domingo, 18 de janeiro de 2009

Bush, Kate

Há alguns anos eu tinha o hábito de escrever em camisetas. Comprava-as baratas, brancas, apenas para servirem de plataforma para a escrita de alguma intervenção naquela semana, mês. Elas se desintegravam rápido. Em algum momento durante a campanha de George W. Bush para a sua reeleição (que acabou se efetivando), fiz aquela que se tornou uma das minhas favoritas, simplesmente em letras garrafais:

BUSH, KATE

Gostava da idéia de ler a frase como em um imperativo, fazendo de "kate" o verbo em ordem para o senhor Bush. Era a minha intervenção mínima para o momento, carregada à altura do peito, do miocárdio.

Aqui em Berlim, entre as pessoas que conhecem meu trabalho como DJ, meu fascínio pelo trabalho de Kate Bush é notório. Me alcunhei DJ Kate Boss por um motivo. Muitos ouviram algo da criatura pela primeira vez em algum de meus sets obsessivos, que têm como "assinatura", nas palavras de um jornalista alemão, a esquisitice de encontrar uma maneira de encaixar uma canção de Kate Bush nos sets e contextos mais inesperados. Aqueles que conhecem apenas a exquisitely mal-compreendida e brilhante canção "Wuthering Heights", com seu vídeo esquisitíssimo, mostrando uma jovem Kate Bush (ela tinha apenas 19 anos quando lançou o single, tornando-se a primeira mulher a atingir o primeiro lugar de vendas com uma canção que ela mesma havia composto) de olhos esbugalhados e sua voz altíssima, pensa que se trata de mania viada pelo kitsch. Nada mais longe do que penso sobre o trabalho desta mulher. Quase todo músico sério que conheço respeita a música desta criatura. Algumas dos seres que mais me encantam hoje, como Janine Rostron a.k.a. Planningtorock ou Joanna Newsom, seriam impensáveis sem ela.

Sim, seu trabalho é difícil, pois exige olhos e ouvidos abertos e sem pré---conceitos. Ela embaralha qualquer noção de "bom gosto", impede que se aborde seu trabalho com qualquer idéia engessada de qualidade. Suas letras e composições (seus poemas líricos) parecem-me impecáveis, surpreendentes, estranhíssimos.

Seu primeiro álbum de poemas líricos chamou-se The Kick Inside, trazendo a famosíssima "Wuthering Heights" e outras. Seguiram-se dois álbuns com algum sucesso, até que Kate Bush (nascida Catherine Bush, em 1958, em Bexleyheath, Kent, Inglaterra) toma as rédeas de seu destino musical e escreve e arranja sozinha aquele que é um dos grandes artefatos músico-poéticos do início da década de 80: o álbum de poemas líricos The Dreaming, com alguns dos poemas cantados mais estranhos e horripilantes da década. A poeta-performer segue com seus textos obscuros, enraivecidos e seus vídeos beirando a ofensa de todo bom gosto estabelecido, como na peça de abertura do álbum, chamada "Sat in the lap":



O álbum é brilhante, 10 poemas líricos que socam a cara tardo-vitoriana dos bongostistas. A quem se interessar, sugiro a audição dos poemas-líricos (também conhecidos entre a maioria como "canções") "There goes a tenner" e "Suspended in Gaffa", de preferência com seus exquisite vídeos esquisitos. Aqui, sem abusar de vossa goldenfishy attention span, imploro que você ouça o maravilhoso "Get out of my house" (tente ignorar as imagens do filme "The Shining", ainda que reze a lenda que o filme inspirou a música e esta seja tão assustadora quanto aquele):



Mais tarde, em uma entrevista, Kate Bush diria que The Dreaming era o seu "She's gone mad' album", mas os mais atentos perceberam que se tratava de uma obra-prima, com paisagens musicais horripilantes e o uso obsessivo do synthesizer Fairlight CMI. O álbum é um tour-de-force e foi recebido, obviamente, com estupor e as vendas foram parcas.

A resposta de Kate Bush foi aquela que se espera de um artista irritado. Sua resposta me faz imaginar Kate Bush pensando assim: "Vocês querem pop, queridinhos? Eu vos darei pop"... sua resposta foi produzir o brilhante álbum Hounds of love, com algumas das maiores pérolas pop da década de 80, incluindo esta coisa aqui:



A tensão espiritual necessária para fazer com que artistas produzam coisas desta natureza é gigantesca demais para durar sem que o coitado despenque. Dura o quê? 10 anos? O tempo necessário para alguém como Almodóvar nos legar sua trilogia ("Carne tremula", "Todo sobre mi madre" e "Hable con ella") e depois cair no profissionalismo? Ou Lars Von Trier nos doar a sua ("Breaking the waves", "Idioterne" e "Dancer in the dark") e depois fazer panfletos? O tempo em que um poeta produz seus trabalhos assustadores e depois se dedica ao profissional impecável? Reside na célula de onde Hilda Hilst arrancou Qadós e A obscena senhora D.? De onde Clarice Lispector desentranhou A maçã no escuro, A paixão segundo GH e A hora da estrela?

Apenas artistas extremamente corajosos permitem-se a liberdade de viver fora dos gostos estabelecidos, usando o que for necessário, seja melodrama misturado com Platão ou ficção científica com pitadas dantescas, para seus documentos do "sentimento trágico" de que falou Miguel de Unamuno.

Kate Bush entre eles e elas, herdeira das trobairitz Beatriz de Diá, Maria de Ventadorn, Azalais de Porcairagues ou a matriarca Tibors de Sarenom.

Espero um dia, velho em ossos e pelancas, dar alguma entrevista, para que o repórter me pergunte a clichética

"Qual é sua maior influência poética, Sr. Domeneck?"

e eu possa responder com uma gargalhada interna (que, naquela idade, talvez me mate):

"Kate Bush, meu querido, Kate Bush."


2 comentários:

angélica freitas disse...

kb também influenciou a björk.

wuthering heights no brasil, é praticamente um hino da embromation. babushka virou trilha sonora de comercial de sapato no RS. a letra de babushka é ótima! outra canção de que gosto muito é army dreamers.

foi vc que chamou minha atenção pra kb. mais uma vez, merci.

Ricardo Domeneck disse...

Angie,

poetas em comunidade servem para isso! Obrigado por Anne Carson este mês!

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