Foi publicada há pouco no México a antologia Porque El País No Alcanza: Poesía Emigrante de la América Latina (Ciudad de México: Billar de Lucrécia, 2010), que traz poetas latino-americanos vivendo fora de seus países ou em constante diáspora, para quem a migração por fronteiras e o questionamento de noções de cidadania e pertencimento acabam por se tornar elementos vitais. Tenho alguns poemas incluídos no volume, com tradução para o castelhano do poeta argentino Cristian De Nápoli. Sou o único brasileiro na antologia, que traz vários mexicanos, onde naturalmente a questão de migração por fronteiras assume um caráter tão determinante. O volume tem seleção e apresentação do poeta alemão Timo Berger e prólogo de Héctor Villarreal. O livro encerra o projeto editorial mexicano Billar de Lucrécia e inclui os seguintes autores:
Omar Pimienta (Tijuana, 1978) Alejandro Tarrab (Ciudad de México, 1972) Maricela Guerrero (Ciudad de México, 1977) Alejandro Zambra (Santiago de Chile, 1975) Miguel Ildefonso (Lima, 1970) Cristino Bogado (Asunción, 1967) Cecilia Pavón (Mendoza, 1973) Matías Moscardi (Buenos Aires, 1983) Sayak Valencia (Tijuana, 1980) Julio Espinosa Guerra (Santiago de Chile, 1974) Diego Palmath (Lima, 1977) Edgardo Dobry (Rosario, 1962) Milagros Salcedo-Roguet (Lima) Rery Maldonado (Tarija, Bolivia, 1976) Ricardo Domeneck (São Paulo, 1977) Lalo Barrubia (Montevideo, 1967) Roxana Crisólogo (Lima, 1966) Jennifer Adcock (Monterrey, 1982) Rogelio Guedea (Colima, 1974)
Rocirda Demencock segue aqui com seu manual cine-ilustrativo
sobre as melhores formas de fazer drama, em lições pontuais,
tomadas dos mestres.
Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência
É incrível como muitas das lições vêm condensadas em filmes irmanados. Alguns filmes são fontes inesgotáveis de aprendizagem para o seu melodrama pessoal e intransferível de pessoa física, querido leitor e leitora. Com alguns trabalhos do cinema, seria possível escrever manuais inteiros. No entanto, talvez a cena mais condensada para esta lição, sobre como entrar no recinto onde está presente sua concorrência (especialmente se estivermos falando de uma concorrente vitoriosa), está em Gone With The Wind (1939), na cena em que Scarlett O´Hara é forçada por Rhett Butler a ir ao aniversário de Melanie (Hamilton) Wilkes logo após ter sido flagrada aconchegando-se ao torso de Ashley Wilkes, seu príncipe encantado, mas casado com Melanie.
Lição prática e ilustrativa de Scarlett O´Hara, esposa três vezes, viúva duas, noiva eterna.
A personagem Scarlett O´Hara, interpretada por Vivien Leigh, no aniversário de sua concorrente Melanie Hamilton, interpretada por Olivia de Havilland em Gone With The Wind (1939).
§
Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência
Lição teórica de Ricardo Domeneck, poeta e mula.
§ - Sendo ou não, cruze o umbral tão-somente se houver se convencido de que todos os orifícios de seu corpo são mais desejáveis que o de sua concorrente.
§ - Para isso, qualquer método é legítimo, dos fornecedores de autoestima conhecidos como Chanel e Prada, à macumba diante do espelho e os banhos de água com açúcar.
§ - Que cor usar? Não importa a sua preferida, mas qualquer uma que apague ainda mais aquela sonsa que, sem brilho, venha a delir-se ao seu lado.
§ - Por fora, uma mestiçagem de Magdalena Frackowiak com Naomi Campbell, Bündchen-Moss; por dentro, uma Rainha de Copas louca e mais que pronta para decapitar Alice, Malévola querendo presentear Aurora com o coma.
§ - Saudações nos lábios, maldições na mente.
§ - Só se adentra tal recinto como se encarnasse uma pessoa jurídica, nunca mera pessoa física, não, você é CEO, Chief Executive Officer do seu Ego.
§ - Você é um corpo e seu amor uma Corporação.
§ - Roube a cena e a ceia, que cada um veja você como o prato principal.
§ - Em sua boca, coloque uma foto dela dissolvendo-se, como se você fosse um sapo de boca costurada.
§ - Bonecos e agulhas são obsoletos, o voodoo você pratica com olhares e sobrancelhas, espete sua concorrente com seus cílios como se ela fosse apenas uma boneca de palha.
§ - Diante da sua determinação em conseguir o que quer e quer e quer, ela é mesmo apenas uma boneca de palha.
§ - O momento para mimos de princesa passou, a esta altura do campeonato melhor acionar o módulo Jezebel.
§ - Oblíqua, oblíqua e dissimulada são tudo o que eles merecem de sua lista de adjetivos.
§ - Como uma ovelha você dá seus passos firmes sala adentro, em verdade toda lupina, até que eles vejam pelúcia onde você nutre e cresce bombril.
§ - Culpada, culpada até que provem o contrário.
§ - Faça-os engolir o veredito e você, desça seus esôfagos com as unhas em riste.
§ - Aos amigos impertinentes, diga: "Às vezes, o que os mansos herdam é a guerra".
§ - Ao fim da festa, quando a concorrente perguntar a você se quer levar um pedaço de bolo para casa, responda-lhe que sim e que embrulhe o homem concorrido junto.
§§§
Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência
Lição prática e ilustrativa ALTERNATIVA: Malévola, bruxa e milf recalcada.
Há alguns meses, o prosador e poeta bahiano João Filho (Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1975) me perguntou se eu toparia responder as perguntas dos seus Arquivos Implacáveis, à Maneira de João Condé. Mais tarde, ele postou as respostas em seu blogue, chamado Voo Sem Pouso. Você o conhece? Escrevi sobre o trabalho de João Filho neste espaço, por ocasião do lançamento de seu livro de contos Ao longo da linha amarela (2009). Como fiz ao responder as perguntas do Questionário Dourado, de Jorge Wakabara, reproduzo aqui as perguntas e respostas, com alguns comentários a algumas.
ARQUIVOS IMPLACÁVEIS (de João Filho). À maneira de João Condé.
Nome:
Ricardo Domeneck
Onde nasceu e a data:
No município paulista de Bebedouro, no dia 4 de julho de 1977.
COMENTÁRIO: Às vezes me pergunto o quanto ter nascido naquela cidade me marca. Para alguns poetas brasileiros, seu local de nascimento torna-se mítico. É claro que isso depende da própria poética do autor. É natural que um poeta como Carlos Drummond de Andrade tenha feito de Itabira do Mato Dentro uma das cidades míticas do Brasil, pelo menos entre poetas. Ao mesmo tempo, para mencionarmos um contemporâneo e conterrâneo seu: quantas pessoas saberiam dizer onde nasceu Murilo Mendes? As cidades mais declaradamente marcantes em minha vida foram cidades de eleição: São Paulo e Berlim. No entanto, alguns dos poemas em Carta aos Anfíbios foram escritos em 2002, enquanto estava em Bebedouro, passando alguns meses com meus pais.
É casado, tem filhos?
Separado, sem filhos.
COMENTÁRIO: Não tenho filhos, mas gostaria de tê-los, gostaria muito de transmitir a outra criatura o legado de nossa _______________ (Preencha a lacuna com a coisa mais feliz e positiva que lhe parece encher a existência).
Altura:
1,84
COMENTÁRIO: No Brasil isso é considerado "alto". Lembro daquela descrição que ouvia nos anos 80 sobre o homem de 1 metro e oitenta como o supra-sumo da perfeição. Após viver por alguns anos entre gigantes germânicos (vários amigos meus aqui beiram os 2 metros de altura), passei a achar engraçada a descrição.
Peso:
60 kg
Número dos sapatos:
41
Prato preferido, bebida e jogo:
Bife com arroz e salada de tomate. Ou baião-de-dois. Tequila, porque é a única que não me deixa de ressaca. Quanto ao jogo, começo a me entediar cerca de 5 minutos depois de começar qualquer um, seja de cartas ou tabuleiro.
COMENTÁRIO: Pode ficar parecendo jogueteio de quem quer soar "simples", mas apesar de ter desenvolvido alguns hábitos culinários exóticos aqui na Alemanha, ainda gosto e prefiro certas comidas da infância.
Gosta de cinema, teatro, quais prefere?
Posso dizer, creio, que prefiro cinema, em tela de qualquer tamanho. Não poderia contar quantas experiências importantes tive no cinema. Cito duas: O sétimo selo, de Bergman, visto em um cinema de São Paulo aos 20 anos;
outra: La pianiste, de Michael Haneke, visto 11 vezes no cinema, filme por que fiquei obcecado por algum tempo.
As experiências inesquecíveis em teatro foram menos frequentes, mas cito uma: Vozes dissonantes, da Denise Stoklos.
COMENTÁRIO: Eu poderia haver citado outros filmes. O de Bergman foi simplesmente um momento de descoberta do cinema em São Paulo, com 20 anos, quando comecei a ver filmes de gente como o sueco, ou Godard, Pasolini, Tarkóvski. Alguns filmes estão tão marcados na minha mente que sua influência é totalmente vital. Poderia ter mencionado Não Amarás, de Kieslowski; O Espelho, de Tarkóvski; ter assistido a Éloge de l´amour, de Godard, na telona do cinema; ou, para falar de um filme recente, o mais novo trabalho de Darren Aronofsky, sobre o qual ainda pretendo escrever aqui, Black Swan, com uma performance radiante de Natalie Portman.
Poeta e prosador preferido:
Tendo que escolher um, menciono o mestre que elegi para mim mesmo: Murilo Mendes.
COMENTÁRIO: O poema "Janela do caos" ainda é uma das pedras de toque de tanto que aprendi sobre poesia.
Três primeiros movimentos de "Janela do caos"
1
Tudo se passa Num Egito de corredores aéreos, Numa galeria sem lâmpadas À espera de que Alguém Desfira o violoncelo _ Ou teu coração? Azul de guerra.
2
Telefonam embrulhos, Telefonam lamentos, Inúteis encontros, Bocejos e remorsos.
Ah! Quem telefonaria o consolo, O puro orvalho E a carruagem de cristal.
3
Tu não carregaste pianos Nem carregaste pedras, Mas em tua alma subsiste - Ninguém se recorda E as praias antecedentes ouviram - O canto dos carregadores de pianos, O canto dos carregadores de pedras.
Não tenho prosador favorito, a preferência oscila entre Machado de Assis e Dostoiévski, Beckett e Hilst. O último que me impressionou foi Bolaño.
COMENTÁRIO: A menção a Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski talvez pareça estranha a quem conhece meu trabalho, referências talvez não muito óbvias. Talvez deva qualificar um pouco as escolhas. Considero Machado importante e central para o que queiramos fazer hoje no Brasil. Há um poder de alusão e implicação, uma sutileza nele, que me parecem simplesmente exemplares. Como na passagem em que Sofia cai do cavalo em Quincas Borba. Aquele capítulo é para mim de uma perfeição inigualável em sugestão. Já Dostoiévski, na verdade, teve um impacto gigante em mim por causa de um romance específico. A verdade é que não gosto de quase nada mais que li do russo, com exceção do magnífico Os Irmãos Karamazov. Aquele romance está nas minhas entranhas desde que o li. Aliosha é uma das minhas personagens masculinas favoritas no mundo literário. As escolhas de Beckett e Hilst são mais óbvias, talvez. Dentre os "novos", Bolaño segue me parecendo um milagre. Mas ainda tenho que ler alguns americanos como David Foster Wallace, Jonathan Franzen e alguns outros.
Tipo de música e músico preferido:
Qualquer uma, desde que tenha letra e esta seja cantada por uma mulher: Beth Gibbons ou Billie Holiday, Björk ou Elis Regina, Kate Bush ou Chan Marshall.
Entre os compositores clássicos: Schubert.
Qual pintor preferido?
Meus pintores favoritos são dois videoartistas: Douglas Gordon e Péter Forgács.
COMENTÁRIO: Mais uma vez, não é jogueteio. É claro que há a decisão aqui est-É-tica de mencionar videoartistas onde João Filho me perguntou por pintores. Como foi a única pergunta em que ele mencionou as artes visuais, precisei escolher est-é-ticamente. Poderia, é claro, ter mencionado Jean Dubuffet, por exemplo, um pintor que amo; mas hoje dirijo meus olhos em geral para outras práticas.
Qual a cor predileta?
A quantidade de roupas sujas azuis espalhadas no chão do meu quarto deve indicar essa cor como a favorita, mesmo que inconsciente.
Quando escreveu seu primeiro texto?
Aos 12 anos, creio.
Dos seus livros publicados qual o preferido e por quê?
O primeiro, Carta aos anfíbios, porque aquela alegria difícil e meio inocente de terminar o primeiro livro nunca mais volta.
COMENTÁRIO: Isso é difícil de responder. A resposta acima me pareceu plausível. Ao mesmo tempo, gosto do último que publiquei por motivos muito diferentes. No entanto, hoje teria que responder que o livro de que mais gosto é o que estou escrevendo agora.
Se pudesse recomeçar a vida o que desejaria ser?
Ser capaz de compor música é a única coisa que desejaria acrescentar ao que já sou e tenho.
Seu principal defeito:
Ciumento, muito, muito ciumento. Muito.
COMENTÁRIO: Algo que já tomou tanta energia minha e o qual, ao mesmo tempo, contraditoriamente doou-me meu poema mais conciso.
Sua principal virtude:
Lealdade extrema aos amigos, o que às vezes pode ser um defeito quando é cega.
Coleciona alguma coisa?
Cruzar rios. Da forma como João Cabral relata sobre Murilo Mendes em um poema.
Algum hobby?
Na verdade, eu tenho a imensa sorte de viver do dinheiro ganhado com meu hobby: trabalho como DJ.
Uma ou duas grandes emoções em sua vida?
Receber o sim da editora que publicou meu primeiro livro. Receber o sim da editora que publicou o segundo.
É crente ou ateu?
Crente. A resposta à próxima pergunta indicará o quanto e como.
Três livros que mudaram sua vida ou, se não mudaram, mas tocaram fundo:
Teria que citar cinco - O Livro de Jó; Do sentimento trágico da vida, do Miguel de Unamuno; Os Irmãos Karamazov, do Dostoiévski; Investigações filosóficas, do Wittgenstein; Qadós, da Hilda Hilst. Parece-me mais que necessário mencionar também o que mais me divertiu e mais me fez rir em público, nos ônibus e trens de Berlim: o delicioso The Autobiography of Alice B. Toklas, da Gertrude Stein.
COMENTÁRIO: Outra vez, difícil fazer uma lista. Relendo esta hoje, fiquei pensando em tantos outros livros que me transformaram, como A Maçã no Escuro, da Clarice; Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Barthes; Dom Quixote, do Cervantes; no fundo, tudo o que espero é que a lista continue crescendo.
Três canções para o momento: "Só eu posso morrer porque estou vivo"
Porque a alegria talvez seja mais serena do que penso, porque é minimalista e é experimental sem que se perceba, pois quiçá não grite aos transeuntes que se desbundem com suas pirotecnias.
A alegria, a não ser que seja a "difícil" sobre a qual relatou Clarice Lispector, aquela alegria que é irmã da lucidez, sobre a qual Orides Fontela alertou ("alucina"), a alegria, ela repete "sol, sol, sol". Ela anda de bicicleta e sempre vai a caminho do mar. Ela sabe que nada sabe ou que só sabe o que lhe cabe saber naquele exato momento. É o que desejo a mim mesmo e a todos os que amo em 2011, a alternância entre estes três estados de espírito, estes aqui, nestas canções abaixo, que sobem, sobem.
Caribou - "Sun"
§
Dimitri BR - "O encontro de Mary Hansen e Tom Jobim no céu"
Vasily Grossman como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial
Meus hábitos de leitor de prosa são caóticos. Há épocas em que devoro romances, um atrás do outro, mas há também outras épocas em que a simples visão de uma página repleta de signos da esquerda à direita já me faz bocejar. Isso acontece geralmente em relação à ficção. Livros de prosa crítica e filosofia nunca me entendiam, e estou sempre a ler algum crítico ou filósofo. Mas romancistas podem ser tão tediosos, especialmente para poetas viciados na tal materialidade sígnica e tal. A prosa contemporânea no Brasil é, com exceções, um sonífero.
Em 2010, li pouca ficção. Minha mochila ou meu bornal continham sempre um ou dois livros de poesia, acompanhados de um livro de crítica literária, poética, ou política. Li neste ano de 2010 muita coisa dos críticos que amo, como Hugh Kenner e Walter Benjamin, li outros que não amo e dos quais discordo com frequência mas que são estimulantes, como Fredric Jameson e Terry Eagleton, descobri o trabalho inteligentíssimo de Alfonso Berardinelli, emocionei-me com o lindo memoir de Jakobson sobre Maiakóvski, A Geração Que Esbanjou Seus Poetas (publicado em uma linda edição pela Cosac Naify), mas pouca prosa de ficção.
Arrastei, entre outras, a leitura do famoso romance satírico de Witold Gombrowicz, Ferdydurke (1937), por exemplo. Mas foi, há um par de meses, uma coletânea de contos e artigos do soviético/ucraniano/russo Vasily Grossman que acordou novamente meu paladar para a prosa e me deixou faminto por boa ficção.
Grossman esteve nas notícias culturais aqui da Alemanha há pouco tempo e com grande estrondo, pois foi traduzido para o alemão seu grande romance proibido pelo Kremlin, intitulado Vida e Destino. Houve resenhas e artigos sobre o "soviético" em todos os grandes jornais.
O volume que li, no entanto, chama-se The Road, traduzido para o inglês por Robert Chandler e publicado pelo New York Review of Books, trazendo contos como "Na cidade de Berdichev", o primeiro que Grossman publicou, e artigos como "No Inferno de Treblinka", um dos primeiros sobre a Shoah. Correspondente de Guerra genial, Grossman foi um dos primeiros jornalistas e escritores a entrarem em um campo de concentração. Sua descrição é uma das coisas mais assustadoras que já li, indo onde mesmo muitos filmes não poderiam ter ido.
Grossman é o tipo de escritor que me pega pela garganta. Não é um estilista frio e calculado, obcecado pela frase perfeita. É extremamente próximo, caloroso. Talvez vá parecer absurdo para alguns, já que seus contextos biográficos são tão diferentes, mas durante a leitura de Grossman havia algo que constantemente fazia-me pensar em Clarice Lispector. Não conseguia evitar a impressão e ficava me perguntando o porquê.
Há certos pontos de contato. Grossman nasceu em Berdichev, antigamente parte do Império Russo, hoje parte da Ucrânia. Lispector também nasceu na Ucrânia, e também em uma família judia. Obviamente, este fator biográfico teve maior importância na vida de Grossman que na vida de Lispector, mas há que se pensar na influência dos pais de Lispector sobre sua formação e criação. Contudo, a ligação, eu creio, talvez seja literária e só vim a descobrir depois. Ao fim do volume, há um memoir de Fiodor Guber, filho adotivo de Vasily Grossman, relatando suas lembranças sobre o escritor, e falando sobre a paixão deste por Anton Tchekhov. É aí, eu diria, que talvez resida uma conexão entre os dois, pelo menos para explicar esta minha impressão de semelhança estética, pois também Clarice Lispector me parece uma escritora tchekhoviana, ainda que os críticos sempre se refiram a James Joyce e Virgina Woolf como modelos para a brasileira. Não estou falando tanto sobre influência direta quanto em linhagem, espírito.
Em algum momento de 2011 quero começar a ler o grande Vida e Destino de Grossman, que alguns dizem ser o Guerra e Paz do século XX. Mas entrei numa onda russa graças a ele e agora estou lendo Um Dia Na Vida de Ivan Denisovich (1962), de Alexander Soljenítsin (ou Aleksandr Solzhenitsyn, como se diz na língua do Império). Queria ler O Arquipélago Gulag (1973), mas não o encontrei no sebo.
Estes russos e seus épicos, que parecem cobrir o continente geográfico e físico, e o continente moral e psicológico. Chega a ser assustador.
A última publicação da Hilda Magazine neste ano de 2010 e nesta década (sigo insistindo que a década termina agora para protestos de meus amigos aqui) é dupla e traz dois jovens artistas europeus que têm chamado muito a atenção das críticas em suas respectivas atividades nos últimos dois anos.
Clique nos links abaixo:
Em primeiro lugar, uma série fotográfica do alemão Jörg Brüggemann (n. 1978), um dos jovens fotógrafos mais respeitados do país e membro da prestigiosa agência Ostkreuz, fundada pela recentemente falecida Sibylle Bergemann (1941 - 2010) e outros grandes fotógrafos da antiga Berlim Oriental, como Ute Mahler e Harald Hauswald.
E também quatro composições do jovem músico britânico James Blake (n. 1989), cujo trabalho tem sido recebido com verdadeiro furor pela imprensa musical europeia, com uma resenha de Marius Funk sobre o trabalho do londrino.
Quando O Moço e eu nos conhecemos, ele já tinha seu herói Beat, e este era William Burroughs, de quem ele já havia lido praticamente tudo e eu pouquíssimo. Confesso que os Beats não participaram de forma óbvia em minha formação. Eu li On The Road (1957) por exemplo, mas à época me parecera que havia muito mais spontaneous prose em um livro como The Autobiography of Alice B. Toklas (1932), de Stein, que naquela narrativa bastante estruturada de Kerouac. Entre os poetas da década de 50 norte-americana, minha atenção havia se voltado para dois outros homossexuais: primeiro, Frank O´Hara (1926 - 1966), e então Jack Spicer (1925 - 1965), que deixaram uma marca muito grande em minha cabeçoila de poeta.
É claro que, como adolescente, "Howl" (1956) havia tido seu impacto sobre minha imaginação. Aquele início ainda me parece algo tão direto e ao mesmo tempo hipnótico: "I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked, / dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix, / Angel-headed hipsters burning for the ancient heavenly connection / to the starry dynamo in the machinery of night..."
Mas naquele primeiro momento em que crescia e me formava como poeta adolescente, regia sobre o país o "pânico do discursivo" e o "terror do subjetivo", proclamados na TV, nos jornais, nas revistas como os maiores pecados de um poeta. Então eu lia João Cabral de Melo Neto, Augusto de Campos e os poetas declarados antidiscursivos e objetivos, secos, econômicos, para não crescer tagarela e acabar no Gulag dos Poetas Gordos. Ah! Como nós poetas perdemos tempo às vezes! Quanta energia desperdiçada, quando todos nós vamos morrer e apodrecer, os secos e os caudalosos, os classicistas e os vanguardistas! Alas! ("Alas" a ser compreendido tanto em sua acepção anglófona como lusófona). O mundo é tão simpático.
Tudo isso passou. Eu hoje leio os Beats com prazer, muito da prosa de Kerouac segue fresca, ainda que me pareça respingar testosterona demais. Descobri outros que hoje são poetas favoritos meus, como a maravilhosa Diane di Prima. Para mim, um poema de Ginsberg como "Wichita Vortex Sutra" é modelo para a busca de poemas que funcionem na página e na voz. Mesmo os trechos mais infantis de "Howl" eu hoje olho com carinho. Entusiasmo de poeta de vinte e poucos anos, que delícia. Lembro-me dos meus enquanto escrevia Carta aos anfíbios (2005).
O trabalho de Ginsberg só pode ser apreciado em toda a sua força crítica, creio eu, se soubermos localiza-lo no tempo, tanto em sua diacronia como em sua sincronia, em equilíbrio centrípeto-centrífugo, ah! a estase da sobrevivência canônica. Em diacronia, explico-me: seu aspecto de intervenção contextual, sua importância para a poesia norte-americana daquele momento, voltando tanto a Pound como ao verso de Whitman, questionando os dogmas do New Criticism, que vinha apregoando uma das poesias mas assépticas do século passado. Mas não só: há que se pensar em seu aspecto revolucionário de costumes. Nele, Ginsberg reapropria-se da função social do poeta, vai contra a crença de certa ala modernista de que o poeta está desligado da História, conclama o poeta-xamã, reivindica-se como poeta que critica sua comunidade, ri dela, busca sua redenção. Em sincronia, não se trata de novidade, mas justamente de sua religação à tradição antiquíssima do bardo celta, do escaldo escandinavo, do milenar poeta-performer. Sou obrigado a pensar mais uma vez na minha distinção entre o poeta/artista em seu papel de artesão e seu papel de interventor.
Há duas semanas, O Moço e eu assistimos ao filme Howl (2010), que reconta a História do poema de Ginsberg.
James Franco faz um excelente trabalho como Ginsberg, e tenho certeza que Ginsberg ficaria muito feliz que escolheram um homem tão lindo para interpretá-lo. Há animações péssimas e desnecessárias para ilustrar o poema, mas mesmo elas não estragam demais o resultado: um filme honesto e delicado.
Fascinado com a coisa toda, O Moço disse que queria ler Ginsberg. Pois então dei-lhe um Uivo como um de seus presentes de Natal.
O Brasil anda precisando de uns uivos?
Ginsberg oraliza a primeira parte de "Howl" (1956).
A recepção e fortuna dos poemas de Vinícius de Moraes (1913 - 1981) talvez marquem uma das carreiras mais sinuosas da poesia brasileira. Ao mesmo tempo um dos mais populares e também mais subestimados poetas do século XX ativos no Brasil, já houve quem insinuasse que a relação entre sua popularidade com os leitores e seu subestimar entre poetas e críticos tenham uma relação causal. Mesmo assim, várias gerações de poetas e leitores formaram algo de sua sensibilidade com a leitura de seus poemas e a audição de suas canções, e ele talvez tenha sido um dos últimos brasileiros a assumir perante o público o papel difícil de poeta oficial, do poeta como figura pública.
Na segunda metade do século XX, quando a sensibilidade crítica hegemônica no Brasil pareceu valorizar os poetas que se autodenominavam antilíricos, houve uma espécie de declínio no prestígio dos poetas que construíram sua obra sobre os pilares da tradição lírica ibérica, como a também carioca Cecília Meireles ou a mineira Henriqueta Lisboa, representantes brasileiros da lírica pura modernista que teve em outros países um destino crítico também complicado e marcado por comoções políticas. Mas esta lírica pura floresceu, assumindo nomes distintos e sendo agregada a diferentes movimentos em outras línguas, criando um trabalho que sobreviveu a todas as imposturas críticas e ideológicas do entreguerras e pós-guerra, como foi o caso de Anna Akhmátova ou Joseph Brodsky em russo, Antonio Machado ou Juan Ramón Jiménez em espanhol, Else Lasker-Schüler ou Ingeborg Bachmann em alemão. Seu "Poema de Natal" é um texto de qualidades intrínsecas perceptíveis talvez apenas a quem se mostra sensível à tradição que conecta estes poetas, com sua claridade de pensamento ligada a uma sensibilidade direta e simples.
Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos – Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos – Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez, de amor Uma prece por quem se vai – Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte – De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente.
in Poemas, sonetos e baladas (São Paulo: Gaveta, 1946)
Outro elemento a tornar Vinícius de Moraes uma figura criticamente complexa para a historiografia simplista do modernismo brasileiro foi seu uso das formas fixas, tornando-o ainda pouco exemplar para os grupos de vanguarda brasileiros do pós-guerra. Alguns de seus sonetos são no entanto exemplos de sua habilidade invejável de criar machines à émouvoir, para mencionar a expressão de Le Corbusier que o antilírico João Cabral de Melo Neto tanto admirava, e seu poema "A pera", por exemplo, ainda me parece um dos textos mais controlados, concisos e belos da poesia brasileira. Poucos poetas dos últimos trinta anos, tão afoitos em repetir os dogmas da objetividade, foram capazes de criar textos desta qualidade e precisão.
A pera Vinícius de Moraes
Como de cera E por acaso Fria no vaso A entardecer
A pera é um pomo Em holocausto À vida, como Um seio exausto
Entre bananas Supervenientes E maçãs lhanas
Rubras, contentes A pobre pera: Quem manda ser a?
Mais tarde, o abandono da poesia escrita pela poesia cantada foi uma consequência simplesmente lógica da sensibilidade de poeta lírico que comandava o escritor Vinícius de Moraes.
Apresento aqui apenas o texto cantado, pois foi composto para isso. Ora, se nós não condenamos como inferiores os textos que só funcionam na página e para os olhos, por que seguiríamos condenando como inferiores os textos que só funcionam na garganta, para a voz?
Há um poema de Vinícius de Moraes que ainda me parece um dos mais belos e interessantes dentre os poemas mais longos da poesia brasileira no século XX, poema que poderia estar ao lado de "As Cismas do Destino", "Janela do Caos", "A Máquina do Mundo" ou "Uma Faca Só Lâmina", apesar de sua totalmente distinta sensibilidade quando comparada com estes outros poemas longos: refiro-me à "Última Elegia". Publicado no volume Cinco Elegias (1943), é o melhor poema do volume e o único que parece não envelhecer. Não há na poesia brasileira melhor estilização da alegria, da euforia. Além disso, há outros elementos experimentais no poema que, talvez pelo difícil status oficialesco de seu autor, tampouco encontraram acolhida nas listas de influências vanguardistas, mas que mesmo assim o distinguem de grande parte da poesia brasileira modernista: seu multilinguismo, seus neologismos e sua intertextualidade, experimentos que eram até então praticamente inéditos no modernismo brasileiro. Se a nossa poesia nasceu multilinguista e experimental com Gregório de Matos (1636 - 1696), desde Joaquim de Sousândrade (1833 - 1902) e o episódio conhecido como "O Inferno de Wall Street" no seu O Guesa (1884) um poeta brasileiro não experimentava desta forma com o multilinguismo. No caso de Vinícius de Moraes há um elemento biográfico e contextual importante: ele escreveu o poema em Londres, na Inglaterra; mas outros poetas compuseram poesia em suas excursões diplomáticas e nem por isso abandonaram uma visão purista e às vezes quase castiça da língua, fosse ela a portuguesa ou brasileira.
Os neologismos que usa têm maior respaldo na prática modernista, mas se o compararmos com um poeta como Raul Bopp, que tinha este pendor especialmente em Cobra Norato (1931), perceberemos as diferenças claras entre eles. Não há na "Última Elegia" qualquer desejo de ser acessível ou popular, mas de encontrar a melhor forma de expressar o pouco tradicionalmente poético sentimento da alegria, do estado eufórico. Até nisto o poema é singular. O único que tentara anteriormente compor neste diapasão foi Mário de Andrade, principalmente em alguns poemas de Paulicéia Desvairada (1922).
Sua intertextualidade parece ecoar versos de Shakespeare (1564 - 1616) e Keats (1795 - 1821), algo talvez marcado também pela situação biográfica de estar compondo na Inglaterra, apontando de certa forma para a futura influência hegemônica da poesia anglófona sobre a poesia brasileira de hoje. Além disso, o poema reinaugura na nossa poesia a pesquisa tipográfica e visual, anos antes da pesquisa do Grupo Noigandres. Por todas estas características, Vinícius de Moraes e sua "Última Elegia" seguem euforicamente vivos.
--- Ricardo Domeneck
§
POEMA DE VINÍCIUS DE MORAES
A Última Elegia Vinícius de Moraes
O
L
O
F
E
S
R
S
H
E
O
O
F
C
A
Greenish, newish roofs of Chelsea Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis Forlornando baladas para nunca mais! Ó imortal landscape
no anticlímax da aurora! ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper Na minha vida em lágrimas!
uer ar iú
Ó fenesuites, calmo atlas do fog Impassévido devorador das esterlúridas? Darling, darkling I listen...
"... it is, my soul, it is
Her gracious self..."
murmura adormecida
É meu nome!...
sou eu, sou eu, Nabucodonosor!
Motionless I climb
the wa t e r
Am I p
a Spider?
i
Am I
p a Mirror?
e
Am I s
an X Ray?
No, I’m the Three Musketeers
rolled in a Romeo.
Vírus
Da alta e irreal paixão subindo as veias Com que chegar ao coração da amiga.
Alas, celua
Me iluminou, celua me iludiu cantando The songs of Los; e agora
meus passos
são gatos
Comendo o tempo em tuas cornijas Em lúridas, muito lúridas Aventuras do amor mediúnico e miaugente... So I came
– from the dark bull-like tower
fantomática
Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica A sua sede de amor; so I came De Menaipa para Forox, do rio ao mar – e onde Um dia assassinei um cadáver aceso Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados Dos primeiros padres do mundo; so I came For everlong that everlast – e deixa-me cantá-lo A voz morna da retardosa rosa Mornful and Beátrix Obstétrix Poésia.
Dost thou remember, dark love Made in London, celua, celua nostra Mais linda que mare nostrum?
quando early morn'
Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen Queimar-me à luz translúcida de Chelsea? Fear love...
ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô
Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous Symbols of my eagerness!
– terror no espaço!
– silêncio nos graveyards!
– fome dos braços teus!
Só Deus me escuta andar...
– ando sobre o coração de Deus
Em meio à flora gótica... step, step along Along the High... "I don't fear anything But the ghost of Oscar Wilde..." …ô darlingest I feared... A ESTAÇÃO DE TRENS... I had to post-pone All my souvenirs! there was always a bowler-hat Or a POLICEMAN around, a stretched one, a mighty Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used To eat all the chocolates from the one-penny-machine Just to look natural; it seemed to me que não era eu Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly Tudo ficava restful and warm... – o sííííííííí Lvo da Locomotiva – leitmotiv – locomovendo-se Through the Ballad of READING Gaol até a vísão de PADDINGTON (quem foste tu tão grande Para alevantares aos amanhecentes céus de amor Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho A Rosa-dos-Ventos. S. W. Loeste! no dédalo Se acalentaria uma loenda de amigo: "I wish, I wish I were asleep". Quoth I: – Ô squire Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne Room twenty four! ô squire, quick, before My heart turns to whatever whatsoever sore! Há um grande aluamento de microerosíferos Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou Believe in pregnancy, kindly tell me? ô Squire, quick, before alva turns to electra For ever, ever more! give thy horses Gasoline galore, but to take me to my maid Minha garota – Lenore! Quoth the driver: – Right you are, sir.
*
O roofs of Chelsea! Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas Da aurora em Chelsea! ô melancholy! "I wish, I wish I were asleep..." but the morning Rises, o perfume da madrugada em Londres Makes me fluid... darling, darling, acorda, escuta Amanheceu, não durmas... o bálsamo do sono Fechou-te as pálpebras de azul... Victoria & Albert resplende Para o teu despertar; ô darling, vem amar À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park? Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown Came thumbling down, remember? "Escrevi dez canções...
... escrevi um soneto...
... escrevi uma elegia..."
Ô darlíng, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir Para a Inglaterra?
"... escrevi um soneto...
... escrevi uma carta..."
Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?
..."que irão pensar
Os quatro cavaleiros do Apocalipse..."
"... escrevi uma ode..."
Ô darling!
Ô PAVEMENTS!
Ô roofs of Chelsea!
Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen Crumpets, a glass of bitter, cap and gown... – don't cry, don't cry! Nothing is lost, I'll come again, next week, I promise thee... Be still, don't cry...
Aconteceu na sexta-feira passada. A notícia pipocou pelas redes sociais, mas eu estava na Espanha e absorto no festival, acabei não podendo ler muito a respeito ou ouvir as canções do homem e sua banda para celebrá-lo.
Don Van Vliet foi um dos poetas, músicos e artistas visuais mais esquisitos e geniais do pós-guerra. Nasceu na Califórnia. Amigo de Frank Zappa (músico de quem confesso não conseguir gostar), teve alguns de seus álbuns produzidos e lançados por ele. Adotou o moniker Captain Beefheart no fim da década de 60. Primeiro chamou a atenção com sua versão para a canção "Diddy Wah Diddy", de Bo Diddley, e então com seu primeiro álbum, Safe As Milk (1967).
Dois anos depois ele lançaria o genial Trout Mask Replica (1969), e vários outros álbuns com poemas vocais e canções inteligentes, na fronteira entre o pop e o experimental, como Lick My Decals Off, Baby (1970), Mirror Man (1971), The Spotlight Kid (1972), Unconditionally Guaranteed (1974), Shiny Beast (Bat Chain Puller) (1978), Doc at the Radar Station (1980) ou Ice Cream for Crow (1982), entre outros trabalhos.
Captain Beefheart morreu na Califórnia, em decorrência de múltipla esclerose. Espero que outras criaturas geniais estejam nascendo e crescendo pelo mundo porque nos últimos anos, como diz o poema de Ungaretti, "aqui se está / como no outono / as folhas".
Está em exibição no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, o MACBA, talvez a primeira grande retrospectiva do trabalho do poeta e artista francês Gil J. Wolman (1929 - 1995), sob o título Gil J. Wolman - Eu sou imortal e estou vivo, que permanece em exposição até fevereiro de 2011. Foi muita sorte estar em Barcelona a tempo de visitá-la, sou admirador ferrenho do homem.
Mais mencionado que realmente conhecido, esta retrospectiva e seu ótimo catálogo finalmente põem em circulação mais ampla e mostram a um público contemporâneo o trabalho realmente inovador e brilhante de Gil J. Wolman, inclassificável, numa rebelião contra os gêneros estanques que claramente faz de Wolman um precursor incontornável de todos os poetas e artistas contemporâneos transitando entre gêneros.
Ao mesmo tempo artista, poeta e cineasta, sua obra é uma das contribuições mais inteligentes à pesquisa sobre a materialidade da linguagem no pós-guerra, retomando muito da pesquisa dos dadaístas, principalmente.
Gil J Wolman, Sem título (Mao), 1967
A mostra traz muitos dos trabalhos visuais, colagens e instalações fotográficas, assim como dá ao público de Barcelona a chance de presenciar (não se trata mais de "assistir") o lendário "filme" de Wolman, chamado L´Anticoncept (1952).
Ao mesmo tempo cinema e negação do cinema, instalação sonora e poesia vocal, L´Anticoncept é um dos trabalhos mais interessantes do cinema léttriste. Feito para ser projetado contra uma esfera, negando o bidimensional da tela comum, L´Anticoncept não tem imagens, apenas flashes de luz e um potente poema/ensaio vocal. Foi mostrado pouquíssimas vezes. Encontrei um excerto na Rede, com tradução para o português:
Excerto do filme L´Anticoncept (1952), de Gil J. Wolman.
Wolman também criou uma poesia sonora extremamente original, na qual abandona o texto e escrita, voltando-se para o elemento mais vital e primordial da poesia: a respiração, tornando-se precursor de toda a pesquisa de Henri Chopin, por exemplo, ou de outros artistas que gosto de chamar de biominimalistas, como a alemã Eva Hesse (1936 - 1970) e o brasileiro José Leonilson (1957 - 1993).
Em março de 2008, publiquei na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. uma postagem dedicada a ele, com um de seus poemas sonoros e a tradução de um fragmento de um de seus poemas-roteiro. Reproduzo-a abaixo, encerrando esta postagem com um vídeo do próprio MACBA sobre a retrospectiva.
Gil J. Wolman (1929 - 1995) Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co. 9 de março de 2008.
Nasceu e morreu em Paris. Poeta, pintor e cineasta, seu trabalho mais conhecido (ou citado, seria melhor dizer) é o filme L´Anticoncept de 1952, um dos trabalhos de recusa mais radicais do cinema, mesmo dentro de um movimento como o Lettriste parisiense (do qual fez parte por dois anos, desligando-se do grupo para formar a Internacional Letrista e mais tarde a Internacional Situacionista, da qual seria expulso por Guy Debord), em que tais trabalhos de discrepância entre imagem e som (ou mesmo abandono completo da imagem) foram norma e alvo de pesquisa, como em filmes de Isidore Isou (Traté de Bave et d`Eternité, 1951), Maurice Lemaître (Le Film est déjà commencé?, 1951), Guy Debord (Hurlements en faveur de Sade, 1952), François Dufrêne (Tambours du jugement premier, 1952) e do próprio Wolman. Alguns destes filmes poderiam ser vistos como o elo entre o cinema da primeira metade do século e os filmes experimentais mais conhecidos e reconhecidos do pós-guerra, de cineastas como Jean-Luc Godard ou Stan Brakhage.
Outra contribuição de Gil J. Wolman surgiu no terreno da poesia sonora com seus “Mégapneumes”, em que Wolman abandona a língua por uma poesia da respiração, levando a extremos radicais o que um poeta como Charles Olson defendia à mesma época nos Estados Unidos, ou seja, uma poesia baseada não mais na métrica, mas no fôlego do poeta ("a man on his feet talking").
Os poemas sonoros de Wolman teriam um impacto determinante sobre alguns poetas do pós-guerra, especialmente sobre Henri Chopin (1922 – 2008), que levaria a pesquisa iniciada por Wolman em seus mégapneumes a outras conseqüências, com o uso de gravadores e fitas magnéticas. Tal influência foi reconhecida por Chopin que, apesar de mais velho que o contemporâneo parisiense, homenagearia Gil J. Wolman no livro Poesia Sonora Internacional incluindo-o entre os mestres da primeira metade do século XX, como Pierre Albert-Birot, Hugo Ball, e Raoul Hausmann, por exemplo.
O trabalho com a linguagem em roteiros de filmes como L´Anticoncept viria a influenciar também poetas sonoros textualistas como Bernard Heidsieck, ainda que este mesmo roteiro declare: "O TEMPO DOS POETAS ACABOU. EU AGORA DURMO."
Em uma das páginas de L´Anticoncept, com o espaçamento visual cobrindo com parcas palavras a página de margem a margem como em certos poemas de Pierre Albert-Birot, lemos:
O roteiro-poema, com cerca de 15 páginas, termina com as palavras: “renova as situações passadas / a vida não é coisa retrospectiva”.
Abaixo, o poema sonoro "La Mémoire", um dos "mégapneumes" de Gil J. Wolman:
"o anticonceito é o título de um filme que concluí a 25 de setembro de 1951 projetado no palácio de chaillot a 11 de fevereiro de 1952 o filme será proibido pela censura e apresentado no festival de cannes em sessão fechada neste filme oponho a uma idéia significada e definida a indefinição de uma idéia significativa eu escrevo o tempo dos poetas acabou eu agora durmo isto é já não respondo por mim passo a vez isto é meu trabalho me escapa durmo para escapar do trabalho mais tarde escreveremos sobre os muros jamais trabalhem eu escrevo o anticonceito é a utilização ao máximo de cada um dos elementos internos que vírgula constituídos vírgula formavam o conceito isto é para wolman a separação não é de ontem"
Gil J. Wolman
(tradução, nota e preparo do vídeo/áudio: Ricardo Domeneck)