quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Das canções favoritas: "Fall on me", de Michael Stipe, com o R.E.M.

Em julho, a banda R.E.M. passou um mês em Berlim, gravando seu novo álbum. Michael Stipe começou a ser visto em várias festas da cidade, especialmente, é claro, as festas queer (justo ele, que tanto popularizou a expressão em uma entrevista do fim dos anos 90). Para minha sorte, ele é muito amigo de um DJ canadense que toca todos os meses na nossa festa semanal, e graças a este amigo pude conhecer pessoalmente o sr. Stipe, um dos meus heróis da adolescência. Encontramo-nos uma noite em um clube subterrâneo, acabamos na mesma mesa em bebedeira, e outra noite ele veio ao nosso evento de toda quarta-feira.

Tive que me controlar para não regredir a um adolescente trêmulo, como sempre me ocorre quando me vejo diante destas criaturas que por tantos anos foram míticas para mim. Sobre o que se falou à mesa naquela noite bêbada, num clube subterrâneo do Berlimbo? De tudo, da vida nossa de cada 80s e 90s, porque moramos onde moramos, de amores passados por meninos lindos, de como ele detesta Damian Hirst (havia uma exposição de Hirst em Berlim naquele momento) e de como eu por outro lado o acho divertidíssimo, de como todos na mesa gostávamos de Bruce Nauman (havia uma exposição de Nauman em Berlim naquele momento), sobre o Berlimbo, sobre Athens - Georgia, sobre Nova Iorque.

E eu me controlei o tempo todo para não bancar o fã idiota, e desandar a falar sobre como ele foi importante para mim quando adolescente, sobre como algumas de suas canções salvaram minha sanidade em uma cidade pequena do interior de São Paulo, sobre como "Fall on me" era um mantra pessoal meu, e, finalmente, de como em certa tarde de São Paulo, há muitos anos, eu havia chorado convulsivamente enquanto esta canção rolava na vitrola, em módulo repeat. Eu me controlei, kept my cool, e quase derreti quando ele se despediu dizendo "It was very nice to meet you, Ricardo", uma frase feita e simplesmente polida, que se diz a qualquer um, mas que terminava com meu nome, vindo da boca do herói de um (como me tornei naquele momento mais uma vez) adolescente magricelo, corcunda e cheio de acne.



"Fall on me", do álbum Life's Rich Pageant (1986), do R.E.M.


Abri a postagem com este relato pessoalíssimo, beirando nota de coluna social. Quanto à canção, que é o que interessa, o texto de "Fall on me" é uma coisa muito sofisticada, em minha opinião, e traz umas lições exemplares de poeticidade. Pessoalmente, encontro mais aprendizagem em um verso como "Feathers hit the ground before the weight can leave the air", neste poema cantado, que em muita poesia escrita e publicada na década de 80. Posso estar insano, mas não consigo chacoalhar a impressão de certa wit metafísica neste verso, como se viesse em linhagem de "heredipoeticidade" de criaturas como Donne ou Crashaw. O texto duplo, em sobreposição de vozes, tem uma carga tão forte na última estrofe, é tão lindo: "There's the progress we have found (when the rain) / A way to talk around the problem (when the children reign) / Building towered foresight (keep your conscience in the dark) / Isn't anything at all (melt the statues in the park) / Buy the sky and sell the sky and bleed the sky and tell the sky". Um dia o céu há de cair sobre nossas cabeças, mas até lá continuo ouvindo R.E.M., como qualquer adolescente digno dos anos 80/90.


Fall on me
Michael Stipe, com o R.E.M.


There's a problem, feathers iron
Bargain buildings, weights and pullies
Feathers hit the ground before the weight can leave the air
Buy the sky and sell the sky and tell the sky and tell the sky

(chorus)
Fall on me (what is it up in the air for) (it's gonna fall)
Fall on me (if it's there for long) (it's gonna fall)
Fall on me (it's over it's over me) (it's gonna fall)

There's the progress we have found (when the rain)
A way to talk around the problem (when the children reign)
Building towered foresight (keep your conscience in the dark)
Isn't anything at all (melt the statues in the park)
Buy the sky and sell the sky and bleed the sky and tell the sky

(repeat chorus)

Fall on me

Well I could keep it above
But then it wouldn't be sky anymore
So if I send it to you you've got to promise to keep it whole

Buy the sky and sell the sky and lift your arms up to the sky
And ask the sky and ask the sky

(repeat chorus 2x)

Fall on me

(repeat chorus)

Fall on me

(repeat chorus)


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.
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12 comentários:

Elizabeth disse...

Ricardo,
e de pensar que v. também já me salvou da sanidade diversas vezes. sou sua fã assumida desde que eu li em voz alta o cadela sem logos. e às vezes também banco a fã meio idiota quando leio aos prantos "A confiança mútua das secreções: a saliva do narrador de histórias com a mesma transparência da saliva do ouvinte. Se está chovendo enquanto caminho por uma rua da antiga Berlim Oriental e penso este início, quanto o caminho, a velocidade dos passos e o vento frio no rosto influenciam o ritmo desta oração? Tudo o que é humano é alheio e não-alheio", e isso prenche meu dia.
v. tem algo que eu admiro muito que é saber aliar o rigor com que v. discute a estética dos outros artistas com uma capacidade de se comover e de se relacionar afetivamente com essas obras (pelo menos essa é impressão que eu tenho sempre que leio o seu blog)
parabéns, e continue escrevendo-nos. Sempre.
Elizabeth

Ricardo Domeneck disse...

Elizabeth,

essa sua mensagem me encheu de alegria, aquela de saber que por mais que a gente por vezes se sinta isolado, o diálogo, a conversa, o debate, a troca, todas estas coisas boas estão acontecendo. Sabe, eu ouço com tanta frequência que o "cadela sem Logos" é um "livro frio, abstrato", algo que sempre me entristece, porque muito dele eu escrevi quase com febre. Não há coisa que deixe um poeta mais feliz... muito melhor que uma crítica "formal" é ouvir isso, que alguém se emocionou ao ler algo que escrevi emocionado. Ezra Pound tinha razão: ONLY EMOTION ENDURES.

Obrigado.

A propósito, você já meu minha postagem sobre as "Elizabeths"?

Aqui:

http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2009/09/algumas-elisabeths-para-gargalhar-sem.html

abraço

Ricardo

ELIZABETH disse...

Ricardo,
eu li essa postagem sim. gostei muito do texto da adília lopes. além disso foi através desse texto que eu conheci a Elisabeth Veiga
Abraços
Eliza.

Ricardo Domeneck disse...

Elizabeth,

uma curiosidade, onde você mora? Fale-nos um pouco sobre você.

abraço

Ricardo

ELIZABETH disse...

Ricardo,
tenho 20 anos, moro em Fortaleza e estudo Jornalismo. conheci v. e seu blog quando pesquisava a respeito de um poeta que um amigo de Slz havia entrevistado: o érico nogueira, que descobri ser, além de um poeta admirável, um grande amigo seu. posteriormente, acabei lendo uma matéria do fabiano calixto sobre três poetas brasileiros, na faixa dos 30 anos, que estão escrevendo poesia na contemporaneidade: v., Marília Garcia e Angélica Freitas. foi a partir dai que entraram definitivamente na minha vida dois livros que eu estou sempre relendo: cadela sem Logos e 20 poemas para o seu walkman. desde então leio tudo que posso ao seu respeito e a respeito de todos os outros poetas que citei.
abraço
Eliza.

Ricardo Domeneck disse...

Cara Eliza,

você mencionou algumas pessoas muito queridas, e poetas que respeito muitíssimo. Você conhece o trabalho da Juliana Krapp e da Hilda Machado? Talvez você goste também do trabalho delas. Dê uma olhada nestes links:

Hilda Machado:
http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/04/hilda-machado-1952-2007.html

Juliana Krapp:
http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/12/juliana-krapp_1474.html

grande abraço

Ricardo

ELIZABETH disse...

Ricardo,
eu conheço um pouco do trabalho da Juliana Krapp (acho que ela continua inédita em livro, né?)e gosto muito mesmo de textos como o av. brasil e a estrutura íntima das horas. ela faz, ao meu ver (o que é apenas opinião e não "crítica formal"), um lindo trabalho de movimentação da sintaxe. quanto à Hilda Machado, não a conheço ainda, mas com sua recomendação vou procurar lê-la o quanto antes. brigada pela dica.
Ricardo, me sinto quase impertinente de ter transformado esse espaço de comentários sobre sua postagem em uma exposição das minhas admirações de fã, por isso deixo o e-mail para alguma troca futura:
lizabethsouzae@gmail.com
Abraço
Eliza

ELIZABETH disse...

Ricardo,
v. poderia me sugerir nomes de poetas da geração 00 na literatura brasileira (jovens poetas, entre 20e 30 anos)?
desde já brigadão
eliza.

Ricardo Domeneck disse...

Elizabeth,

Juliana Krapp continua inédita em livro, e Hilda Machado, apesar de ter nascido em 1954, o que faz dela uma poeta da geração de Ana Cristina César, e que, desgraçadamente, escolheu o mesmo fim que ela, também segue inédita em livro. A "Inimigo Rumor" publicou 2 poemas lindos há alguns anos, e nós publicamos mais 4 poemas no segundo número da "Modo de Usar & Co." impressa. Dê uma olhada em minha postagem sobre ela na Modo de Usar & Co. digital, no link que te passei. O poema "Miscasting" é uma das coisas mais lindas e tocantes da poesia brasileira dos últimos 20 anos.

Quanto aos poetas jovens, conheço melhor os de minha idade (para evitar a palavra "geração", que é tão complicada), todos já passaram dos 30 e estão caminhando para os 40. Eu mesmo tenho 33 anos. Você e eu já mencionamos nestes comentários alguns deles: Érico Nogueira, Marília Garcia, Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Juliana Krapp. Há vários outros poetas que aprecio muito e sobre os quais já escrevi, como Dirceu Villa, Marco Catalão, João Filho, o trabalho sonoro/oral de Ricardo Aleixo e Marcelo Sahea, etc. Você já leu o livro novo do Carlito Azevedo, chamado "Monodrama"? Agora, se você quiser um poeta realmente jovem, entre os 20 e 30 anos, eu sugeriria que você leia o carioca Ismar Tirelli Neto, que já tem coisas muito bonitas.

Há muitos outros poetas. Espero que ninguém se irrite ou se ofenda com esta listinha, que são meras sugestões de leituras iniciais para você... não é proposta de cânone e tenho certeza que há muitos poetas excelentes no Brasil que eu simplesmente não conheço ou ainda não tive a sorte e prazer de ler.

abraço

Ricardo

Dimitri BR disse...

Ricardo! que me inundas. feather hits the ground before the weight can leave the air. the Valentina complex. saudades assobradadas. estive com Marília - na casa de Marília, com G. e W. (e S. e H.), e na defesa de tese de Marília, e Marília me liga e parece, muitas vezes, que basta nos falarmos (eu e ela) pra você estar presente também). caramba, isso me lembrou um escrito de há anos! http://humdeabril.blogspot.com/2005/04/happiness-is-warm-gun.html lembra disso? beijos, querido! restou o eco de seu corpo.

Ricardo Domeneck disse...

Dimi,
querido, é claro que me lembro, mesmo que tivesse sido arquivado, e agora retorna como se fosse uma presença constante (ia dizer "eterna", mas já duvidamos de eternidades e preferimos constâncias), e saudade que é assobradada e vive também na Morada do Sol, vontade de uma ponte aérea que cobrisse o charco atlântico em piscares de estroboscópica, e eu pudesse estar com você e Marília sempre que quisesse. Beijo enorme,
Ricardo

EUGEN BRAEUNIG disse...

these ar the moments where languages become borders. would love to read this but will have to take some portuguese first... ; )
hope to see you soon!

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