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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Posfácio para a antologia bilíngue / binacional "VERSschmuggel / TransVERSal", que será lançada na Bienal do Rio.



Com lançamento oficial durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro no fim do mês, chega ao Brasil a antologia do Festival de Poesia de Berlim 2012, que pareou poetas brasileiros e germânicos em sua Oficina de Tradução. Editada por Aurélie Maurin e Thomas Wohlfahrt e com posfácio meu, o livro traz textos dos brasileiros Horácio Costa, Jussara Salazar, Ricardo Aleixo, Marcos Siscar, Dirceu Villa e Érica Zíngano, assim como dos germânicos Gerhard Falkner, Christian Lehnert, Barbara Köhler, Jan Wagner, Ulf Stolterfoht e Ann Cotten.

Apresento aqui em primeira mão o posfácio que escrevi para o volume. Trata-se de um pequeno comentário sobre as relações poéticas entre Brasil e Alemanha, com paralelos histórico-políticos. Não discuto o trabalho dos poetas incluídos, o que foi feito pelos próprios pares de poetas. Foi escrito com o leitor alemão em mente.




Posfácio
Ricardo Domeneck

Latinos e germânicos, séculos após a Batalha na Floresta de Teutoburgo

As relações entre a poesia alemã e a brasileira trilharam caminhos tortuosos. Ao contrário da influência francesa, que foi constante por muitas décadas em toda a América Latina, ou a norte-americana, que assumiu esta posição quase hegemônica a partir dos anos 1960 (e com mais força ainda nos anos 1990), as referências da poesia alemã na brasileira sempre foram pontuais, a partir de poetas específicos. No século XIX, uma das maiores aportações germânicas à cultura literária brasileira foi a de Heinrich Heine, traduzido pelo grande romancista Machado de Assis (1839 - 1908), e por poetas como o romântico Fagundes Varela (1841 – 1875). Castro Alves (1847 – 1871) se basearia no poema “Das Sklavenschiff” (1853) para a composição de seu poema mais famoso, “O Navio Negreiro” (1869), e o poeta modernista Manuel Bandeira (1886 – 1968) traduziria, além de Goethe e Heine, peças como Maria Stuart, de Schiller, e Der Kaukasische Kreide Kreis, de Bertolt Brecht, que segue sendo uma das referências alemãs mais importantes do Teatro brasileiro, ao lado de Heiner Müller. Os autores são praticamente desconhecidos no Brasil como poetas. No entanto, o único modernista que manteve certo contato com a Literatura alemã foi Mario de Andrade (1893 – 1945), que intitularia um de seus livros de poemas mais conhecidos Losango Cáqui (ou Afetos Militares de Mistura com os Porquês de eu Saber Alemão), de 1926, e fizera de sua personagem principal, no romance Amar, Verbo Intransitivo (1927), uma Fräulein que iniciava sexualmente os jovens de sua redondeza, onde trabalhava como professora de piano.

Alemanha no Brasil

Na década de 1940, a presença de Rainer Maria Rilke se tornaria incontornável para a compreensão das propostas daquele que ficou conhecido como Grupo de 45, que reagiu contra as inovações modernistas e, mais especificamente, contra sua veia satírica. O poeta teria especial influência entre os poetas que haviam sido ligados à revista Festa, e seria traduzido por Cecília Meireles (1901 – 1964), que criou uma bela versão de “A Canção de Amor e Morte do Porta-Estandarte Cristovão Rilke” (“Die Weise von Liebe und Tod des Cornets Christoph Rilke”), geralmente publicada com aquela que se tornou a versão brasileira oficial para as Cartas a um jovem poeta. As “Elegias de Duíno” foram traduzidas mais tarde por Dora Ferreira da Silva (1918 – 2006).

No entanto, é na década de 50 que se vê surgir o maior diálogo entre as culturas poéticas brasileira e alemã até então, com a fundação bilíngue do Movimento Internacional da Poesia Concreta, a partir do trabalho do Grupo Noigandres de São Paulo (Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Augusto de Campos) e o trabalho de Eugen Gomringer e Max Bense na língua alemã, entre outros. O movimento poético brotou delas e ramificou-se pelas artes visuais dos dois países, em artistas como Waldemar Cordeiro e Max Bill, que vencera o Grande Prêmio da primeira Bienal de São Paulo em 1951. A influência do Movimento foi gigantesca no Brasil, maior que na Alemanha, e sua leitura crítica, privilegiando os aspectos construtivistas das primeiras vanguardas históricas, assim como a de poetas do passado tais como Oswald de Andrade (1890 – 1954) e João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999), ainda pode ser sentida. Entre os concretos, a veia satírica e as implicações políticas mesmo dos dadaístas ficariam a segundo plano, a atenção voltada a seus métodos de composição, diferentemente do que veríamos em outros grupos de retomada das estratégias das vanguardas a partir dos anos 1950, como entre os Léttristes de Paris (Isidore Isou, Maurice Lemaître, Gil J. Wolman), o Grupo de Viena (H.C. Artmann, Gerhard Rühm, Konrad Bayer) ou o Dau al Set de Barcelona (Joan Brossa, Juan Eduardo Cirlot, Arnau Puig). Uma exceção seria Décio Pignatari (1927 – 2012), um dos grandes poetas satíricos no Brasil do pós-guerra.

A partir da década de 60, estes diálogos, ainda que seguidos pelos artistas concretos, diminuiriam como um todo, não apenas com a poesia alemã, mas com a poesia europeia em geral, substituídos, como se pôde presenciar em várias partes do mundo, por um diálogo com a poesia norte-americana. Seria na década de 90 que outro poeta de língua alemã se tornaria influente no debate poético brasileiro, com traduções de Paul Celan chegando ao país, influência temperada por dois outros poetas estrangeiros publicados no país à mesma época: o norte-americano Robert Creeley e o português Herberto Helder. Após a influência de Heine e sua poética telúrica no século XIX, a poesia alemã que pareceu interessar a muitos poetas brasileiros durante o século XX foi a que poderíamos chamar de ala órfica da poesia em língua alemã, com Hoelderlin, Rilke, Trakl e Celan. Poetas como Brecht, Hans Arp, Unica Zürn, H.C. Artmann ou Thomas Brasch permaneceriam praticamente invisíveis.

Mas os diálogos entre as poesias de dois países podem muitas vezes ser conduzidos como espécies de monólogos paralelos. O maior exemplo neste aspecto seria o trabalho de Augusto dos Anjos (1884 – 1914). Seu único livro publicado em vida, intitulado Eu (1912), é ainda hoje um dos livros de poesia mais populares do Brasil. Os paralelos estilísticos entre seu trabalho e o de Gottfried Benn, em seu livro também de estreia e publicado no mesmo 1912 – Morgue, são muito interessantes. Mesmo que Augusto dos Anjos tenha permanecido fiel à métrica e a certas formas fixas como o soneto, diferentemente de Trakl e o primeiro Benn, há uma conjunção estética clara entre seu trabalho e o dos expressionistas germânicos, ainda maior quando pensamos em poetas como Jakob van Hoddis, Georg Heym e Ernst Stadler. Os grandes poemas de Augusto dos Anjos, como “Monólogo de uma sombra” e “As cismas do destino”, são testamentos das convulsões existencias e políticas que levariam à Grande Guerra na Europa e às revoltas políticas e de modernização no Brasil, culminando na década seguinte com a queda da República de Weimar na Alemanha e o fim da Primeira República no Brasil, quando os dois países mergulham nas ditaduras comandadas por Adolf Hitler e Getúlio Vargas. Tais paralelos foram traçados no Brasil, anteriormente, por Anatol Rosenfeld (1912 - 1973), um dos intelectuais germânicos a emigrar para o Brasil por causa da perseguição nazista, tornando-se um crítico importante do País, especialmente para o Teatro. Ao mesmo tempo que intelectuais alemães abandonavam o país, escritores brasileiros também emigravam, como Jorge Amado (1912 – 2001), ou eram encarcerados, como Graciliano Ramos (1892 – 1953). Após sua passagem por prisões da ditadura de Vargas, este último comporia seu importante Memórias do Cárcere, publicado postumamente, em 1953. Outra presença germânica importantíssima para a abertura da cultura brasileira à mesma época foi a chegada do intelectual judeu austríaco Otto Maria Carpeaux (1900 – 1978), que aprenderia o português e se tornaria um dos maiores críticos e intelectuais do País, muito respeitado ainda hoje.

Brasil na Alemanha

Quanto à presença da Literatura brasileira na Alemanha, ela experimentou algumas décadas de força, após decair fortemente com a Queda do Muro. O período em questão não é casual. Primeiramente na Alemanha Oriental, a partir do fim da década de 1940 e impulsionada pelo viés político de autores como Jorge Amado, e então a partir dos anos 60 na Alemanha Ocidental, desta vez impulsionada pelo sucesso comercial do mesmo Jorge Amado e pelo chamado Boom Latinoamericano, autores como João Guimarães Rosa (1908 – 1967) e Clarice Lispector (1920 - 1977) tiveram suas primeiras traduções para o alemão e marcaram o momento mais intenso da presença brasileira nas livrarias do país. Muitas delas preparadas por Curt Meyer-Clason (1910 – 2012), o maior tradutor alemão do português naquelas décadas, alguns poetas brasileiros chegariam à língua alemã também através de suas mãos, com antologias de Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) e João Cabral de Melo Neto, por exemplo, lançadas pela Suhrkamp mas há anos fora de catálogo.

Logo antes da Queda do Muro, quando a atenção literária da Alemanha se voltaria para os países do Bloco do Leste, autores como o romancista João Ubaldo Ribeiro e o poeta Ferreria Gullar veriam seus maiores trabalhos traduzidos e editados aqui, como foi o caso do romance Viva o Povo Brasileiro! (1984), de Ubaldo, e o Poema Sujo (1976), de Gullar. Mas, a partir daí, mesmo se poetas como Haroldo de Campos e Décio Pignatari mantinham-se no debate através de revistas especializadas, a maior parte dos poetas brasileiros do pós-guerra não chegaria a ser traduzida. Poetas importantes e influentes dos últimos 20 anos, como Hilda Hilst (1930 – 2004) e Roberto Piva (1936 – 2010), mesmo que venerados hoje no Brasil e com suas Obras Completas disponíveis (apesar de décadas de ostracismo), são completamente desconhecidos na Alemanha. O mesmo pode ser dito de alguns dos melhores poetas brasileiros ainda vivos, como Manoel de Barros (n. 1916), Leonardo Fróes (n. 1941) ou Elisabeth Veiga (n. 1941).


Paralelos


Paralelos históricos podem sempre ser traçados entre países, ainda que por vezes pareçam artificiosos. Separados por línguas que possuem raízes tão distintas, talvez o Brasil e a Alemanha repartam alguns traumas de natureza semelhante em seu horror. Formados por movimentos políticos centralizadores, os dois países possuíram em seu passado a marca da organização tribal e do plurilinguísmo, aos poucos derrotados por um Governo Central e uma Língua Oficial. Ambos, tais quais os reconhecemos hoje como Estados-Nação, são jovens: o Brasil ligeiramente mais velho, com sua Independência centralizante em 1822, e a Alemanha com a unificação de 1871. Acredita-se que as primeiras tribos germânicas chegaram à região na Idade do Bronze, entre 1300-700 a.C.. Os restos humanos mais antigos encontrados no Brasil, sendo também os mais antigos das Américas e com idade estimada entre 11.400 a 16.400 anos, são de uma mulher que, para estudiosos, não parece pertencer aos grupos étnicos dos indígenas no território quando houve a Invasão Portuguesa. Entre invasões e migrações, os dois países foram se formando, com sua poesia marcada pela tradição oral: na Alemanha pelos Minnesänger germânicos e no Brasil pelos trovadores galego-portugueses. Só mais tarde a cultura literarizante iria aos poucos impondo a norma de uma tradição poética nacional unificada, construção dos poetas românticos de ambos países. O Império Brasileiro foi o primeiro a cair, com a instituição da Primeira República em 1889. O Império Alemão resistiria até 1918, quando se institui a República de Weimar e se dissolve a monarquia. As convoluções políticas daqueles anos marcariam os dois territórios, com a adesão de tantos intelectuais aos ideais da Revolução Russa dos dois lados do Atlântico, como Bertolt Brecht e tantos outros, na Alemanha, ou Graciliano Ramos e vários no Brasil. Na década de 30, os dois países caem sob o peso de ditaduras, que acabam no mesmo ano de 1945. As divisões da Guerra Fria fazem vítimas dos dois lados, mergulhando a Alemanha, que encarna esta batalha tão concretamente no Muro de Berlim e com a ditadura comunista em metade de seu território, e a Ditadura Militar Brasileira (1964 – 1985), financiada e idealizada pelos Estados Unidos e a elite conservadora do país.


Efeitos

Com o processo de redemocratização iniciado nos dois países no fim da década de 80, os traumas das divisões e entrincheiramentos políticos das últimas décadas se fazem sentir nas duas tradições. Após anos em que o posicionamento político era esperado de seus escritores, seja dos alemães em resistência a uma ditadura de esquerda ou dos brasileiros em resistência a uma ditadura de direita, um retorno ao discurso da autonomia estética da obra de arte parece ditar os parâmetros de qualidade nos dois países durante a última década do século XX. No Brasil, tal ideologia seria expressa por Haroldo de Campos em seu influente ensaio de 1984, “Da morte da arte à constelação: o poema pós-utópico”. Sua defesa da “trans-historicidade” do trabalho poético é indissociável da produção crítica brasileira naqueles anos. Uma desconfiança do aspecto utópico de certas vanguardas leva ao retorno a práticas antes tidas como tabu pelos Modernistas, apesar do caráter claramente anti-distópico de vanguardas históricas como a dos artistas ligados à revista DADA ou dos próprios expressionistas, embate que já havia marcado, por exemplo, o interessante debate entre Lukács e Bloch na imprensa alemã da década de 1930. Tal ideologia tem se esgarçado nos últimos anos, e a discussão sobre o contexto histórico da produção poética recente voltou a tomar força no Brasil. Poetas alemães distantes no tempo, como Heine (em tradução de André Vallias) e Enzensberger (em tradução de Kurt Scharf e Armindo Trevisan) voltaram a circular. Com esta antologia, esperamos que alguns poetas brasileiros possam voltar também ao diálogo poético na Alemanha.



in VERSschmuggel/TransVERSal 
(Heidelberg/Rio de Janeiro: Wunderhorn/7Letras, 2013).

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Anúncio oficial: os 6 poetas brasileiros convidados para o Poesiefestival Berlin 2012

Como anunciei no fim do ano passado, o Festival de Poesia de Berlim (Poesiefestival Berlin) dedicará a Oficina de Tradução desta edição de 2012 à poesia brasileira e convidou-me para fazer a curadoria. Trata-se do projeto VersSchmuggel, geralmente traduzido em português como "Contrabando de versos", um dos eventos mais importantes do festival que é um dos maiores da Europa e está em sua décima-terceira edição. Nesta oficina, poetas de uma língua ou país são convidados a passar uma semana em Berlim, trabalhando com poetas germânicos (com ajuda de um intérprete e "traduções literais" dos poemas selecionados) em traduções mútuas, mais tarde publicadas em uma antologia bilíngue tanto na Alemanha como no país (ou países) dos convidados. Em 2008, o Festival dedicou o projeto à língua portuguesa. Este ano, especificamente à poesia brasileira.

Como curador, trabalho pelo qual, aviso de antemão, não estou recebendo qualquer remuneração pois todo o orçamento é justamente destinado aos poetas convidados, tentei respeitar as condições e constrições de representatividade educadamente sugeridas pelos diretores artísticos do Literaturwerkstatt. No entanto, a condição principal de convidar apenas 6 poetas implicava de saída um desafio insuperável para esta mesma representatividade. Minha preocupação primordial e decisiva foi uma única: qualidade literária, tratando-se de um projeto que culminaria num livro. Nada mais posso dizer em defesa de minhas escolhas, sabendo que a lista poderia ser completamente diferente – mantendo esta qualidade; tudo que posso dizer é que ponho minha mão de crítico no fogo por cada um destes poetas. Como os poetas, alegrando-me muito, já aceitaram o convite e confirmaram sua participação, anuncio aqui os nomes, na esperança de que a generosidade de todos leve-os a também alegrar-se com as inclusões, acima dos que certamente se apinharão, como sempre, sobre as exclusões.

Agradeço a Thomas Wohlfahrt e Aurélie Maurin, do Literaturwerkstatt, pelo voto de confiança e generosidade.


POETAS BRASILEIROS CONVIDADOS PARA O POESIEFESTIVAL BERLIN 2012
Versschmuggel/Contrabando de versos.
Poesia brasileira e germânica em pares.
Curadoria de Ricardo Domeneck.
De 2 a 6 de junho de 2012, na Akademie der Künste, em Berlim.


Horácio Costa (n. 1954)
Jussara Salazar (n. 1959)
Ricardo Aleixo (n. 1960)
Marcos Siscar (n. 1964)
Dirceu Villa (n. 1975)
Érica Zíngano (n. 1980)


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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Discotecando poesia sonora - minha intervenção no projeto Dichtraum/Denkraum

Autorretrato perante o Mural das Celebrações (e às vezes Lamentações), 22 de junho de 2011.


Ontem, terça-feira, fiz minha segunda e última apresentação no Festival de Poesia de Berlim. Tomei parte do projeto "Dichtraum/Denkraum", no qual o festival apoderou-se de um espaço na estação de metrô do Portão de Brandemburgo e convidou 22 poetas residentes em Berlim para intervenções no local. O que quiséssemos fazer para interagir com os viajantes subterrâneos.

Eu preparei um programa de poesia sonora e li alguns poemas favoritos. Foi como uma discotecagem de poesia. Foi meio louco, mas divertido. Deixo vocês com minha setlist. A ordem foi mais ou menos esta. O que pude encontrar na Rede está aí. Subi várias coisas que não estavam disponíveis. Não tive tempo e energia para subir tudo, peço perdão. Deu um trabalho que me esgotou e hoje à noite (é quarta-feira), tenho que discotecar no nosso evento semanal. Espero que vocês curtam.


Minha setlist de poesia sonora para uma intervenção
na estação de metrô do Portão de Brandemburgo,
projeto do Festival de Poesia de Berlim.


"Schlimmer Traum", Thomas Brasch - leitura minha.

"Ode auf N", Ernst Jandl - arquivo sonoro.

Ernst Jandl - "Ode auf N" by Modo de Usar & Co.

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"Wie es früher war", Michael Lentz - vídeo de uma performance em Barcelona.



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"Die Seeräuber-Jenny", Kurt Weill & Bertolt Brecht - arquivo sonoro de uma gravação da Ópera dos Três Vinténs. Abaixo, a versão de Lotte Lenya, na versão cinematográfica de Pabst.




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"Testament", Otto Muehl - arquivo sonoro.



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"Faltung 2", Elke Schipper - arquivo sonoro.

Elke Schipper - "Faltung 2" by Modo de Usar & Co.

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"ich und mein körper", Konrad Bayer - leitura minha.

"Wasbla ichbla willbla", Armand & Bruno sobre poema de Dieter Roth, arquivo sonoro.

Armand & Bruno - "Wasbla ichbla willbla" by Modo de Usar & Co.


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"Maybe manifesto", Jörg Piringer - vídeo de uma performance em Barcelona.



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"Karawane", Jerome Rothenberg sobre poema fonético de Hugo Ball, arquivo sonoro.

"Schwarze Puppen", Klaus Kinski - arquivo sonoro.



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"Residue", Amanda Stewart - arquivo sonoro.

"Bouche d´eau/En nombre d´impossibilités particulières", Alexandre St-Onge - arquivo sonoro.

"Lo ferm voler qu'el cor m'intra", Arnaut Daniel - arquivo sonoro de uma interpretação musical da primeira sextina.



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"What About Performance, Herr Wittgenstein?", David Moss - arquivo sonoro.

David Moss - "What About Performance, Herr Wittgenstein" by Modo de Usar & Co.

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"Tellurgie", Arthur Petronio - arquivo sonoro.

"I Want to Tell You About Myself", Kathy Acker - arquivo sonoro.

Kathy Acker - "I Want to Tell You About Myself" by Modo de Usar & Co.

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"Mirares veteres, Vacerra", Marco Valério Marcial - leitura minha da tradução alemã de Niklas Holzberg.

Trata-se do epigrama que eu traduzi para o português como:

Admiras velhotes, Vacerra, só
fazes elogios a poetas mortos.
Peço desculpas, Vacerra, não
hei-de morrer para te agradar.

Tradução livre do epigrama: "Miraris veteres, Vacerra, solos / Nec laudas nisi mortuos poetas. / Ignoscas petimus, Vacerra: tanti / Non est, ut placeam tibi, perire."

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"Laughter notebook", Brandon Labelle- arquivo sonoro.

"Le mort", Charles Pennequin - arquivo sonoro.



o morto
Charles Pennequin em tradução de Marília Garcia.


por quanto tempo mais eu vou ficar aqui no jardim me fingindo de morto / por quanto tempo mais eu vou ficar me fingindo de morto aqui no sótão ou então no quarto / eu já não sei se estou no sótão ou no quarto / eu vejo daqui o respiradouro ou então é a janela eu já não sei se eu vejo bem pode ser que eu esteja vendo bem até demais / se eu continuar assim eu verei ainda melhor e então poderei dizer se vou continuar a me fingir de morto / será que eu devo continuar por muito tempo a me fingir de morto pelo menos até que eles cheguem / e se eu continuo como morto assim será que eles virão aqui me ver virão ver se eu estou morto de verdade / talvez eles venham aqui me ver e me desejar um feliz aniversário / é seu aniversário você tem dez anos daqui a pouco vai fazer quinze anos que você tem 10 anos / agora você precisa parar de fingir que está morto você vai sair do quarto / e vai passear e vai brincar e vai para perto do canal /e vai cair no canal / e vai brincar com seu amigo / seu amigo vai achar que você foi embora e esqueceu a bicicleta e ele vai trazer sua bicicleta de volta e você estará no canal / você estará mergulhado ali dentro querendo pegar os peixes e você não vai sair do canal / você queria pegar os peixes e acabou caindo no canal e seu amiguinho voltará / ele vai dizer que não te encontrou / e eles vão dizer que você deve estar fingindo de morto em algum lugar

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"Evasion, or How to perform a tongue evasion in public", Christof Migone - arquivo sonoro.

"Falling", Delia Derbyshire - arquivo sonoro.



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"Blabbermouth", Erik Belgum - arquivo sonoro.

Erik Belgum - "Blabbermouth" by Modo de Usar & Co.

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"Brothers and sisters, let´s sing a Hymn", Fabienne Audéoud - arquivo sonoro.

Fabienne Audéoud - "Brothers and sisters, let s sing a Hymn" by Modo de Usar & Co.

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"Ursonate (Zweiter Teil)", Kurt Schwitters - arquivo sonoro.



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"If I told him: a complete portrait of Picasso", Gertrude Stein - arquivo sonoro.




Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso
Gertrude Stein em tradução de Augusto de Campos

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exatamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exatidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exatamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exata semelhança e exata semelhança e exata semelhança como exata como uma semelhança, exatamente como assemelhar-se, exatamente assemelhar-se, exatamente em semelhança exatamente uma semelhança, exatamente a semelhança. Pois é assim a ação. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exatamente eles vão bem.
Primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem também.
Primeiro exatamente.
E primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem.
E primeiro exatamente e exatamente.
E eles vão bem.
E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem.
O primeiro exatamente.
E eles vão bem.
O primeiro exatamente.
De primeiro exatamente.
Primeiro como exatamente.
De primeiro como exatamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exatidão.
Como trens.
Tomo trens.
Tomo trens.
Como trens.
Como trens.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou rês.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.


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"Rilke shake", Angélica Freitas - leitura minha da tradução alemã de Odile Kennel.

"Resumé", Dorothy Parker - leitura minha. Trata-se do famoso:

Résumé
Dorothy Parker

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


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"Espaces et gestes", Henri Chopin - arquivo sonoro.

Henri Chopin - "Espaces et gestes" by Modo de Usar & Co.

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"Rivièra", Paul de Vree - arquivo sonoro.

"Bitch", Patti Smith - arquivo sonoro.

Patti Smith - "Bitch" by Modo de Usar & Co.

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"Voice of America (excerto)", Ferdinand Kriwet, arquivo sonoro.

"Audience and transformation", Achim Wollscheid - arquivo sonoro.

"Kleiner Stapel aus Christinas Küche", George Nussbaumer - arquivo sonoro.

"Passionement", Ghérasim Luca - arquivo sonoro.



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"Anglet", Hans Unstern - arquivo sonoro.



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"Sashimi", Angélica Freitas - leitura minha da tradução alemã de Odile Kennel.

"Kré nachtmerrie", Jaap Blonk - arquivo sonoro.

Jaap Blonk - "Kré nachtmerrie" by Modo de Usar & Co.

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"Russian Roulette", Tetine - arquivo sonoro.

Tetine - "Russian Roulette" by Modo de Usar & Co.


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"Sun in my mouth", Björk sobre poema de e.e. cummings - arquivo sonoro.




Poema de e.e. cummings no qual Björk baseou a canção:


i will wade out / till my thighs are steeped in burning flowers / I will take the sun in my mouth / and leap into the ripe air / Alive / with closed eyes / to dash against darkness / in the sleeping curves of my body / Shall enter fingers of smooth mastery / with chasteness of sea-girls / Will i complete the mystery / of my flesh / I will rise / After a thousand years / lipping / flowers / And set my teeth in the silver of the moon


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"Cidade City Cité", Augusto De Campos - arquivo sonoro.



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"Not What the Siren Sang but What the Frag Ment", bpNichol - arquivo sonoro.

"I Am That I Am", Brion Gysin - arquivo sonoro.

Brion Gysin - "I Am That I Am" by Modo de Usar & Co.


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"Lifting Belly" (fragmento), Gertrude Stein - leitura minha.

"Having a coke with you", Frank O´Hara - leitura minha.

"Beba Coca Cola", Décio Pignatari - arquivo sonoro da composição de Gilberto Mendes.

Décio Pignatari / Gilberto Mendes - "Beba Coca-Cola" by Modo de Usar & Co.


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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os poemas que li este sábado no Festival de Poesia de Berlim

Autorretrato como anfíbio (2006)


Começou na sexta-feira a edição 2011 do Festival de Poesia de Berlim. Escrevi uma pequena nota para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., com poemas e vídeos de alguns dos principais convidados, como o francês Yves Bonnefoy, o americano Billy Collins, o cubano Silvio Rodríguez, o catalão Bartomeu Ferrando, entre outros. Nos próximos dias, prepararei postagens individuais sobre alguns deles. Acabei de postar exemplos de trabalhos da poeta vocal Iva Bittová (República Tcheca, 1958), com um trabalho que a aproxima de mulheres como Joan La Barbara, Meredith Monk e Diamanda Galás. Quando terminar o festival, escreverei aqui um pequeno artigo crítico a respeito, com o que houve de melhor.

Quis compartilhar agora, nesta postagem, os poemas que li neste sábado no Festival, durante o tradicional Poets´ Corner, que sempre ocorre no sábado posterior à abertura, e no qual poetas residentes em Berlim são convidados para ler em locais de seus próprios bairros. Eu li em um pequeno centro cultural na Prenzlauer Allee, em frente à pequena igreja chamada Immanuelkirche, com outros poetas vivendo em Pankow, região onde fica meu bairro, Prenzlauer Berg. Li ao lado de 7 poetas alemães: o querido Timo Berger, poeta, tradutor de poesia hispano-americana e brasileira (traduziu um livro de Laura Erber), além de organizador do Festival de Poesia Latino-americana de Berlim; o ótimo Hendrik Jackson (n. 1971), poeta e tradutor do russo; meu conhecido de vida noturna Björn Schäffer (n. 1981), o mais jovem dentre os poetas; uma poeta muito divertida e irônica chamada Anne Krüger (n. 1975), que eu não conhecia; e ainda Carsten Zimmermann (n. 1968), Ron Winkler, jovem poeta premiado alemão, nascido em 1973 e Lars-Arvid Brischke (n. 1972).

Eu li pela primeira vez na vida quase completamente em alemão, com a exceção de dois textos escritos originalmente em inglês. Todos os poemas haviam sido traduzidos por Odile Kennel. Foi uma experiência divertida, assim que controlei meus nervos. Li também um dos meus poemas favoritos de Frank O´Hara, "Having a coke with you". Deixo vocês com meu setlist, todos os poemas que li naquela tarde, nos originais em português, é claro. A ordem é a mesma da leitura.



POEMAS LIDOS NO FESTIVAL DE POESIA DE BERLIM
a 18 de junho de 2011.



Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos



Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.


(Inédito em livro, a ser incluído na minha próxima coletânea. Publicado originalmente
no segundo número impresso da Modo de Usar & Co.)


§


Poema

Enfim aurora-me na cachola,
Jonas das férias em baleias,
por que os deuses desaprovam
o incesto, esse advertisement
ou entertainment em família,
tal reciclagem ad aeternitatem
ou sexo homogêneo à margem
(e sua homenagem a soi-même)
como o cúmulo da economia.
Leis de veto a fellatio in toilets
e virilha em público, ilegíveis,
como Coca-Cola, cocaína & Cia.
ou outros substantivos ilegais
para nossa literatura ou lírica.
Teu Ricardo sabe que o peixe
morre pela fome, boca em pênis
de moçoilos é o anzol de sempre
e eis que pé no rabo eu vos nego.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Seguirei sendo nota de pontapé
no apêndice de vossos cérebros
ou até que me canse, escravo
paciente e devoto, das horas-
-extras de chicote e chacota
sobre vossas gretas garbosas.


(Inédito em livro, a ser incluído na minha próxima coletânea. Publicado originalmente
no segundo número impresso da Modo de Usar & Co.)


NOTA: Se você quer saber a origem (de onde o roubei, em outras palavras) e o significado
do verso "Pedicabo ego vos et irrumabo", clique
AQUI, querido.


§


Breviário de secreções

A um canto do quarto, meu corpo
...............operava sua fábrica
.......................de relações
Decisões não são auto-explicativas,
..................resistem ao questionário
..........do prazer
..................e são
.....obrigadas a ignorar
..................conseqüências de causas,
...........como movimento e encontro
As mãos em concha erguem-se
.........ao rosto ao mesmo tempo
.....que este dirige-se a elas
...............sem que se percam
no caminho

....................Respirando pela boca, sem
tempo a perder entre a
........oxigenação do próprio
...........cérebro e a
...............do ambiente
......em geral, ele
..falou alto e preciso:
o teso súbito que percorre
...............a linha da boca
.....do peixe à mão
do pescador, anzol:
...........isca, peixe

Mas esta imagem não
........encontra equivalência
..........em meu organismo e
.......volto a olhar
...........meus pés

................Sozinho e vazio
................como quem acaba
................de parir como quem
................acaba de ejacular
................vazio e sozinho

e só me acalmei
.........ao repetir duração duração
....................duração movimento

passe as cartas por baixo
da porta se as há

Infelizmente não poderei
ir a São Paulo por
enquanto mas com
certeza nos veremos
antes da sua
partida beijos

em vigas de partir
nas vias do por vir

O esvaziamento progressivo
...dos pulmões e recomeçar
em seguida

Não há transição mais
................sutil que a esquecida
.......à meia-noite

e entre epiderme
derme músculo
osso esperam
todos
uma gradação
dos espetáculos
do mundo

apague a luz cavaleiro digo cavalheiro

Breviário das secreções
................da manhã:

§.........salivação comum mesmo
em meio à
desidratação recente
§.........ejaculação de hábito
antes do desjejum
§.........sangramento normal
à pia do banheiro
colore-me a boca
sensação de frescor e medo


(publicado em meu livro de estreia,
Carta aos anfíbios
, Rio de Janeiro, Bem-Te-vi, 2005)



§


Sempre o exílio


a.

.........surpreso a quanta terra
.........não me pertence, que
.........engraçado descobrir (mais
.........uma vez) que trocar de país
.........não significa trocar de corpo
.........e a mudança
.........de língua
.........é acompanhada pela permanência
.........da produção da
.........mesma saliva.

b.

.........esta ilegalidade do meu corpo
.........desaloja-me a comida no
.........estômago
.........que permanece em ângulo
.........suspeito, a boca
.........arqueia-se, tesa –
.........e o barbante frouxo dos braços
.........a nenhum peito estreita-me,
.........esta pele estrangeira,
.........este cheiro novo.

c.

.........a certeza finalmente
.........de que a mão é incapaz
.........da linha reta,
.........os ouvidos mais atentos,
.........as pontas dos dedos
.........mais ativas, despertas,
.........os ombros caídos, menos
.........por cansaço que por pesos
.........acumulados ao longo
.........de outros sonos;
.........quando as noções
.........de segurança
.........e cidadania
.........desaparecem e resta-nos
.........a condição.


(publicado em meu livro de estreia,
Carta aos anfíbios
, Rio de Janeiro, Bem-Te-vi, 2005)


§


falar hoje exige
elidir a própria
voz as transações
inventivas entre
interno e externo
demandam
que a base venha
à tona e a
superfície seja
da profundidade da
história ímpeto
denotando o
centrífugo
o corpo público
que exibo como
palco fruto
da ansiedade
do remetente
o interno ao longo
da epiderme
como emily
dickinson terminando
uma carta de minúcias
com “forgive
me the personality“


(fragmento do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em meu segundo livro,
a cadela sem Logos
, São Paulo, Cosac Naify, 2007)


§


inveja das cartas a que
basta dedilhar um
nome completo e sempre
conseguem a atenção
do destinatário e
enquanto ele e
ele abrem
a boca permitem
a visita ao estômago
alheio minha garganta
de mão dupla abre
a passagem mais
uma vez devo bastar
-me limito-me
a olhar sua
boca limítrofe o
álcool realmente não
auxilia a
confusão de
estômagos entre
interno e externo


(fragmento do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em meu segundo livro,
a cadela sem Logos, São Paulo, Cosac Naify, 2007)



§


o que é uma língua
perdida se
encontra saliva
em estranhos como se
vai de são paulo a
berlim nomear esta
relevância morta
vício de memória horror
à memória horror do
esquecimento uma foto
é irrespirável a catedral
da cidade do méxico
afundando no antigo
lago bombeie bombeie
concreto até reter as
águas é preciso
cruzar o oceano
para ousar
falar de
água


(fragmento do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em meu segundo livro,
a cadela sem Logos
, São Paulo, Cosac Naify, 2007)



§


what a shock
to acknowledge
even silence
could be
misunderstood
as no yes depend
on your questions
of hunting & running
undistinguished
or the way
we may name
the dissipation of heat
coldness spreading
& is it a matter
of syntax or coccyx
to measure reality
& probability & expectation
much in the way he said
decompose me
but I understood
don´t come close to me
& insisted chance
is not
simply a proclivity
gone askew
although all
persist on calling
my purple sweater
brown


(escrito originalmente em inglês, publicado na plaquete
When they spoke / I confused cortex / for context, mini-edição numerada e assinada,
lançada com uma edição da revista Pablo Internacional Magazine,
editada pelo curador mexicano Pablo León de la Barra, 2006, Londres)

§


I
wish
my tooth
ached in
your mouth
every year
this time
of the year
the equinox
of equidistant
separations &
equine pain
if you
insist on breathing
as rhythm
for speech
oh my longing
lungs relating
sphinx & asphyxia
as expectation plus
reality or fake
orgasms in the day
light


(escrito originalmente em inglês, publicado na plaquete
When they spoke / I confused cortex / for context
, mini-edição numerada e assinada,
lançada com uma edição da revista Pablo Internacional Magazine,
editada pelo curador mexicano Pablo León de la Barra, 2006, Londres)


§


Corpo

cor.po
subst m corpo ['korpu]. pl. corpos. De nem
um. Massa
e peso
(favor não confundir)
anexados a superfícies
de código binário
aka masculino e feminino.
1. a. Geografia do posicionar-se. Área com fronteiras definidas; porção de espaço a sonhar
com dicionários.
1. b. Locus de focus em terror, hocus pocus da lógica em orifícios úmidos.
1. c. Carcaça. "De volta à realidade!".
Diz-se
que o mesmo ar
não pode circundar
dois ao mesmo
tempo.
2. a. Padrão de aparência perigosa para a mecânica da pureza; a ilusão da higiene.
2. b. Não uma árvore.
Cores são encomendadas de acordo com o gosto.
Entrega segue regras de fabricação genética. Exemplares ruivos
anexados a um pênis
são uma iguaria.
3. a. Não confiável em impermeáveis. Temporário e de oscilações frequentes. "Quase lá."
3. b. Um grupo de erros e equívocos reputados como uma sanidade; uma Corporação S.A.
Mas a esfera
privada
é também um pesadelo.
4. a. Estabelecimento comercial. Para instruções, referir-se ao manual, ao oral.
Som
conhecido como voz
causa a aderência
à sua definição.
5. a. Geringonça que não sua em fotografias:
5. b. Anal tomia. A maior peça da fricção.
5. c. Maquinaria para a produção de líquidos.
5. d. Exclusivo para índices e apêndices.
5. e. Destinado a lubrificantes.
Se cortado ou perfurado, tende a tornar-se mais atento.
6. Massa do tangível e matéria de farrapos.
Dê-lhe água,
faça-o celeste.
7. a. Uma coletânea ou quantidade, como de material ou informação: a evidência
de sua inflação.
VOCÊ ESTÁ AQUI
em um mapa.
8. Mobília confortável que requer manutenção.


(publicado originalmente em inglês na plaquete Corps / Körper,
do fotógrafo alemão Heinz Peter Knes, Paris, Parasite Book, 2009)


.
.
.

sábado, 5 de junho de 2010

A noite de abertura do Festival de Poesia de Berlim

Ontem à noite ocorreu a abertura do Festival de Poesia de Berlim (Poesiefestival Berlin), o maior da Europa. Cada ano traz um enfoque. Em 2008, a língua portuguesa era a convidada, e o festival trouxe a Berlim alguns poetas brasileiros, portugueses e africanos, como Paulo Henriques Britto, Arnaldo Antunes, Claudia Roquette-Pinto, Angélica Freitas, Ana Luísa Amaral, Tony Tcheka, entre outros. Também pude participar e conhecer alguns destes poetas, além de rever queridos amigos. Este ano, o enfoque é o mundo cultural mediterrâneo.

A noite de abertura sempre concentra as "estrelas" do festival. A grande estrela deste ano, sem dúvida, era o cingalês-canadense Michael Ondaatje, que eu, sinceramente, nem sabia que escrevia poesia, sendo famoso como o autor de um romance que virou filme, The English Patient, de 1992. Uma pesquisa rápida mostrou-me esta semana que ele publicou, na verdade, mais volumes de poemas que romances, estreando como poeta no início da década de 60, com volumes como Social Call (1962) e The Dainty Monsters (1967). Seus textos e sua leitura me pareceram elegantes.


The Cinnamon Peeler
Michael Ondaatje

If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
and leave the yellow bark dust
on your pillow.

Your breasts and shoulders would reek
you could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under rain gutters, monsoon.

Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbor to your hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.

I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
-- your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...

When we swam once
I touched you in water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
You climbed the bank and said

this is how you touch other women
the grasscutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
for the missing perfume.
and knew
what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in an act of love
as if wounded without the pleasure of scar.

You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
peeler's wife. Smell me.





§


Para mim, no entanto, a grande atração da noite de abertura era o chileno Raúl Zurita. Traduzi um longo poema do chileno, intitulado "Áreas verdes", para o segundo número impresso da Modo de Usar & Co., publicado em 2009. Gosto bastante do trabalho dele, ainda que ele esteja um pouco distante da nossa sensibilidade poética brasileira do pós-guerra. Na verdade, sua leitura confirmou esta sensação. Ouvindo-o esbravejar seu poema para a sua "mátria" Chile, contra a ditadura, eu me encolhia na cadeira, sentindo em cada fibra do meu ser como a timidez elegante, discrição e postura sem ênfase de homens como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos influenciaram nossa recepção-expectativa para a poesia. Lembro-me de conversar com poetas argentinos no Festival de Poesia de Buenos Aires, em 2006, e ouvi-los reclamar que os chilenos lhes pareciam grandiloquentes demais. Quando perguntaram minha opinião, lembro de ter respondido: "Meus caros, eu sou brasileiro, para um brasileiro o simples ato de levantar-se da cadeira já parece grandiloquência poética demais." Lembrem-se que isto está vindo de alguém obcecado pelo assunto da importância da oralidade. Parece-me apenas muito interessante como nossas posturas são diferentes. O Chile abriga alguns dos poetas mais importantes da América Latina hoje, desde veteranos como Nicanor Parra, Gonzalo Rojas e o próprio Raúl Zurita, até chegar a poetas como Sergio Parra, o impressionante Yanko González e uma das figuras mais interessantes da jovem poesia latino-americana: o não menos impressionante Héctor Hernández Montecinos. Há um texto de Roberto Bolaño em que este revisita seus mestres, elogiando e se distanciando, em que ele menciona justamente o messianismo de Raúl Zurita, algo que incomodava Bolaño em relação à poesia chilena. O último livro de Montecinos, ao que tudo indica, parece voltar os olhos para esta mesma discussão, com o volume La Poesía Chilena Soy Yo (2009). Nós, brasileiros do século XXI, com mestres como Oswald, Drummond ou Cabral, parecemos ter uma relação muito diferente com nossa identidade nacional e também com a história recente do Brasil. No caso da relação com a ditadura, talvez as relações sejam opostas. Se o Brasil parece viver em constante negação de seu passado ditatorial, sem mostrar-se disposto a rever algumas das estruturas que permaneceram daquela época, o Chile parece não poder seguir adiante antes de curar cada ferida daquele período tenebroso. Não sei. Talvez as duas atitudes sejam pouco saudáveis, pois a sensação que tenho, por vezes, é que no Brasil faz-se com que a ditadura explique muito pouco e, no Chile, que ela explique demais. De qualquer maneira, Zurita segue sendo admirável.




§


Voltando à noite de abertura do festival, outra poeta que me interessou muito na leitura foi a americana Cole Swensen. Ela nasceu na Califórnia, onde formou-se e ensina Literatura Comparada. Alguns a associam ao grupo de poetas da San Francisco Bay Area, muitos deles Language poets oficiais.

The Evolution of the Garden (As Albertus Magnus instructs us)
Cole Swensen


that shade is dearer than fruit        and the trees be not bitter ones        let them
not be
bitter please
pass me the sun

There were three distinct types of medieval garden: ornamental, orchard, and
ones populated by animals and birds where we’re allowed only in shadow and
falter

walking on windows: hortus in which viridarium; virgultum; Espalier the king
         or peach with its
branches so arranged
that the ripening fruit mimes
constellations and passes through the entire zodiac in all the proper steps
                        : must be grafted, apple, pear,
                                           manor, and
                                                 there go the deer! There were
carefully selected and ornamented spots for viewing
 all of geometry
devolved from planting
         the three:four:five triangular section                     sang at night: O
Master of the Embroidered Foliage painting his eyeball green we were walking
through the fine tissue of which the ripping sound at the back of the picture
on the bottom of the world that
we could live here
                   gardinum
                   hundreds
                   of acres set aside for watching animals.







§

Houve também uma apresentação da poeta sonora israelense Anat Pick. Para dar uma ideia de seu trabalho, encontrei este vídeo na Rede.



§



Os outros poetas foram os alemães Elke Erbe e Michael Krüger, o russo Dmitry Golinko, o excelente poeta chinês Yang Lian, com quem li no Festival Internacional de Poesia de Dubai e sobre o qual já escrevi neste espaço, e o congolês Nina Kibuanda.





Relatarei mais assim que puder.

.
.
.

domingo, 5 de julho de 2009

Sábados e domingos

Brindei-me ontem com a oportunidade de estar presente à leitura e debate de Rosmarie Waldrop na Akademie der Künste, durante o Festival de Poesia de Berlim, tendo a chance de finalmente conhecê-la pessoalmente. O trabalho de Waldrop teve um impacto muito grande sobre minha est-É-tica, desde que a descobri no livro Lawn of Excluded Middle, que você pode ler AAQQUUII. Desde então, leio tudo o que encontro, como o maravilhoso Reproduction of Profiles (NY: New Directions, 1987), o Reluctant Gravities (NY: New Directions, 1999) e aquele que comprei ontem no festival e passei o dia lendo: Blindsight (NY: New Directions, 2004). Ela tem sido muito generosa comigo desde que, cheio de temor e respeito, primeiro a contactei, trocando alguns textos, e permitindo-me publicar sua tradução para poemas de Ulf Stolterfoht em minha Hilda Magazine. Tive a honra de ter minha série "Six Songs of Causality" publicada ao lado de poemas seus na revista eletrônica Green Integer Review, editada por Douglas Messerli, em 2007. Tenho traduzido seus poemas e trabalho no momento em seu texto "Thinking of follows", para o segundo número impresso da Modo de Usar & Co.. Considero-a um dos mais importantes poetas vivos da língua inglesa.

A leitura foi, infelizmente, bastante curta. Na verdade, tratava-se de um debate sobre e entre poetas que emigram e assumem um novo país, um novo contexto, uma nova língua. Para isso, Rosmarie Waldrop, que nasceu na Alemanha em 1935 e emigrou para os Estados Unidos com 23 anos, leu capítulos de seu livro A Key Into the Language of America (NY: New Directions, 1994), traduzido para o alemão pela poeta Elke Erb e publicado por aqui em edição bilíngue. No livro, Waldrop descreve o processo de imersão em uma nova lingua e cultura, tomando como base o trabalho homônimo de Roger Williams (1603 - 1683), o primeiro estudo em inglês de uma língua e cultura indígenas, da tribo Narragansett, que fala a língua conhecida como Algonquin. Você pode ouvir Rosmarie Waldrop lendo trechos deste livro AAQQUUII. Do debate e da leitura também participou o jovem poeta americano Christian Hawkey (n. 1969), que vive há anos entre Nova Iorque e Berlim, junto de seu tradutor para o alemão, o poeta Steffen Popp (n. 1978). Tudo fez parte do USA Day no festival, promovido pela Embaixada Americana no 4 de julho.


(Christian Hawkey lê alguns de seus poemas)

Após jantar com amigos na própria Akademie der Künste (Academia das artes), entramos todos para a performance de Edwin Torres e Saul Williams. Escrevo a respeito em um outro momento. Ainda estou digerindo a coisa toda.


(Edwin Torres em performance)

Hoje à noite, discoteco no encerramento do Festival.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Poesiefestival Berlin 2009

Esta semana, Berlim é o centro poético da Europa. O Poesiefestival Berlin começou no fim-de-semana, o maior do continente. Há vários poetas interessantes e maravilhosos na cidade. Festim. Entre aqueles sobre os quais já escrevi aqui ou na Modo de Usar & Co., estão na cidade a maravilhosa Rosmarie Waldrop e os poetas sonoros Jörg Piringer, Maja Ratkje e Eduard Escoffet.

Hoje à noite visito com meu querido amigo, o poeta catalão Eduard Escoffet, a exposição de poemas visuais de Joan Brossa no Instituto Cervantes.


(Joan Brossa)

Depois seguimos para o centro conhecido como Radial System para ver a apresentação de Jörg Piringer.


(Jörg Piringer - "Broe Sael")

Terminamos a noite com nossa querida Nora Gomringer na leitura de seu pai, o concretíssimo Eugen Gomringer. A leitura de Gomringer será feita durante uma discussão sobre a atualidade do soneto. O que traz à memória certo debate.

Rosmarie Waldrop lê no sábado:

§

Eu inferira das imagens que o mundo era real e portanto pausara, pois quem sabe o que há de acontecer se falarmos a verdade enquanto subimos as escadas. De fato, eu tinha medo de seguir a imagem até onde ela se espraia na realidade, nela esticada como uma régua. Eu pensei que morreria se meu nome não me tocasse, ou apenas com sua extremidade, deixando o interior aberto a tantos sensores como chuva casual despencando das nuvens. Você riu e contou a todos que eu confundira a Torre de Babel com Noé em sua Embriaguez.
(Tradução de Ricardo Domeneck)

§

I had inferred from pictures that the world was real and therefore paused, for who knows what will happen if we talk truth while climbing the stairs. In fact, I was afraid of following the picture to where it reached out into reality, laid against it like a ruler. I thought I would die if my name didn’t touch me, or only with its very end, leaving the inside open to so many feelers like chance rain pouring down from the clouds. You laughed and told everyone that I had mistaken the Tower of Babel for Noah in his Drunkenness.

(from The Reproduction of Profiles, 1987)

§

Na mesma noite, há a apresentação de Saul Williams e também de Edwin Torres.


(Saul Williams, "Coded language")

Li no festival em 2007 e 2008. Este ano discoteco na festa de encerramento. Discotecar para poetas e leitores de poesia... well well... espero que estes saibam dançar.

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