quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Uma pochete para Antonio Prata




Ora, direis, não tens humor, Domeneck?

Tenho, creio já ter demonstrado, ainda que ele tenha pretensões a ser de outra estirpe, ocupado, como vivo, querendo emular gente como Oscar Wilde e Dorothy Parker, ou, mais recentemente, Fran Lebowitz e Stephen Fry. Perdoem. Gera certa acidez na boca, lidar com wit, não humour. Quem leva pedrada aprende a rir diferente. Não há-de me emplacar nas paradas de sucesso da Globo, da Folha, ou levar-me à cadeira do Jô. Culpo meus pais por não terem morado no Rio de Janeiro enquanto eu crescia, para que eu desenvolvesse este gosto pitoresco pelo escracho, o que transforma comediantes brasileiros em luminares da cultura nacional pela porta da frente.


Ora, direis, não tens humor, Domeneck?

Tenho, sorri com o canto da boca, por exemplo, ao ler hoje o texto de Antonio Prata na Folha, chamado "Direitos do homem (sensível)" (Folha de S. Paulo, 30/11/2014), em que ele reclama humorísticamente da falta de um movimento político que o defenda, jovem heterossexual que só quer poder assistir a um jogo do Criciúma com a namorada num sábado à noite, andar de patins e de pochete. Falta-lhe discernimento para perceber que queremos apenas salvá-lo de si mesmo e do ridículo de seu desejo de pochete. Quanto ao jogo do Criciúma, knock yourself out. Como disse Wilde, a pior coisa que pode acontecer a um homem não é não conseguir o que deseja, mas sim o conseguir. No entanto, tenho firmes convicções democráticas, gostaria que Antonio Prata fosse feliz e hoje mesmo fosse visto sob a marquise do Ibirapuera, de patins e de pochete.

Ora, direis, não tens humor, Domeneck?

Não espero exatamente do Brasil, a esta altura, um Monty Python, e já não leio há anos a Folha e os grandes autores contemporâneos nacionais que lá escrevem, a não ser quando algum amigo virtual posta um artigo precedido por aquela curiosa repetição da letra K para demonstrar seu riso. Gosto de riso, caio como mosca no mel. Pessoalmente, preferiria que brasileiros não usassem a letra K desta forma, pois sempre me faz imaginá-los não rindo, mas cacarejando sob um capuz branco pontiagudo. Poderiam usar o R e o S juntos, como fazem outros, ainda que isso sempre leve minha mente para o Rio Grande do Sul, e sei que é preciso escrever um poema sobre o Rio Grande do Sul, mas eu estive lá o mesmo número de vezes que esteve Drummond na Bahia. Sempre sugiro o inglês LOL, porque me lembra o SOS, e penso que todo riso tem seu aspecto de braços agitados em alto-mar, o corpo já meio submerso.


Ora, direis, não tens humor, Domeneck?

Sim, sim, não quero ser adepto da "política do ressentimento", nem sacerdote do politicamente correto. Leio o texto do homem sensível, Antonio Prata, e sorrio com o canto da boca, sim, eu confesso, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, vejo nele um daqueles exemplos escamoteados de machismo, daqueles bem básicos, mas é humour, eu sei, além do mais brasileiro, nós somos a democracia racial e ostentamos esse machismo, mas é um machismo democrático, inclusivo, que diz ao amigo viado e à amiga puta que riam, riam, vamos rir para não chorar enquanto são os viados e as putas que levam pedrada. Mas lá está o homem sensível, para nos abraçar e dizer, riam, riam!, vamos rir para não chorar. E ele pede tão pouco, apenas que o deixemos usar uma pochete.

Ora, direis, não tens humor, Domeneck?

Tenho, claro, por que haveria de me apoquentar porque o celebrado e talentoso colunista da Folha pediu um movimento que defenda os homens sensíveis, mesmo que isso lance mão de um nivelamento pela piada de reivindicações sérias de movimentos realmente políticos das minorias, que já falharam até em conseguir proteção na Constituição? Não é culpa dele que estejamos lidando com homens nada sensíveis como Jair Bolsonaro, que também gosta de rir, ele está apenas cumprindo seu número de toques para o jornal, seu texto semanal, seu ganha-pão, não precisa de bichas azedas acusando-o de talvez ter escrito um texto levemente machista, ainda que bastante democrático. E certamente muita gente riu e espalhou Ks e Rs e Ss pelas redes sociais. Pessoalmente, ri mais com as fotos da Parada do Orgulho Hétero no Rio de Janeiro.

Ora, direis, não tens humor, Domeneck?

Certamente, sei até mesmo que gente da minha laia precisa ter, já que só entra na novela da Globo se for para servir de palhaço, tem que ser engraçadinho, então somos, somos muito engraçadinhos, estamos aqui, fazemos nosso papel, tentamos salvar os machos sensíveis de seus desejos irrefreáveis por pochetes, já nos acostumamos até a ver como, 5 anos mais tarde, até os boys da Paulista estão usando as roupas que usávamos 5 anos antes, alguns estando talvez até entre os que se divertem, nos finais de semana, quebrando coisas na nossa cabeça na mesma gloriosa avenida. De qualquer forma, tenho minhas convicções democráticas, elas são firmes, e se alguém puder, por favor, envie para a redação da Folha de S. Paulo uma pochete, endereçada a Antonio Prata. Eu pago.

.
.
.








terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Philippe Wollney

O poeta pernambucano Philippe Wollney


Não conheço Philippe Wollney pessoalmente. Descobri seu trabalho no ano passado, quando vi seu nome entre os convidados do Festival Internacional de Poesia do Recife, do qual eu havia participado no ano anterior. Tento me manter informado sobre o que está sendo publicado no Brasil, responsabilidade de editor e crítico, e pesquisei sobre seu trabalho. Em correspondência esparsa com o poeta pernambucano, preparei uma postagem para a Modo de Usar & Co. e venho seguindo suas publicações.


Vídeo baseado em texto de Philippe Wollney

Philippe Wollney nasceu na cidade de Goiana, Pernambuco, em 1987. Lançou o livro Poemas de um eu cretino (2014) e publica trabalhos ainda pelo selo Porta Aberta. Pelo que pude ver e ler até o momento, parece-me um autor com clara formação na tradição oral de Pernambuco, bastante ativo na cena cultural de sua cidade, e com um talento claro para a vocalização e a performance. Gosto muito dos poemas abaixo, e recomendo localizar o pernambucano em seus radares. Espalho aqui as boas novas, natas nos 80.


DOIS POEMAS RECENTES DE PHILIPPE WOLLNEY (Goiana - PE, 1987)


[o que aconteceu conosco]

o que aconteceu conosco

que neste inverno
o que nos tira o frio
são as fagulhas de nosso inferno

o que aconteceu conosco

o sarcasmo de nossos olhares
transmutado
na tragédia do zodíaco a dois

o que aconteceu conosco

a manhã sorridente de papel celofane
dasanuviado
a sobra apenas dos caninos

o que aconteceu conosco

abraços carregados nos dentes
afagos nas cáries
e um delicado carinho de barbárie

o que aconteceu conosco

brotoejas de anêmonas no pescoço
trocando colares
de dedos e dentes de crianças

o que aconteceu conosco

tórax essa caixa de muambas
coração do paraguai
um futuro made in china

o que aconteceu conosco

o reduto do vinho, o umbigo
parada obrigatória
da língua na chaga no ventre

o que aconteceu conosco

assovios de encantar serpente
da cobra
a pele morta do dia aparente

o que aconteceu conosco

o que se abria em lábios
do beijo
o sobejo de uma carne que não se digere

o que aconteceu conosco

pés que tilintam são ecos
em um salão vago
e uma sinfonia de calos e vida encravada

o que aconteceu conosco

que de morno os nossos nomes
o mofo
e a fome de pastores tangendo o rebanho

o que aconteceu conosco
o que aconteceu com nós
com os nós

§

[quando eu disse, eu te amo]

quando eu disse, eu te amo
já haviam se passado quatro anos
que se estouravam cravos
e se cravavam unhas roídas
em meus cabelos secos.

quando eu disse, eu te amo
todos os livros de nosso poema
já estavam com as bordas das páginas
cheias de tártaros
e flores de café em nossas leituras.

quando eu disse, eu te amo
os discos haviam perdido suas capas
todas as faixas eram chamadas pelos primeiros versos
e não havia mais autoria
todas eram nossas.

quando eu disse, eu te amo
o bojo do violão no canto da sala
já havia servido de bandeja para cerveja
assento para nossa filha
e assistiu todas as minhas falhas.

quando eu disse, eu te amo
resolvi mudar todos os quadros da sala
plantei agrião na pia
e interditei a geladeira para servir de jardim
para alecrins, erva-doce e coentro.

quando eu disse, eu te amo
finalmente compreendi porque geraldo azevedo é foda
e sua música penteou meus lábios
e revirou a tábua de marés de meu coração.

quando eu disse, eu te amo
não me senti melhor, nem pior
nem tão pouco dizendo algo de especial
apenas me senti pequeno e inundado
por um segredo que quase esqueci.

quando eu disse, eu te amo
criaturas abissais dos mares frios de meu peito
fizeram vanguarda em meu desespero
tomaram absinto e se habituaram
a sentimentos profundos.

quando eu disse, eu te amo
mais uma criança velava seus pais
mais pais velavam seus filhos
e se retomava o habito de criar
presos políticos.

quando eu disse, eu te amo
havia me tornado angústia e espera
como os quadros do chirico
e escondi embaixo do lençol vermelho
a antologia de poemas de brecht.

quando eu disse, eu te amo
aquele cão dos infernos zombeteiro
passou a mão em minha bunda
e me deu uma rasteira.
- a vida não é literatura, porra!

quando eu disse, eu te amo
de minha boca fez-se espuma
e como animal em cólera
mordi o próprio rabo
e dormi lambendo ossos.

quando eu disse, eu te amo
havia chegado tão tarde
que o bonde do desejo
já havia passado há dias
e por outros 23 dias, queimava a parada,
e plantei bredos no asfalto.

quando eu disse, eu te amo
o tempo havia fechado
e por mais que quiséssemos
os nossos tênis não secaram atrás da geladeira
- nos tornamos pés frios.

quando eu disse, eu te amo
a barra havia ficado pesada
nas mochilas não cabiam todos os livros
e por mais que precisássemos carregar
móveis e eletrodomésticos
comemos pão frio, lendo manoel de barros.

quando eu disse, eu te amo
já não adiantava chorar pelo leite derramado
ou pelo aumento dos alugueis
compramos uma barraca de acampe
um colchão de ar
e seja o que deus quiser nos arrecifes da vida.

quando eu disse, eu te amo
minhas palavras precisavam de fiador
e de um seguro contra perdas e danos
e todas as minhas senhas de e-mail e dos bancos
estavam apregoadas na porta da geladeira.

quando eu disse, eu te amo
tenha dito tarde demais
com um amor demais
para um eu em menos.

quando eu disse, eu te amo
eu disse.

.
.
.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Ederval Fernandes


O poeta de Feira, Ederval Fernandes

Conheci Ederval Fernandes, nascido em Feira de Santana em 1985, quando estive em Salvador para ministrar uma oficina na Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ederval Fernandes é crítico e poeta de mão firme, especialmente quando usa o corte ágil. Tem, além disso, um dos trabalhos mais interessantes, que li nos últimos tempos, na pesquisa dialetal e de léxico local, como no poema "O cobrador da van disse" e, de outra maneira, em outro poema seu recente, "A cabeça do preto", publicado por ele nas redes sociais, poema também de força política diante de nosso racismo sistêmico. Nesta postagem, tentando mostrar dois aspectos de seu trabalho, posto "O cobrador da van disse", com vocalização dialetal do poeta, e o ótimo "Da minha boca". Seu livro de estreia, O Livro Conta Corrente (Feira de Santana: Sarò, 2014), será lançado este mês.

§

DOIS POEMAS RECENTES DE EDERVAL FERNANDES (Feira de Santana, 1985)




O cobrador da van disse

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

§

Da minha boca

a vertigem
do dia são estas
horas:

luz e fogo
levando
embora a noite
calma.

um nada
no nada,
meu adágio
sai e segue.

e um deus (morto)
bebe um café
comigo.

 *

“perigo”,
ele me diz,
“não sou eu,
amigo,
o infeliz
que te trouxe
ao veneno”.

eu sei, eu
digo,
desde pequeno

(cravado
no umbigo)
trago comigo

este jogo
de ases.

e não
vou, eu sei,
fazer
as pazes:

se as fiz,
eu falhei.

 *

do som,
quero a canção;
da mão

(é verdade),
quero e não sei
a liberdade.

não da forma
oca - o veneno
é da boca.

se a língua
portuguesa
é pouca,

isto não é
problema?

não aqui,
assim,
no meu poema.

.
.
.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de William Zeytounlian


William Zeytounlian, o esgrimista francófilo


Descobri e tive o prazer de conhecer alguns novos poetas este ano. Dentre eles, William Zeytounlian é certamente um dos que acompanho com maior interesse, e de quem espero poder em breve ler o livro de estreia. Os poemas espalhados pela Rede já mostram o talento auspicioso do jovem paulistano. Postei vários já na Modo de Usar & Co., da qual Zeytounlian tornou-se colaborador assíduo, com poemas, artigos e excelentes traduções. Ele foi também traduzido para o castelhano por Paula Abramo, que comparte comigo do entusiasmo por seu trabalho. Uma das traduções foi postada na revista que coeditamos, Area de Libre Poesía de las Américas. Li recentemente este novo poema dele, que demonstra mais uma vez a qualidade do que vem fazendo. Excelente poema. Encerro com o último que publicamos na Modo de Usar & Co. Os nascidos nos 80 vêm chegando. Aliás, jamais compreenderei os poetas mais velhos que ignoram o trabalho dos mais jovens. Alguns dos diálogos mais intensos e frutíferos que tive nos últimos anos foi com autores dez anos mais jovens que eu. Bem, também não estou tão velho assim (wishful thinking). Mas ao que importa: dois belos poemas de William Zeytounlian.


DOIS POEMAS RECENTES DE WILLIAM ZEYTOUNLIAN (São Paulo, 1988)


Monumentos à barbárie (toda parte)

sobra sobre sobra –
assim se desdobra
a intraduzível sombra
que ombro a ombro
assombra a estranha
soma que escombra
os monumentos;

pedra sobre pedra –
assim se manifesta,
à margem da imagem,
no abismo de uma fresta,
a larva que infesta a cesta,
a malha que a lama orvalha.

§

[noite fora]


noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida

*
não basta

*

página de
acético ph

quebradiço
o papel como
um biscoito

as
promessas
nunca tardam
–
nunca tardam
em falhar.

*
não basta

*

banal
holocausto

do século
infausto:

por um
celular

a substância
vacila

entre as
facas
de cozinha.

*
não basta

*

noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida


.
.
.

Bilhete dos hoplitas aos que leem sobre as Portas Quentes com a barriga de fora nas termas de Poços de Caldas

Jacques-Louis David, "Leônidas nas Termópilas", 1814

Bilhete dos hoplitas aos que leem sobre as Portas Quentes com a barriga de fora nas termas de Poços de Caldas


                                            "I was neither at the hot gates
                                            Nor fought in the warm rain"
                                                             T.S. Eliot


Se medos e suas flechas
hão-de escurecer o céu,
ante cissianos, de grevas,
de nós não soa cicio, eco.

As falanges não quebram,
carpos e metacarpos rijos
na lança. Somos hoplitas,
sem mãe, só elmo e terra.

O hóplon contra Xerxes.
A nosso lado Leônidas,
e a seu lado, Dieneces.
Daimon? Lacedemônio.

Aos de Atenas o templo,
a Temístocles, trirremes.
Diz o oráculo em Delfos,
salvo-conduto: madeira.

Mas nós aqui sabemos:
os de Esparta e Tebas,
com os escudos, hemos
de salvar suas festas,

mistérios, sua Elêusis,
para mais tarde Atenas
afundar o Peloponeso,
declarando-nos guerra,

e devastada por doenças
dentro de seus muros,
culpar o seu tagarela,
Sócrates, por sua queda.

Mas isto será no futuro.
Outro inimigo nos ocupa.
A cada povo seu Efialtes.
Ao de hoje, a sua prata.

Nos corpos, agora, óleo.
Mais tarde, há Cartago,
Roma, Paris, Washington.
Fizemos nosso pacto.

Somos meros esqueletos
nas Termópilas. Vocês
aí estão, gordos, lendo,
as luas de mel em termas.

A nós, as Portas Quentes,
mas a vitória em Plateia.
Vocês? Leite morno, Lete
diário, Poços de Caldas.


Espartanos, nesta esfera,
nem terão sua capital.
Atenas deverá dinheiro
a quem ora são bárbaros

vivendo nas florestas
ao norte. Que importa?
Nós escolhemos morte
a ser escravos, servos.

Às vezes resta apenas,
como àqueles gregos,
pentear seus cabelos
e esperar pelos persas.

§

Berlim, 03 de dezembro de 2014, comendo miojo.

.
.
.

domingo, 23 de novembro de 2014

Luto: Morreu na França o poeta Bernard Heidsieck

Não tenho palavras agora. Morreu Heidsieck.



.
.
.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Enquanto faço esta postagem, Maximin dorme em minha cama, então vão aqui os três poemas já publicados das "Odes a Maximin"




Odes a Maximin




a M.






Ora
cansei-me d´O Moço,
há o tempo de bajular
e o tempo de escorraçar
os fantasmas
dos natais passados
para permitir-me
deixar-me encurralar
por outros
e dessarte inicio
esta celebração
do bendito
menino filantropo
que passo a chamar
de Maximin.




1.



Texto para o menino que por vezes me visita, quando se cansa de meninas, e que doravante chamarei de Maximin, como se este fosse o último bilhete de Heliogábalo a Hierócles


Como o sol que incha e cresce,
Maximin, são teus 
a pujança, o tônus e a tesura.
Quem-me-dera pudesse dar-te
todos os dias
o que é digno de tua condição
cesariana, ou fosse eu a carruagem
conduzida por tua potência
equina, oxalá
eu o cavalo que montas
com maestria, charioteer,
eu, tua cheerleader, que vivo
da caridade do teu epidídimo,
ora deixa-me
descansar o pescoço
extenuado sobre teu corpo
esponjoso, meu cabelo
confundindo-se com teus parcos
pelos púbicos, já quase públicos,
Maximin, tanta é a segurança
com que te exibes no mercado
e na ágora, maximiza-me
em tua perene intermitência,
diariza tuas doações
tão fluidas sobre meu rosto,
je vien, tu viens,
então vem e quebra
com teus sucos
meu jejum, Maximin,
minimiza minha idade,
mexe-me contigo em mim,
tantas são, miríade,
as posições possíveis
entre cavalgadura
e montaria, Maximin,
machuca-me
à prostrada, naquele pontículo
entre delícia e cicatriz,
pois os cães pretorianos
já se aproximam
para arrastar-me aos gritos
desse trono que usurpo
quando te cansas do vúlveo
e escalamos a torre de marfim,
mas ainda assim trono
onde se crê que alguma menina
melhor sentaria,
Maximin, e já sabemos
qual será nosso fim.


2.




Texto em que o poeta quer deitar Maximin num diwan e cantá-lo feito um místico árabe, quando então se lembra da ascendência do divino rapaz

Filho de berberes e alemães
graças à fuzarca abençoada
de corpos após a Queda
do Muro, me disseste
que foste o mais perfeito
bebê da maternidade
de tua mãe, a generosa.
Eu creio e sou devoto.
Não sei se necessário
um começo perfeito
para teu óbvio sucesso,
agora, no pleito.
Seria prudente comparar-te,
seguindo a antiga arte
dos meus colegas árabes,
tal Muhammad al-Nawaji
ou meu caro Abunuwasi,
e afirmar de gazela
as tuas pernas
tão firmes, estáveis?
Seria cometer uma gafe
etnográfica, se entoasse
em cantares dos cantares,
tal um árabe, a tua púbere
belezura berbere?
Tudo o que sei
é que, se não vens,
sou um mero magrelo
a atravessar feito camelo
o Magrebe.
Maximin, ademais,
nos ademanes
da minha nomenclatura
mais que científica
dos corpos do teu gênero,
dividindo rapazes
entre touros, leões e cavalos,
sempre te considero espécime
ideal das pujanças taurinas,
teu torso e teus ombros
que seriam edredão fácil
de tão largo
ainda que não mui macio,
sobre todo o meu corpo
raquítico e geriátrico,
como esses teus membros
de tronco de carvalho
que frequente
me deixam em estado
de Salix babylonica.
Tua inteligência de cão
de rua, a forma das mãos
com que nos manipulas
fácil pela lente do desejo
que distorce tudo, fazem-te
mais perigoso que o coice
de cavalo, a garra do leão
e todos os chifres de touro,
como este que carregas
nas tuas calças
largas de skatista.
És um tanto sádico.
Maximin, queria beber
apenas uma vez mais
teu suor e saliva e sêmen
de berbere
escorrendo de tua pele
de bebê.
Quando? Onde?
Ainda não te cansaste
daquela caverna escura?
Escalemos o pico nevado.
Vamos comer sushi
diante de um Fuji
falsificado de Hokusai
nos restaurantes
dos imigrantes
dessa tua cidade.
Sou meteco,
não grego,
são esparsos
os meus privilégios
e minhas bulbouretrais
já se cansam do estado,
como em Kanagawa,
das grandes ondas.
Devo gritar dos telhados
in a barbaric yawp
teu verdadeiro nome?
Confesso que ainda
não ouso a entrega
ao mundo de tua alcunha
oficial de batismo,
apenas este, Maximin,
pois temo tua concubina,
essa ninfeta com sangue
de valquíria, os genes
de nibelungos, o gênio
de Wagner.



3.



Texto em que o poeta celebra a língua e a sintaxe de Maximin

Não me importaria se tão-só
de plosivas vivesse o homem,
Maximin, desde que se oponham
apenas temporários
os obstáculos
de tua língua, corpo e lábios,
aproximantes para sempre
até mesmo as vogais,
quiçá gerando nova família,
a das penetrantes,
que consistiria em is e Os
para todos os vocábulos
a cossoar de nós,
pois eu temo
que antes cedo
do que tarde
todos os teus textos
serão para me caçoar,
quisera antes nunca
do que agora,
já que velo por teu palato,
Maximin, todos os teus
dons bilabiais,
dá-me hoje pois as fricativas
que me cabem
pelo canal estreito
de nossos articuladores,
eu aspiro estridente
como uma jiboia
de repente sibilante,
vem e faz de minha úvula,
se não possuo o anagrama,
a tua única
superfície de shadowboxer,
quero ser o véu que cobre
os teus alvéolos, pulmônico
após brincar de balanço
em tuas cordas vocais,
ameaço quedar-me implosiva
nesta subnutrição minha
de cada dia
se não ejaculas meu desjejum,
é preciso que entendas
causas e consequências,
ainda que o registro
da História insista
em coordenadas assindéticas,
vamos doar ao mundo
muitas copulativas,
larga mão, Maximin, de ser
tão adversativo,
aproxima-te e explica
antes de concluir
que minha carcaça
é um destroço disjuntivo,
olha como exiges,
todo imperativo,
ou ou, ora ora,
quer quer, já já,
seja seja, nem nem,
ai ai, nesta gaiola, meu habitat,
que me resta
senão ler Cage
e celebrar feito música
os teus sons e teus ruídos?
Eu sou nesta nossa concha
como uma ostra nanica,
por isso quiçá tudo que dizes
é-me razão de ostranenie
e dessarte divinizo-te,
pelos séculos dos segundos,
para ser possuído por deuses,
tornando entusiasmante
esse meu coitado cotidiano.


§

Publicados, respectivamente, nas revistas Enfermaria 6, Confraria do Vento e na revista Pessoa.

.
.
.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Alguns músicos alemães que conheço (1989 - agora)

No aniversário de 25 anos da Queda do Muro de Berlim, alguns amigos que nasceram no dito ano e de lá para cá. Meu jeito de celebrar a efeméride. São pessoas o que importa.

Markus Nikolaus (n. 1989)

Projetos: Cunt Cunt Chanel (solo), The Waves & Us (com Maayan Nidam & Louis McGuire), Us (com Louis McGuire) e Lea Porcelain (com Julien Bracht). Lança seus trabalhos com os selos Wolf + Lamb, Trust e Suena Hermosa.




§

Felix Rupprecht (n. 1989)

Projetos: Drumspoke (solo).




§

Bryan Kessler (n. 1991)

Projetos: Bryan Kessler (solo), The Pollywogs (banda). Lança com os selos tro, Kompakt.



§

Julien Bracht (n. 1991)

Projetos: Julien Bracht (solo), Lea Porcelain (com Markus Nikolaus). Dirige o selo Trust. Lança com os selos Coccoon e Trust.
 

§

Alexander Einetter (n. 1992)

Projetos: Alexander Einetter (solo), O'ld Dog (com Diego Magalhães). Dirige e lança pelo selo Low Money Love Music.



§

Ludwig Roehrscheid (n. 1995)

Projeto solo. Lança com o selo Dora Brilliant.




.
.
.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Vesgo em Vigo, atendo meu amigo

1

Aqui em Vigo,
eu meço o nível:
chega já o dilúvio.
Aprendamos hinos
como nos códices
de Martim Codax e
do rei-cantor, Dinis.
Afundaremos mais
juntinhos, e felizes.

2

Deixa-os querer ser Pounds,
deixa-os querer ser Virgílios.
Cantarei como Meendinho
o teu mindinho e o teu pau.

Com Codax, aqui, em Vigo,
espero como Dom Dinis
venha o amigo, sano e vivo,
venha o amado, vivo e sano.

Cadê as flores, cadê as flores
do seco pinho?

Cadê as flores, cadê as flores
do seco ramo?

3.

Temo
aqui na ermida
de San Simion
as ondas
enquanto atendo
meu amigo.
Que me
cerquem
em breve
teus braços,
ó Moço,
que também
grandes son!

4.
Não vê o amado
que, de um lado,
secou-se a água,
camará, potável?

Não ouve o amigo
como sobe o nível
dos mares salinos?
És surdo, querido?

Já está quase submersa Vigo.
Serás um dos escafandristas?

Façamos como os pinguins
que memorizam os timbres
dos seus parceiros
e os acham no gelo.

Há-de servir-nos enfim
na secura do deserto.

5.

É-me chegad´um fax
por meu colega Codax,
há voltado meu amigo.

E irey, madr' ao Berlimbo!

É-me chegad´um tuitaço
do meu colega Meendinho,
há voltado meu amado.

E irey, madr' ao Berlimbo!

6.

És um bárbaro não-latino
nesse degelo sem pinguins,
então, repete só, comigo,
e reconhecerei teus timbres:

"Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo?
Ei ai Deus! Se verra cedo?

Ondas do mar levado, se vistes meu amado?
Ei ai Deus! Se verra cedo?

Se vistes meu amigo, o por que eu sospiro?
Ei ai Deus! Se verra cedo?

Se vistes meu amado, o por que ei gran coidado?
Ei ai Deus! Se verra cedo?"




.
.
.

Arquivo do blog