terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Rae Armantrout na Modo de Usar & Co.

Acabo de publicar duas traduções minhas para poemas de Rae Armantrout (n. 1947) na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., com um vídeo de uma leitura de Armantrout e o arquivo de som de sua oralização para o poema "The fit", um dos textos que traduzi.

É a terceira postagem que preparo com poemas de um autor ligado à comunidade de poetas em torno da revista L=A=N=G=U=A=G=E, sendo que os outros dois autores eram também mulheres: Rosmarie Waldrop e Lyn Hejinian.

Muitos dos meus questionamentos em torno da noção de gênero: tanto GENDER como GENRE, poderiam ser explicitados a partir de poetas ligados a esta comunidade americana de autores, os language poets, que gosto de traduzir como poetas-linguistas.

Parece-me fascinante a maneira como os poetas masculinos, brancos e heterossexuais entre eles, apesar de toda a sua consciência contextual das constrições ideológicas de cada Weltanschauung pessoal, ainda caem em armadilhas discursivas sobre a possibilidade de obliteração do ego na escrita. Esta armadilha discursiva tem sido herdada por outros poetas heterossexuais brancos masculinos mais jovens, ligados aos conceitualistas (como Kenneth Goldsmith) e aos flarfistas (como K. Silem Mohammad).

Mulheres como Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop, Harryette Mullen, Carla Harrymann, Susan Howe e Rae Armantrout têm muito mais sucesso na empreitada de EXPOR o IMPOSTO, eu diria, questionando a relação entre GENDER e GENRE em seus textos carregados de autobiografia, a partir do próprio estereótipo da autobiografia como gênero feminino. Penso aqui em trabalhos como My Life e Happily, de Hejinian; My Emily Dickinson, de Howe; ou The Hanky of Pippin's Daughter e Lawn of the Excluded Middle, de Waldrop. Entre nós, Clarice Lispector e Hilda Hilst foram as escritoras mais politicamente conscientes para a vigência destes estereótipos. Hoje em dia, eu pensaria em Márcia Denser.

Enquanto homens brancos e heterossexuais seguem caindo na tentação alephiana de querer abarcar o mundo em seus épicos (Pound e seus Cantos; Williams e seu Paterson; Olson e seus Maximus Poems; Silliman com seu Alphabet e agora Universe), as mulheres entregam-se à abrangência contextual honesta de quem expõe a possível falácia de tal tentação. Há, obviamente, exceções, como a poesia masculina de Creeley, sempre mínima, e a feminina de Rachel Blau DuPlessis, com seu projeto épico Drafts (ainda que DuPlessis tenha composto sua tese de mestrado com o interessante título: The Endless Poem: "Paterson" of William Carlos Williams and "The Pisan Cantos" of Ezra Pound).

Antes que algum rapaz branco heterossexual (são os que geralmente se irritam com estas minhas preocupações) decida me acusar de querer destruir os parâmetros de qualidade estética com questões extra-literárias, ou de querer invadir o precioso cânone com escritores ruins apenas por serem mulheres ou homossexuais ou negros ou de qualquer outra "minoria", imploro que releia com cautela este texto e pense na qualidade dos autores envolvidos: Hilst Waldrop Creeley Hejinian Lispector etc. Ninguém aqui está falando em revisionismo do cânone. Aliás, ninguém aqui está preocupado com esta Arca de Noé subnutrida, o cânone.

Não quero fazer assertivas, mas perguntas.

Gender, Genre. Fazendo gênero.

3 comentários:

Mario Sagayama disse...

Ah! Este link pra leitura da L=A=N=G=U=A=G=E era algo que eu queria te pedir há um tempo. Ainda bem que você se lembrou de postar antes que eu me lembrasse de pedir.

Obrigado!

Ricardo Domeneck disse...

Mário,

citando a personagem de Bette Davis em "All about Eve":

"I am so happy you are happy."

É mesmo um achado aquele site.

Mario Sagayama disse...

E quanto!

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