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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Poetry: USA - Frank O'Hara (1966)

USA: POETRY, FRANK O'HARA (1966) 16mm, 15 minutes, dir. Richard O. Moore (courtesy Thirteen/WNET New York, Richard O. Moore and the Estate of Frank O'Hara).

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Traduzindo um poema de Robinson Jeffers (1887 - 1962)

Robinson Jeffers (1887 – 1962).



Ave César

Sem amargor: nossos ancestrais o fizeram.
Apenas ignorantes e esperançosos, eles queriam liberdade mas também riqueza.

Seus filhos hão-de aprender a ansiar por um César.
Ou melhor -- pois não somos Romanos aquilinos mas colonos mestiços --
Algum tirano gentil da Sicília que manterá
Pobreza e Cartago à distância até que cheguem os Romanos,
Somos de gerenciamento fácil, um povo cordial,
Cheio de emotividade, esperto em gambiarras, e amamos nossos privilégios.

(tradução, com leve transcontextualização minha, aqui dos meus privilégios)

:

Ave Caesar
Robinson Jeffers


No bitterness: our ancestors did it.
They were only ignorant and hopeful, they wanted freedom but wealth too.
Their children will learn to hope for a Caesar.
Or rather--for we are not aquiline Romans but soft mixed colonists--
Some kindly Sicilian tyrant who'll keep
Poverty and Carthage off until the Romans arrive,
We are easy to manage, a gregarious people,
Full of sentiment, clever at mechanics, and we love our luxuries.


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sábado, 24 de agosto de 2013

Um poema de Sterling A. Brown (1901 - 1989)




Sterling A. Brown foi um dos poetas e autores da Harlem Renaissance, ao lado de Langston Hughes, Countee Cullen, Zora Neale Hurston, Claude McKay e W. E. B. Du Bois, entre muitos outros. Abaixo, um exemplo de maestria em prosódia e melopeia.

Southern Road


Swing dat hammer--hunh--
Steady, bo';
Swing dat hammer--hunh--
Steady, bo';
Ain't no rush, bebby,
Long ways to go.

Burner tore his--hunh--
Black heart away;
Burner tore his--hunh--
Black heart away;
Got me life, bebby,
An' a day.

Gal's on Fifth Street--hunh--
Son done gone;
Gal's on Fifth Street--hunh--
Son done gone;
Wife's in de ward, bebby,
Babe's not bo'n.

My ole man died--hunh--
Cussin' me;
My ole man died--hunh--
Cussin' me;
Ole lady rocks, bebby,
Huh misery.

Doubleshackled--hunh--
Guard behin';
Doubleshackled--hunh--
Guard behin';
Ball an' chain, bebby,
On my min'.

White man tells me--hunh--
Damn yo' soul;
White man tells me--hunh--
Damn yo' soul;
Got no need, bebby,
To be tole.

Chain gang nevah--hunh--
Let me go;
Chain gang nevah--hunh--
Let me go;
Po' los' boy, bebby,
Evahmo'


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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Traduzindo meu poema favorito de Audre Lorde

Uma litania para a sobrevivência

Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:

Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.

E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo

Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

A litany for survival
Audre Lorde

For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:

For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.

And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid

So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive





Audre Lorde foi uma poeta americana, nascida em Nova Iorque a 18 de fevereiro de 1934, em uma família de imigrantes do Caribe. Começou a publicar na década de 60, na revista de Langston Hughes, New Negro Poets, USA. Neste período, engajou-se nos movimentos Feminista, Anti-Guerra e dos Direitos Civis. Seu livro de estreia foi The First Cities (1968), publicado pela editora Poet´s Press e editado por Diane di Prima. Seu segundo livro, de 1970, foi Cables to rage, seguido de volumes como From a Land Where Other People Live (1973), Coal (1976), Between Our Selves (1976), The Black Unicorn (1978) e The Cancer Journals (1980). Entre 1984 e 1992, ano de sua morte, a poeta viveu e trabalhou em Berlim, Alemanha, período sobre o qual a diretora Dagmar Schultz lançou, no ano passado, o documentário Audre Lorde: The Berlin Years (1984 - 1992).



O ativismo feminista de Audre Lorde foi importante e polêmico, ao acusar o Movimento Feminista norte-americano, dominado por ensaístas e ativistas brancas, de ignorar a questão racial do problema, e por focar-se nas experiências de mulheres brancas da classe média. Audre Lorde insistiu que questões de raça, sexualidade, idade, classe e até mesmo saúde influíam e definiam as experiências particulares de cada mulher, e precisavam, portanto, ser abordadas de formas específicas. Suas ideias influíram sobre o conceito de interseccionalidade nos estudos políticos da opressão contra minorias. No documentário A Litany for Survival: The Life and Work of Audre Lorde, de Ada Gay Griffin e Michelle Parkerson, Lorde diz:

"Let me tell you first about what it was like being a Black woman poet in the ‘60s, from jump. It meant being invisible. It meant being really invisible. It meant being doubly invisible as a Black feminist woman and it meant being triply invisible as a Black lesbian and feminist."


Lutando contra o câncer desde 1978, primeiro o câncer de mama (o que exigiria uma mastectomia), e depois no fígado, Audre Lorde morreu a 17 de novembro de 1992.


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sábado, 22 de dezembro de 2012

Há 34 anos, no dia 22 de dezembro de 1978, Bernadette Mayer escrevia seu longo e belo "Midwinter Day"



Publicado pela primeira vez em 1982, Midwinter Day é um longo poema em 6 partes, escrito por Bernadette Mayer no dia 22 de dezembro de 1978, em Lenox, Massachusetts (EUA), onde vivia à época e onde escreveu alguns de seus mais belos poemas, como "Eve of Easter", que já mostrei aqui (leia minhas traduções para os poemas "Eve of Easter" e "The port"). O poema é a crônica de suas experiências naquele dia, e me parece um verdadeiro tour de force. Abaixo, um excerto.


"I write this love as all transition
As if I'm in instinctual flight,
                                    a small lady bug
With only two black dots on its back
Climbs like a blind turtle on my pen
And begins to drink ink in the light
                                             of tradition
We're allowed to crowd love in
Like a significant myth
                              resting still on paper
I remember being bitten by a spider
It was like feeling what they call
                                          the life of the mind
Stinging my thigh like Dante
                                     this guilty beetle
Is a frightening thing
When it shows its wings
And leaps like the story of a woman who
                                                     once in this house
Said the world was like a madhouse
                                              cold winds blowing
And life looks like some malignant disease,
Viewed from the heights of reason
Which I don't believe in
                              I know the place
Taken by tradition is like superstition
And even what they call the
Literary leaves less for love
                                    I know
The world is straight ice
I know backwards the grief of life like chance
                                                          if I can say that
I can say easily I know you
                                    like the progression
From memory to what they call freedom
Or reason
             though it's not reason at all
It's an ideal like anarchism though it's not an ideal
It's a kind of time that has flown away from causes
Or gotten loose from them, pried loose
Or used them up, gotten away
                                       no one knows why
Nothing happens
There is no reason, there's no dream
                                               it's not inherited
Like peace but it's not peace
                                     there's no beginning
Like religion but it is not God
It's more like middle age or humor
Without elucidation
                         like greeting-card verse
This love is a recognized occasion
I know you like I know my times
As if I were God and gave you birth
                                               if I can say that
I can say I am Ra who drew from himself
To give birth to Geb and Nut, Isis and Osiris
Though it isn't decorous today to say this
                                                     instead I say
You are the resource for my sense of decorum
Knowing you as Ra knew the great of magic,
His imaginary wife,
                         and without recourse to love
Men and women are like tears
                                       I would lose my memory,
I would sleep twelve hours, I would wake up
And get into my boat with my scribe,
I would study the twelve hours of the day
Spending an hour in each
                                 I would have a secret name
I would rush upon the guilty without pity
Till the goddess of my eye in her vengeance
Overwhelmed my own rage
                                    as you and I take turns
In love's anger like the royal children
Born every morning to die that night
                                                I know you speak
And are as suddenly forgiven,
It's the consequence of love' having no cause
Then we wonder what we can say
                                            I can say
I turn formally to love to spend the day,
To you to form the night as what I know,
An image of love allows what I can't say,
Sun's lost in the window and love is below
Love is the same and does not keep that name
I keep that name and I am not the same
A shadow of ice exchanges the color of light,
Love's figure to begin the absent night."

Bernadette Mayer, Midwinter Day (1982).


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terça-feira, 11 de setembro de 2012

De um longo poema de Adrienne Rich



Ontem à noite, após jantar em sua casa, uma amiga me emprestou o livro An Atlas of the Difficult World, que reúne os poemas escritos por Adrienne Rich entre 1988 e 1991. Por ocasião da morte da poeta, a 27 de março deste ano, publiquei aqui uma longa postagem sobre o seu trabalho. Hoje, lendo o longo poema que dá título a An Atlas of the Difficult World, cheguei a sua última seção, o décimo-terceiro poema, que me deixou desconcertado e descorçoado no metrô. Compartilho o texto aqui. 

Poem "XIII (Dedications)"
from An Atlas of the Difficult World (1991)
Adrienne Rich

I know you are reading this poem
late, before leaving your office
of the one intense yellow lamp-spot and the darkening window
in the lassitude of a building faded to quiet
long after rush-hour. I know you are reading this poem
standing up in a bookstore far from the ocean
on a grey day of early spring, faint flakes driven
across the plains' enormous spaces around you.
I know you are reading this poem
in a room where too much has happened for you to bear
where the bedclothes lie in stagnant coils on the bed
and the open valise speaks of flight
but you cannot leave yet. I know you are reading this poem
as the underground train loses momentum and before running
up the stairs
toward a new kind of love
your life has never allowed.
I know you are reading this poem by the light
of the television screen where soundless images jerk and slide
while you wait for the newscast from the intifada.
I know you are reading this poem in a waiting-room
of eyes met and unmeeting, of identity with strangers.
I know you are reading this poem by fluorescent light
in the boredom and fatigue of the young who are counted out,
count themselves out, at too early an age. I know
you are reading this poem through your failing sight, the thick
lens enlarging these letters beyond all meaning yet you read on
because even the alphabet is precious.
I know you are reading this poem as you pace beside the stove
warming milk, a crying child on your shoulder, a book in your
hand
because life is short and you too are thirsty.
I know you are reading this poem which is not in your language
guessing at some words while others keep you reading
and I want to know which words they are.
I know you are reading this poem listening for something, torn
between bitterness and hope
turning back once again to the task you cannot refuse.
I know you are reading this poem because there is nothing else
left to read
there where you have landed, stripped as you are.


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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Defenderei, defenderei, defenderei: Kenneth Patchen, poeta norte-americano da década de 30, um dos meus heróis pessoais

Vagando ontem pelos canais de vídeos compartilhados à procura de documentários sobre poesia e os poetas que amo, encontrei alguns arquivos de áudio de um dos meus heróis, Kenneth Patchen.



Kenneth Patchen lê seu texto "In order to"



O norte-americano, nascido em 1911, é herói pessoal meu. Sua poesia, sua prosa e seu trabalho visual o enquadram lá no mesmo rol em que incluo minha mestra Hilda Hilst, minha presidente das febres.


Creation
Kenneth Patchen


Wherever the dead are there they are and
Nothing more. But you and I can expect
To see angels in the meadowgrass that look
Like cows -
And wherever we are in paradise
in furnished room without bath and
six flights up
Is all God! We read
To one another, loving the sound of the s’s
Slipping up on the f’s and much is good
Enough to raise the hair on our heads, like Rilke and Wilfred Owen

Any person who loves another person,
Wherever in the world, is with us in this room -
Even though there are battlefields.


§

Poesia catúlica, prosa febril. Seu romance The Journal of Albion Moonlight (1941) é um dos meus livros de cabeceira, e um dos textos distópicos mais assustadores que já li. Antecipa muita coisa da prosa do pós-guerra.



Kenneth Patchen lê de seu romance The Journal of Albion Moonlight (1941)


Seria interessante lê-lo à luz dos romances de Samuel Beckett, por exemplo. Não sei se isso já foi feito. Os dois são muito diferentes, é verdade. Patchen é quase sempre exuberante, mesmo em meio à destruição. Beckett é muito mais seco, irônico. Na poesia, Patchen vai do celebratório ao satírico. Gosto bastante.


My Generation Reading The Newspapers
Kenneth Patchen

We must be slow and delicate; return
the policeman's stare with some esteem,
remember this is not a shadow play
of doves and geese but this is now
the time to write it down, record the words—
I mean we should have left some pride
of youth and not forget the destiny of men
who say goodbye to the wives and homes
they've read about at breakfast in a restaurant:
'My love.'—without regret or bitterness
obtain the measure of the stride we make,
the latest song has chosen a theme of love
delivering us from all evil—destroy. . . ?
why no. . . this too is fanciful. . . funny how
hard it is to be slow and delicate in this,
this thing of framing words to mark this grave
I mean nothing short of blood in every street
on earth can fitly voice the loss of these.



Muito do que tornou os Beats famosos (nestes momentos eu chego a quase ter um pouco de raiva dos Beats, confesso, por sua máquina marqueteira que nem sempre foi justa com os seus próprios mestres) já estava em poetas da década de 20, como Langston Hughes, Kenneth Rexroth, Muriel Rukeyser e o próprio Kenneth Patchen.


Allen Ginsberg e Kenneth Patchen no backstage do Living Theatre, onde Patchen fazia uma de suas performances
com Charlie Mingus, Nova Iorque, 1959. Foto de Harry Redl.




Be Music, Night
Kenneth Patchen

Be music, night,
That her sleep may go
Where angels have their pale tall choirs

Be a hand, sea,
That her dreams may watch
Thy guidesman touching the green flesh of the world

Be a voice, sky,
That her beauties may be counted
And the stars will tilt their quiet faces
Into the mirror of her loveliness

Be a road, earth,
That her walking may take thee
Where the towns of heaven lift their breathing spires

O be a world and a throne, God,
That her living may find its weather
And the souls of ancient bells in a child's book
Shall lead her into Thy wondrous house



§



Kenneth Patchen oraliza dois poemas, em vídeo com cenas de seu contexto histórico.


§


Eve Of St. Agony Or The Middleclass Was Sitting On Its Fat
Kenneth Patchen

Man-dirt and stomachs that the sea unloads; rockets
of quick lice crawling inland, planting their damn flags,
putting their malethings in any hole that will stand still,
yapping bloody murder while they slice off each other’s heads,
spewing themselves around, priesting, whoring, lording
it over little guys, messing their pants, writing gush-notes
to their grandmas, wanting somebody to do something pronto,
wanting the good thing right now and the bad stuff for the other boy.
Gullet, praise God for the gut with the patented zipper;
sing loud for the lads who sell ice boxes on the burning deck.
Dear reader, gentle reader, dainty little reader, this is
the way we go round the milktrucks and seamusic, Sike’s trap and Meg’s rib,
the wobbly sparrow with two strikes on the bible, behave
Alfred, your pokus is out; I used to collect old ladies,
pickling them in brine and painting mustaches on their bellies,
later I went in for stripteasing before Save Democracy Clubs;
when the joint was raided we were all caught with our pants down.
But I will say this: I like butter on both sides of my bread
and my sister can rape a Hun any time she’s a mind to,
or the Yellow Peril for that matter; Hector, your papa’s in the lobby.
The old days were different; the ball scores meant something then,
two pill in the side pocket and two bits says so; he got up slow see,
shook the water out of his hair, wam, tell me that ain’t a sweet left hand;
I told her what to do and we did it, Jesus I said, is your name McCoy?
Maybe it was the beer or because she was only sixteen but I got hoarse
just thinking about her; married a john who travels in cotton underwear.
Now you take today; I don’t want it. Wessex, who was that with I saw you lady?
Tony gave all his dough to the church; Lizzie believed in feeding her own face;
and that’s why you’ll never meet a worm who isn’t an antichrist, my friend,
I mean when you get down to a brass tack you’ll find some sucker sitting on it.
Whereas. Muckle’s whip and Jessie’s rod, boyo, it sure looks black
in the gut of this particular whale. Hilda, is that a .38 in your handbag?


Ghosts in packs like dogs grinning at ghosts
Pocketless thieves in a city that never sleeps
Chains clank, warders curse, this world is stark mad


Hey! Fatty, don’t look now but that’s a Revolution breathing down your neck.



§


Leia abaixo um artigo meu sobre o norte-americano, tratando mais uma vez sobre a questão dificílima política x / + poética, com uma tradução para um dos meus poemas favoritos de Kenneth Patchen.


§


"A poesia ativa de Kenneth Patchen"

por Ricardo Domeneck

(artigo publicado a 2 de março de 2009 na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.)

O poeta estadunidense Kenneth Patchen nasceu na pequena cidade de Niles, no estado de Ohio, em 1911. Contemporâneo de poetas que se tornariam muito importantes no pós-guerra, como Charles Olson (nascido em 1910), John Cage (nascido em 1912) ou Robert Duncan (nascido em 1919), Kenneth Patchen inicia suas atividades poéticas em um dos períodos mais tumultuados da história dos Estados Unidos, em plena Depressão pós-1929, unindo-se a poetas como os que se ligaram à comunidade dos Objectivists (Louis Zukofsky, George Oppen, Lorine Niedecker, Carl Rakosi, Charles Reznikoff) e poetas "independentes" como Kenneth Rexroth, Muriel Rukeyser, Langston Hughes, Robinson Jeffers e Kenneth Fearing.

Esta "geração" de poetas, que se tornaria ativa no período entre-guerras, foi a mais politizada que o modernismo americano gerou. Trata-se de uma geração de poetas ativistas. Entre o liberalismo democrático-esquerdista de Cummings ou Williams e as tendências de Lewis ou Pound à direita (sem mencionar a posição conservadora de Eliot), estes poetas da década de 20 e 30 assumiram altos riscos da ação política, na vida e na escrita, muitos ligados ao Partido Comunista americano. Ninguém está sugerindo que sua poesia seja lida por causa de seu engajamento político. Mas é também um equívoco que eles não sejam lidos pelo mesmo motivo. Pois o cânone, que muitos crêem ser "incondicionado e neutro", exilou por décadas muitos destes poetas por motivos políticos. Basta ler seus poemas para saber que eles teriam muito a nos ensinar se suas obras tivessem a visibilidade que a seleção oficial do cânone provê a seus eleitos.

Mas estes poetas realmente levavam a sério suas est-É-ticas. George Oppen e Kenneth Fearing abandonaram a escrita pelo ativismo político, foram investigados pelo FBI e pelo comitê do senador Joseph McCarthy, voltando a publicar no fim da década de 50. Oppen se exilaria no México, antes de retornar aos Estados Unidos e publicar livros importantes como The Materials (1962) e Of Being Numerous (1968). Sem abandonar a poesia, Muriel Rukeyser seguiu com seu trabalho de resistência, sendo também perseguida e investigada. Louis Zukofsky incorporou escritos políticos (até mesmo fragmentos d´O Capital, de Marx) em seu épico A, e o anarquismo de Kenneth Rexroth seria fundamental para a educação política de poetas mais jovens, como os Beats.

O período entre as duas Grandes Guerras foi marcado pela reação às vanguardas da primeira década no âmbito anglófono. Quando pensamos hoje na fama de poetas como Ezra Pound, Gertrude Stein e William Carlos Williams, é fácil esquecer que estes poetas estavam completamente soterrados e quase esquecidos até meados da década de 50 e 60, quando poetas mais jovens, como Allen Ginsberg, Jack Spicer, Frank O´Hara e John Ashbery começaram a recuperar seus trabalhos, em reação à crítica unívoca e à poesia que eram pregadas pelos New Critics, baseadas na poética tardia de T.S. Eliot e W.H. Auden, que imperaram nas décadas de 40 e 50, formando a parte mais visível e oficial do cânone. Algo muito parecido ocorreu no Brasil, com o Grupo de 45 reagindo contra os primeiros modernistas brasileiros, acusando-os de "falta de seriedade e profundidade", tomando muitos dos parâmetros dos New Critics para sua poética. Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência. Humor, a quebra das dicotomias entre as tais de cultura erudita e cultura popular, linguagem coloquial e experimentação sintática, uma alta consciência histórica sobre a posição social do poeta, assim como o envolvimento político explícito eram (e ainda são) vistos como uma espécie de traição da causa "propriamente poética". Mas, para poetas como Patchen, Oppen ou Rukeyser, assim como mais tarde para os poetas ligados à revista L=A=N=G=U=A=G=E, toda escrita tem implicações políticas, mesmo naqueles autores que se sonham "neutros e universais", mascarando, de certa forma, sua posição política, assim como dissimulam sua visão subjetiva em uma linguagem que se sonha realmente objetiva.

Talvez algo próximo daquilo que escreveu Wittgenstein, de que ética e estética são uma só?

Em poetas como Ezra Pound e Louis Zukofsky, para citar posicionamentos distintos, isto se refletia de forma direta na escrita. George Oppen o faz de forma mais implícita, em poemas como os do livro Of Being Numerous. Kenneth Patchen tem límpidos poemas de amor, sem "sombra" de ativismo político (a resistência pela negação, como queria Theodor Adorno no ensaio "Lírica e sociedade"?) e textos em que ele se entrega à resistência declarada ao sistema e à guerra. Devemos contornar a política de um poeta para poder ler seus textos? A política de direita de Ezra Pound? A marxista de Louis Zukofsky? A política impede nossa apreciação dos poemas de A Rosa do Povo (1945), de Carlos Drummond de Andrade? É mais implícita e discreta em A Educação pela Pedra (1966), de João Cabral de Melo Neto? Devemos separar os poemas "condicionados" dos "incondicionados" na obra de poetas como Kenneth Patchen? Há poemas incondicionados?

Se os primeiros modernistas encontraram seus "defensores" entre os mais jovens (ainda que muitos sigam negligenciados), os poetas da década de 30 não tiveram a mesma sorte. Sob a "acusação" de serem "meros poetas políticos", perseguidos pelo establishment literário paranóico e histérico da Guerra Fria, bons autores como Kenneth Patchen, Muriel Rukeyser, Louis Zukofsky e George Oppen seguem à margem da historiografia literária e poética americana e mundial. Apenas nos últimos anos o excelente trabalho de George Oppen, por exemplo, parece começar a dar sinais de estabelecer-se como incontornável.

§

First Will and Testament
Kenneth Patchen

I here deliver you my will and testament, in which you
will find that what I am is not at all what I would: I
make no demand that you be just in weighing it, for I
know that you will be so for your own sake; but I do
charge you by the religion of poetry itself not to sneer
at some things which may seem strange to you, for I
have burnt no house but my own and nobody will
force you to warm yourself at its heat.



Aqui entrego a vocês meu testamento, no qual
descobrirão que o que sou não é por certo o que seria: eu
não exijo que sejam justos ao ponderar sobre ele, pois eu
sei que o serão para o seu próprio bem; no entanto, eu
comando pela religião mesma da poesia que não zombem
daquilo que possa lhes parecer estranho, pois eu
não queimei casa alguma além da minha e ninguém
há-de forçar que vocês se aqueçam em seu fogo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

Aqueles que se reuniram em uma comunidade, como os Objectivists, têm recebido mais atenção nos últimos anos, e começam a estabelecer seus lugares no cânone historicamente elíptico. Poetas independentes como Kenneth Patchen, Muriel Rukeyser, Kenneth Rexroth acabaram soterrados sob a fama daqueles que eles próprios ajudaram a educar e formar, como os media darlings dos Beats: Ginsgerg, Kerouac e colegas.

Muito do que vemos de inovação nos Beats e autores da New York School (Ashbery, O´Hara, etc), por exemplo, foi iniciado por poetas como Kenneth Patchen, Langston Hughes e Kenneth Rexroth, como a criação da jazz poetry, o retorno à tradição bárdica, o ativismo político, a boemia entre a costa Leste e Oeste americanas, a recuperação de técnicas dadaístas e a tentativa de quebra do dualismo arte/vida.

Kenneth Patchen colaborou com músicos como Charles Mingus e John Cage, gravando muitos poemas oralizados ao som do jazz, prática que Jack Kerouac tornaria mais tarde célebre.

Pelo menos dois romances de Kenneth Patchen são considerados obras únicas na língua inglesa: The Journal of Albion Moonlight (1941) e The Memoirs of a Shy Pornographer (1945). Sua escrita fluida, dividindo-se entre a claridade de um Catulo na poesia e a densidade de um Beckett na prosa, lembra-me a figura fugidia e plural de Hilda Hilst.

Eu acredito que o trabalho de Kenneth Patchen oferece interesse formal para os jovens poetas contemporâneos. Sua obra entrega-se a muitas práticas distintas e plurais, em escrita e em performance oral, criação sonora e composição visual, em prosa-poesia e poesia-prosa. Se os norte-americanos não estão muito interessados, o azar é deles. Devoremos nós a Patchen.


--- Ricardo Domeneck


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Abaixo, a excepcional poesia pictórica de Kenneth Patchen, que nos lembra o trabalho visual de brasileiros como Valêncio Xavier e Sebastião Nunes. Kenneth Patchen os chamava de picture poems.


PICTURE POEMS, Kenneth Patchen









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segunda-feira, 2 de março de 2009

Heróis à sua escolha

Uma das vantagens e aspectos mais interessantes para o poeta jovem que está começando a construir sua própria est-É-tica é a de poder escolher seus próprios heróis, suas próprias referências poéticas, estejam elas no cânone ou não. Geralmente, elas estão à margem, pois um poeta jovem se cansa das escolhas alheias, que já chegaram a seus becos-sem-saída quando o poeta jovem está iniciando seu trabalho.

Será que ainda se pode mamar na teta seca de João Cabral de Melo Neto, por exemplo, depois de tantos poetas terem sugado o deserto às avessas cheio de pedras e cabras das glândulas poético-mamárias do pernambucano? Até quando vamos aguentar poemas a elogiar a secura, até fazer dela a única razão para sua própria esterilidade? Um único poeta como parâmetro de qualidade? Isto não seria coisa de província, esta mania por um Grande Poeta Nacional?

Não me entendam mal, não estou apenas tentando ser "controverso", eu amo a poesia de João Cabral de Melo Neto, ainda que escolha concentrar-me em outros aspectos de seu trabalho, como sua relação com a oralidade em seus poemas-para-vozes, o metafórico poderoso de um texto como "O cão sem plumas" e a poética-da-hesitação de "Uma faca só lâmina". Mas jamais poderei compartilhar do desgosto ranzinza de Cabral pela música ou sua aversão quase patológica a qualquer sombra de lirismo. Que frescor ele próprio encontra no livro Sevilha andando (1990).

Confesso que tenho, como qualquer poeta mais jovem, um gosto especial em descobrir aqueles poetas esquecidos, negligenciados. Lembro-me do entusiasmo ao ler poetas como Orides Fontela e principalmente Hilda Hilst, antes que se tornassem mais conhecidas. Era como carregar um segredo brilhoso, solar, uma espécie de seita consigo mesmo. Espalhava os livros de Hilda Hilst entre meus amigos na USP, em 1998 e 1999, me alegrava imensamente ao ver Hilst tornando-se uma referência importante para outros jovens da minha idade, gente que eu via crescendo e se tornando artistas que eu hoje respeito.

Um destes meus heróis escolhidos é o americano Kenneth Patchen. Nem tudo em seu trabalho interessa talvez ao jovem poeta contemporâneo... mas que energia em livros como The Journal of Albion Moonlight (1941), em muitos de seus poemas oralizados e escritos, em seus picture poems.

Explico o porquê em uma postagem para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co..


Você já escolheu seus heróis?

Meu mãedeuma inclui (no século XX):
Murilo Mendes,
John Cage
e Ludwig Wittgenstein,

(que me ensinaram a pensar por conta própria - e a pagar a conta)

......................bem lá no alto da lista,

mas ainda

Hans Arp, Gertrude Stein, Ghérasim Luca, Frank O´Hara, Hilda Hilst, Tristan Tzara, Clarice Lispector, Edmond Jabès, Kate Bush, Henri Chopin, Lygia Clark, Rosmarie Waldrop, Hugo Ball, Kenneth Patchen, Mircea Eliade, Ernest Becker, Susana Thénon, Jack Spicer, Patti Smith, Guy Debord, Arthur Bispo do Rosário, John Ashbery, H.C. Artmann, Orides Fontela, Louise Bourgeois, Mina Loy, Roland Barthes, Eva Hesse, José Leonilson, Björk, Nick Drake, Torquato Neto, etc, etc, etc.

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First Will and Testament
Kenneth Patchen

I here deliver you my will and testament, in which you
will find that what I am is not at all what I would: I
make no demand that you be just in weighing it, for I
know that you will be so for your own sake; but I do
charge you by the religion of poetry itself not to sneer
at some things which may seem strange to you, for I
have burnt no house but my own and nobody will
force you to warm yourself at its heat.


Aqui entrego a vocês meu testamento, no qual
descobrirão que o que sou não é por certo o que seria: eu
não exijo que sejam justos ao ponderar sobre ele, pois eu
sei que o serão para o seu próprio bem; no entanto, eu
comando pela religião mesma da poesia que não zombem
daquilo que possa lhes parecer estranho, pois eu
não queimei casa alguma além da minha e ninguém
há-de forçar que vocês se aqueçam em seu fogo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

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Picture poem by Kenneth Patchen:

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Antologias, cânones, neglectorinos & celebrities


Tenho carregado na sacola a antologia Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914-1945, editada por Jerome Rothenberg, nesta última semana.


Rothenberg é famoso por suas antologias ::: Technicians of the Sacred (1968), Shaking the Pumpkin (1972), America A Prophecy (1973), Poems for the Millennium (1998), etc ::: e gosto muito da maneira como ele as usa para questionar e atualizar o conceito de cânone, numa dialética de ruptura e continuidade.

Esta Revolution of the Word foi originalmente publicada em 1974 e reúne nomes (hoje) institucionais dos primeiros modernistas americanos, a outros poetas cultuados mas pouco conhecidos e poetas completamente esquecidos àquela época ou ainda hoje. Organizada em ordem alfabética por autor, é uma tentativa de esquecer ou contornar reputações e investigar o processo de sobrevivência dos textos, a partir do contexto em que surgiram.

O volume é dividido em duas partes: "Preliminaries" e "Continuities".


Entre os mais conhecidos e estabelecidos: Gertrude Stein, Ezra Pound, Marianne Moore, William Carlos Williams, Wallace Stevens, e.e. cummings, T.S. Eliot, Hart Crane;


Entre os cultuados, mas raros: Mina Loy, Laura Riding, H.D., Robert Duncan, Louis Zukofsky, Kenneth Rexroth, George Oppen, Charles Reznikoff, Kenneth Patchen, Jackson Mac Low, ainda muito mencionados e lidos, com antologias e obras completas ainda em catálogo, mesmo que não sejam exatamente "poetas de currículo"; poetas como Kenneth Patchen e Kenneth Rexroth têm um status estranho: ainda citados em historiografias, com volumes ainda em catálogo, suas obras parecem participar pouco do debate contemporâneo;


Entre os completamente esquecidos: Harry Crosby, Walter Conrad Arensberg, Bob Brown, Abraham Lincoln Gillespie, Else von Freytag-Loringhoven, Marsden Hartley, Charles Henri Ford, Kenneth Fearing, Eugene Jolas;



Entre todos eles, também o poeta... Marcel Duchamp.

Poetas como Ezra Pound, William Carlos Williams e Gertrude Stein nem sempre contaram com o reconhecimento que hoje os torna nomes incontornáveis para muitos poetas, até mesmo fora dos Estados Unidos. Contudo, Gertrude Stein ainda é excluída da maioria das antologias de poesia moderna em língua inglesa.

O que faz com que um poeta seja lembrado ou esquecido? Podemos realmente contar com o fator "qualidade literária" como principal? Quem estabelece esta qualidade? Os críticos? Quais? Para Hugh Kenner, a primeira metade do século XX foi The Pound Era. Para Harold Bloom, obviamente polemizando com Kenner, trata-se da "Stevens Era".

Deveríamos confiar nos poetas?


Se dependesse de Ezra Pound, alguém como Gertrude Stein provavelmente não teria muito espaço no "cânone". Stein pensava algo parecido sobre o próprio Pound.


Quando o século XX estava no fim, os jornais e críticos apressaram-se em preparar as listas dos melhores do século: nas listas de que me lembro, "The Waste Land", de Eliot, era quase que invariavelmente eleito "o poema mais importante do século". Pois bem, William Carlos Williams considerava "The Waste Land" o maior desastre das letras americanas, e Gertrude Stein nunca teve palavras muito gentis para Eliot. Briga de egos? Talvez. Se lemos com atenção o trabalho de Pound e Stein, por exemplo, percebemos que era coerente que eles não apreciassem o trabalho um do outro. Pode-se dizer o mesmo sobre Eliot e Williams.


Lendo a antologia organizada por Rothenberg, pergunto-me mais uma vez como é possível que a obra de poetas como Mina Loy e Laura Riding possam ser tão negligenciadas. De Loy, tenho o volume The Lost Lunar Baedeker: Poems of Mina Loy, uma seleção de seus poemas, incluindo a série esplêndida "Songs for Joannes", que cito em minha cadela sem Logos. Mina Loy é um dos poetas mais estranhos e interessantes dentre os primeiros modernistas anglófonos. De Riding, tenho a reunião de todos os seus poemas em The Poems of Laura Riding, outra esquisita dentro do que nos acostumamos a ver como Alto Modernismo.


Poetas como Kenneth Patchen e Kenneth Rexroth reabriram muito do caminho bárdico e politicamente radical para os Beats que estariam por vir, mas acabaram soterrados sob a empresa da imprensa dedicada aos mais jovens Allen Ginsberg, Gregory Corso e Jack Kerouac.

Entre os completamente esquecidos, pareceram-me especialmente interessantes os poetas Walter Conrad Arensberg, Harry Crosby e Kenneth Fearing.


E quanto ao Brasil? Como anda a saúde do nosso "cânone oficial"?


Pensar que poetas como Murilo Mendes e Jorge de Lima passaram tanto tempo soterrados ou submersos, assim como Hilda Hilst e Orides Fontela, chega a dar vertigem de tristeza. Mesmo assim, as obras deles são muitas vezes lidas sob parâmetros alheios. Basta pensar na mania de "eleger" o livro Tempo Espanhol (1959), de Murilo Mendes, como o seu "melhor trabalho", por permitir a leitura de Murilo Mendes sob os parâmetros estéticos de João Cabral de Melo Neto, parâmetros que condicionaram por certo tempo a apreciação crítica de tantos outros poetas.


Talvez Tempo Espanhol seja realmente um grande livro, mas não me parece realmente enriquecer o tal de cânone em um pluralismo de propostas, como os brilhantes e únicos As Metamorfoses, Mundo Enigma e Poesia Liberdade, que termina com o estupendo ::: SALVE SALVE ::: "Janela do caos", my own private most important Brazilian poem of the 20th century if you allow me the exaggeration.


O que pensar sobre os que ainda estão submersos?

É difícil investigar a "justiça" de seu esquecimento se este mesmo esquecimento impede que tenhamos acesso às obras dos poetas, impossibilitando a reavaliação. É por isso que se torna tão necessário que tenhamos sempre poetas curiosos que resolvem investigar, garimpar no olvido aqueles que possam apresentar obras interessantes para o seu (nosso) tempo. Penso imediatamente no trabalho de Haroldo de Campos e Augusto de Campos com poetas como Joaquim de Sousândrade e Pedro Kilkerry. Hoje em dia, penso em Dirceu Villa, chamando nossa atenção, com insistência, para o trabalho de poetas como Dom Tomás de Noronha ou Sapateiro Silva.

Lembro-me, porém, de alguns textos recentes de Antonio Cicero sobre a vanguarda e o cânone, tão bem-intencionados quanto equivocados, em minha opinião, com sua ilusão de um cânone incondicionado, formado por uma crítica "incessante e implacável" segundo ele, mas que eu chamaria de "condicionada por interesses extra-literários até a medula". Em artigos do ano passado, este poeta (por quem tenho respeito) entregou-se a uma reavaliação do papel das vanguardas, na qual estas transformam-se numa espécie de "afrodisíaco para a tradição". Em um artigo da semana passada, ele usa o trabalho do crítico inglês Terry Eagleton (que, com Fredric Jameson e outros, tenta salvaguardar a validade de uma abordagem política da literatura) para mais uma vez defender a crença de que alguns sofrem de cegueira ideológica, outros não; que uns têm liberdade crítico-estética (entre os quais ele se inclui, obviamente), enquanto outros estão condicionados por sua própria obsessão com o perigo de condicionamentos extra-literários na discussão da literatura. Se Eagleton "exagera" em seu zelo político, tal preocupação está longe de ser ingênua, como quer o poeta carioca, parecendo-me muito mais ingênua a sua tentativa de insinuar a possibilidade de uma crítica incondicionada, e sua argumentação de uma "falta de relação vital com a poesia" por parte de Eagleton e entre aqueles que possuem tal preocupação est-É-tica: a de analisar os condicionamentos históricos da avaliação artística. O exagero de Antonio Cicero é necessário para que siga em seu argumento. Cicero precisa para isso criar a oposição, como se faz com freqüência, entre o "condicionado" e o "incondicionado", evitando assim o trabalho realmente desafiador de buscar compreender como a poesia pode ser, ao mesmo tempo, documento histórico e estético. É mais fácil criar a oposição entre história e estética como inconciliáveis, como ele faz neste artigo e tantos outros poetas o fazem diariamente em outros textos. Quem conhece sua poesia, porém, percebe facilmente os condicionamentos individuais do trabalho poético e crítico de Antonio Cicero, dos quais nenhum poeta escapa, mesmo que ele se creia livre deles.


Terminaria com três poetas modernos submersos, esperando reabilitação ou atualização do esquecimento, segundo as necessidades de cada um: Henriqueta Lisboa (ainda à sombra de Cecília Meireles, em um cânone que reserva poucos lugares a mulheres, esta mineira tem alguns dos poemas mais cristalinos dentre os modernistas como "poetas puros". Nem tudo interessa, mas o que interessa poderia/deveria ser lido.); Joaquim Cardozo (Muito mencionado, pouco lido, creio que seus livros estão todos fora de catálogo); Dantas Motta (provavelmente considerado discursivo para um cânone embebido de parâmetros como "secura" e "economia de linguagem", este poeta escreveu algumas páginas que me parecem exuberantes e poderiam enriquecer um cânone mais plural.)


Entre os vivos, penso em um poeta como Max Martins, que talvez não tenha a sorte de receber, em vida, a atenção que outros poetas por muito tempo negligenciados têm recebido, como Roberto Piva.

Digo tudo isto, apesar de pensar que esta noção de cânone único e imutável é, de qualquer maneira, demasiado provinciana. Prefiro, hoje em dia, ver o cânone como simplesmente a reunião de textos que se reconfigura a cada geração, na qual nada pode engessar-se ou instituir-se como certeza e lei. Cânone deveria ser a reunião de textos sendo realmente LIDOS por poetas e por aqueles que vão à poesia pelas mais diferentes causas e em busca dos mais diversos efeitos. Não uma lista de reputação de poetas para universidades, universitários e seus professores. Esta noção de cânone, como a que me parece ser defendida por Antonio Cicero, por exemplo, é que transforma a poesia em mero documento histórico.

Deveria ser uma aventura, e é, caminhar por entre estes poetas famosos e esquecidos, mas :

CUIDADO
com os canhões
do cânone.

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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Rae Armantrout na Modo de Usar & Co.

Acabo de publicar duas traduções minhas para poemas de Rae Armantrout (n. 1947) na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., com um vídeo de uma leitura de Armantrout e o arquivo de som de sua oralização para o poema "The fit", um dos textos que traduzi.

É a terceira postagem que preparo com poemas de um autor ligado à comunidade de poetas em torno da revista L=A=N=G=U=A=G=E, sendo que os outros dois autores eram também mulheres: Rosmarie Waldrop e Lyn Hejinian.

Muitos dos meus questionamentos em torno da noção de gênero: tanto GENDER como GENRE, poderiam ser explicitados a partir de poetas ligados a esta comunidade americana de autores, os language poets, que gosto de traduzir como poetas-linguistas.

Parece-me fascinante a maneira como os poetas masculinos, brancos e heterossexuais entre eles, apesar de toda a sua consciência contextual das constrições ideológicas de cada Weltanschauung pessoal, ainda caem em armadilhas discursivas sobre a possibilidade de obliteração do ego na escrita. Esta armadilha discursiva tem sido herdada por outros poetas heterossexuais brancos masculinos mais jovens, ligados aos conceitualistas (como Kenneth Goldsmith) e aos flarfistas (como K. Silem Mohammad).

Mulheres como Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop, Harryette Mullen, Carla Harrymann, Susan Howe e Rae Armantrout têm muito mais sucesso na empreitada de EXPOR o IMPOSTO, eu diria, questionando a relação entre GENDER e GENRE em seus textos carregados de autobiografia, a partir do próprio estereótipo da autobiografia como gênero feminino. Penso aqui em trabalhos como My Life e Happily, de Hejinian; My Emily Dickinson, de Howe; ou The Hanky of Pippin's Daughter e Lawn of the Excluded Middle, de Waldrop. Entre nós, Clarice Lispector e Hilda Hilst foram as escritoras mais politicamente conscientes para a vigência destes estereótipos. Hoje em dia, eu pensaria em Márcia Denser.

Enquanto homens brancos e heterossexuais seguem caindo na tentação alephiana de querer abarcar o mundo em seus épicos (Pound e seus Cantos; Williams e seu Paterson; Olson e seus Maximus Poems; Silliman com seu Alphabet e agora Universe), as mulheres entregam-se à abrangência contextual honesta de quem expõe a possível falácia de tal tentação. Há, obviamente, exceções, como a poesia masculina de Creeley, sempre mínima, e a feminina de Rachel Blau DuPlessis, com seu projeto épico Drafts (ainda que DuPlessis tenha composto sua tese de mestrado com o interessante título: The Endless Poem: "Paterson" of William Carlos Williams and "The Pisan Cantos" of Ezra Pound).

Antes que algum rapaz branco heterossexual (são os que geralmente se irritam com estas minhas preocupações) decida me acusar de querer destruir os parâmetros de qualidade estética com questões extra-literárias, ou de querer invadir o precioso cânone com escritores ruins apenas por serem mulheres ou homossexuais ou negros ou de qualquer outra "minoria", imploro que releia com cautela este texto e pense na qualidade dos autores envolvidos: Hilst Waldrop Creeley Hejinian Lispector etc. Ninguém aqui está falando em revisionismo do cânone. Aliás, ninguém aqui está preocupado com esta Arca de Noé subnutrida, o cânone.

Não quero fazer assertivas, mas perguntas.

Gender, Genre. Fazendo gênero.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Livro do ano / Book of the year.

Eu já encomendei o meu. Há quem acredite que se trata de um acontecimento para a poesia americana. É um acontecimento para a poesia desta parte do mundo. Do planeta? Ron Silliman chamou o livro de "um dos mais importantes livros de poesia dos últimos 50 anos."



Língua Coisa

Este oceano, humilhante em seus disfarces
Resiste a tudo.
Ninguém sintoniza na poesia. O oceano
Emite ondas para a sintonia de ninguém. Gota
Ou tromba d´água. Omite
Significados.
É
Manteiga e pão
Pimenta e sal. A morte
Que os jovens almejam. Sem mira
Alveja as margens. Sinais sem mira, alvos. Ninguém
Sintoniza na poesia.

(tradução de Ricardo Domeneck)



Thing language - Jack Spicer


Thing Language

This ocean, humiliating in its disguises
Tougher than anything.
No one listens to poetry. The ocean
Does not mean to be listened to. A drop
Or crash of water. It means
Nothing.
It
Is bread and butter
Pepper and salt. The death
That young men hope for. Aimlessly
It pounds the shore. White and aimless signals. No
One listens to poetry.

Leia AAQQUUII a postagem sobre Jack Spicer na Modo de Usar & Co.

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