Dia 8 de março foi aniversário de Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, degolada ainda viva pela polícia em 1938, na emboscada ao grupo de Virgulino na Grota de Angicos. Esse texto é da minha pequena série de monólogos de mulheres (históricas ou míticas) do meu novo livro, que pretendo lançar no segundo semestre.
O que passa pela cabeça de Maria Bonita
Segui o que ditou meu peito
sob os seios
ao lado de meu homem.
Quando rola, cabras, a cabeça
deixa de ter sexo. Pescoço
acima, é o mesmo
o número de buracos, a não
ser que bala e pólvora
nos tornem
uma vez mais diferentes.
Se carrego menos
sangue que meu homem,
ele jorra da mesma cor,
meu corpo
mais parecia a cachoeira
de onde nasci.
Torto não se endireita,
nessa terra, sem sangue.
Quando Deus não quer,
erra-se o alvo. Até você
aparecer na mira de Deus.
Gostava mesmo era de dançar
um maxixe sobre suas covas,
mas deixaram meu corpo
regado a creolina
entre os urubus.
Minha cabeça ainda
gritava agora há pouco
na Grota de Angicos,
mas logo estava calma
na escadaria
da prefeitura de Piranhas.
Virá o dia, claro
como a manhã do sertão,
em que as cabeças certas
darão adeus a seus pescoços
e não haverá degraus
suficientes nesta República
para exibi-los.
Por ora comemoram
todas as anônimas
no meu aniversário.
Meu nome é Maria Gomes de Oliveira
e perdi a cabeça duas vezes na vida,
uma delas na garupa de Virgulino.
Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mundo de desencontros marcados «slogans» que violam
os espaços aéreos de países castos
e se dissipam além dos limites naturais
um laivo incendiando as espirais do rasto
Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mas de uma província de incerta geologia
com uma história sem crónicas ou reis absolutos
a única a que a constituição se refere numa clave de sol
onde os cidadãos de todos os burgos
pulam à rua das mãos estendidas de deus
dessa nenhuma anexação polui a virgindade civil.
Sebastião Alba
Sebastião Alba nasceu em Braga, Portugal, a 11 de março de 1940. Seu nome de batismo era Dinis Albano Carneiro Gonçalves. Em 1950, a família do poeta emigrou para Moçambique, onde ele passaria a viver até 1984, tornando-se cidadão moçambicano. No seu novo país, trabalhou como jornalista. Estreou em livro com Poesias (1965), ao qual se seguiram O Ritmo do Presságio (a primeira edição, moçambicana, em 1974 e a portuguesa em 1981) e ainda A Noite Dividida (1982).
A editora portuguesa Assírio & Alvum reuniria em um único volume seus livros O Ritmo do Presságio, A Noite Dividida e O Limite Diáfanoem 1996, reunidos uma vez mais no ano 2000, incluindo inéditos, com o título Uma Pedra Ao Lado Da Evidência. A essa altura, o poeta vivia nas ruas de sua cidade natal. No dia 14 de outubro de 2000, com 60 anos, morreu atropelado. Havia escrito recentemente um bilhete:
"Se um dia encontrarem morto o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá".
"Forse un mattino andando in un'aria di vetro Eugenio Montale
Moço, me ouça. Houve
aquele italiano que quis
virar-se e de repente ver
surpreso o nada às costas,
eu porém desde que você
fez-se fumaça vejo
constante o nada
diante do meu nariz
e só agora, não repentino,
mas gradual e lento volto
a notar a faca no chão e não
no pão, e o camundongo,
o gato e o cão pelas sarjetas,
e diferencio entre a margarina
e a manteiga, e vejo a diferença
antes ignorada entre a flor
viva no vaso ou seca, e sinto
ainda que insípida o flúor
n'água, e o copo já não tomba
e quebra, e olho à esquerda
e à direita ao cruzar as ruas,
e os meus ouvidos
registram as buzinas,
as conversas dos amigos,
e o prédio adiante
tem sua cor e difere
do prédio vizinho
em cor (e arquitetura!),
e este e aquele menino
percebo com susto
são na verdade indivíduos
também distintos
quando antes eram pedaços
de carne falante, falante,
mas agora, perplexo, até
os ouço, os escuto, os entendo,
memorizo seus nomes,
e árvores, casas e montes
voltam a compor a paisagem
e o ar de vidro da primavera
chega, mesmo depois
que houve você,
Moço. Me ouve?
compre
uma flor
no mercado
e sê Monet
jardinando em
Giverny –
refaça
no entulho
de uma casa
o dia que os
mesopotâmios
recensearam
seus deuses
mortos
não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe
teu agora e teu antes
voltei-me a mim
e parti mais além
fui-me aqui
e assim por diante
– toda tessitura
é a vela na
gávea de Cabral
e o trapo no
torso de
Zumbi –
sê olhar do rei cruel e indigesto
sê o olho que temeu a guilhotina
tudo se repete
num fazer que
descortina
tudo está às voltas
no lastro de teu gesto
§
Golgona Anghel (Romênia/Portugal, 1979)
COMODISTA HESITANTE,
protegido das cabeleireiras e cliente frequente dos feriados nacionais, acredita nos encontros fortuitos assim como um relógio estragado acredita aproximar-se de uma hora astral. Estes hábitos podem até ser tolerados Em contos naturalistas E reality showers.
Nós, aqui, little stranger,
Degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
E vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
Já alugámos as trincheiras,
Mas custa tanto tirar os pijamas.
§
João Bosco da Silva (Portugal, 1985)
Ronco II
Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda, Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada, Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo, Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto, Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas, Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto, Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas, Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.
§
Ederval Fernandes (Brasil, 1985)
Como quando
Como os dedos que rasgaram o papel do presente. Como o ausente dos vários segredos que não revelaram. Como o café que repousa na mesa e será bebido. Como o livro lido duas, três vezes até ser amada a sua beleza. Como quando entrei em você pela primeira vez e entendi. Como, por uma besteira, não sei, minha vó chora e depois ri. Como os dias em que Vivo e não quando estou morto e respirando feito verme. Como a tua mão procurou ver-me no escuro de mim e do quarto: como quando um coração faz um Uivo.
§
Raquel Nobre Guerra (Portugal, 1979)
Se sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro por que
rodaram mãos e jeitos de luz? Sim.
Vivo como se não estivesse aqui roupa leve como acontece na vida. E vou da primeira à última batida na respiração de um pulmão vivido.
Lê assim.
Podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
— e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias —
mas cairei por aqui.
Meu amor.
Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.
Efrim Menuck é um poeta-músico canadense, nascido em Montreal, a 21 de novembro de 1970. É conhecido como membro fundador dos coletivos Godspeed You! Black Emperor e Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra. O poema vocal abaixo, "The Dead Flag Blues", vem do álbum F♯ A♯ ∞ (1997), do Godspeed You! Black Emperor, e o texto é um monólogo que faz parte do roteiro de Menuck para seu Incomplete Movie About Jail, filme no qual vem trabalhando há alguns anos. A mim me parece um dos poems vocais mais fortes da década de 90, com o qual aprendi muito. Sua visão distópica de nossa sociedade seria profética se não demonstrasse já as mazelas do momento em que surgiu. Sempre que ouço os versos iniciais, penso no poema de William Carlos Williams intitulado "To Elsie" (também conhecido como "The pure products of America"), especialmente os últimos versos:
the stifling heat of September somehow it seems to destroy us It is only in isolate flecks that something is given off No one to witness and adjust, no one to drive the car
Sim, "ninguém / que testemunhe / e ajuste, ninguém que guie o carro", como no poema de Menuck, "O carro está em chamas e não há condutor ao volante", transcrito abaixo com a tradução de William Zeytounlian para o português.
POEMA DE EFRIM MENUCK
Blues das bandeiras mortas
I.
O carro está em chamas e não há condutor ao volante
E os esgotos se enlameiam de um milhar de suicidas sós
E um vento tenebroso sopra
O governo é corrupto
E nós doidos de drogas
Com o rádio ligado e a cortina levantada
Somos compelidos ao ventre dessa maquina atroz
e a máquina sangra fatalmente
o sol se pôs
os outdoors olham de esguelha
e as bandeiras estão todas mortas no cimo de seus mastros
II.
aconteceu assim:
os prédios caíram um sobre os outros
a mães agarraram os bebês
entre os escombros
puxando-os pelo cabelo
o horizonte estava lindo em chamas
o metal retorcido se alongando ao céu
tudo aquarelado em uma fina névoa laranja
eu disse, “Me beija, você é linda –
esses são mesmo os últimos dias”
você segurou a minha mão
e embrenhamos ali
como em um devaneio
ou numa febre
III.
acordamos numa manhã
e nos sentimos afundar um pouco mais
certamente é o vale da morte
eu abro a carteira
e está cheia de sangue
(tradução de William Zeytounlian)
The Dead Flag Blues
The car is on fire, and there's no driver at the wheel And the sewers are all muddied with a thousand lonely suicides And a dark wind blows The government is corrupt And we're on so many drugs With the radio on and the curtains drawn We're trapped in the belly of this horrible machine And the machine is bleeding to death The sun has fallen down And the billboards are all leering And the flags are all dead at the top of their poles It went like this: The buildings tumbled in on themselves Mothers clutching babies Picked through the rubble And pulled out their hair The skyline was beautiful on fire All twisted metal stretching upwards Everything washed in a thin orange haze I said, "Kiss me, you're beautiful - These are truly the last days" You grabbed my hand And we fell into it Like a daydream Or a fever We woke up one morning And fell a little further down For sure it is the valley of death I open up my wallet And it's full of blood
Conheci Ítalo no ano passado, em minha última passagem pelo Rio de Janeiro. Passamos uma tarde e noite percorrendo livrarias do centro da cidade, e caminhando pelo Jardim Botânico, onde nos embebedamos. Já publiquei na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. e espalhei pelas redes sociais este seu ótimo poema satírico, que reposto abaixo, agora aqui, ao lado de outro do seu livro de estreia, no qual vem trabalhando. O vídeo é de sua participação no projeto Empreste sua voz a um poeta morto.
Informações bioblio: Ítalo Diblasié um poeta brasileiro, inédito em livro, nascido no Rio de Janeiro em 1988. Prepara no momento sua primeira coletânea, que será intitulada O Limite da Navalha.
DOIS POEMAS DE ÍTALO DIBLASI
Gaia Ciência
é proibido cuspir no prato
é proibido dormir no asfalto
é proibido trepar no mato
é permitido açoitar as massas
é permitido erigir as farsas
é permitido morrer às traças
paremos, portanto, de fingir que Nietzsche estava errado quando enlouqueceu às portas de explicar esse caralho
§
A urgência
No último vagão de um noturno qualquer rumo a lugar nenhum o indomável riso de uma puta alucinada que quer saber o que diabos escrevo a uma hora dessas e pede lugar num poema que a mantenha viva até a semana que vem e eu estou com ela para uma última valsa antes do fim
§
Diblasi empresta a Piva sua voz no projeto da Modo de Usar & Co.
Ítalo Diblasi lê um poema do livro Ciclones (1997), de Roberto Piva.
[Este paraíso é assim]
Roberto Piva
Este paraíso é assim:
repleto de raças respiratórias.
Nuvens, periquitos, uvas negras
à beira do deboche.
Este paraíso é assim:
relâmpagos & doces de leite,
punhal escapando da bainha
de vértebras.
Menino-acauã dançando
ao sol estrangeiro.
Este paraíso é assim:
folhas de mamona, submarinos
viajando no próprio sangue.
Leveza. Flores frenéticas.
Batuque sussurrando:
também eu
atravessei o inferno.