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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Da "Janela do caos", de Murilo Mendes

O pequeno ensaio abaixo foi originalmente publicado na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., em novembro de 2011. Há tempos queria reproduzir estas linhas de pensamento sobre O Mestre aqui. Aos que não o haviam visto e a quem mais possa interessar.


Da "Janela do caos", de Murilo Mendes




O mestre Murilo Mendes (1901 - 1975 e então a eternidade)


Publicado originalmente em Poesia Liberdade (1947), lançado na França já em 1949 em um volume com seis litografias de Francis Picabia e traduzido para o italiano por ninguém menos que Giuseppe Ungaretti, "Janela do caos" é um dos poemas imprescindíveis da poesia brasileira e em língua portuguesa, ainda que tenha encontrado acolhida parca no cânone, na bibliografia crítica e nas listagens dos gigantes, cujas vagas são em geral ocupadas por outros textos muito merecedores do espaço, como "A Máquina do Mundo" de Drummond, "Uma Faca Só Lâmina" de Cabral, ou, em casos raros, o "Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão" de Oswald de Andrade, talvez o poema que mais se lhe assemelhe em escopo, escolhas e contexto histórico. É claro que críticos muito bons se ocuparam dele e de seu autor, como Murilo Marcondes de Moura no excelente Murilo Mendes: a poesia como totalidade (São Paulo: Edusp, 1995). Vale também lembrar, entre outros, o livro de Júlio Castañon Guimarães, Territórios/Conjunções: poesia e prosa críticas de Murilo Mendes (Rio de Janeiro: Imago, 1993). Mas a importância deste texto pediria muito mais festança crítica e tentativas de emulação pupilar.

Em termos de fanopeia, talvez nenhum poeta brasileiro se compare a Murilo Mendes, maestria reconhecida por João Cabral de Melo Neto, que declarou haver aprendido com o mestre de Juiz de Fora a sempre dar precedência à imagem sobre a ideia (cito de memória). Em língua portuguesa, encontramos tamanha ousadia metafórica em poucos poetas, como Fernando Pessoa e Herberto Helder. Mas, a meu ver, tal uso da fanopeia como instância da hierofania ocorre em poucos poetas espalhados pela modernidade ocidental. O tipo de beleza que sinto em versos como "O céu cai das pombas. / Ecos de uma banda de música / Voam da casa dos expostos" ou aquela quinta parte, em que o mestre Murilo Mendes diz-nos que "Nenhum som de flauta, / Nem mesmo um templo grego / Sobre colina azul / Decidiria o gesto recuperador. / Fome, litoral sem coros, / Duro parto da morte. / A terra abre-se em sangue, / Abandona o branco Abel / Oculto de Deus", faz-me pensar na potência imagética de certos versos do Pessoa do "coração como balde despejado" ou, ousaria dizer, em momentos em que a fanopeia também manifesta-se como instância de hierofania no Gerard Manley Hopkins de "The Wreck of the Deutschland", como "I am soft sift / In an hourglass—at the wall / Fast, but mined with a motion, a drift, / And it crowds and it combs to the fall; / I steady as a water in a well, to a poise, to a pane", mesmo que eu esteja ciente que Hopkins talvez seja um dos mestres insuperados (também Pessoa, em menor medida) da arte de conjugar, em equilíbrio quase sempre perfeito, fanopeia, melopeia e logopeia, quando Murilo Mendes foi em geral mestre supremo daquela primeira.


Sintaticamente, não consigo pensar em uso melhor e mais necessário do hipérbato que naquela última parte, a décima primeira, em que este assume caráter praticamente isomórfico, para usar abusadamente uma expressão cara a Augusto de Campos, que desempenha (como uma performance) a ideia-sensação de ascensão transcendente, ao deixar para o último verso aquele "Subindo vão", ao mesmo tempo que, de maneira gráfica, digamos, cria uma espécie de embate entre ascensão e queda ao fazer dele o ulterior e último dos versos. Há aqui uma relação interessante a ser pensada sobre os efeitos vocais e auditivos do poema quando é falado/ouvido e seus efeitos visuais quando é lido. Não seria impossível também pensar no verso final, a partir da quebra-de-linha, como uma espécie de sínquise a fazer de "vão" não um verbo, mas adjetivo, sem concordância direta com as linhas anteriores, doando certa desesperança ao poema não conhecêssemos a fé de seu autor.


Talvez mais condizente com o pensamento de Murilo Mendes seria a sugestão do poeta gaúcho Marcus Fabiano, em correspondência particular sobre esta possibilidade, a de ler "vão" nem como verbo nem como adjetivo, mas como substantivo, criando a imagem de ascensão por aquele "vão azul" que nos pareceria vazio apenas porque nós, segundo um verso do poema, "só vemos o céu pelo avesso". Pois, quase no extremo oposto de um poeta como Wallace Stevens, que escreveu que "Poetry / Exceeding music must take the place / Of empty heaven and its hymns, / Ourselves in poetry must take their place", Murilo Mendes não cria vazio o céu nem imaginaria que nós pudéssemos substituir o sagrado com a poesia, especialmente não colocando esta acima da música, já que M.M. era melomaníaco notório.

Estas possíveis leituras do último verso de "Janela do caos", de certa forma (trata-se aqui de sensação minha), talvez evoquem a sensibilidade e imagética mística anterior de poetas como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, poetas que parecem presidir ou ao menos prenunciar a poesia mística brasileira moderna, a de Murilo Mendes e de seus excelentes companheiros Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes (da primeira fase) e Henriqueta Lisboa. Entre os poetas do pós-guerra, poderíamos mencionar Hilda Hilst e Leonardo Fróes, todos estes, ao mesmo tempo, poetas muito distintos entre si.

Outro aspecto que seria importante discutir neste poema é a relação entre linguagem metafórica e linguagem metonímica em sua textualidade, pois Murilo Mendes mescla-as de forma inteligentíssima, apontando para advertências do próprio Jakobson sobre o perigo de estabelecermos fronteiras demarcadas demais entre as duas, assim como este poema é uma lição incontornável sobre o equívoco de certos poetas e críticos contemporâneos, que insistem em crer que a função poética da linguagem cancela as outras funções, como a referencial, quando nada disso pode ser comprovado nos grandes poemas de todos os tempos. A linguagem poética parece operar e funcionar, em seu material, forma, função e contexto, em "Janela do caos" e em tanta grande poesia, na fronteira entre transparência e não-transparência do signo, como insisto com frequência.

Nestes nossos tempos de equívoco crítico desastrado que busca equivaler como se sinônimos, de forma confusa e desengonçada, conceitos como "pós-utópico", "trans-histórico" e "sincrônico", Murilo Mendes retorna como mestre supremo e indispensável. Pois é importante dizer que o "surreal" em Murilo Mendes talvez se manifeste com força real de escrita automática apenas em um livro como As Metamorfoses (1944), como Murilo Marcondes de Moura já argumentou, já que M.M. parece ter usado o surrealismo apenas para educar-se em sua futura maestria do que já foi chamado de "metáfora dissonante" e para a própria conjunção entre linguagem metafórica e metonímica que parece operar em um poema como "Janela do caos". Há pouquíssimo de "automático" na escrita do mestre mineiro. Um poema como "Janela do caos" apresenta-se consciente em cada filigrana de sua textualidade, atento à conjugação do temporal, secular e histórico como campos de ação do sagrado, daí o caráter hierofânico de sua fanopeia. Pois se ele está ligado, sim, a esta que foi uma das vanguardas mais utópicas do século XX, o surrealismo de Breton, Picabia e Éluard, entre outros, a poesia de Murilo Mendes, que foi chamado de "conciliador de contrários" por Manuel Bandeira, sempre demonstrou a consciência de que a defesa do utópico (que se manifesta em M.M. no bojo de sua crença inabalável na parúsia) precisa estar unida a um ataque ao distópico, pois ele sabia bem que a humanidade balança-se, em pêndulo, entre distopia e sua antesala.

Num momento em que liberdades civis estão claramente ameaçadas tanto em São Paulo como em São Petersburgo; com sangue jorrando no Egito e outros países árabes; prisioneiros políticos em prisões como Guantânamo e Guanajay; partidos de extrema direita vencendo eleições em países europeus e expulsão de estrangeiros de países como a França; sem mencionar as matanças por questões étnicas que nunca cessam, eu, pessoalmente, retorno uma vez mais a mestres como o Murilo Mendes de "Janela do caos" e o Oswald de Andrade de "Cântico dos cânticos para flauta e violão", estes brasileiros que sabiam que a poesia lírica sai e soa alienada tão-só dos e para os que têm panfletos inúteis ou cartões de crédito nas cavidades onde deveriam residir seus miocárdios e cérebros.


--- Ricardo Domeneck


§


O POEMA DO MESTRE MURILO MENDES


Janela do caos


1


Tudo se passa
Em Egitos de corredores aéreos
Em galerias sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
- Ou teu coração?
Azul de guerra.


2


Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.
Ah! Quem telefonaria o consolo
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.


3


Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras
Mas na tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.



4


O céu cai das pombas.
Ecos de uma banda de música
Voam da casa dos expostos.
Não serás antepassado
Porque não tiveste filhos:
Sempre serás futuro para os poetas.
Ao longe o mar reduzido
Balindo inocente.


5


Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.
Fome, litoral sem coros,
Duro parto da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.


6


A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
- Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesses entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro.
Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música:
Rude doçura,
Última passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.


7


Cai das sombras das pirâmides
Este desejo de obscuridade.
Enigma, inocência bárbara,
Pássaros galopando elementos
Do fundo céu
Irrompem nuvens eqüestres.
Onde estão os braços comunicantes
E os pára-quedistas da justiça?
Vultos encouraçados presidem
À sabotagem das harpas.


8


Que esperam todos?
O vento dos crimes noturnos
Destrói augustas colheitas,
Águas ásperas bravias
Fertilizam os cemitérios.
As mães despejam do ventre
Os fantasmas de outra guerra.
Nenhum sinal de aliança
Sobre a mesa aniquilada.
Ondas de púrpura,
Levantai-vos do homem.


9


Penacho da alma,
Antiga tradição futura:
?Se a alma não tem penacho
Resiste ao Destruidor?


10


A velocidade se opõe
À nudez essencial.
Para merecer o rompimento dos selos
É preciso trabalhar a coroa de espinhos.
Senão te abandonam por aí,
Sozinho, com os cadáveres de teus livros.



11


Pêndulo que marcas o compasso
Do desengano e solidão,
Cede o lugar aos tubos do órgão soberano
Que ultrapassa o tempo:
Pulsação da humanidade
Que desde a origem até o fim
Procura entre tédios e lágrimas.
Pela carne miserável,
Entre colares de sangue,
Entre incertezas e abismos,
Entre fadiga e prazer,
A bem-aventurança.
Além dos mares, além dos ares,
Desde as origens até o fim,
Além das lutas, embaladores,
Coros serenos de vozes mistas,
De funda esperança e branca harmonia
Subindo vão.



Murilo Mendes, Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar, 1994.


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domingo, 25 de dezembro de 2011

Postagem natalina, com poemas, canções e súplica por meio de sinédoques

Michelangelo da Caravaggio, La cena in Emmaus, 1601-02. Dimensões: 195 x 139 cm).
Atualmente na Galeria Nacional de Londres.

Crescendo num ambiente dos mais religiosos, quisera eu poder dizer que acompanho a poética do meu mestre Murilo Mendes, ou a de seus companheiros Jorge de Lima e Henriqueta Lisboa. Minha relação com esta religiosidade é, no entanto, muito mais conflituosa e atormentada, aparentando-se e encontrando maior guarida no trabalho de Pier Paolo Pasolini e Hilda Hilst. Mas esta manhã acordei pensando num dos poemas de Murilo Mendes que mais amo, chamado "Emaús", incluído no livro Mundo Enigma (1942), escrito durante os meses em que o poeta mineiro passou no Sanatório de Correia, em Minas Gerais, tratando-se da tuberculose. É um dos meus livros favoritos na obra de M.M., contendo outros poemas belíssimos como "Tobias e o anjo", "A noite em 1942" e "Poema barroco". O título faz referência à cidade de Emaús, a cerca de 10 quilômetros de Jerusalém, onde o Evangelho de Lucas (24, 13-35) afirma ter aparecido Jesus após a ressurreição diante de dois de seus discípulos, que não o reconheceram até o momento em que, tendo-o convidado a cear consigo, Jesus parte o pão à sua maneira inconfundível e desaparece quando os olhos dos discípulos abrem-se e eles o reconhecem. O evento tem grande importância para o pensamento místico de Murilo Mendes, que intitularia seu belo livro de aforismos O Discípulo de Emaús (1944).Parece-me ser em Mundo Enigma que se inaugura a secura-pobreza na poética de Murilo Mendes, durante a Segunda Guerra e quase uma década após sua conversão ao cristianismo, como se costuma relatar, na experiência traumática que lhe foi a morte de seu amigo Ismael Nery em 1934. O coroamento desta secura, distinta em sua est-É-tica daquela que se tornou famosa na obra de João Cabral de Melo Neto, viria no poema "Janela do caos", escrito também naqueles anos. Abaixo, o belo "Emaús":

Emaús

Sempre és o hóspede – nunca és o rei.
Muito mais derrotado que vitorioso.
Quando chegas e bates ao meu coração
Eu não te reconheço – há luz demais –
Debruço-me sobre as gravuras do caminho.
Quando te afastas - acompanhado pelo peixe azul –
Quando as formas se movem como num aquário,
Então eu levanto enternecido a lanterna
E logo começo a desejar que voltes,
Fascinado pela tua obscuridade.


Murilo Mendes, Mundo Enigma (1942)


Trata-se de um dos mais delicados poemas de amor místico da Poesia Brasileira. É esta humilitas, esta meekness ovina reconhecida por Murilo Mendes no Cristo que parece estar na base de sua busca est-É-tica, nestes anos, por uma simplicidade maior se comparada à exuberância mesmo sálmica de seus primeiros livros, distante também do satírico e paródico que marcara sua primeira produção. Há no entanto mesmo em Murilo Mendes um grande conflito, talvez o mesmo que tenha acometido todos os intelectuais, cristãos e judeus, que viveram o horror da Segunda Guerra. Basta pensarmos em poetas e intelectuais tão diversos quanto a Simone Weil dos Cahiers e ainda L'Enracinement, Prélude à une déclaration des devoirs envers l'être humain (1943, publicado em 1949), a H.D. de The Walls Do Not Fall (1944), o Paul Éluard de Les sept poèmes d'amour en guerre (1944), o Salvatore Quasimodo de Con il piede straniero sopra il cuore (1946) ou o próprio Murilo Mendes de Poesia Liberdade (1947). Em um texto menos conhecido, intitulado justamente "Natal 1961", Murilo Mendes apresenta-nos uma visão distópica da sociedade de consumo que já se formava, algo tão desmascarável em tempos de Natal como celebração do comércio.


Natal 1961
Murilo Mendes


Deslocados por uma operação burocrática — o recenseamento da te­rra - a Virgem
..............e o carpinteiro José aportam a Belém.
«Não há lugar para esta gente», grita o dono do hotel onde se reali­za um congresso
..............de solidariedade.
O casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado
..............do trabalho.
Os soldados de Herodes distribuem alimentos radioativos a todos os meninos de menos
..............de dois anos.
Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.
O Menino nasce morto.



Minha relação com esta religiosidade cristã, se não aparece de maneira temática em meu trabalho, tem sido uma constante crítico-formal, por exemplo, em minha obsessão pela relação entre metáfora e metonímia, e especialmente em meu uso da sinédoque (a parte pelo todo), como refúgio possível da poesia mística em famosos tempos dessacralizados. Há pouco tempo, assisti em vídeo a uma interessantíssima palestra de Caroline Bynum, intitulada "Contradiction, Paradox, Synecdoche: Parts and Whole in Medieval Devotion", proferida no ICI Berlin: Institute of Cultural Inquiry, em que discutia, de maneira elaborada e muito mais embasada que a minha, uma questão que vem ocupando meu pensamento desde os tempos em que escrevia o livro Carta aos anfíbios (2005), no qual esta obsessão se faz presentíssima. A palestra da impressionante Caroline Bynum é descrita desta maneira:

"All religions make some use of the material to represent or lead to something beyond. But not all religions emphasize materiality to the extent that Christianity does, impelled by the doctrines of creation ex nihilo and of the Incarnation. Hence a paradox: if the Christian God is understood to redeem, not merely to transcend, the material, then corruptible, partible matter must be capable of incorruption and eternal wholeness. In her lecture, Caroline Bynum will explore one consequence of this paradox: Christianity’s insistence on material fragmentation as a way of distributing the holy, while embedding this in the idea of synecdoche. Describing first the cult of holy matter and the way in which the anxieties about decay attendant upon it are reflected in theology and reliquaries, she will then look at five wound piety (which has often been understood as erotic or proto-feminist) as an example of the devotional sense of pars pro toto."

Você pode assistir à palestra de Bynum na página abaixo:



Caroline Bynum é professora no Instituto para Estudos Avançados da Universidade de Princeton, e ainda professora emérita na Universidade de Columbia em Nova Iorque. Sua pesquisa crítica move-se nos campos da teologia, religião e cultura da Idade Média. Seu livro Holy Feast and Holy Fast: The Religious Significance of Food to Medieval Women (1987) teve papel importante em trazer a discussão de GÊNERO para os estudos medievais, assim como seus livros Fragmentation and Redemption: Essays on Gender and the Human Body in Medieval Religion (1991) e The Resurrection of the Body in Western Christianity (1995) são paradigmáticos para a pesquisa sobre o História da Corporalidade.

Como disse, minha relação atormentada com a religiosidade ocidental acaba por encontrar guarida na leitura politizada que o mestre Pier Paolo Pasolini dela faz, seja em filmes como Il vangelo secondo Matteo (1964) ou nos poemas do livro L'Usignolo della Chiesa Cattolica (1954). Pasolini tem importância central para mim ainda e especialmente pela maneira como enfrentou o conflito entre religiosidade e sexualidade, como manifestações tanto políticas como místicas.


Cristo alla pace
del Tuo supplizio
nuda rugiada
era il Tuo sangue.
Sereno poeta,
fratello ferito,
Tu ci vedevi
coi nostri corpi
splendidi in nidi
di eternità!
Poi siamo morti.
E a che ci avrebbero
brillato i pugni
e i neri chiodi,
se il Tuo perdono
non ci guardava
da un giorno eterno
di compassione?


Pier Paolo Pasolini, L'Usignolo della Chiesa Cattolica (1954).

Recentemente, descobri o trabalho do holandês Gerard Reve, como escrevi aqui, que se mostra um parente espiritual incrivelmente próximo de Pier Paolo Pasolini e Hilda Hilst.

Canção da bebida

Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de trevas.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Drinklied
Gerard Reve


Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.



Contra a "Proposição da Aposta" de Blaise Pascal, minha religiosidade sempre direcionou-se muitíssimo mais à "Proposição do Salto no Escuro" de Søren Kierkegaard e ao cristianismo atormentado de Miguel de Unamuno, como descrito no belíssimo e perturbador Del Sentimiento Trágico de la Vida (1933), tal qual se vê já em sua página de abertura, aqui em tradução de Eduardo Brandão (vê-se que Unamuno escrevia antes da intervenção de mulheres como Caroline Bynum, mas saltemos por ora sobre a invisibilidade do gênero para Unamuno e percebamos que estamos todos contidos neste "homem de carne e osso" que ele celebra):

"Homo sum; nihil humani a me alienum puto, disse o cômico latino. Eu diria melhor: Nullum hominem a me alienum puto. Sou homem; a nenhum outro homem considero estranho. Porque o adjetivo humanus me é tão suspeito quanto o substantivo abstrato humanitas, humanidade. Nem o humano, nem a humanidade, nem o adjetivo simples, nem o adjetivo substantivado, mas sim o substantivo concreto: o homem. O homem de carne e osso, aquele que nasce, sofre e morre – sobretudo morre –, que come, bebe, joga, dorme, pensa e ama, o homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verdadeiro irmão." --- Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida, tradução de Eduardo Brandão (São Paulo: Martins Fontes, 1996).


Este tormento encontro em outros mestres pessoais, como a austríaca Christine Lavant, de quem traduzi um único poema, mas gostaria em breve de poder oferecer mais.

Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:



Ich will das Brot mit den Irren teilen, / täglich ein Stück von dem grossen Entsetzen, / auch die Glocke im Herzen, / dort, wo die Taube nistet / und ihre winzige Zuflucht hat / in der Wildnis über den Wassern. / Lange habe ich als Stein gehaust / am Grunde der Dinge. / Aber ich habe die Glocke gehört / leise von deinem Geheimnis reden / in den fliegenden Fischen. / Ich werde fliegen und schwimmen lernen / und das Steinerne unter den Steinen lassen, / die Schwermut betten in Perlmutter, / doch den Zorn und das Elend erheben. / Meine Flügel sind älter als deine Geduld, meine Flügel flogen dem Mut voraus, / der das Irren auf sich nahm. / Ich will das Brot mit den Irren teilen / dort in der furchtbaren Wildnis der Taube, / wo die Glocke das grosse Entsetzen drittelt / zum dreifachen Laut deines Namens. - Christine Lavant, Gedichte (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1998).


A quem busca potência poético-mística, poucas obras comparam-se à poesia de Gerard Manley Hopkins e à crítica de Walter Benjamin.


Quatro poemas iniciais de "The Wreck of the Deutschland", publicado pela primeira vez em 1918, escrito em 1875:

1

THOU mastering me
God! giver of breath and bread;
World’s strand, sway of the sea;
Lord of living and dead;
Thou hast bound bones and veins in me, fastened me flesh,
And after it almost unmade, what with dread,
Thy doing: and dost thou touch me afresh?
Over again I feel thy finger and find thee.


2

I did say yes
O at lightning and lashed rod;
Thou heardst me truer than tongue confess
Thy terror, O Christ, O God;
Thou knowest the walls, altar and hour and night:
The swoon of a heart that the sweep and the hurl of thee trod
Hard down with a horror of height:
And the midriff astrain with leaning of, laced with fire of stress.


3

The frown of his face
Before me, the hurtle of hell
Behind, where, where was a, where was a place?
I whirled out wings that spell
And fled with a fling of the heart to the heart of the Host.
My heart, but you were dovewinged, I can tell,
Carrier-witted, I am bold to boast,
To flash from the flame to the flame then, tower from the grace to the grace.


4

I am soft sift
In an hourglass—at the wall
Fast, but mined with a motion, a drift,
And it crowds and it combs to the fall;
I steady as a water in a well, to a poise, to a pane,
But roped with, always, all the way down from the tall
Fells or flanks of the voel, a vein
Of the gospel proffer, a pressure, a principle, Christ’s gift.


Gerard Manley Hopkins, "The Wreck of the Deutschland" (1875, publicado 1918)

§


"Em toda era a luta tem que renovar-se para arrancar a tradição de um conformismo que tenta sobrepujá-la. O Messias vem não apenas como o Redentor, mas também como o Vencedor sobre o Anticristo. O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer»." Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História, 1940.



Antes de encerrar com aquele que me parece o mais atormentado poema místico da poesia brasileira, "Mula de Deus", de Hilda Hilst, preparo vocês para o soco da poeta de Jaú com duas canções tão belas, a "Hallelujah" de Leonard Cohen na voz de Jeff Buckley, e "Oh Holy Night" de Josh T. Pearson, do álbum Last Of The Country Gentlemen (2011). Pearson é o ex-vocalista da banda Lift To Experience, que no primeiro ano deste século lançou seu único álbum, o fortemente místico-atormentado Texas-Jerusalem Crossroads (2001).



FELIZ NATAL A TODOS (E SALVE-SE QUEM PUDER).



§



§


Mula de Deus

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).


(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)



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quarta-feira, 30 de março de 2011

Pequeno diário madrilenho, com notas sobre Córdova e Berlim, povoadas de poetas e poemas.

§ - CÓRDOVA, ainda.

Antes de partir para Madri, depois das apresentações no festival, passei o dia perambulando por Córdova, lendo, escrevendo. A grande experiência, no entanto, ocorreu indoors, ou throughdoors talvez devesse dizer, dentro da Mesquita-Catedral. Em poucos prédios tive tal susto maravilhado, esta espécie de soco est-É-tico.





Posso mencionar dois outros prédios onde tive esta experiência, no sentido mais preciso da palavra "experiência", este soco est-é-tico, cada um à sua maneira distinta: a Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, aquela igreja-útero de Antônio Francisco Lisboa, e o Judisches Museum (Museu Judaico) aqui em Berlim, aquele "vazio espaçoso" de Daniel Libeskind.

Ali na Mesquita-Catedral seria possível e o mais apropriado dos locais para discutirmos a historicidade da arte, a historicidade flexível da criação artística. É um local onde me parece tomar forma o casamento intrínseco e inseparável, que uns veem como dualidade, de transcendência e imanência. Não sei explicar de outra maneira.

Ali se entende como era ético o minimalismo de João Cabral de Melo Neto quando este diz no famoso "A Palo Seco", de Quaderna (1960):


A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.



Murilo Mendes, por sua vez, escreveria em "Córdova", do livro Tempo espanhol (1959):


Toda nervo e osso, contida
Em labirintos de cal
E em pátios de vida secreta,

Córdova áspera e clássica
Alimentada de África.



Fora da mesquita-catedral, caminhei um pouco, sentei-me diante das Muralhas dos Reis Cristãos (Murallas de los Reyes Cristianos) e comecei um poema, tentando dar conta daquele soco. Não consegui, mas quero seguir trabalhando nele.


§


MADRI, então.


Cheguei a Madri com tudo isso na cabeça. Fiquei hospedado na casa da poeta espanhola Ajo, minha querida, que pratica um minimalismo-soco todo ético e prático à sua própria maneira, ainda que muito diferente do de Cabral. Veja abaixo um dos poemas de Ajo em tradução minha e no original:


Fechaduras de cinzas,
cicatrizes com zíper
e lágrimas de alumínio,
embrulhado em algodão
carrego o que me falta.


Cerrojos de ceniza,
cicatrizes con cremallera
y lágrimas de hojalata,
envuelto en algodones
llevo lo que me falta.



Visitei algumas livrarias e fiquei namorando milhares de livros que queria muuuuito poder trazer da Espanha para a Alemanha, mas não podia comprar muita coisa. Além de algumas antologias de poesia medieval espanhola (os estupendos poetas árabes, judeus e occitanos da península), queria encontrar o romance Tadeys, do argentino Osvaldo Lamborghini (1940 - 1985), mas não consegui encontrá-lo em qualquer livraria. Como estava na Espanha, achei por bem ler um espanhol e acabei comprando um romance do Enrique Vila-Matas, a quem ainda não tinha lido. Não sabia qual, e acabei optando por Bartleby Y Compañía (2001), pois (sendo bem sincero) era curto e eu sabia que mesmo que acabasse não gostando do trabalho ou estilo de Vila-Matas, o livro seria ao menos entertaining. É que confesso que as resenhas e artigos que tinha visto pela imprensa e blogosfera brasileiras nos últimos tempos me tinham dado uma certa canseira. Mas, ora, sabemos que nós escritores e poetas a-do-ra-mos ler historinhas de vida sobre outros escritores e poetas, não é mesmo? Já comecei a ler e estou curtindo. Há passagens realmente memoráveis e muito bem-escritas, como quando ele relata sobre a escritora que acabara paralisada por culpa de Robbe-Grillet e Barthes. É muito elegante e divertidíssimo. Escrevo mais quando terminar.

Passei a tarde no Museu Rainha Sofia (Museo Reina Sofía), pois da última vez que estive em Madri, apresentando-me justamente no próprio Reina Sofía, não tive tempo de visitar as exposições, ocupado com passagens de som e preparativos para a performance. Havia uma exposição muito boa com curadoria de Georges Didi-Huberman chamada Atlas. ¿Como llevar el mundo a cuestas?, partindo da biblioteca-conceito de Aby Warburg para criar uma coleção de trabalhos entregues ao trabalho atlético de catalogar o mundo, uma ânsia taxinômica e taxidérmica, nominalista, não sei. Era bem boa.





Vi também uma pequena exposição do argentino Roberto Jacoby que me interessou muito. Não conhecia seu trabalho.





Vi ainda, é claro, as salas permanentes com Picasso e Dalí, os velhotes datados. Estas não me interessaram muito. Encontrei-me então com Ajo e fomos gravar minha entrevista para seu programa de rádio semanal, para o qual convida poetas, artistas e músicos para apresentarem suas canções favoritas e, é claro, dar uma canjinha do próprio trabalho. Li meu poema "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos" na tradução de Cristian De Nápoli para o castelhano, e comentei as seguintes canções divescas:


"Sat in the lap", Kate Bush.
"Gloria", Patti Smith.
"Iceblink Luck", Cocteau Twins.
"Amor, meu grande amor", Ângela Ro Ro.
"Is this desire", PJ Harvey.
"Cowboys", Portishead, na voz da magnífica Beth Gibbons.


Ajo gravou também, na mesma ocasião, o programa que irá ao ar uma semana antes do meu, com o cantautor dominicano Alex Ferreira, muito simpático.





Saímos da gravação e fomos para a Libreria Buena Vida, onde ocorria a apresentação do primeiro romance do poeta Carlos Pardo, que conhecera em Berlim no ano passado, em um evento do Instituto Cervantes. Carlos Pardo, que nasceu em 1975, é um dos poetas mais respeitados de sua geração, também editor, crítico literário e organizador de eventos na capital espanhola. Já escrevi sobre ele aqui.


El retrato español
Carlos Pardo

Son periferia,
no vienen de muy lejos.
Abre el grupo
una mujer, terrosa
la barbilla
por una quemadura
-chándal,
cazadora de cuero-
con un surco de carne
enroscado a la oreja.
Esperan la apertura
del museo.
Vienen a reconocerse.

Los que son como yo
o son yo sobrellevan
cada uno
la carga del más próximo.
Nos deprimimos juntos.
Celebramos
el anhelo aplazado,
y si nuestro retrato suma invariablemente cero
y la lluvia de fondo natal nos anonada,
no querremos cumplirlo.

En el origen
una mesa ridícula.
Paredes amarillas
con recortes de prensa.
Al ritmo episcopal de los equinos
del paseo, un hombre inútil mezcla
amor e ideología.

Nosotros no
tenemos hogar.
Hacemos cola
bajo el apóstol pintor.
-Otro con tentaciones.
-Es el mismo.




Pardo estreia agora como prosador. A discussão foi interessante. Depois, reunido em roda com Pardo, a poeta madrilenha Sandra Santana e com o poeta e tradutor peruano Martín Rodríguez-Gaona, o romancista Andrés Barba, que conheci ali, virou para mim e começou a perguntar sobre uma "importante escritora brasileira" que havia ficado famosa apenas com seu diário. É que o romance de Carlos Pardo usa muitos elementos da literatura memorialística, e a conversa rodava por "autobiografia como gênero literário". Não conseguia pensar a quem ele se referia. Disse eu que os escritores brasileiros mais famosos por sua memorialística eram Joaquim Nabuco e Pedro Nava. Só fui perceber de quem ele falava quando ele mencionou que a autora havia sido traduzida por Elizabeth Bishop para o inglês: só podia se tratar de Helena Morley e seu Minha Vida de Menina (1942). Fiquei muito impressionado que esta escritora brasileira pipocasse em uma conversa na Espanha. Confessei não haver lido o livro, recomendei a eles Nabuco e Nava, e, como a discussão naquele momento havia guinado para autobiografismo fictício e ciladas da memória, que lessem Dom Casmurro, o que, de qualquer maneira, já deveriam ter feito.

Havia marcado de me encontrar ali com minha amiga, a já mencionada Sandra Santana, excelente poeta, historiadora literária, crítica e tradutora. Já traduzi poemas dela para a Modo de Usar & Co.. Sandra tem-se firmado como uma das personalidades poéticas e críticas mais importantes de sua geração, especialmente em Madri. A prestigiosa editora Acantilado acaba de lançar, numa bela edição, seu importante estudo crítico e histórico El laberinto de la palabra: Karl Kraus en la Viena de fin de siglo (Barcelona: Acantilado, 2011).





Ela me presenteou com um exemplar, quero muito lê-lo. Sandra já lidara com Karl Kraus antes, traduzindo e publicando em 2005 uma antologia de poemas do austríaco. No ano passado, Sandra ganhou um importante prêmio literário espanhol por sua tradução ao espanhol da obra poética completa do também austríaco Peter Handke. Nós dois compartilhamos o interesse e paixão pela poesia de outra austríaca, a maravilhosa Friederike Mayröcker.

A própria Sandra Santana é dona de uma das mais sutis e inteligentes vozes poéticas contemporâneas dentre as que tenho a sorte de conhecer. Leia abaixo um exemplo, em minha tradução e no original, texto de que gosto muitíssimo:



Rupturas dissimuladas sob uma carinha sorridente

Sempre detecto um gesto
de incredulidade
quando conversamos sobre os frágeis mecanismos
ocultos sob uma aparência infantil.

Como você não crê neles, derrubou-o
e me encarou triunfante
ao ver a superfície intacta apesar do impacto.

Imagine o que senti ao erguê-lo
e escutar esta peça solta em seu interior.


:


Rupturas disimuladas tras una carita sonriente
Sandra Santana

Siempre detecto un gesto
de incredulidad
cuando te hablo acerca de los frágiles mecanismos
ocultos tras una apariencia infantil.

Como no crees en ellos, lo dejaste
caer y me miraste victorioso
al ver su superficie intacta a pesar del impacto.

Imagina lo que sentí al recogerlo
y escuchar esa pieza suelta en su interior.




No dia seguinte, tomei café com meu amigo Alexander Ossia, revi Sandra Santana e visitei uma ótima exposição de vídeoarte na Caixa Forum, com trabalhos (muito, muito, muito bons) de Julian Rosefeldt ("Lonely Planet", 2006); Isaac Julien ("Fantôme Créole", 2005); Runa Islam ("Tuin", 1998); Kerry Tribe ("Double", 2001); Paul Chan ("1st Light", 2005); Omer Fast (Godville, 2005); Mungo Thomson ("New York, New York, New York, New York", 2004); e Ian Charlesworth ("John", 2005).





§ - BERLIM, agora.


Voltei a Berlim. Está friíssimo. Mas hoje é quarta-feira e pretendo me acabar de dançar (e beber para comemorar que tudo fora bem na Espanha) na nossa SHADE inc enquanto escuto o meu amigo (e homem lindo) Uli Buder, mais conhecido como Akia, discotecando.





Uli Buder é um dos músicos mais talentosos que tenho a sorte de conhecer, principalmente porque posso abusar do seu talento e colaborar com ele. Para a peça vídeo-textual que criei para a performance em Córdova, Uli foi responsável pela parte sonora. Acima, você pôde ver um vídeo da primeira vez que ele tocou ao vivo no meu evento das quartas-feiras, em 2009.





Quanto à peça para as Soledades, acho que só na semana que vem. É bom estar em casa, com as baterias recarregadas.


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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Colagem, apropriação, redirecionamento

Ontem à noite, após publicar a postagem em que comento minha visita à exposição das colagens e fotomontagens de Wangechi Mutu, comecei a pensar sobre a técnica da colagem, suas formas, suas funções, seus contextos. Sua possível eficiência nos dias de hoje. Isso uniu-se a uma meditação que me ocupa há algum tempo, sobre a necessidade, em minha opinião, de revermos nossos conceitos de cânone (com sua etimologia de implicações religiosas) e de vanguarda (com sua etimologia de implicações bélicas), mas creio que este artigo não será o espaço ideal para essa longa discussão. Quero, por ora, apenas qualificar e elaborar algo do que escrevi na postagem-comentário anterior, entrando aos poucos neste ninho de vespas.

Collage, como sabemos, tem seu nome tirado da própria estratégia principal de coller (colar) materiais à superfície da tela, ligada também à técnica da assemblage. Alguns autores afirmam que a prática já era comum entre poetas-calígrafos no Japão, há séculos, assim como algo dela pode ser encontrado nas técnicas de composição de painéis da arte sacra medieval. No entanto, nós associamos a colagem primordialmente com a arte visual modernista, quando Picasso, por exemplo, passa a introduzir pedaços de jornal em suas pinturas. A técnica assumiria suas características mais conhecidas com os dadaístas berlinenses, como Hannah Höch e Raoul Hausmann, em suas colagens e fotomontagens.


Hannah Höch (1889-1978) - "Cortado com a Faca de Cozinha DADA Através da Pança de Cerveja da Última Época Cultural da Alemanha de Weimar" (1919).


Quanto a seu trabalho formal, apesar dos preconceitos e clichês que buscam ver apenas falta de seriedade, caos e niilismo no trabalho dos poetas e artistas ligados a DADA, qualquer olho treinado percebe a clara preocupação e cuidado de composição nas colagens de Höch, Hausmann ou Kurt Schwitters, tanto quanto nas abstrações geométricas dos construtivistas.



Kurt Schwitters (1887 - 1948), Das Undbild(O Retrato-E), 1919


Enquanto a arte e literatura oficiais das Academias seguiam interessadas no "Belo", algo já estabelecido, com pendor neoclassicista, imerso em abstrações e das Ideal, ao mesmo tempo o mundo europeu naufragava na Grande Guerra. Os dadaístas (peço que o caro leitor atente para o verbo) usavam a colagem, apropriando-se do Histórico (trechos dos jornais), redirecionando-os em uso, para satirizar e recusar a cultura belicista e hipócrita de sua época, como os expressionistas compunham suas "canções para o Apocalipse", muitos deles unindo os esforços, como foi o caso de George Grosz. Apenas um pensamento artístico a conjugar estética e ética trabalharia nestas linhas. O que tento argumentar é que a colagem não era apenas o fruto de um pueril desejo de ser "original" ou de gerar alguma "novidade estilística"; ela tinha uma função pensada, em um contexto específico, como qualquer trabalho formal. A palavra apropriação ajuda-nos, aqui. Pois o nome "colagem" não deixa de ter seu caráter mais formalizante, se me permitem. Creio que, no pós-guerra, um dos grupos que melhor compreenderam o trabalho dos dadaístas em sua forma, função e contexto foi a Internacional Situacionista. Em Guy Debord, seu principal teórico e praticante, a colagem renasceria na técnica do détournement, algo que engloba a apropriação e o desvio-redirecionamento de material de contextos alheios. É claro que algo disso estava também em Marcel Duchamp, nunca realmente ligado aos dadaístas.


Guy Debord (1931 - 1994) - trecho inicial do filme La Société du Spectacle (1973)

O que Debord faz já havia aparecido, como técnica, na década de 60, com o cineasta canadense Arthur Lipsett (1936 - 1986), como nos deslumbrantes Very Nice Very Nice (1961) e 21-87 (1963).


Arthur Lipsett (1936 - 1986) - Very Nice Very Nice (1961)


A que trabalhos literários poderíamos ligar estas técnicas, de colagem e apropriação? De certa forma, ao Bouvard et Pécuchet (1881), de Flaubert, como já foi argumentado, com outras perspectivas, por Augusto de Campos e Haroldo de Campos, que ligariam ainda algo da escrita de Oswald de Andrade, por exemplo, também ao readymade de Duchamp. Creio que poderíamos invocar Oswald de Andrade para uma discussão do trabalho da colagem e montagem, e, principalmente, o de apropriação e redirecionamento.


A descoberta
Oswald de Andrade

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra



Os selvagens
Oswald de Andrade

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados



O trabalho poético reúne em si, por sua junção entre o visual e o sonoro (oralidade e escrita), a possibilidade de pesquisar o espacial (como a arte visual) e o temporal (como a música). Assim, algo da forma e função da colagem pode ser transposto a um trabalho, por exemplo, com a sintaxe, em justaposições, em uma composição em parataxe. Essa junção entre o espacial e o temporal pode ser sentido com força no método ideogrâmico de Pound e na poesia de e.e. cummings, por exemplo.



Podemos pensar também no cut-up method do poeta Brion Gysin, método que seria celebrizado por William Burroughs em muitos de seus livros, especialmente Naked Lunch (1959). No Brasil, as justaposições verbais, mesmo que não usem o chamado "branco da página" como campo de composição, podem ser vistas também em poemas de Murilo Mendes (1901 - 1975), principalmente em As Metamorfoses (1944), ou no fenomenal "Janela do caos", publicado em Poesia Liberdade (1947), poema (e poeta) que é dos meus principais guias e mestres.


Três fragmentos iniciais de "Janela dos Caos"
Murilo Mendes

1

Tudo se passa
Num Egito de corredores aéreos,
Numa galeria sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
- Ou teu coração?
Azul de guerra.


2

Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.

Ah! Quem telefonaria o consolo,
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.


3

Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras,
Mas tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.




Nos dias de hoje, algo da técnica da collage, com suas apropriações do histórico, ressurge, por exemplo, no trabalho de googlagem, entre nós, de Angélica Freitas.

Love
googlagem de Angélica Freitas

During a drunken argument in Brussels, Verlaine
shot atRimbaud, hitting him once in the wrist On 10
July 1875, in a drunken quarrel in Brussels,
Verlaine shot Rimbaudin the wrist, and was
imprisoned for two years at Mons. Together again in
Brussels in the summer of that year, Verlaine shot
Rimbaud in the wrist following a drunken argument.
Verlaine, drunk and desolate, shot Rimbaud in the
wristwith a 7mm pistol after a quarrel. At one
point, the tension between them became so great
thatVerlaine shot Rimbaud in the wrist. about 2
o'clock,when M. Paul Verlaine, in his mother's
bedroom, fired a shot of revolver. the subject of
various books, films, and curiosities, ended July
12, 1873 when a drunken Verlaine shot at Rimbaud and
injured him in the wrist. Verlaine shot Rimbaud in a
fit of drunken jealousy.



O trabalho com portais como o Google se tornaria o carro-chefe do grupo norte-americano conhecido como flarfistas, por terem primeiramente se reunido na Flarflist Collective. K. Silem Mohammad é um dos teóricos principais do grupo, e, dos que conheço, meu favorito é Michael Magee, que publicou, em 2006, o ótimo My Angie Dickinson.


Poem #153
googlagem de Michael Magee

Faith is a prison dentist,
The most legitimate cop,
Studying a riding crop.
“Try it more pissed” — —
Goons taping a gurney
Roots from the Attorney.

What burden, Italian-Armenian — —
The vista of Holy Smokes
The Powers that be
At ABC — —

What’s a democracy?
Some tepid Hind in the ebbs,
Licking heavenly true celebs,
As totally as a star — —
Ritalin for you kids,
And Zoloft for you are — —


Michael Magee, My Angie Dickinson (2006)

Um texto como este passa por Hans Arp (1886 - 1966), chega a Edward Lear (1812 - 1888), religa-se às fatrasies medievais do século XII e XIII e vai ancorar-se em Marco Valério Marcial (38 - 102). É, ao mesmo tempo, novíssimo e tradicionalíssimo.

Pessoalmente, tentei trabalhar com algumas destas técnicas, tanto usando as justaposições que, em parte, se baseiam naquele "gerador iterativo de sintagmas, que se escandem completos", nas palavras de Haroldo de Campos sobre Murilo Mendes, quanto na técnica de colagem dadaísta, de Tzara e Arp, em muito do meu último livro publicado, Sons: Arranjo: Garganta (2009), /// que o leitor perdoe a publicidade ///, especialmente nos poemas da primeira parte e no poema final, "jaula do caos cage of chance".

Para encerrarmos, mencionando um trabalho recentíssimo no Brasil, eu ousaria ligar, a esta discussão, o segundo livro do poeta paulista Marco Catalão, intitulado O Cânone Acidental (2009). Em minha opinião, não creio que a noção de "paródia" seja a melhor perspectiva para pensar criticamente sobre alguns destes textos. Creio que seria possível pensá-los nos termos do que venho chamando aqui de apropriação formal e redirecionamento, com claro intuito de crítica social e política, como a que vemos tanto nos dadaístas como nos melhores flarfistas. Vale mencionar, também, que alguns destes textos são muito superiores ao que se convencionou chamar de paródia na poesia da década de 70.


Non omnis moriar
Marco Catalão

Tu não verás, Marília, a tua foto
impressa nas colunas sociais;
tampouco encontrarás teu nome humilde
em letras garrafais.

Não verás
paparazzi em teu encalço
implorando o favor de uma entrevista;
nunca serás destaque da Mangueira
nem capa de revista.

Não verás nenhum
blog alimentar-se
dos detalhes da tua intimidade;
teus atos não despertarão polêmica
nem curiosidade.

Tu morrerás no mesmo obscuro bairro
onde passaste a tua infância obscura;
ninguém, além de mim, visitará
a tua sepultura.

Se vês um belo rosto na TV,
Marília, não invejes esse rosto;
pois tens alguém que pode celebrar-te
com mais graça e mais gosto.

Quem sabe, nalgum século vindouro,
alguém leia esta página modesta,
e ao ver teu nome aqui, sonhe
: Marília...
quem terá sido esta?

Marco Catalão, O Cânone Acidental (2009).


Não creio (parece-me claro) que Marco Catalão tenha sido guiado, nestes textos, apenas pelo desejo de emulação formal. Ainda que Érico Nogueira, no prefácio ao livro, recorra ao conceito de imitação, em Horácio, ele também menciona a velha tradição do escárnio na poesia, de Aristófanes e Marcial, passando pelos medievais - tradição que tinha, eu creio, clara consciência da função e importância do poeta em seu contexto histórico, além do simples artesanato formal. A matéria com que o poeta trabalha nestes textos demonstra uma preocupação formal e histórica.

Após essa discussão, retorno às colagens de Wangechi Mutu. Não são novas, como técnica. O que me importaria discutir é se o uso que ela faz da colagem ainda faz sentido em nosso contexto, ou se é eficiente para seus propósitos. Essa mesma discussão poderia ser usada para conversarmos sobre os textos de Hans Arp e Michael Magee, Tristan Tzara e Angélica Freitas, Marco Valério Marcial e Marco Catalão.

Peço, por fim, que o leitor arquive este artigo entre as minhas tentativas de participar do debate a discutir um trabalho poético e crítico que leve em conta, como tenho repetido à exaustão de vossa paciência, a forma, a função e o contexto de um poema, chegando a minhas atitudes perigosamente questionáveis, como quando sugiro unirmos, ao MAKE IT NEW de Pound, um MAKE IT NECESSARY.

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