sexta-feira, 30 de abril de 2010

Da lírica amorosa


Nos três livros e duas plaquetas de poemas que publiquei até hoje, há um número significativo daquele que é um "tema" dos mais antigos calos e cicatrizes dos poetas, espraiando-se pelas tradições, línguas, culturas: a lírica amorosa. Sim, muitos estão disfarçados, digamos, de análise histórica, mas são também lírica amorosa.


Entre estes, a quase totalidade pende mais para o lamento do pé-na-bunda que para a celebração dos braços-nos-braços. Menos aconchego que abandono. Como qualquer um que passou dos 30, eu carrego minha boa quota de hematomas.


No ano passado, no entanto, na semana em que O Moço completaria 25 anos, decidi tentar escrever um poema que não fosse imprecação in absentia. Que fosse, de alguma maneira, celebração.


Publiquei o texto no segundo número impresso da nossa Modo de Usar & Co., que trazia justamente O Moço na capa. Compartilho-o agora com os generosos leitores deste espaço. Por um bom fim de semana para a vida amorosa de nós todos. Amem e amém.



Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos


a Jannis Birsner

Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos,
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.


Ricardo Domeneck. in Modo de Usar & Co., número 2, 2009.


.
.
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10 comentários:

vodca barata disse...

lindlindolindo!
traduzproalemãopreumandarpromeu!
:*

Ricardo Domeneck disse...

Baby,

o poema já foi traduzido para o alemão pela Odile Kennel. Vou te mandar por email.

beijos

R.

Ismar disse...

& amém.

vodca barata disse...

manda!!!

:*

Ricardo Domeneck disse...

Ivi,
mandei,
mas vai aqui também, a quem mais possa
interessar.

Text, in dem der Dichter den Liebhaber
feiert, der fünfundzwanzig wird

Es gab schon Kriege, die länger
währten
als du. Herzlichen Glückwunsch
zur erfolg-
reichen Überschreitung der Lebens-
erwartung
einer Giraffe, einer Fledermaus, Ab-
gottschlange,
betagten Kuh oder Eule. Pinguine
auf der ganzen
Welt, und Schweine, zeitgleich
gezeugt
mit dir, sterben jetzt. Saturn hat,
seit deiner
Keimzellenschmelze die Sonne
noch
nicht einmal umrundet. Stalker
der mich
über tausend Wege in die Zone
führst,
schon robbt der Winter wieder
heran,
ich vergrabe mein Gesicht an deiner
glatten
Brust. Wäre es möglich, ich würde
Lem
oder die Brüder Strugazki mit dem
Drehbuch
unserer zukünftigen Tage und Nächte
beauftragen,
im Hintergrund Diamanda Galás
grunzt
und schnurrt, röhrt und krächzt, lass
uns vögeln.
Ich feiere deinen Verstand unter
deinem Haar
und deinen Penis als Körperanhang,
erregiert.
Irgendwo erreicht ein Schwein, dein
Zeitgenosse,
den Höhepunkt seines speckigen Lebens
ich frage
erschöpft und verschwitz, ob Liebhaber
wenn
ihre Wimpern vereint, euphorische
und
trächtige Schafe zählen vor dem Schlaf.

Ricardo Domeneck
Deutsche Übersetzung: Odile Kennel

Ricardo Domeneck disse...

Ismar,

amém
também.

R

Ivan disse...

Abençoados eromenos e erasthés!

Ricardo Domeneck disse...

Evoé, Ivan.

cheers

Ricardo

hipergheto disse...

Belíssimo poema, Ricardo. Eros errante e certeiro, como todo Eros, paradoxal. O verso inicial, que funciona como epígrafe-chave do poema, é duca!

Ricardo Domeneck disse...

Obrigado, João!

E a melhor parte: O Moço gostou muito, lendo-o na tradução para o alemão e numa versão em inglês que eu fiz para ele (hoje colada na parede, em cima da sua {nossa} cama), um tanto diferente na forma mas muito próxima do poema luso. Eros, essa criatura contraditória.

Vou responder aquela sua mensagem em breve. Espero que a manhã de sol lhe seja leve.

grande abraço

Domeneck

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