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domingo, 8 de janeiro de 2012

A tarefa agridoce de traduzir um poema que nos lembra o que queremos esquecer: "Conflations", de Robin Myers

Meu primeiro contato com Robin Myers deu-se em 2010, quando publiquei na Hilda Magazine suas traduções para o inglês de "Doxa" e "Lo que el amor les hace a los poetas", de Ezequiel Zaidenwerg. Mal sabia que a jovem poeta norte-americana estava vivendo há alguns meses na Cidade do México, e tive o prazer de conhecê-la por ocasião de minha passagem pela cidade, onde reencontrei o próprio Zaidenwerg. Creio que foi na minha terceira noite na capital mexicana que me vi, em casa de Paula Abramo, cercado de um grupo de excelentes poetas, quando começamos espontaneamente a ler nossos poemas em uma noite regada a mescal, com os próprios donos da casa – Paula Abramo e Óscar de Pablo –, além de Zaidenwerg, Luis Felipe Fabre, Daniel Saldaña París, Alejandro Albarrán e Hernán Bravo Varela. E a própria Robin Myers, que leu nesta noite seu poema "Conflations". Alguns dias depois, pude registrar uma leitura sua deste poema em um vídeo.

Passei os últimos dias traduzindo o poema para o português, tarefa que me resultou agridoce, mas bonita. Talvez algo como, usando palavras de Robin, uma momentary grace. Abaixo, vocês podem ler minha postagem a respeito, a partir de hoje na Modo de Usar & Co.



Robin Myers



Robin Myers é uma poeta norte-americana, nascida em Nova Iorque em 1987. Seus poemas, traduzidos para o castelhano, têm sido publicados em revistas como Letras Libres (México), Laberinto (suplemento cultural do jornal mexicano El Milenio), Metropolis (México) e Ventizca (Argentina). Robin Myers vive na Cidade do México, onde trabalha como tradutora. Também foi ali que gravei o vídeo abaixo, no qual vocaliza seu poema inédito "Conflations", especialmente para a Modo de Usar & Co.

Robin Myers faz a meu ver/ouvir um uso eficiente da anáfora, como vocês poderão notar no vídeo e no texto do poema a seguir, com um trabalho sutil mas preciso com aspectos sonoro-textuais como a aliteração e a enumeração, o que doa a seus textos grande força expressiva – especialmente quando vocalizados pela autora, com uma espécie de delicadeza firme. Não se trata, porém, da chamada "enumeração caótica" de certos modernistas, mas de um pensamento lírico associativo que parece lançar mão, neste poema, de uma gradação ofegante para os pequenos desastres de uma separação. Seu uso da rima parece querer chamar nossa atenção para esta gradação, com certo sarcasmo pungente, em algumas passagens, como ao associar por som as palavras "dust/trust". É texto que preza pela tesura, sem perder de vista a concreção da linguagem, claramente privilegiando no entanto o metonímico sobre o metafórico.

Tudo isso leva um tradutor sempre a difíceis escolhas. Neste caso específico do jogo entre "dust/trust", optei por "pó" e "dó", em detrimento das tríssilabas "poeira" e "certeza", tentando salvar o ritmo de emergência que dá tanta força a este poema lírico. Quanto ao tom invocativo do poema, após traduzir grande parte do texto na segunda pessoa do singular, percebi que em certas passagens isso doava ao texto em português um tom que um americano chamaria de contrived, ou o que nós chamaríamos talvez de forçado, ausente no original. Optei por recorrer ao uso brasileiro da terceira pessoa do singular, o que talvez impeça, por sua vez, a fruição da tradução por um leitor português, mas salva para um leitor brasileiro o caráter de intimidade desnuda que dá tanta beleza e proximidade ao texto. A expressão "I find myself", tão central em um poema de deslocamentos como este, é usada por Robin Myers com acepções que pediriam traduções distintas a cada caso, mas o que levaria à perda de seu uso da anáfora. Decidi, escolha passível de equívoco como em toda tradução, usar "descubro-me", que parecia ser a mais próxima do uso geral que a poeta faz da expressão.

Robin Myers está ligada a organizações não-governamentais trabalhando na Palestina, e o poema tanto parece invocar um homem como uma terra. Certas referências têm poder simbólico, ecoando em nossa memória certa poesia mística, com o aparecimento de palavras como "bread/pão", "pomegranades/romãs", "almonds/amêndoas", mas são extremamemente concretas e doam ao canto um local. Se este poema parece distanciar Robin Myers de poetas americanos celebrados no Brasil, como Creeley e os poetas ligados à revista L=A=N=G=U=A=G=E (com sua desconfiança do lírico), o poema é de um lirismo cristalino que percorre tradições e línguas na modernidade e no pós-guerra, de James Merrill a Mahmoud Darwish. Para um leitor brasileiro, talvez se possa sentir no texto uma sensibilidade parecida à de um poema como "Cântico dos cânticos para flauta e violão" (1945), de Oswald de Andrade.

Um desafio veio ao fim do poema, com o verso "The shudder of your coming", de conotação fortemente sexual pelo uso americano do verbo "to come", usado como nós brasileiros usamos o "gozar". No entanto, o texto é muito sutil em sua celebração lírica, mesmo que enlutada pela perda, de um outro que tanto pode ser um ser humano como um país ou região, uma das muitas conflations do título, os mal-entendidos de toda relação, amorosa e linguística. Em discussão com a poeta, que me sugeriu buscar a conotação através de "breathing" em vez de "coming", cheguei à solução "O tremor do seu ofego", tentando ainda manter a assonância entre "shudder" e "coming". O próprio ato da tradução torna-se, talvez, uma conflation a mais no texto em português.

Meu uso do hipérbato nos versos finais, estranho em português por nosso hábito de usar adjetivos após substantivos, ao contrário do inglês, foi uma tentativa de manter o poder de sugestão de clímax e redenção que Myers transmite ao terminar seu poema com a palavra grace. Talvez seja meu desejo pessoal de que tudo no mundo termine em graça.

Esta conflation, que denota tanto fusão como confusão, inicia-se já em minha primeira decisão, a de usar a palavra "Conflação" para o título ainda que a palavra talvez leve a outras acepções.

Por fim, incentivo que os leitores da Modo de Usar & Co. dediquem sua atenção, primeiramente, à própria Robin Myers e suas Conflations. Traduzi-lo foi uma experiência agridoce, por todas as minhas próprias conflações e separações passadas, que o poema me trouxe à memória. Mas foi uma experiência bonita.



Robin Myers vocaliza seu poema "Conflations", na Cidade do México, a 17 de dezembro de 2011.
Filmado por Ricardo Domeneck para a Modo de Usar & Co.

Conflações / Conflations


A casa é sempre uma nova casa,
e a língua raramente é a minha.
Mesmo quando decido falar,
estou despreparada.

:

The house is always a new house,
and the language is rarely my own.
Even when I choose to speak,
I am unready.


*


Seus frutos,
suas pedras,
as pedras de seus frutos,
suas florestas arruinadas,
as florestas de sua ruína –
sua desolação,
seus cavalos raquíticos,
sua ventania,
suas persianas,
suas raízes em conserva,
seus morangos improváveis,
seu magro pão esticado --
suas juntas em sangue,
suas fontes em seca,
suas modestas montanhas,
seus pneus abandonados,
os resquícios de sua paciência,
o tráfego de sua mágoa.

:

Your fruits,
your stones,
the stones of your fruit,
your ruined forests,
the forests of your ruin --
your desolation,
your spindly horses,
your wind,
your windows,
your pickled roots,
your improbable strawberries,
your bread stretched thin --
your bloody knuckles,
your empty fountains,
your modest mountains,
your abandoned tires,
the remnants of your patience,
the traffic of your grief --


*

Descubro-me com saúde.
Descubro-me a caminho.
Descubro-me impaciente.
Descubro-me numa cidade continuamente arrasada até o chão,
descubro-me no banheiro subterrâneo de um shopping
[ com paredes de vidro.
Descubro-me incapaz de tolerar até mesmo a ideia de esquecer
como você cobriu com suas mãos meu rosto,
como com toda a pele de suas mãos você toca
toda a pele do meu rosto, como ar.
Descubro-me sem uma língua aqui.

Descubro-me amargurada pela assimetria da calçada entre
o que fazemos e o que não fazemos.
E onde.
E como tropeçamos até lá.

E onde está você?

Em qual dos incontáveis absurdos de intimidade,
querendo com isso dizer geografia,
memória, aeroportos e ar,
está você?

:

I find myself in good health.
I find myself en route.
I find myself impatient.
I find myself in a city continually razed to the ground.
I find myself in the basement bathroom of a glass-paneled
[ shopping mall.
I find myself unable to tolerate even the idea of forgetting
how you put your hands all over my face,
how with all the skin of your hands you touch
all the skin of my face, like air.
I find myself without a language here.

I find myself galled by the unevenness of the sidewalk between
what we do and do not do.
And where.
And how we stumble there.

And where are you?
In which of the countless absurdities of intimacy,
by which I mean geography,
memory, airports, and air,
are you?


*

As colinas desnudas
arqueiam-se, expiram aonde
vão as estradas –

o céu invoca-as
próximas, mas recusa
sua entrada.

As estradas são estreitas,
sobras tensas, arranhadas
como por prego na pele,

como se dissessem, depois
você ainda se lembrará
de tudo o que lhe causei
.

:

The stripped hills
arch, exhale into where
the roads are going --

the sky wills them
closer, but will refuse
to let them in.

The roads are thin,
tense remainders, scratched
as by a nail on skin,

as if to say,
later
you will still remember
what I have done to you.

*

Quem é você que lambe o sal de seus dedos na casa dos vizinhos?
Quem é você que dorme em meio aos tiroteios?
Quem é você que se recusa a traduzir o que soletra em minhas costas?
Quem é você que chora enquanto xinga o policial?
Quem é você que permite que eu deixe a mesa com o arroz ainda
quente na panela de permeio?

:

Who are you that licks the salt from your fingers
[ in the neighbor’s house?
Who are you that sleeps through the gunshots?
Who are you that refuses to translate what you spell on my back?
Who are you that weeps while swearing at the policeman?
Who are you that lets me leave the table with the rice still burning
in the pan between us?


*

Suas vassouras,
seus alvejantes,
seus telhados teimosos,
seus gatos guinchantes,
os desvios selvagens de sua delicadeza,
seu generoso desprezo –
seus cachecóis,
seu suor,
o contornar poeirento sem fim de seu remorso –
suas tempestades de areia por seus anseios,
seus fogos cansados,
seus canos metálicos,
seus figos inchados,
seus olhos vermelhos,
sua insistência em ser o primeiro a partir,
ou o último a ficar –
seus lixões,
suas crostas de massa,
seu riso,
sua fé num cigarro sem filtro –
seus velórios à meia-noite,
seus caminhões raivosos,
sua raiva,
seu hálito enquanto dorme,
seus dentes no meu pescoço,
suas máscaras,
sua luxúria –

:

Your brooms,
your bleach,
your stubborn roofs,
your squalling cats,
the wild swerve of your gentleness,
your generous contempt --
your scarves,
your sweat,
the endless, dusty detours of your regret --
your sandstorms of longing,
your weary fires,
your metal pipes,
your swollen figs,
your reddened eyes,
your insistence on being the first to go,
or the last to stay --
your garbage pits,
your pastry shells,
your laughter,
your faith’s unfiltered cigarette --
your midnight funerals,
your raging trucks,
your rage,
your breath when you sleep,
your teeth on my neck,
your masks,
your lust --


*

Descobrimo-nos fazendo amor, de repente, tendo estado a ponto de fazer outra coisa, como ir à lavanderia. Logo descubro-me cambaleando à beira de um precipício, altíssimo, tremendo já pelo que será chegar ao fundo – descobrindo-me já quase despedaçada ao impacto, o susto já susto, a dor já dor, a alegria já alegria – e, tremendo na ponta dos dedos do meu fôlego, descubro-me chorando, meu rosto próximo a seu rosto, seu rosto de repente semelhante ao meu tão-somente em perplexidade, implorando-lhe, quase exigindo, “Como posso juntar-me a você?”

We find ourselves making love, suddenly, having just been on the verge of doing something else, like going to the laundromat. Soon I find myself teetering on the edge of some precipice, at a great height, already shivering from what it will be like to arrive at the bottom -- finding myself almost already shattered on impact, the shock already shock, the pain already pain, the joy already joy -- and, trembling on the tiptoes of my breath, I find myself weeping, my face close to your face, your face suddenly resembling mine in bafflement only, begging you, almost demanding, “How do I join you?”

*
A casa é sempre uma nova casa,
e as cortinas ainda por pendurar,
e eu durmo, honesta, obscura, acordando
muito e sem intuição da minha distância
até o oceano ou o desastre na rodovia,
até a base militar ou os pomares,
até algures mais limpo ou devastado
ou mais embebido de buganvílias
ou com entulhe de nuvens que aqui.
Devagar, relembro tudo: paredes, cantos,
o amontoado de sapatos, o quadro canhestro,
a âncora dos meus lábios, a cratera plácida
deixada por meu crânio quando me aprumo.
Sempre fico onde estou.

:

The house is always a new house,
and the curtains remain unhung,
and I sleep honestly, murkily, waking often
and without any intuition of my distance
from the ocean or the car crash on the freeway,
from the army base or the orchards,
from anywhere cleaner or more devastated
or more drenched with bugambilia
or more clogged with clouds than here.
Slowly, it all returns to me: walls, corners,
the huddle of shoes, a clumsy painting,
the anchor of my hips, the placid crater left
by my skull when I sit upright.
I always stay where I am.


*

Tudo o que se fala é de um mundo partido,
mas não será perigosamente inteiriço,
a ruptura mal mantida à distância?:

os rapazes contorcendo-se e enrodilhados pelos
degraus do ônibus ondeante,
as prateleiras cheias, os aviões prenhes,
a pavimentação apenas uma maneira de engrossar a pele
da coisa, a coisa,
o brinco um mero adorno da barreira,
o grafitti apenas um comentário sobre a pedra,
o menisco do leite tentando apenas
imitar a panela enquanto esta se aquece ao fogão.

Onde está o fim?
O que será preciso para que se amoleçam as superfícies?
Para que as quinas fraturem-se?
Você será para mim algum auxílio?

Nós bebemos dos lábios da garrafa,
derramamos espuma sobre um filme dispensável na mesa,
viramo-nos contra o vime da cadeira,
nossos joelhos encostados enquanto os ossos esperam
em suas mornas bainhas de brim.

Os limões,
cortados à linha de seus ventres
e colocados numa pequena fruteira,
são a única violação adequada do dia.

:

All the talk is the talk of the broken world,
but is it not perilously whole,
the rupture barely held at bay?:

the young men contorted and curled around
the rungs of the heaving bus,
the laden shelves, the pregnant planes,
the pavement only a way to thicken the skin
of the thing, the
thing,
the earring a mere adornment of the barrier,
the graffiti simply a remark about the stone,
the meniscus of the milk trying only
to imitate the pan as it gets hotter on the stove.

Where is the end?
What will it take for the surfaces to soften?
For the edges to fracture?
Will you be of any help to me?

We drink from the lip of the bottle,
spill foam in a negligible film across the table,
shift against the wicker of the chairs,
touch knees as our bones wait
in their warm denim sheaths.

The lemons,
sliced across their bellies
and arranged in a little bowl,
are the only proper violation of the day.


*

Suas mãos no meu rosto,
toda a pele de suas mãos em toda a pele do meu rosto, como ar.
Seus carros enferrujados,
seus sonhos aos gritos,
seus uniformes,
seu lixo em chamas,
seus doces de amêndoa,
seu pó.
Sua dó.
Seus joelhos pálidos
e seus pés com calos.
Suas facas,
suas veias,
suas barricadas.
Sua menta,
seu chá,
sua maconha com as janelas todas fechadas,
seus olhos cerrados,
seus cães envenenados,
suas romãs e suas joias
amassadas até o sumo.
O tremor do seu ofego
como outra espécie de perda subordinada,
outra espécie
de uma indivisa,
implacável e
momentânea graça.

:


Your hands on my face,
all the skin of your hands on all the skin of my face, like air.
Your rusted cars,
your shouted dreams,
your uniforms,
your burning trash,
your almond sweets,
your dust.
Your trust.
Your paling knees
and calloused feet.
Your knives,
your veins,
your barricades.
Your mint,
your tea,
your weed with all the windows shut,
your shuttered eyes,
your poisoned dogs,
your pomegranates and their jewels
pulped into juice.
The shudder of your coming
like another kind of loss subsumed,
another kind
of unshared,
unsparing,
momentary grace.



.
.
.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ay, México.



Estou em São Paulo, depois de uma semana maravilhosa na Cidade do México ao lado de alguns de seus melhores poetas, e agora posso dizer com alegria e orgulho que são meus amigos. Nenhum texto de blogue poderia fazer justiça à generosidade e respeito com que me trataram, e as horas de intercâmbio poético, de noites regadas a tequila e mescal em que líamos, em bares ou apartamentos, poemas uns para os outros, os nossos e os de nossos mestres mortos. Voltei do México com muitos livros na mala, volumes da poesia completa ou quase completa de mestres como Xavier Villaurrutia, Salvador Novo, Gilberto Owen, Sóror Juana Inés de la Cruz, assim como livros de poetas contemporâneos como Juan Carlos Bautista e David Huerta.

A leitura na sexta-feira na Casa Refugio Citlaltépetl, com Luis Felipe Fabre, Julián Herbert, Minerva Reynosa, Ezequiel Zaidenwerg e eu, foi uma das melhores leituras da minha vida. Eu estava radiante por estar ali com 4 poetas que respeito tanto. Eu li meus poemas "Vida longa à poesia pura", "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", "X + Y: uma ode", "Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo" e "Entre o fogo e a derme". Meus companheiros leram as traduções para o castelhano, feitas por Cristian De Nápoli, Aníbal Cristobo e Paula Abramo.

Dois livros de poetas da minha geração deixaram-me com a visão clara de um momento privilegiado na poesia mexicana contemporânea: La sodomía en la Nueva España (Madrid: Pre-Textos, 2010), de Luis Felipe Fabre (Cidade do México, 1974); e El baile de las condiciones (Ciudad de México: Práctica Mortal, 2011), de Óscar de Pablo (Cidade do México, 1979). Livros de poetas que sabem que dia é hoje, de técnica precisa, cantores sobjetivos. Traduzirei poemas dos livros nas próximas semanas. Se unimos a eles ainda La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), de Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981), temos três belos livros da poesia hispano-americana publicados no último ano.

Gravei muitos vídeos de leituras para divulgar o trabalho destes poetas no Brasil e além. Fora os três já citados, poemas que me alegraram e impressionaram na voz de seus autores, como os de Daniel Saldaña París; de Alejandro Albarrán; da americana Robin Myers, residente no México; de Paula Abramo. E mais. E outros. Percebi como sinto falta de ter por perto poetas com quem possa realmente conviver. Na Alemanha, meus amigos mais próximos são quase todos artistas visuais ou músicos. Não têm textos como parte integrante do oxigênio. Houve momentos em que tinha certeza ser aquela a alegria dos Beats ou dadaístas quando estavam juntos.

É muita coisa, tanta experiência que não poderei digerir assim tão rapidamente. Destes poetas, poderia dizer o que escreveu Drummond:

"Estes poetas são meus.
(…)
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei."


Deixo vocês com o vídeo que fiz de Alejandro Albarrán (Cidade do México, 1985), lendo seu poema "Acumulación". Muitos outros vídeos virão, estou editando vários neste momento. Abraço grande a meus novos amigos e companheiros mexicanos.



Alejandro Albarrán vocaliza seu poema "Acumulación", Cidade do México, dezembro de 2011.
Gravado por Ricardo Domeneck para a revista Modo de Usar & Co.


Texto:

A C U M U L A C I Ó N
Alejandro Albarrán

*

Acumulación, me estoy hinchando. Encontrando
el mimetismo en los ahogados. En mi cuerpo
tumefacto. Soy tu contenedor, soy tu putita. Me
estoy llenando. Me estoy saciando, colmándome
de mí, me estoy tocando en las aristas con aristas,
en mis esquinas me estoy tocando con esquinas.
Gerundio, soy hinchazón, soy yo exagerado,
exacerbado. Necesito una salida. Un punto de
fuga o me desbordo, desbordado, soy,
acumulación. Soy garrafa. Un accidente paulatino.
Un desatino o tina que se llena hasta sus bordes.
Una salida o me reviento. Una calle, un
escampado, para salirme de mí, desbordado sí, en
el paisaje. Acumulación, me estoy hundiendo,
como un Nautilus, me vengo abajo.

*

Esto es: necesito no ser yo. Confundirme. Ser tú,
por ejemplo. Ser tu sueño húmedo. Tu pesadilla.
Tu amor especial. Tu hombre de acción. Tu
postergación, tu crucifixión: tu crucifijo. La
mancha de sangre en tu toalla sanitaria. Tu santa
virgen, tu Eclesiastés, tu miedo al cambio, tu
cambio, en monedas de baja denominación, soy tu
elección, tu trueque. Tu lucha contra ti, soy tú
porque te ves en mí. En mi imagen. Tenme miedo
soy el diablo, tu Cristo de terciopelo, soy, soy tu
miedo, tu miedo a ti.


*

Soy la emperatriz de los escarabajos, en tu pubis
soy el anca de un caballo, en tu cabello soy dolor
de estómago, soy tu síntoma de mal, soy el mal, el
pervertido de voces, a veces, de muchas voces que
me anulan, soy eso: la anulación, mi anulación, la
vindicación de mí en nada.

*

Vuélvete confeti o fruta furibunda, vuélvete que
me estoy quitando el sexo. Por ti. Lo estoy
dejando en el buró como una estaca, un crucifijo.
Date vuelta: una lámpara que brilla (y ahora
brilla), una aliteración en nuestro entorno. Una
aliteración: canción que nadie canta porque
espanta.

*

Mi caballo sin ojos me dijo: "canta en mis
entrañas", "enséñame el paisaje". Aprendizaje. Mi
caballo me dijo: "ven a correr conmigo en mis
entrañas", me lo dijo esta mañana, desde mi
estómago, me lo dijo desde el vértigo, desde mi
trote caldo, en mi vientre me lo dijo, en mi
emoción, mi caballo sin ojos, mi potro hambriento
de camino. Soy camino, trayecto inconcluso es mi
oración. Ahora le canto, lo llevo al monte, a que
relinche.





quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cidade do México. Na companhia de alguns de seus melhores poetas.

Daniel Saldaña París, Luis Felipe Fabre e eu, divertindo-nos durante a leitura de nossos poemas
na casa de Paula Abramo e Óscar de Pablo - Cidade do México, 12 de dezembro de 2011

Deixei o Rio de Janeiro na madrugada de domingo, chegando à Cidade do México à tarde, após uma escala na Cidade do Panamá e apenas um dia depois de um terremoto de 6.7 na escala Richter aqui na capital mexicana. Fui recebido por Paula Abramo, poeta mexicana e brasileira (que escreve em castelhano) que é diretora do Centro Cultural Brasil-México da Embaixada do Brasil, e seu marido, o poeta mexicano Óscar de Pablo. Após descansar um pouco no hotel, encontrei-me com eles e com o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg, que está passando um temporada no México e vive, como Abramo e De Pablo, a poucas quadras do meu hotel. Estamos no bairro dos escritores e poetas, a chamada Colónia Roma. Depois do jantar, na casa de Paula e Óscar, reunimo-nos ainda com o maravilhoso Luis Felipe Fabre, um dos melhores poetas latino-americanos da atualidade, e que tanto tem a ver com minha passagem pelo México por ter sido quem recomendou e apresentou meu trabalho a Paula Abramo. Hernán Bravo Varela completou a noite de poetas na noite de domingo.

O que acontece quando poetas se juntam? O óbvio: discussões sobre quem presta e quem não presta na poesia contemporânea, elogios rasgados a um só para ouvir o companheiro do lado discordar veementemente, sacagens rápidas de livros das estantes para leituras-relâmpago querendo provar por que tal poeta é maravilhoso/horrível, etc. Foi uma noite muito divertida.

Em Berlim, convivo basicamente com músicos, DJs e artistas visuais. Tenho amigos na cena literária berlinense, mas aqueles com quem convivo mais a miúdo não lidam com textualidade de forma explícita. A noite de sábado no Rio de Janeiro, ao lado de Marília Garcia, Dimitri Rebello, Ismar Tirelli Neto e Victor Heringer; seguida desta noite de domingo na Cidade do México, ao lado de Paula Abramo, Óscar de Pablo, Luis Felipe Fabre, Ezequiel Zaidenwerg e Hernán Bravo Varela, mostraram-me como sinto falta desta convivência.

Mas o melhor veio na segunda-feira à noite. Reunimo-nos todos uma vez mais na casa de Paula Abramo e Óscar de Pablo, mas com mais poetas ainda:

Paula Abramo (México/Brasil)
Óscar de Pablo (México)
Luis Felipe Fabre (México)
Ezequiel Zaidenwerg (Argentina)
Robin Myers (Estados Unidos)
Daniel Saldaña París (México)
Hernán Bravo Varela (México)
Alejandro Albarrán (México)

e a fotógrafa Valentina Siniego (México/Argentina).

Depois de alguns tiros de mescal, nos pusemos a ler nossos próprios poemas uns para os outros. Foi uma experiência ótima. Primeiro round: cada um leu dois poemas. Eu li, em castelhano, os poemas “X + Y: uma ode” e “Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo”. No segundo round, cada um leu mais um poema. Li neste round meu “Autorretrato para agência de acasalamento”.

Na sexta-feira, faço uma leitura na Casa Refugio Citlaltépetl ao lado de quatro dos melhores poetas latino-americanos da atualidade, em minha opinião: os mexicanos Luis Felipe Fabre, Minerva Reynosa e Julián Herbert, e o argentino Ezequiel Zaidenwerg, com este vosso Ricardo Domeneck representando o Brasil. É uma das mesas mais potentes das quais já tive a honra de participar.





Luis Felipe Fabre, poeta e crítico que respeito imensamente e já traduzi para a Modo de Usar & Co., presenteou-me com seu último livro, o petardo que é La Sodomía en la Nueva España (Madrid: Pre-Textos, 2010).


Luis Felipe Fabre lê poemas e conversa com sua usual
wit.


§


Leitura na Cidade do México, do livro La sodomía en la Nueva España, com seu autor Luis Felipe Fabre,
acompanhado por Paula Abramo e Daniel Saldaña París.

§

POEMA DE LUIS FELIPE FABRE

Sutra da vaca

Uma vaca:
branca e negra. Ruminando pastagem: verde.
E acima o céu

e no céu
uma nuvem cor de nuvem e detrás da nuvem

outra vez o céu: azul celeste: a cor
do divino Vishnu presenteando uma flor-de-lótus.

Azul: a pele do divino Vishnu.
Celeste: a ação de presentear uma flor-de-lótus.

Outra flor-de-lótus: branco
deixando de ser branco: branca
nuvem dissipada: meditação.

E a vaca
ruminando flores-de-lótus a sagradíssima:
ioga, desioga, reioga.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

Sutra de la vaca
Luis Felipe Fabre

Una vaca:
blanca y negra. Rumiando pasto: verde.
Y encima el cielo

y en el cielo
una nube color de nube y tras la nube

otra vez el cielo: azul celeste: el color
del divino Vishnú obsequiando un loto.

Azul: la piel de divino Vishnú.
CelesteL la acción de obsequiar un loto.

Otro loto: blanco
dejando de ser blanco: blanca
nube disipada: meditación.

Y la vaca
rumiando lotos la muy sagrada:
yoga, desyoga, reyoga.

§

Ezequiel Zaidenwerg também presenteou-me com seu último livro, chamado La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011). Estes dois livros mostram como há pluralidade de qualidade verdadeira hoje na América Espanhola. Fabre e Zaidenwerg são poetas muitíssimo diferentes, mas eu gosto bastante do trabalho de ambos. Pretendo traduzi-los mais em 2012. Deixo vocês com o vídeo que fiz com Zaidenwerg em Berlim em 2010. Tentarei fazer vídeos com os outros poetas que tenho conhecido aqui.



Ezequiel Zaidenwerg lê os poemas "Doxa" e "Lo que el amor les hace a los poetas",
em Berlim, novembro de 2010. Filmado por Ricardo Domeneck


§

POEMA DE EZEQUIEL ZAIDENWERG

O que o amor causa nos poetas

não é trágico: é atroz. Uma ruína
fúnebre cai sobre os poetas que o amor captura,
sem que orientação ou identidade poética
interessem. O amor leva ao desastre completo
da uniformidade os poetas gays,
os poetas panssexuais e bissextos,
as poetas e poetisas feministas, fementidas ou honestas;
os obcecados pelo gênero e
os degenerados em geral e os polimorfos perversos:
e até os fetichistas dos pés
de verso cedem sob as plantas do amor,
que não distingue ideologia,
programa ou poética. Aos vates da torre de marfim,
lança-os do penthouse ebúrneo para o térreo. Aos apóstolos
do Zeitgeist, que proclamam sem inibição que a lírica está morta,
permite que insistam em seu equívoco
e em suas bachareladas prolixas. Produz uma hemorragia palatal
nos que arqueiam parcos aforismos oblíquos,
como nos herméticos de latão, nos que engarrafam
seus versos para o vazio, nos falsários do silêncio,
e nos que forjam haikais lusófonos
à moda itálica. Nos puristas da voz corta em seco
os lamúrios doces, e quebra as falanges
dos maníacos do ritmo, estraga
o metrônomo íntimo que carregam junto ao coração
para marcar a batida de seus versos. Domestica o sensorial
nos videntes e malditos e demais
rebeldes e insurretos sem razão
ou causa poética, cura o desregramento racional
de todos os sentidos. Desaloja de sua noite escura
os que pedem luz para o poema
nas cavernas do sentido, e os devolve sem escala
para o tresnoitar da carne literal. O que o amor
causa nos poetas, com paciência e mansidão,
enquanto as borboletas lentamente ulceram seus estômagos
e pouco a pouco o pâncreas deixa de funcionar,
é bastante inconveniente. Aos que buscam com afinco
e precisão cirúrgica a palavra justa, arruína
seus pulsos, e em vez de doar vida, aniquilam-na em sua ânsia.
E nos que perseguem com ardor e devoção
um absoluto no poema, como um graal
todo de luz, tesa, diáfana e febril,
nubla suas certezas e mesmo o desejo
de saciar sua ansiedade. O que o amor
causa nos poetas, desavisadamente,
enquanto costuram e cantam e se empanturram de perdizes, é agudo, terminal
e fulminante. É um torrencial avassalador
de prosa, que esporeia e multiplica, em progressão exponencial,
os estúpidos e toscos da poesia:
os que cortam sem motivo seus versos diminutos;
os jóqueis compulsivos que os encavalam;
os designers tipográficos do verso;
os que partem a sintaxe sem saber torcê-la;
os que fazem escavações no
éter em busca de inauditos neologismos inaudíveis;
os modernos sem pretexto; os que creem descobrir
a pólvora em seus versos balbuciantes;
os contestatários automáticos e os poetas-pornô;
os que semeiam grandes nomes pela densa
fronde de seus poemas, como Joãozinho e Maria jogavam
migalhas; os que erguem em sua voz
ausente as caretas de uma infância lobotomizada;
os poetas bonitos e felizes, teimosos;
as tribos urbanas e os groupies da poesia adolescente;
os poetas pop e os rock stars do verso; os videopoetas e performers;
os ovni-poetas, alados ou rastejantes, identificados;
os objetivistas sem objeto
nem vista; os que exigem que o poema
vista-se de mendigo; os poetas filósofos;
e os cultores convictos
da “prosa poética”. O amor,
que movimenta o sol e os demais poetas,
leva-os até o derradeiro paroxismo: transforma-os
em terra, em fumaça, em sombra, em pó, etcétera:
em pó enamorado. E se acontece
ainda que dentre eles
amem-se amorosos os poetas pares,
felizes em seu amor solar sem escansão,
como se fossem na verdade, um para o outro,
um buraco negro de opiniões nebulosas,
palmadinhas tácitas nas costas e comentários de passagem,
anões, esfriando-se, absorvem-se mutuamente
e desaparecem.


(tradução de Ricardo Domeneck)


:


Lo que el amor les hace a los poetas
Ezequiel Zaidenwerg

no es trágico: es atroz. Les sobreviene / una luctuosa ruina a los poetas que el amor captura, / sin importar su orientación o identidad / poética. El amor lleva al total desastre / de la uniformidad a los poetas gay, / a los poetas pansexuales y bisiestos, / y a las poetas y poetrices feministas, fementidas o veraces; / a los obsesionados con el género / y a los degenerados por igual, y a los perversos polimorfos: / y hasta los fetichistas de los pies / del verso capitulan a las plantas del amor, / que no distingue ideología, / programa ni poética. A los vates de la torre de marfil / los precipita del penthouse ebúrneo directo a planta baja. A los apóstoles / del Zeitgeist, que proclaman sin empacho que la lírica está muerta, / les permite insistir en el error / y en sus prolijas parrafadas. Les produce una hemorragia palatal / a los que comban parcos aforismos diagonales, / a los herméticos de lata, a los que envasan / sus versos al vacío, a los falsarios del silencio, / y a los que fraguan haikus castellanos / al itálico modo. A los puristas de la voz les corta en seco / su dulce lamentar, y a los maniáticos del ritmo / les quiebra las falanges, y estropea / el íntimo metrónomo que llevan junto al corazón / para marcar el paso de sus versos. Les compone el sensorio / a los videntes y malditos y demás / rebeldes e insurrectos sin razón ni causa / poética, y les cura el desarreglo razonado / de todos los sentidos. Desaloja de su noche oscura / a los que piden luz para el poema / en las cavernas del sentido, y los devuelve sin escalas / a la trasnoche de la carne literal. Lo que el amor / les hace a los poetas, con paciencia y mansedumbre, / mientras las mariposas lentamente les ulceran el estómago / y el páncreas poco a poco deja de funcionar, / es harto inconveniente. A los que buscan con ahínco / y precisión de cirujano la palabra justa les arruina / el pulso, y en lugar de dar la vida, la aniquilan en su afán. / Y a los que con ardor y devoción persiguen / un absoluto en el poema, como un grial / todo de luz, tirante, diáfana y febril, / les nubla las certezas, y el deseo mismo / de saciar su ansiedad. Lo que el amor / les hace a los poetas, inadvertidamente, / mientras cosen y cantan y se atoran de perdices, es agudo, terminal / y fulminante. Es un torrente arrollador / de prosa, que espolea y multiplica, en progresión exponencial, / a los zopencos y palurdos de la poesía: / a los que cortan sin razón sus versos diminutos; / a los jinetes compulsivos; / a los diseñadores tipográficos del verso; / a los que quiebran la sintaxis sin saber / torcerla; a los que escarban en el / éter a la busca de inauditos neologismos inaudibles; / a los modernos sin pretexto; a los que creen descubrir / la pólvora en sus versos balbucientes; / a los contestatarios automáticos y a los porno-poetas; / a los que sueltan grandes nombres por la densa / fronda de sus poemas, como Hansel y Gretel arrojaban / migas; a los que impostan en su voz / vacante los mohines de una infancia lobotomizada; / a los poetas bellos y felices, caprichosos; / a las tribus urbanas y los groupies de la poesía pubescente; / a los poetas pop y los rockstars del verso; a los videopoetas y performers; / a los ovni-poetas, voladores o rastreros, identificados; / a los objetivistas sin objeto / ni vista; a los que exigen que el poema / se vista de mendigo; a los filósofos poetas; / y a los cultores convencidos / de la “prosa poética”. El amor, / que mueve el sol y a los demás poetas, / los lleva hasta el postrero paroxismo: los convierte / en tierra, en humo, en sombra, en polvo, etcétera: / en polvo enamorado. / Y si resulta todavía que entre ellos / se aman amorosos los poetas pares, / felices en su amor solar sin escansión, / como si fueran en verdad el uno para el otro / un agujero negro de opiniones nebulosas, / tácitas palmaditas en la espalda y comentarios al pasar, / enanos, enfriándose, se absorben entre sí / y desaparecen.


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