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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Texto em que o poeta apresenta o relatório sobre os efeitos resultantes da ação da gravidade sobre os porcos



Há poucos dias, eu  elogiava o trabalho poético de PJ Harvey, ao ler a notícia de que ela pretende lançar uma coletânea de poemas em 2015, intitulada The Hollow of the Hand (que título!), em parceria com o cineasta e fotógrafo Seamus Murphy, criador dos filmes para seu álbum Let England Shake (2011). Repito aqui o que disse nas redes sociais: já tenho muito respeito por Polly Jean, poeta. Várias de suas letras funcionam muito bem na página, e aprendi algumas coisas com ela. Quem se interessa pela tradição oral e o trobar medieval não se espanta. Sempre apreciei nela o que chamo de tristeza raivosa, algo que busco em alguns poemas. Não choramingar, mas só deixar cair a lágrima se os dentes estiverem trancados uns nos outros. Uma coisa que me parece clara em certas canções suas é a lição de que minimalismo e concisão não precisam significar esterilidade emocional. Sente-se isso também em Lorine Niedecker ou Robert Creeley, por exemplo.

No artigo, ela diz ter muito interesse pela imagem, o que fica claro ao percebermos a força fanopaica de canções como "Is this desire?" e "Rub till it bleeds". Polly Jean foi importante para mim em dois momentos específicos. Lançou o álbum Stories from the City, Stories from the Sea (2000), com canções que me ajudaram muito em 2001. E, em 2011, o pior ano da minha vida, o ano em que escrevi Cigarros na cama, ouvi muito seu White chalk (2007). White chalk é um grande álbum, com canções que são realmente primores, como "The devil" e especialmente "Dear darkness". A força destas canções, para mim, beira o místico, como em certos poemas de Hilda Hilst, como "A Mula de Deus".

Lembrei-me deste poema escrito naquela época, em que faço duas referências veladas a PJ. Acho que depois do textinho acima ficará fácil identificar quais.

Texto em que o poeta apresenta o relatório sobre os efeitos resultantes da ação da gravidade sobre os porcos

Como vazio, vácuo, a sobra
seja raivosa

feito aquele que só caminha
por desertos

em secura de gelo, giz branco,
onde a ânsia

contenta-se no pus, a vingança
em separar

ao ar livre, pele ferida de pele
intacta,

apouca-se ou serve-nos morna,
cansa-se

de assoprar mil queimaduras
em graus,

cardápios da tal revanchíssima,
a arte

da farpa não é maestria difícil,
Master,

inicio sempre com os grunhidos
de ameaça

e depois me posiciono a lamber
as suturas,

THE END de joelhos, sussurros
aos favores.

Dona Escuridão, vem cobrir-nos
feito edredão, 

esquadrinha, compasso e bússola,
o caminho

da maturidade, sim? Sim, retirar
das pedras

a lição e a lesão? Hein, Master?
A Educação

pela Perda, não? Cervical, rastejo
e decúbito

me abordas com quatro ferros
nas mãos?

Fiz meu dever de casa, oh Master
de plástico,

contei com os dedos nos cálculos
e nos rins,

ofertei decréscimo à tua contagem
repressiva

e subtraí em deflação dos males
o menor,

menos valem os pássaros voando
que este

que defeca em minha mão, Master,
vim, vi,

me rendi, cresci ereto, sem bacamarte
ou funda,

sem o bom gosto de tuas artilharias,
todo alvo

hei-de demonstrar meus bons modos
ao kamikaze

e o mais que me resta, hospitalidade
na oferta,

Master, da outra, minha melhor face.

§

Ricardo Domeneck, in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Aniversário do incêndio do Joelma e "Os amantes indecisos", um poema que usa a imagem


Foi aniversário do incêndio do Edifício Joelma ontem, como me chamou a atenção Marcus Fabiano Gonçalves, que se lembrava que eu havia usado a imagem em um poema. Tomo como motivo para compartilhar o poema aqui. E lembrar seus 191 mortos. R.I.P.

Os amantes indecisos

1.

ay Lancelot oh
Guinevere little
guinea
pigs indeiscentes
oxalá os cascos
de cavalo e cavalier
achatem-me o crânio
no despencar de
alturas
dos estames do
senhor farelo & senhora
migalha
de vossas ofertas
& liquidações
pois toda ciudad
baniu-me
oaxaca lumbago chemnitz
como se my medulla
oblongata contagiasse
tel quel maçã-adâmica
ou pior: maçã
evífica –
homúnculos & mulhúnculas
guardam-se
de minhas epiderme & epic
glottis
como calíope da anorexia
e reclinam-se à hipotenusa
ao desfile das penugens
de minha especialúrgica
uniqueza preciosérrima
rarité extinta
como pardais: perdoai-nos
vossa espaçosidade –
! antes projetado
às profundezas
do azul feito
uma Laika
! antes exposto
às explosões
do azul feito
uma Leica
a sujeitar-me em objeto
ao desaire de vosso desejo
alheio alhures
ou nomear-me vosso ornitólogo
na cava & cova
eis-me alcunhalizado embrenhagado
a 16% de rosiclerose
via Amoreno della
Valpolicella
e ninguém esfinja a polpa
deste conundrum
dos motivos por que
fui-me
apagogiar por vossa mercê
ou como hei de me
excabulir


2.

sansão & heloísa
quedam-se inquocientes
a sorver feito lêmures
seu fisco
e sonegam suas
quotas-partes do quotidiano
incapazes da divisão
de 45 por 33
como abelardo
& minnie
asseguram o quórum
de sua assembléia
de 2
e ruflam os tambores
das asas galináceas
de seus tímpanos
com palavrículas
plagiadas de bonnie
& corisco
feito “eis-me a polpa
de teu bulbo”
ou “permita-me,
caro/a senhor/a,
exercer a clara-neve
de vossa cremogema”
enquanto clyde mickey
dalila
dadá
haurem o haraquiri
das memórias
de seus antigos
rituais de acasulamento
perseguindo-lhes
a consciência ao molho
feito Io + abelha
e desgrenham-se
por brenhas
a maldizer copérnico
por roubar-lhes os cantos
do mundo onde
sumidourar-se escafundir-se
para meditar
o hocus-pocus do “não
vos quero mais” dos
árbitros do fim


3.

quisera ser a que
engendra o círculo
de sua atenção
tal qual a
quarta concubina
do mestre que opera
randomicamente
a escolha
de onde medra
seu sim
feito o hoje
que se resigna
ao acetilsalicílico
em minhas glândulas
de 30
de janeiro de
2007
no abismo
de abscissas
em anonimato
para preencher
o gabarito
de sua aceitação
maestro senhor doutor
conheço vosso
1-2-3 e não
sou o 4
inevitável
de sua espeleologia
geologicamente historiográfica
versus minha
klangfarbenjealousy
magnifice vir tamquam
frater et compater
carissime oh pledgeallegiance
excelentíssimo
entre
glass & cage
quede la minimal
chance
de vidrar tus ojos
& engaiolar tus ovos
enfeitando-lhe a fronte
como gleicheniácea
doutor senhor maestro
eis-me açucarada
cucaracha
a escalar-lhe a
glace & cachê
quelque chose
que impeça
la repetitious permuta
de tuas recusas
à minha demasiado
generosa & aleatória
concórdia e resta-me
saharar à alfândega
da manhã
caso eu sobreviva
entre 18:56
& 05:49
à transiberiana

4.

alas! concierge
fazes
de minhas férias
mesmo um Joelma
& me incitas
à discrição
de cachoeira
in cache a
intimar-me exigir-me
auto-
controle
de carro
em capote
euzinho desinfectado
tal intocável
sob plexiglass
ao teu manuseio
de telespectador
contento
-me em ser tua
mais privada
exógena
cowboy
de mi poitrine
cai bem
que me caces
justo à hora
da ceia
& I
the exception
of your etc
imploro
que me compre
ends
tal qual tradutor
de rádio autista
mas ach! candido
dos campos
talvez trabduzir
seja coisa
de Kurosawa
& Shakespeare
a empatizar como
trépano ao tímpano
dannalors thentão
com minhas patas
firmes às rédeas
do cavalo calvo
que me descarrega
às sarjetas do alheio
e do próprio container
hormonal a meio
caminho da selva
escura a todo
velocímetro de altura
imune à vacina
da espera
por tua vaga
resisto a resignar
-me
às catástrofes
de cadastro e facto
do como perseverar
& sobreviver
aos braços dos segundos
se será
hoje amanhã
o dia todo
sim
day post-day: multidawn


§

Ricardo Domeneck in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).

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terça-feira, 23 de outubro de 2012

“Elegia para uma galinha morta em minha boca”



Elegia para uma galinha morta em minha boca


Poucas coisas são
tão perturbadoras
quanto morder a carne
da galinha cozida
e sentir na língua
certo gosto
que meu cérebro
interpreta
como sendo das penas
desta galinha morta
como se algo nela
ainda quisesse voar
no céu da minha boca
e vejo então nítidos
diante de mim os olhos
muito arregalados
desta galinha à hora
de sua morte, o bico
arreganhado, a sede,
o susto dos gritos
das companheiras
no abatedouro
e em seu cérebro
o protótipo do que seria
seu primeiro pensamento
se lhe fosse dado tempo,
provavelmente um verbo,
um imperativo, um “voe”,
mas ela não pode voar
e abatedouros não
reservam tempo para a evolução
das espécies, e esta galinha
que agora mastigo, imagino,
mal caiu em tentação
na hora de sua morte,
e este gosto de penas
na carne persiste
e impede a semivigília
prazerosa
com que dilacero
o que antes corria
no terreiro, sorella
aviária, você parte
antes e definitiva agora
para o grande sono,
o que você sente
quando meus dentes
entram em seus músculos
é apenas a mioclonia,
senhora galinha,
aquelas contrações
involuntárias
antes do sono
e é por isso que fico
muito assustado
pelo resto da refeição,
gala, a verdade
é que estamos ambos
presos apenas
no mesmo sonho lúcido



Ciclo do amante substituível, 2012

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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Lendo "X + Y: uma ode" na Casa Refugio Citlaltépetl, na Cidade do México, em dezembro de 2011

Abaixo, vídeo com minha leitura do poema "X + Y: uma ode" na Casa Refugio Citlaltépetl, na Cidade do México, em dezembro de 2011. A leitura foi organizada por Paula Abramo e o Centro Cultural Brasil-México. Na mesa, três dos meus poetas mexicanos favoritos: Luis Felipe Fabre, Julián Herbert e Minerva Reynosa, assim como o argentino Ezequiel Zaidenwerg, e Paula Abramo moderando. Foi uma noite linda, alguns dos melhores poetas com quem já tive a honra de ler. O video foi-me enviado pelo poeta mexicano Alejandro Albarrán, um dos melhores poetas da nova geração latino-americana. Agradeço a todos com muita saudade e todo o meu respeito.


 



X + Y: uma ode

An refert, ubi et in qua arrigas?
Suetônio

Houvesse nascido
mulher, já teria dado
à luz sete
filhos de nove
homens distintos.
Agora, vivo entretido
com as teorias
a explicarem meu gosto
por odores específicos,
certa distribuição de pelos
nas pernas alheias,
os cabelos na nuca
e no peito
sem seios, ainda que aprecie
certas glândulas mamárias
de moços e rapazes
com aquela dose
saudabilíssima
aos meus olhos de hipertrofia.
Medito sobre as conjecturas
de terapeutas,
os relatos de uma Persona
partida, Édipo subnutrido,
sem modelo
na infância de um lendário
Laio
exemplar, lançando-me
a uma suposta
busca entre amantes
por mim mesmo.
Tentei, sem o menor
sucesso,
por dias induzir-me à ereção
diante do espelho.
Concluí não ser tão
eréctil meu ego.
Ouvi com atenção
a fórmula
sobre pai ausente e mãe
dominante a gerar rainhas
de paus, espadas e copas
lassas e loucas,
mas, apesar do meu histórico
de progenitora histérica
e procriador estóico,
meus irmãos
tão afeitos e afoitos
diante dos clitórides
embromam a estatística.
Li todas as reportagens
sobre a possível queerness
na boutique do código
genético, esta quermesse
das afinidades seduzidas,
e ri com o amigo
que certa vez, em chiste,
nomeou-me dispositivo
biológico
de uma Natureza em estresse,
medicando o hipercrescimento
populacional. Não mentirei dizendo
que não temo e tremo
com o perigo do inferno.
Cheguei, contudo, à conclusão
de que minha passagem
só de ida
ao Hades
não se dá
apenas pela inclinação
algo obcecada
de minha genitália
pelo caráter heterogêneo
dos vossos gametas.
Houvesse
nascido fêmea,
já teria dado à luz onze
filhotes de treze
machos diferentes,
e, de puta,
assegura
o Vaticano (e mesmo Hollywood),
não se conhece ascensão,
tão-somente queda.
Portanto, poeta, pederasta e puta,
sigo com meus olhos pela rua
cada portador
desta combinação gloriosa
de cromossomas
X e Y,
chamem-se Chris ou Absalom,
com suas espaçadas proporções
entre os buracos
do crânio, a linha que se forma
entre orelhas e ombros,
as asas de suas omoplatas
e a coifa dos rotadores,
as simetrias volubilíssimas
entre as extremidades
excitantes e excitáveis
como nariz, pênis e dedos,
o número de pelos
entre o umbigo
e ninho púbico,
o formato dos dentes
e seu espelhamento
em diâmetro
nos pés e suas unhas.
Se andam como comem,
se bocejam como riem,
se bebem como tossem,
se fodem como dançam.
A absoluta falta de mistério
em alguns deles, incapazes
da dissimulação famosa
de certas personagens
literárias femininas
do século XIX.
Neles, é oblíqua
somente a ocasional
ereção inconveniente.
Constrangem-me
estas confissões,
mas cederia certos direitos políticos
por algumas dessas cristas ilíacas
já presenciadas em praias, ao sol,
e abriria mão de uma ida às urnas
este inverno por esta ou outra nuca.
E veja só como o planeta
insiste na demonstração empírica
dessa abundância de músculos
e seus reflexos
cremastéricos:
neste exato momento,
enquanto escrevo este textículo,
entra no café, em pleno Berlimbo,
um desses exemplares de garoto
canhestro e canhoto,
o boné cobrindo meio rosto,
prototipagem de barba
e bigode, calças
que me catapultam a fantasias
com skateboards como props,
sobrancelhas feito caterpillars
sitiando os olhos com promessas
de delícias e desfaçatez épicas.
Seu tênis é bege;
ao tirar o suéter, vê-se
a sua escala de Tanner.
Sua Calvin Klein.
Bege fico eu, adivinhando que pele
cobre seus joelhos, seus calcanhares.
Sonho o sexo biônico e homérico,
algo entre Aquiles e Pátroclo,
interpretados em nosso mundo
por Brad Pitt e Garrett Hedlund,
potros xucros como búfalos
ou bárbaros.
E este mundo está cheiíssimo
dessas distrações quase sádicas
para meu masoquismo
voluntarioso e em vício,
que impedem que componha
a minha Divina Commedia,
meu Paradise Lost.
Perdoe, Sr. Cânone,
esta minha tosca e parca
contribuição lírica à safra
de seus contemporâneos,
mas não me catalogue
entre as farsas, sátiras.
Pois não é, consinto, culpa
das massificações capitalistas
esta minha attention span
pouco renascentista,
mas desta explosão de cântaros
plenos de testosterona púbere
a ir e vir nos espaços públicos.
Quando passam, petiscos,
finger food em arrogância
cocky e garbosa, murmuro
na cavidade oca
da boca:
"Deviam ser proibidos
seus exageros de lindos".
Meu fim será nestes botecos
do Berlimbo,
entupindo-me de café preto
e esperando suas ocasiões
para escrever poemas
que vos celebrem, atores
principais deste longo pornô
em que me vi concebido, gerado
e expelido, coadjuvante
contente e dublado.
Agradeço-vos a oportunidade
de fazer do advérbio sim
uma interjeição obscena.
Aos outros, juro que não se trata
de encômio, louvor ou gabo.
Quisesse eu fazer apologia,
talvez dissesse
haver mais elegância
em "Sê meu erômenos
e eu serei teu erastes"
do que, ao cangote,
"Mim Tarzan, você Jane".
Não busco novos adeptos
que me façam concorrência.
Boys will be boys,
há quem diga, e, ora,
não vou dizer que espero
de todo moço
que seja Mozart
ou Beuys.
Haverá os momentos de caça
e rendição felizes, as poucas
vezes de sorte
em que seremos camareiros
de algum moço pasolínico,
com quem se poderá, enfim,
fazer o cama-supra, meia-nove
e então discutir no pós-coito
outros conceitos hifenizados
ao som de Cocteau Twins,
listar as guitarras de 1969,
nosso horror a Riefenstahl,
a obsessão por Fassbinder,
e oxalá sentir em meio a tal
loa uma nova ereção
cavucar
as malhas entre as dobras
do edredão
enquanto lemos poemas de Catulo,
Kaváfis.
Quando chegarem os bárbaros,
me encontrarão na cama;
que venham porém armados,
pois hei de estar acompanhado,
e em riste as nossas lanças.

Berlim, 25 de outubro de 2010

Publicado em Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).


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quinta-feira, 15 de março de 2012

Comentário de Adelaide Ivánova sobre meu novo livro em seu "Vodca barata"

Talvez haja três tipos de crítica que podem levar um poeta a reflexões muitíssimo saudáveis e frutíferas sobre seu próprio trabalho. Há, é claro, a de críticos preparados, dispostos à generosidade de realmente buscar entender o que o autor propôs-se, sem renunciar ao juízo crítico, apontando para caminhos possíveis, armadilhas prováveis, elementos importantes que talvez tenham passado despercebidos pelos leitores.

Há o maravilhoso diálogo com outros poetas que respeitamos, apontando suas concordâncias e discordâncias, lendo a partir de seus próprios ângulos de observação do tal Weltanschauung. São colegas de profissão.

Mas eu sempre escuto com muitíssima atenção um outro tipo de crítica: feitos de forma pública ou em particular, os comentários de amigos que estão fora do circo literário, que leem pura, completa e simplesmente por prazer.

Adelaide Ivánova, fotógrafa brasileira residente no Berlimbo e minha companheira no vale do rímel borrado, publicou um comentário sobre meu livro Ciclo do amante substituível em seu blogue, o Vodca Barata. Obrigado, querida. Termino a postagem com uma de suas fotografias, da série sobre sua avó.







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quarta-feira, 7 de março de 2012

"A estética política do sujeito", resenha de Diogo Guedes sobre meu novo livro, publicada hoje no JORNAL DO COMMERCIO, no Recife.

Caros, soube hoje a respeito de duas novas resenhas sobre meu novo livro, uma de Schneider Carpeggiani para a revista Continente, e outra do crítico Diogo Guedes para o "Caderno C", do Jornal do Commercio de hoje, 7 de março. A resenha de Guedes é seguida de uma entrevista, na qual ele propôs selecionar algumas das perguntas que formam meu texto "A educação dos cívicos sentidos". Hesitei um pouco sobre esta ideia da entrevista, mas aceitei o desafio. Abaixo, vocês podem ler a resenha e a entrevista. Ao final, a matéria tal qual apareceu no jornal.


A estética política do sujeito
por Diogo Guedes

Jornal do Commercio, Recife, 7 de março de 2012.


Se alguns – muitos – poetas parecem buscar o diálogo com uma tradição estanque ou, em última instância, com o próprio potencial de imortalidade dos seus escritos, o brasileiro radicado em Berlim Ricardo Domeneck parece fazer poesia ciente do exato contrário, de que sua obra é momentânea, parte de um presente histórico. De certa forma, todos os trabalhos presentes em Ciclo do amante substituível parecem trazer essa certeza, a partir das confissões amorosas e eróticas ou das referências à cultura literária.

Dividido em cinco partes, o livro constrói uma narrativa sentimental por meio de seus poemas, ainda que eles não tenham uma relação direta entre si. Os 15 primeiros da obra são estranhamente pessoais, como se no ato de mostrar sua (verdadeira?) vida pessoal, Domeneck estivesse se observando como objeto poético, estivesse tomando consciência de quão visceral e irracional pode ser o amor. O tema é retomado em outros momentos do livro, com trechos de confissão que se alternam entre o lirismo (em "As aritméticas dolorosas", ele escreve: “é excessivo / porque não / é suficiente”) e a carnalidade homoerótica.

As citações de mestres literários e da cultura pop – aqui, capaz de dizer tanto quanto os escritores – são frequentes, como se fossem termos e adjetivos de uma linguagem poética própria ao autor. Ao mesmo tempo, trazer a literatura para o cotidiano (ainda que voraz) dos amores e dos desamores é parte de um projeto que ele deixa implícito na segunda parte do livro. Em "O que é o que é um cânone?", por exemplo, ele responde à pergunta do título: “poetas com marinha exército aeronáutica”. Em um poema em prosa, compara: “sei hoje também que o cânone não passa de um equivalente mais prestigioso de um Vale a pena ver de novo”.

É a certeza da transitoriedade das fórmulas estéticas que move Domeneck, incapaz de aceitar a ilusão de que uma visão da literatura – como diz na entrevista, a literatura branca, masculina e heterossexual – é a verdadeira. A escrita não é feita de nichos porque não existe uma escrita total, definitiva: todos os poemas e obras são frutos de uma estética e política de um sujeito. A certeza da morte é a certeza de que nada é definitivo, nada é alheio ao contexto: “Em duzentos anos, / quando o acúmulo / de notas de rodapé / para esse meu texto / exceder o número / de caracteres / do próprio / para que possa / ser compreendido, eu também serei / punhado e opróbrio / de pó e ossos / como você”. (D. G.)


§


Entrevista:

O poema não é imune ao tempo
Diogo Guedes

Ciclo do amante substituível (7 Letras, 192 páginas, R$ 39) é o quinto livro de Ricardo Domeneck, um dos mais interessantes poetas brasileiros contemporâneos. Para esta entrevista, sugerimos que Domeneck respondesse algumas das perguntas que ele mesmo faz durante a obra, em "A educação dos cívicos sentidos", como que questionando os escritores e literatos de hoje. Apesar do receio em falar sobre o que preferia deixar em aberto, ele aceitou a proposta. Eis, a seguir, o resultado da conversa de Domeneck consigo mesmo.

JORNAL DO COMMERCIO – Que dia é hoje no seu poema?

RICARDO DOMENECK – Se eu estivesse escrevendo um poema, tentaria ter consciência que hoje é 5 de março de 2012, seriam 14h57, e eu estaria escrevendo em português, mas em Berlim, na Alemanha, cercado por uma língua completamente distinta da que estaria carregando o meu poema, ao mesmo tempo que esta língua alemã, provavelmente, estaria influenciando algumas das minhas construções sintáticas ou mesmo a escolha de palavras. Eu não tenho medo do datado, pelo contrário, eu acredito que os textos que sobrevivem a seu momento histórico são justamente os que têm consciência de seu momento histórico. Apesar do lindo (será mesmo lindo?) sonho simbolista de escrever numa linguagem que estivesse imune ao tempo, espero termos já despertado do pesadelo resultante. O que importa é que o poema, quando bem sucedido, não atinge o atemporal, mas uma espécie de existência dupla no tempo de sua escritura e no tempo de sua leitura. É o que sinto ao ler Catulo, que morreu há mais de dois mil anos, mas fala comigo como se fosse meu contemporâneo, ao mesmo tempo em que me transporta para as ruas de Roma nos últimos anos da República.

JC – A poesia e a política são demais para um único ser humano?

DOMENECK – Talvez apenas se vistas como antagônicas, algo que está por exemplo no equívoco dos concretistas em acreditar na existência de uma “poesia pura” e uma “poesia para”. Este dualismo é desnecessário. No entanto, eu tenho dois fantasmas pessoais, que sempre surgem sobre meu crânio ao discutir coisas desta natureza: o poeta norte-americano George Oppen (1908 – 1972), que deixou de escrever poesia por 20 anos para dedicar-se ao ativismo político, escolhendo o silêncio para melhor agir, e Ulrike Meinhof (1934 – 1976), a jornalista política e pacifista que um dia acreditou que palavras não bastavam e tomou armas, tornando-se uma das líderes da Facção do Exército Vermelho na Alemanha. Oppen acabou perseguido pelo FBI e teve que se exilar no México, Meinhof acabou presa e suicidou-se na prisão. O que quer que eu possa responder aqui sempre parecerá frágil diante das escolhas extremas destes dois autores que perseguem minha consciência est-é-tica.

JC – O poeta é inofensivo? Você teria coragem de dizer isso a Ossip Mandelstam, que morreu na Sibéria por causa de um poema?

DOMENECK – A segunda pergunta responde a primeira. Os cemitérios estão cheios demais de poetas assassinados por causa de seus poemas para que os vejamos como inofensivos. Os Césares, Hitlers e Stalins do mundo talvez entendam mais dos riscos da poesia que os críticos universitários e jornalistas dos cadernos de cultura.

JC – O papel do poeta seria mesmo o de emocionar moçoilas e consolar velhinhos?

DOMENECK – Certamente também estes, além de tantos outros mais. Só em províncias, como ainda parece ser a vida cultural no Brasil, sente-se a necessidade de eleger uma única função para a poesia ou um único Grande Poeta Nacional, contra o qual todos os outros tenham que ser medidos e comparados. A poesia é plural em todo momento histórico.

JC – Poeta bom é poeta universal? Ou mulher escreve como mulher, viado como viado, negro como negro, macho como macho?

DOMENECK – O problema não está na busca de contatos que nos liguem e irmanem a todos, apenas na farsa milenar de assumir que os parâmetros dos homens brancos heterossexuais são universais, sem necessitar adjetivos, enquanto os outros, relatando experiências tão humanas quanto as dos homens heterossexuais, acabam colocados em guetos ou etiquetados na estante. A farsa está na maneira como, para muitos, ainda (aparentemente), poeta homem, branco e heterossexual escreve apenas “poesia”, mas assim que o texto vem de um homossexual, passa a ser “poesia gay”; se é de uma mulher, então imaginam poder apenas ser “poesia feminina”; e, se de um negro, “poesia negra”. Ora, há a poesia gay, e há a poesia negra, e há a poesia feminina, mas há também a poesia masculina, branca e heterossexual. O que escritores heterossexuais contemporâneos escrevem, como por exemplo Joca Reiners Terron, é-me com frequência completamente alheio. No entanto, sempre preferirei ler Terron, por sua qualidade literária, a algum escritor homossexual de pouca qualidade. A qualidade do texto é o primordial, mas não há porque acreditar que mesmo esta qualidade não será condicionada por certos fatores históricos e biográficos.

JC – Se vivemos um momento pós-utópico, tanto melhor?

DOMENECK – O pós-utópico, no qual não acredito e vejo como uma invenção que só faz sentido dentro do desenvolvimento da obra do autor que a cunhou, Haroldo de Campos, assim como obviamente na obra dos que a deturparam mais tarde para se entregarem a um decadentismo de péssimo gosto, poderia porém levar-nos a uma visão mais adulta da função política e social da poesia. Mas o que me interessa é que, mesmo que vivamos num momento pós-utópico, o que importa é que sempre, repito: sempre estaremos às portas do distópico, fazendo da poesia uma atividade eternamente pré-distópica, como a das vanguardas históricas mais vivas, seja o dadaísmo ou o trabalho da Internacional Situacionista (movimento poético surgido na Itália).

JC – É mais político oralizar estas perguntas ou publicá-las em escritas?

DOMENECK – Depende, como sempre, do contexto do texto.




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segunda-feira, 5 de março de 2012

Resenha de Laura Erber sobre meu livro "Ciclo do amante substituível", publicada neste sábado no jornal O Globo

Reproduzo abaixo, na íntegra, o texto da resenha de Laura Erber sobre meu livro Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012), publicada no caderno "Prosa & Verso" deste sábado, 3 de março de 2012, no jornal carioca O Globo, levemente editado (a imagem do texto no jornal está ao fim da postagem), basicamente retirando trechos de poemas e créditos de certas citações. Reproduzo o texto com muita alegria e gratidão, não apenas pelo fato da poeta Laura Erber, por quem tenho tanto respeito, ter apreciado o livro e o recomendado positivamente; mas pela beleza com a qual ela conseguiu, dando um exemplo de bom jornalismo, escrever um texto consciente do seu suporte de divulgação (um caderno de jornalismo cultural), respeitando tanto o livro como os leitores. Obrigado, obrigado, obrigado.



Laura Erber
Resenha do livro

Ciclo do amante susbtituível
de Ricardo Domeneck
Editora 7 Letras, 2012
190 pgs.


O poeta é um fingidor. O poeta não presta. O poeta já era. O poeta é um lixo. É um sismógrafo, sedutor, bandido, antena da raça. O poeta é uma graça. O poeta é sexy mas pode ser cruel. É delicado mas pode até morrer. Desde que foi posto pra correr da República de Platão o poeta não parou de despertar paixão e ódio, desconfiança, indiferença, alguma fofoca, sussurros, gritos e curiosidade. Mas afinal, o que pode e o que não pode o poeta? Em teoria, ele pode fazer e dizer tudo, mas na realidade da poesia e do seu sistema de valores, nem tudo pode ser dito ou feito. Há um acordo tácito que interdita certos temas e certas formas de dizê-los. Por exemplo: a confissão amorosa, a autobiografia deslavada e a elegia hedonista, até segunda ordem, continuam proibidas. Ao menos é essa a postura dos que ainda acreditam que força poética e matéria afetiva sejam termos antagônicos.

Pois Ricardo Domeneck, poeta, editor, tradutor e Dj, acaba de lançar um livro irresistivelmente lírico e extremamente bem urdido. Ciclo do amante substituível, editado pela 7 Letras, é um belo atrevimento. E não apenas pela alta voltagem homoerótica de certos poemas, mas porque vem balançar alguns pressupostos sobre os quais ainda se ancora boa parte da poesia produzida entre nós. Em tempos de excessiva espetacularização da intimidade, quando nem mais o cronista quer tocar o mundo sem antes invocar papai, mamãe e titia, a questão que se coloca logo de saída a este livro é: como criar uma voz profundamente lírica sem aprisioná-la na armadura tediosa do “eu mesmo”, no redundante narcisismo nosso de cada dia. Domeneck consegue desfazer essa armadilha transitando entre escombros de espelhos, mal-estar, exaltações, mitos literários, e atrizes mortas. Sem medo de mesclar referências atualíssimas e formas arcaicas – especialmente a elegia e a ode - sua poesia avança em ritmo frenético, hipnotizada pela sombra perturbadora do amor ausente, e sob o risco de se perder no fundo sem fundo da fossa. Recusando as facilidades do cinismo contemporâneo, mas rindo de si mesmo enquanto chora, o lirismo confessional desse livro parece ter saído diretamente dos versos de Drummond: “amar o perdido / deixa confundido / este coração”.

Vivendo em Berlim há vários anos, mas presente no Brasil datravés da revista Modo de Usar & Co., da qual é editor e co-fundador, Domeneck estreou em 2005 com o elogiado Carta aos anfíbios. De lá pra cá, sua produção assumiu também formas performáticas – tanto em vídeos quanto em recitais –, mas em Ciclo do amante substituível o performático deixa de ser sinônimo de vocalização do texto escrito e se apresenta como questão de sustentação de uma voz poética numa posição de enunciação desafiadora. Dividido em cinco partes, e com poemas escritos entre 2006 e 2011, o livro percorre o ciclo do amor-desamor, a começar pelo “amante substituível”, passando pela deliciosa “arte de substituir o insubstituível” e chegando finalmente ao “Por que todo poeta sonha escrever seu próprio epitáfio” que retoma um dos poemas do seu livro anterior, Cigarros na cama, lançado discretamente pelas Edições Modo de Usar em 2011. Ali também havia morbidez melancólica filtrada pelo humor e, em ambos, o corpo e o corpo da linguagem se confundem: “a escrita / por cópula / de signos / em metamorfose / na Ilha / de Páscoa / após contacto /com europeus”. A língua comparece em sua dupla significação, é tanto o idioma que marca a distância entre o poeta e o ex-amor, quanto o músculo que ligava aqueles dois corpos. “destarte escrevo este texto na língua de que nem sílaba você domina, esta língua que é meu sistema de signos e também com o que o lambo, língua em que “vontade” é-me ao mesmo tempo aquilo que impera e aquilo que implora”. Como nos fragmentos amorosos de Barthes, o vivido é gerador de reflexões sobre as contradições do sentimento amoroso, que se traduz num tom deliberadamente contraditório, comicamente grandioso, em versos quase sempre breves e sonoros.

Às vezes o “eu” é objetivado na terceira pessoa e torna-se um “ele”, tal como indicam vários títulos: “Texto em que o poeta sente-se impelido a dizer a Jannis Birsner em Zurique o que Frank O’Hara quis dizer a Vincent Warren em Nova Iorque”. Que o leitor não se assuste diante da enxurrada de referências: “Nossa pátria era a língua de Maysa, / mas também a de Maki Nomiya, / e a de Björk, e a de Beth Gibbons”, ou: “Naquele tempo você carregava livros / de Ana Cristina Cesar, eu os de Hilda Hilst / que eu comungava com o mundo em catequese, / mas você recusava emprestar os de sua suicida”. A abundância de nomes citados não torna a leitura hermética, pelo contrário, convida o leitor a participar do ciclo de formação do poeta e é tratada com ironia pelo próprio autor quando escreve: “Nada, no fundo, / importa muito, Maria Schneider. / Em duzentos anos, / quando o acúmulo / de notas de rodapé / para esse meu texto / exceder o número / de caracteres / do próprio / para que possa / ser compreendido, eu também serei / punhado e opróbio / de pó e ossos / como você.” O que interessa é o modo como se articulam e se tensionam os mitos pessoais, leituras, lugares e afetos, de modo que parece dispensavel a inserção de algumas notas incluídas no fim do livro, onde o autor explicita suas fontes num tom explicativo que destoa da organicidade dos poemas.

É possível e talvez desejável ler esse livro como uma ficção poética em que Domeneck transforma a si mesmo em personagem tragicômico de uma trama lírico-reflexiva; um livro em que as relações afetivas e as referências artísticas formam uma massa de sentidos totalmente imbricados. Domeneck parece ter plena consciência de que da modernidade herdamos o anti-expressivismo e o duro divórcio entre poesia e lirismo. É verdade que os ataques ao transbordamento lírico livraram a poesia do sentimentalismo barato e das sublimações soporíferas, abrindo caminho a outros e mais potentes modos de usar. Mas como não deixar o bebê escorrer com água? A tão surrada lírica amorosa, tradicionalmente identificada com uma primeira pessoa do singular autocentrada, tem sido submetida a uma importante revisão crítica nas últimas décadas. Jean-Michel Maulpoix, por exemplo, sugere que o lirismo deixe de ser lido como uma poesia centrada no eu, e que se comece a perceber nela o incessante extravio do sujeito, a “saída de si” de um “eu” alucinado pela força de atração do objeto amoroso. Longe de ser uma forma inocente e impensada de lamento, sua poesia implica um forte trabalho de encenação. A emoção aí não é nem ingênua nem fingida, mas um ato profundamente performático. Trata-se de reconquistar liberdade poética na própria escrita do poema, colocando-se em risco, pois, como já foi dito, “a poesia como o amor arrisca tudo nos signos”. Ciclo do amante substituível mostra que um coração em frangalhos, cavalgado com brio e boas doses de humor, pode render alguns dos mais irresistíveis versos da nossa época.







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