Nesta quarta-feira, 3 de dezembro de 2008, é lançado em São Paulo O Livro de Scardanelli, volume de estréia do poeta Érico Nogueira (Bragança Paulista, 1979), que ganhou o prêmio da Secretaria de Cultura de Minas Gerais. O livro traz uma introdução de Carlos Felipe Moisés.
Já escrevi sobre o trabalho de Érico Nogueira neste espaço (Leia AAQQUUII). Ainda que tenhamos visões e est(É)ticas bastante distintas e nossas relações com o que chamamos de "tradição" sejam quase opostas, tenho muito respeito por seu trabalho. Sua abordagem e questionamento das formas históricas são extremamente conscientes e, ao contrário de muitos que o tentam, competentes. É refrescante, na verdade, poder discordar de alguém tão inteligente e competente como poeta. É um livro com o qual temos que lidar, pura e simplesmente. Discordâncias deste nível são mais que bem-vindas.
Como é possível? Como a senhora Bianca "Coco" Casady conseguiu este milagre com sua voz? Hein, senhora Sierra "Rosie" Casady, como, como vocês fizeram isso? Que mágica é essa? Como explicar a maneira como estas duas criaturas, CocoRosie oh Coco & Rosie, querida Coco, querida Rosie, como vocês conseguiram transformar uma das canções mais nojentas e machistas do mundo nesta coisa deslumbrante, nesta canção linda, linda, linda? Isto é o que eu chamo de gender politics, eu quero dormir com Coco miando "tuuuurn me on" nos meus ouvidos, que coisa linda. Pasmo em performance. Turn me on.
(A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil, Lisboa: Cotovia, 2008)
com os poetas
Angélica Freitas Aníbal Cristobo Augusto Massi Carlito Azevedo Fabiano Calixto Felipe Nepomuceno Heitor Ferraz Marcos Siscar Marília Garcia Ricardo Domeneck Simone Brantes Valeska de Aguirre Walter Gam
Não, não é um panorama. Não. Não é o novíssimo milênio. Não são todos os poetas. Não são os únicos e se são os melhores não se sabe, não se diz. Não saberemos nós. Não. Não nesta vida. Não são, vejam bem, treze poetas do Brasil, pois um nasceu em Buenos Aires. Não são, porém, treze poetas no Brasil, pois três deles vivem na Zooropa. Não conhecem todos os focinhos dos outros. Não gostam todos talvez da poesia dos outros. Não concordam talvez com a seleção. Não dão conta da poesia completa do Brasil. Não andam em Portugal. Não. Não vejo a hora de pôr mãos e olhos e garganta neste livro.
Ontem à noite leu a primeira leva de poetas do festival European Voices, na sala de leituras do Literaturwerkstatt. Abriu a noite a poeta britânica Joanne Maria McNally, com três poemas ligados à cidade de Berlim, onde vive desde 1988. Difícil julgar seu trabalho por estes três poemas, portanto deixarei de lado minha placa de auto-interdição a esta praia até obter maior informação sobre a poeta.
Em seguida, leu o poeta português Gastão Cruz (Faro, Portugal - 1945), "membro" do grupo conhecido pelo nome da revista que editou, Poesia 1961, que incluía ainda Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro de Brito e Maria Tereza Horta. Um poeta muito delicado e inteligente, tivemos uma longa e divertida conversa depois da leitura, sobre poetas brasileiros (João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos) e portugueses, como Herberto Helder, Ruy Belo, Alberto Pimenta e Adília Lopes, assim como sobre o poeta Luis Miguel Nava (assassinado aos 37 anos, em 1995), e também sobre a revista que co-edita, a Relâmpagos. Foi um prazer conhecê-lo.
ESPECTROS, poema de Gastão Cruz
Restas Dentro da luz nascido erraste nas areias que foram para ti o universo Estás em tempos diversos onde a ave
que sobrevoa agosto até ao extremo já não te vê e tu não podes ver as asas que te queimam Mas a vida descobre-te sozinho
tropeçando na carne dos espectros E tu restas Essa luz é o nada A praia já entrou
no verão infinito A aurora eterna expulsa-te Mas restas A memória interpreta-te és a
vítima do dia que te recusa e exibe Nessa luz da origem sobrevives interrogando o corpo incorruptível
§
Em seguida leu o francês André Velter. Conhecia-o apenas como organizador da antologia Orphée Studio: poésie d'aujourd'hui à voix haute (Paris: Gallimard, 1999), com poemas-para-performance de Jacques Roubaud, Christian Prigent, Serge Pey, entre outros. Gostei de sua leitura, vou procurar mais de seu trabalho.
Fui o penúltimo a ler. Iniciei minha leitura com meu texto-para-performance en inglês "This is the voice", lendo em seguida os poemas "Linear", "Mula", "Sempre o exílio" e "falar hoje exige", precedidos por suas traduções para o alemão, lidas pelo poeta Alexander Gumz (que leu as traduções para o alemão de todos os poetas da noite). Terminei a leitura com o poema em inglês "Poem (for Jonas Lieder)".
Encerrou a noite o poeta dinamarquês Morten Søndergaard, com um trabalho bastante interessante.
Hoje ocorre a segunda noite do festival, com o meu querido colega Tomaž Šalamun (que nasceu em Zabreb, na Croácia, em 1941, mas cresceu e vive em Liubliana, na Eslovênia), um dos mais conhecidos poetas europeus contemporâneos. É a segunda vez que lemos juntos em um festival este ano. Um cavalheiro delicadíssimo.
Lê ainda a minha queridíssima Nora Gomringer, com quem divido o microfone pela terceira vez (lemos/performamos no mesmo festival em Barcelona em 2007 e mais tarde em Madri, em maio deste ano). Nora Gomringer é filha do poeta Eugen Gomringer, sim, aquele da fundação internacional da Poesia Concreta, e sua filha é uma das mais importantes poetas-performers da Alemanha. Delícia de criatura.
(Nora Gomringer em Barcelona, "Du baust einen Tisch", com tradução para o catalão, acompanhada pela banda Bradien)
Não tive a oportunidade de conhecer o poeta Leonardo Martinelli pessoalmente. Trocamos muitas mensagens eletrônicas, discutimos poesia, a alheia e a nossa, trocamos poemas, comentamos o trabalho do outro. Acreditava que seria um dos encontros bonitos quando finalmente passasse pelo Brasil mais uma vez. A notícia de sua morte, este fim-de-semana no Rio de Janeiro, deixou-me bastante triste. Martinelli foi uma das pessoas que me trataram com gigantesca generosidade, desde que publiquei meu primeiro livro. Considerava-o um amigo, companheiro, aliado, colaborador, cúmplice. Termino esta nota, muito triste, com um de seus poemas, talvez meu favorito entre os que escreveu antes de desaparecer.
Receitas para engolir e curar o fracasso Origem, compra, preparo e sabor
1. Ave sertaneja de porte médio fibrosa, rija de vida noturna
Preços: vinte e sete contos o quilo no Mercadão de Madureira ou
trinta e sete (ágio de dez paus) nos açougues febris da rede Mundial
O jeito é pegar um 254 na madruga ou encarar de frente o trem da Central
2. Embrulhe o fracasso com jornal de ontem
3. Afogue duas postas numa panela de barro contendo dois litros de vinho barato
Salgue e asse em fogo alto
Enfeite o prato com uma dúzia de
amóreas secas + 100 g de fios de óvulos
4. Aí vai ele numa baixela dourada ridícula - duas palavras em francês fajuto farão sorrir amarelo
o rapaz de meia-idade e enrubescer as bochechas gentis suburbanas à mesa
Acabou hoje o Festival de Poesia Latino-Americana de Berlim, conhecido como Latinale. A última leitura foi esta noite, no Instituto Cervantes. Sem apoio financeiro este ano, o festival concentrou-se em poetas latino-americanos vivendo na Europa, o que limitou a seleção. Mesmo assim, Timo Berger e Rike Bolte conseguiram organizar um festival com um belo número de poetas realmente muito bons. Alguns são, em verdade, excelentes poetas. Com uma ou outra escolha "institucional", o festival conseguiu trazer poesia latino-americana de qualidade à capital alemã.
Foi um prazer conhecer os mexicanos Luis Felipe Fabre e Minerva Reynosa, poetas muito bons, inteligentes, com quem foi um prazer conversar. De Luis Felipe Fabre posso agora ler, graças à sua generosidade, o livro Cabaret Provenza, com belos poemas, e o livro de ensaios Leyendo agujeros. Ensayos sobre (des)escritura, antiescritura y no escritura. Gostei de conhecer pessoalmente a argentina Carolina Jobággy, uma poeta elegante, em todos os aspectos. Mesmo que não me interesse por 100% de sua pesquisa poética, seu trabalho chama a atenção. Em outro espectro, ainda que a alguns tenha parecido uma espécie de diva ensandecida, a espanhola Montserrat Álvarez me agradou muito com seu trabalho e sua presença. A uma diva com o seu talento, perdoa-se tudo. Também me alegrou a leitura do peruano Domingo de Ramos, com um trabalho que poderia apenas descrever, agora, como legítimo, um poeta que inspira respeito. Conversei com outro poeta a respeito de sua geração, que este chamou de "geração de poetas-performers dos anos 80 na América Espanhola", sobre a qual conhecemos muitíssimo pouco no Brasil, praticamente nada, já que nos chega em geral apenas o trabalho dos soldados da máfia da elefantíase semântica (a Modo de Usar & Co. é uma das várias revistas tentando pluralizar/complicar a fotografia).
O grande prazer deste festival foi, no entanto, rever o chileno Yanko González, um poeta excelente, uma pessoa que respeito muito. Conheci-o em Buenos Aires, em 2006, durante o Festival de Poesia Latino-Americana de Buenos Aires, conhecido como Salida al mar. Estávamos os três (Yanko González, Angélica Freitas e eu) hospedados na casa do poeta argentino Cristian De Nápoli, e tivemos tardes e noites de ótimas conversas e debates. Seu livro Metales Pesados (1998) pareceu-me um dos melhores trabalhos da última poesia latino-americana que havia lido. Sua leitura no festival em Buenos Aires foi impressionante, um poeta que escreve muitíssimo bem, sabendo, porém, que estes TEXTOS serão um dia oralizados. Escrevo esta postagem com seu mais recente livro ao meu lado, chamado Alto Volta (2007), excelente livro. Sua leitura foi, esta noite, um dos pontos altos do festival. As conversas que tivemos, regadas a vinho, foram outros pontos altos do meu semestre.
§§§ POEMAS DE YANKO GONZÁLEZ
gremio
Fui donde Morgan y le dije: dame este retrato mío que tienes en la cabeza. No te enojes -me dijo- ya te lo doy. Se abrió la testa y me lo dio. Después fui donde Taylor : Edward ese retrato mío que tienes en la cabeza dámelo Estás enfermo –dijo- Me impacienté le di un palo le abrí el cráneo y saqué mi retrato.
Boas escuchó el grito y vino corriendo: pero hijo mío ¿qué has hecho? Cayó otra víctima Se lo abrí y saqué mi retrato.
Me visitó la Mead: Maggie dame ese retrato mío que tienes en la cabeza. Se abrió el cráneo y me lo dio. Busqué a Ruth y mudo le partí el cráneo con un fierro le saqué mi fotografía blasfemando Con el cráneo abierto Como abierta le dejé la puerta de su casa.
(Se me cruzó Evans Con su mismo rifle le destapé los sesos usurpándole mi imagen)
Volví y estaban todos almorzando
Claude L. S. y el Polaco Se levantaron y sin siquiera saludarme se abrieron sendos cráneos y me dieron el retrato haciéndome una venia. Partí a donde todos mis “amigos”.
Se había corrido la voz y no tuve ningún inconveniente Me saludaban amablemente Mientras con la otra mano me daban mi retrato Yo les decía al mismo tiempo "gracias" Y les cerraba su cráneo con deferencia.
Al séptimo día me fui a Ninguna Parte Con mi bolso de cuero y lana repleto de fotografías Me empiné como pude Y las puse sobre una nube que pasaba y les prendí fuego.
Volví de una carrera Los busqué uno por uno
Pero allí estaban todos
Con ese otro retrato mío en la cabeza.
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ejemplo
Quieren que me vaya como si yo no quisiera irme Entonces les digo me voy Pero al primer o quinto paso Corren a buscarme para que les planche el aire Les abra una zanja donde han de cruzar sus trajes.
Ayer fue lo mismo Entendí claramente quieren que me vaya Eso es lo que se decían mientras cuidaba de sus niños
Yo jugaba a lo que en Alto Volta se jugaba Ejemplo La silla se llama lavabo la puerta sardina La mesa vajilla y los zapatos cadira Entonces los niños gritaban Amarillo Ábrenos la sardina.
Era un juego y dijeron que me fuera Que tenía que enseñarles las palabras Como se debían
Ejemplo abrir la boca se dice reír.
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que no quiere
“Que no quiere morir como un perro nadie quiere morir como un perro todo ser humano merece no morir como un perro ha vivido como cerdo y no quiere morir como un perro”
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Pasavante
No, si puedes quedarte pero sucede es decir la casa está digamos que no hay mucho por donde una o dos puedan veamos es que estoy con un ritmo digo al mismo tiempo con esto para allá con lo otro preferiría No, si puedes quedarte pero sucede es decir la casa está digamos que no hay mucho por donde una o dos puedan veamos es que estoy con un ritmo digo al mismo tiempo con esto para allá con lo otro preferiría No, si puedes quedarte pero sucede
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(Yanko González, lendo no festival chileno Poquita Fe, 2008)
Leio poemas no festival European Voices, com Tomaz Salamun, Nora Gomringer e outros.
European Voices. 25/26 de novembro no Literaturwerkstatt. Berlin.
Com os poetas
Gastão Cruz (Portugal), Ricardo Domeneck (Brasil/Alemanha), Joanne Maria McNally (Grã-Bretanha), Morten Søndergaard (Dinamarca), André Velter (França), Nora Gomringer (Alemanha), Paolo Ruffilli (Itália), Tomaž Šalamun (Eslovênia) e Serge van Duijnhoven (Holanda)
Conduzi esta entrevista com Owen Ashworth (Casiotone for the Painfully Alone) no final de 2006 em Berlim, nos meus tempos de editor da revista Flasher. Os excertos de seu concerto foram filmados na noite anterior.
(Owen Ashworth em entrevista com Ricardo Domeneck, Berlim, inverno de 2006)
O poeta-músico Owen Ashworth nasceu na Califórnia em 1977. Após abandonar o curso de cinema, fundou o projeto Casiotone for the Painfully Alone em 1997. Seu álbum Etiquette (2006) é uma coisa muito bonita.
(Casiotone for the Painfully Alone, "White Corolla")
Hoje é uma noite de gender-guerrilla na berlin hilton. Temos a honra de apresentar Shunda K, uma das integrantes do coletivo YO! MAJESTY, que tem causado furor nos últimos meses, desde que foi "descoberto" pela mídia que suga as energias do mundo da música. Hoje, 19 de novembro, na berlin hilton.