Estado? Na poesia, a catástrofe histórica que engoliu nossos pais e nosso futuro naquele momento talvez tenha encontrado algumas de suas gargantas mais potentes em poetas como Wally Salomão e Torquato Neto.

Literato cantabile
Torquato Neto

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:


Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.


Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:


só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:


não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento



O primeiro estudo que li sobre a literatura e poesia produzidas no período da ditadura militar foi publicado por Flora Süssekind pela primeira vez em 1985 e chama-se Literatura e Vida Literária: Polêmicas, Diários e Retratos. Creio que o li aos 20 anos na biblioteca de uma amiga, em meados de 1998. Sempre me lembro do livro, pelo ineditismo que aquela discussão tinha na minha vida e também por me apresentar a poetas e escritores que desconhecia (cito Ronaldo Brito como exemplo).

Já o último livro no qual tenho pesquisado o assunto eu descobri apenas no ano passado e chama-se Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina, publicado por Idelber Avelar pela primeira vez no Brasil em 2000. Nele, Avelar discute as estratégias memorialistas de luto de alguns dos mais importantes romancistas latino-americanos a lidarem com a catástrofe, discutindo entre eles livros brasileiros que já coloquei na lista de leituras urgentes, como Em Liberdade (1981), de Silviano Santiago, e Bandoleiros (1985), de João Gilberto Noll.

Em seu blogue, o poeta Pádua Fernandes participou desta blogagem coletiva publicando alguns textos em que discute a situação deste debate no Brasil, comentando alguns documentos ligados à ditadura militar, e ainda uma entrevista com o poeta Julián Axat, filho de cidadãos argentinos assassinados pelo Regime militar, um dos membros fundadores do grupo H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio) e também editor da coleção Los Detectives Salvages, que se dedica a resgatar o trabalho dos poetas assassinados pela ditadura antes que pudessem publicar seus poemas. Graças à coleção, descobri, por exemplo, o belo trabalho do poeta Carlos Aiub, nascido em 1952 e sequestrado pelo Regime em 1977 - nunca mais foi visto.

Nestas duas últimas semanas estive relendo o que alguns poetas que admiro produziram sob regimes totalitários. Andei com o segundo e o terceiro volumes da poesia completa (Gesammelte Gedichte) de Bertolt Brecht no bornal, que cobrem os anos 1933 - 1941 e 1941 - 1947, respectivamente. Os poemas escritos durante o regime de Hitler. Voltei também a ler o que Carlos Drummond de Andrade escreveu sob o regime de Vargas, sem me esquecer que o nosso grande poeta anarquista-burocrata trabalhou com Gustavo Capanema no governo daquele a partir de 1934. Em minha viagem à Espanha na semana passada reconectei-me com a poesia de Gabriel Celaya, que manteria um trabalho de resistência durante o regime de Franco, assim como Blas de Otero e Carlos Álvarez.

Neles reencontro a maravilhosa flexibilidade da historicidade presente na grande poesia. Aquela que nos transporta a um momento histórico e local específicos, ao mesmo tempo que abre nossos olhos para o nosso momento histórico e local. Poesia que nos permite viajar no tempo e saber como era Roma sob César ou o Rio de Janeiro sob Vargas, e ainda fazer do seu autor, seja Catulo ou Drummond, nosso contemporâneo. Isso, no entanto, nada tem a ver com o que certa crítica (neofriedrichiana e neogreenberguiana) gosta de chamar de "trans-historicidade", conceito criado para justamente poderem ignorar com consciência acrítica tranquila esta incrível flexibilidade histórica da poesia.

Meu interesse é compreender de que maneira estes poemas logram sobreviver ao naufrágio de seus contextos históricos, já que tantos deles sobrevivem com uma youthfulness exemplar. Talvez parte das respostas esteja em um poema de Brecht que traduzi na semana passada. Chama-se "As novas eras", escrito em plena Segunda Guerra Mundial.

As novas eras

As novas eras não começam de uma vez.
Meu avô viveu já nos novos tempos
Meu neto com certeza ainda viverá nos velhos.

A carne nova será comida com o velho garfo.

Não foram os veículos motorizados
Nem os tanques
Não foram os aviões sobre nossos tetos
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vieram as velhas bobagens.
A sabedoria distribuíu-se de boca em boca.


(Bertolt Brecht, tradução de Ricardo Domeneck)


Die neuen Zeitalter: Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal. / Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit. / Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben. // Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen. // Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht / Noch die Tanks. / Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht. / Noch die Bomber. // Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten. / Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.


É necessário alertar que eu NÃO estou defendendo "poesia engajada" e NÃO estou querendo impor a outros escritores com o que devem se preocupar. NÃO se trata de tomar partido ou afiliar-se a um. O poeta paulistano Dirceu Villa escreveu um artigo inteligente (como sempre) a respeito disso na semana passada. Ainda que discorde de alguns pontos, está muito bem exposto ali o perigo do engagée. Basta lermos alguns dos poemas de Brecht publicados no volume do qual retirei o lindo texto acima, ou outros de Vladimir Maiakóvski, Pablo Neruda ou Muriel Rukeyser.

No entanto, serão realmente as únicas opções do poeta o engajamento ou o absenteísmo? Pessoalmente, tudo o que busco é que minha poesia esteja DESPERTA, ACORDADA. Que eu esteja desperto, acordado.

Volto a alguns dos mais vivos poemas de Brecht, Drummond, Oppen, Celaya. Escritos em circunstâncias históricas tão específicas, transportam-nos estes poemas às trevas de datas muito bem marcadas no calendário. Ao mesmo tempo, quem em sã consciência dirá que a obra-prima abaixo envelheceu ou não nos diz mais respeito?



Nosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.



in A Rosa do Povo (1945)

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