domingo, 28 de setembro de 2008

Olha a manhã dos nossos setembros!

Sol em pleno setembro pode ser motivo para vocativos e imperativos em poetas primaveris em São Paulo, porém mais ainda para poetas outonais em Berlim. Para não frustrar as hipóteses dos que dormiram e acordaram, o sol ergueu-se esta manhã e não havia uma única nuvem sequer para atrapalhar sua escova e o planeta nem distanciou-se assim tanto tanto da bolota de fogo e contra todas as expectativas faz calor em Berlim em pleno fim de setembro e o que é que eu estou fazendo aqui, na frente deste computador, quando os dias de mesas de café nas calçadas estão contados para este ano de 2008 na Berlim bombardeada até as entranhas?

Dizer sim com o sol violentando a pele das pálpebras deste vosso servo vertebrado, estabelecer a trilha sonora do dia, retornando à mulher que me embala o sono e a vigília estas semanas, sra. Beth Gibbons, obrigado most thankful danke danke.

Weinbergspark, aqui vou eu, com o Essay on the ontology of the present de Fredric Jameson e os 20 poemas para o MEU walkman de Marília Garcia e The Poems of Laura Riding na sacola. Com o amigo Jonas Lieder e muito, muito café.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Marília Garcia & Aníbal Cristobo


("açaí ou cine paissandu para aníbal cristobo", vídeo da poeta Marília Garcia no Rio de Janeiro para o poeta Aníbal Cristobo em Barcelona.)

Marília Garcia nasceu em 1979 no Rio de Janeiro e é um dos mais excepcionais poetas brasileiros contemporâneos. Sua existência faz de mim um poeta mais feliz, uma pessoa mais calma e esperançosa. Ler 20 poemas para o seu walkman é dar as mãos a um poeta.

Aníbal Cristobo nasceu em 1971 em Buenos Aires e é também um dos mais excepcionais poetas contemporâneos... brasileiros. Miniaturas Kinéticas é tão bonito. Tão bonito.

Eu fecho os olhos para vocês dois e digo sim. Saudades do Rio de Janeiro e dos amigos que lá gorjeiam.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Última pessoa do singular

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a transitividade dos ciúmes
muda de língua em língua

e me confunde como objeto
sem júri nesta sentença

ou juiz de sujeito oculto
se uso "dele" o possessivo

em pronomes do próprio
do comum e exponho

o cúmulo dos ciúmes sem
saber se "dele" é a ameaça

ou recompensa na cidade
sitiada do corvo e fígado

feitos à nossa margem
e semi-aliança.



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"The Rip", Portishead:




"The Rip" covered by Thom Yorke and Johnny Greenwood of Radiohead:

"Eunoia" - Christian Bök

Páginas e leituras do livro Eunoia (2001), de Christian Bök:


(Página inicial do Capítulo A de Eunoia)

Chapter A of Eunoia - Christian Bok

(Leitura de Christian Bök para o Capítulo A de Eunoia)

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(Página inicial do capítulo E de Eunoia)

Chapter E of Eunoia - Christian Bok
(Leitura de Christian Bök para o Capítulo E de Eunoia)

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(Página inicial do capítulo I de Eunoia)

Chapter I of Eunoia - Christian Bok
(Leitura de Christian Bök para o capítulo I de Eunoia)

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(Página inicial do capítulo O de Eunoia)

Chapter O of Eunoia - Christian Bok
(Leitura de Christian Bök para o capítulo O de Eunoia)

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(Página inicial do Capítulo U de Eunoia)

Chapter U of Eunoia - Christian Bok
(Leitura de Christian Bök para o capítulo U de Eunoia)

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Christian Bök nasceu em Toronto, no Canadá, em 1966. Faz parte da comunidade poética que abrigou poetas experimentais como bpNichol (1944 - 1988) - uma figura que assume na poesia canadense um papel parecido com o de Paulo Leminski na brasileira, Steve MacCaffery e bill bissett nas décadas de 70/80 e hoje conta ainda com outros investigadores e instigadores como W. Mark Sutherland e Nobuo Kubota. Christian Bök é professor na Universidade de Calgary.

Sua estréia em livro deu-se em 1994, com o volume Chrytallography, que ele chama de "pataphysical encyclopedia". Também poeta-performer, seu trabalho espraia-se pela poesia sonora, apresentando-se em vários festivais de poesia experimental do hemisfério norte, muitas vezes oralizando poemas fonéticos de dadaístas como Hugo Ball e Kurt Schwitters, e pela poesia visual.


("Ubu The First", poema visual de Christian Bök)

Seus textos muitas vezes mostram-se como fronteiras que unem mais do que separam tendências distintas. Se alguns textos são compostos sob a imposição de técnicas e procedimentos bastante rígidos e precisos, o que o aproxima da poesia conceitual de John Cage, Joseph Kosuth ou Kenneth Goldsmith, o humor exuberante de sua personalidade de performer aproxima-o de figuras como Kathy Acker e dos poetas flarfistas atuais, como Michael Magee e K. Silem Mohammad.


(Leitura de Christian Bök em Toronto, 2007)

No entanto, seu trabalho mais conhecido é o livro Eunoia, um tour-de-force poético que fez de Bök um dos poetas experimentais mais conhecidos e populares do Canadá e Estados Unidos. Eunoia é considerado por muitos um dos trabalhos mais fortes dos últimos muitos anos, trabalhando com inteligência procedimentos que ligam Christian Bök a escritores como Raymond Roussel e Gertrude Stein, aos franceses do OuLiPo, aos poetas ligados à revista L=A=N=G=U=A=G=E e à Conceptual Poetry de autores como Kenneth Goldsmith. Na verdade, o canadense Christian Bök é visto, ao lado do americano Goldsmith (n. 1961), como um dos grandes representantes da poesia conceitual em língua inglesa hoje, aos quais poderíamos ainda unir a poeta franco-norueguesa Caroline Bergvall (n. 1962), que vive na Inglaterra e escreve em inglês.

Eunoia foi publicado em 2001. Além de outros textos criados a partir de procedimentos estabelecidos pelo poeta, o livro conta com os cinco capítulos iniciais, em que o poeta usa em cada capítulo palavras que tenham apenas uma das cinco vogais. Assim, no Capítulo A (dedicado a Hans Arp), apenas palavras com "a", no Capítulo E (dedicado a René Crevel), apenas palavras com "e", e assim por diante (o Capítulo I é dedicado a Dick Higgins, O a Yoko Ono e U a Zhu Yu).



Ao impor-se tais dificuldades estruturais, criando uma narrativa que discute de forma inteligente uma possível poética contemporânea, Christian Bök doou-nos um trabalho em que escrita e oralidade fundem-se de forma orgânica, em que o teórico casa-se com o satírico, fazendo de Eunoia um dos livros mais divertidos e estimulantes do novo século. Ao pensarmos em um livro como Eunoia, mesmo nossa noção de tradução precisa ser repensada, pois é um dos casos em que o que o poeta FAZ e o que o poeta DIZ estão intrinsecamente ligados.

Abaixo, as páginas iniciais de cada um dos capítulos de Eunoia, seguidos dos arquivos de som em que Christian Bök lê, por completo, cada um dos capítulos. Poetas como Christian Bök demonstram as possibilidades reais de experimentação no novo século, tomando os experimentos das vanguardas como procedimentos e manuais úteis, sem pregar qualquer retorno ao seio da autoridade da tradição. Mais uma opção para os jovens poetas que não estão interessados em álibis para fazerem poesia de elefantíase semântica, metáforas decadentistas e preciosismos verbais. A poesia de Christian Bök renova o verbivocovisual e dá novos sentidos à noção de precisão de linguagem, sem perder o humor e a comunicabilidade.


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terça-feira, 23 de setembro de 2008

"A Escada de Wittgenstein" de Marjorie Perloff, finalmente no Brasil


Finalmente no Brasil. Indispensável. Inteligentíssimo. Delícia de leitura. Remédio contra: elefantíase semântica, misticircose, celanitite aguda, inflamação pseudo-objetivóide e atrofia da glândula que controla o hormônio da historicidade. Marjorie Perloff está entre aqueles críticos deliciosos que transpiram entusiasmo e paixão pelo que escrevem. Como Walter Benjamin. Como Hugh Kenner. Como Alfredo Bosi.

Jovens poetas, agarrem o livro.

A ESCADA DE WITTGENSTEIN :
A Linguagem Poética e o Estranhamento do Cotidiano


de PERLOFF, Marjorie
trad. BERNARDINI, Aurora Fornoni ; LEITE,Elisabeth Rocha
EDUSP

ISBN: 8531410215
Formato: 16x23 cm
Nº de Páginas: 306 pp.


"A crítica de literatura e de arte Marjorie Perloff discorre neste livro sobre a relação das obras filosóficas de Wittgenstein com a arte, a poesia e a linguagem, até o estabelecimento de uma poética wittgensteiniana, sobre um fundo histórico que a autora conhece bem. Comenta as obras do filósofo, aprofundando-se nas relações que escritores contemporâneos estabeleceram com elas, em especial Gertrude Stein, Samuel Beckett, Ingeborg Bachmann e Thomas Bernhard. Analisa também certos experimentos recentes, desta vez nos Estados Unidos, que visam a articular uma poética do cotidiano como fruto do questionamento da linguagem empreendido por Wittgenstein."

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

the poet says, the poet does

"A word on Academies; poetry has been attacked by an ignorant & frightened bunch of bores who don´t understand how it´s made, & the trouble with these creeps is they wouldn´t know Poetry if it came up and buggered them in broad daylight."

Allen Ginsberg, "Notes for Howl and Other Poems", 1959.

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"Cada palavra tem sua história, sua biografia, sua etimologia. Seu uso deflagra uma constelação de sub-significados e sentidos que, em cada idioma particular, tem certo desenho próprio e intransferível. A palavra é, essencialmente, política. Portanto, ética. Daí, talvez, a dificuldade de transformar a literatura, a poesia, em mercadoria."

Paulo Leminski, "Arte in-útil, arte livre?" in Anseios Crípticos, 1986.

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"Tradition is an aspect of what anyone is now thinking - not what someone once thought. We make with what we have, and in this way anything is worth looking at. A tradition becomes inept when it blocks the necessary conclusion; it says we have felt nothing, it implies others have felt more."

Robert Creeley, "To Define" in The Collected Essays of Robert Creeley, 1989.

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"Poetry is having nothing to say and saying it; we possess nothing."

John Cage, "Introduction to Themes & Variations", 1982.

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"I love getting the body into my writing, especially to subvert ideas like `pure thought´."

Rosmarie Waldrop, "Interview-conversation with Joan Retallack"

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Quando o fim das gentilezas é a manhã

Acordar num colchão sem lenço de sol e admitir com o vidro da janela que o verão nada sumério nestas paragens chegou a sua finissagem. Pode vir, inverno berlinense. Faz de meu setembro o teu novembro e sussurra: "Quites por teus excessos de julhos". Cerra os punhos e pelo menos neva sobre minha cabeça este ano. Eu agüento mais um, desde que ignores o aquecimento e as abelhas e me cubras os ossos de neve suja.

Há o consolo do som de alguém moendo grãos de café na cozinha. Quem será? Sim, agora me lembro. Mesmo que não haja leite no refrigerador, há o açúcar, há o açúcar.

Com a jaqueta mais nova e os sapatos mais velhos, faço a ronda pelos cafés do bairro com os livros e revistas recentes: o número 10 da revista portuguesa Águas Furtadas, que ganhei de Angélica Freitas este fim-de-semana em Berlim, o livro A Singular Modernity de Fredric Jameson e uma das antologias mais interessantes que já vi da poesia estadunidense do pós-guerra, editada por Paul Hoover, encontrada em um abençoado sebo.

Apesar do nome bobo (Postmodern American Poetry), o editor impressiona ao incluir na antologia (além dos nomes excelentes mas óbvios de sempre, como Charles Olson, Allen Ginsberg, Robert Duncan ou John Ashbery), poetas muitas vezes excluídos por não se encaixarem muito bem no "cânone do gênero", como John Cage, que comparece com os "25 Mesostics Re and Not Re Mark Tobey" e seu "Writing through The Cantos"; Jackson Mac Low com vários de seus poemas compostos por chance operations; Jack Spicer, com algumas de suas Imaginary Elegies e ainda textos dos "Morphemics" and "Phonemics"; Hannah Weiner, com trechos de seu Clairvoyant Journal; David Antin com um de seus "talk poems" completo ("a private occasion in a public place"); e ainda Susan Howe, Rosmarie Waldrop, Nathaniel Mackey, Lyn Hejinian, Mei-mei Berssenbrugge ou figuras mais conhecidas como romancistas, como Charles Bukowski e Dennis Cooper.

Antes de ir visitar meu amigo Jonas Lieder, cujas tonsilas haviam adquirido tamanho e cor de bolas de baseball, passo pela livraria inglesa, onde compro um livro de ensaios de Susan Sontag e o livro de Thurston Moore e Byron Coley sobre o No Wave pós-punk nova-iorquino do período 1976 - 1980. Alugo dois filmes estrelados por Bette Davis para distrair-me com Jonas no estômago da baleia e o resto do dia soa algo assim como velhas canções de DNA.




Cortázar y el Minotauro

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