quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Apropriação, reencenação, paródia: cartazes de dezembro e janeiro da SHADE inc

Convites e cartazes de janeiro 2011 e dezembro 2010 para nosso evento às quartas-feiras, SHADE inc, iniciado em abril de 2010, para substituir a antiga Berlin Hilton. O conceito para os cartazes e convites segue a apropriação, reencenação ou paródia de imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Concebidos e produzidos pelo coletivo SHADE (em ordem alfabética: Daniel Reuter, Niklas Goldbach, Oliver A. Krüger, Ricardo Domeneck e Viktor Neumann), e então fotografados em geral por N. Goldbach ou D. Reuter. A fotografia de dezembro foi feita por Benjamin Schnepp.

Clique nas imagens para aumentá-las.


Janeiro de 2011. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado e produzido por Niklas Goldbach.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, um retrato de Dean Martin e Jerry Lewis (de 1951), feito pelo incrível Philippe Halsman (1906 - 1979), aqui. Na foto: o próprio Niklas Goldbach.

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Este é um dos meus favoritos, de todos os que já fizemos. Concebido pelo coletivo, foi lindamente executado por Niklas Goldbach, o membro mais visualmente talentoso do nosso grupo, encaixando-se perfeitamente no trabalho est-É-tico que ele vem realizando no seu próprio trabalho pessoal. Veja abaixo excertos do último vídeo de Niklas:


TEN (excerpts) from Niklas Goldbach on Vimeo.




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Dezembro de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Benjamin Schnepp.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, retrato famoso do estilista Yves Saint Lauren, aqui. Na foto: Dominic Hauser. Nosso amigo Dominic é bonito demais para que possamos chamar esta foto de "paródia". É uma reencenação... daquelas bem bonitas de se olhar.




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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Hoje à noite, Max Hattler (Londres) e Uli Buder (Berlim) como convidados especiais na "SHADE inc"

Quarta-feira, dia do coletivo Shade atacar em Berlim. Esta noite, em nosso desbunde semanal aqui na capital alemã, o artista visual (e um dos melhores VJs da Europa) no comando das imagens na SHADE inc, our own private Cabaret Voltaire no clube Neue Berliner Initiative.

Max Hattler - excerto da premiada animação "Spin"



Seu trabalho consegue fazer política em plena abstração de forma inteligente. A animação "Collision", usando motivos de bandeiras islâmicas e da americana, parece-me um exemplo emblemático neste sentido.


Max Hattler - "Collision"



Max Hattler vive em Londres e já mostrou seu trabalho nos maiores festivais do continente.


Max Hattler - "1925 a.k.a. Hell", inspirado pelo trabalho de Augustin Lesage (1876 - 1954)


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Max Hattler - "1923 a.k.a. Heaven", inspirado pelo trabalho de Augustin Lesage (1876 - 1954)


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Max Hattler - "Drift"

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Enquanto ele cuida do visual, meu querido amigo e talentosíssimo músico Uli Buder, que se apresenta com o codinome Akia, estará cuidando do sonoro.


Uli Buder, mais conhecido como Akia - "Kuku"


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Hoje à noite, na SHADE inc.



www.shade-inc.de



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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A artista visual e interventora urbana NÉLE AZEVEDO na Hilda Magazine


Há alguns meses, a mineira Néle Azevedo apresentou em Berlim sua intervenção urbana conhecida como "Monumento Mínimo", na qual homúnculos de gelo são postos em escadarias e monumentos urbanos de grandes cidades, levando-nos por implicação a meditar sobre nossa relação com a memória e História "públicas", entre outras possíveis implicações políticas. Para mim, é um exemplo belo, inteligente e delicadíssimo de intervenção est-É-tica. Parece-me um daqueles exemplos de trabalhos que atingem o exuberante pelo ascético, o vertiginoso pelo simples. Pessoalmente, encontro na meditação a que este trabalho me incita várias implicações para o trabalho lírico contemporâneo.

Convidei Néle Azevedo para mostrar este seu trabalho na Hilda Magazine. Estou feliz que ela aceitou e que agora alguns de vocês também podem conhecê-lo, se já não o conhecem:

NÉLE AZEVEDO na Hilda Magazine

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Deliciando-se com referências, este esporte para poucos: uma epifania de domingo, envolvendo Laurence Olivier e Morrissey

Em minha visita diária à locadora do bairro, trouxera uma produção inglesa de 1972, em grande parte pelo nome do diretor: Joseph L. Mankiewicz (1909 – 1993), o que em geral é garantia suficiente de bom cinema, mas o elenco trazia também Laurence Olivier e Michael Caine, com uma prometida batalha de chistes (aquele esporte inglês de wit) neste que é o último filme de Mankiewicz. O diretor americano é um dos meus favoritos. Ora, bastaria que ele houvesse filmado tão-somente o clássico estupendo que é All About Eve (1950) para que eu o venerasse. Mas ele é também o diretor de outros oásis divescos como A Letter to Three Wives (1949), The Barefoot Contessa (1954), Guys and Dolls (1955) e aquele fracasso formidável e exuberante que foi Cleopatra (1963), que o arruinou. Por tudo isso, eu até o perdoei por aquele Suddenly, Last Summer (1959) e sua homofobia velada. O filme, de qualquer forma, acaba sendo um ótimo thriller, já que Mankiewicz era o gênio que era.

Sleuth (1972) é mesmo divertidíssimo. Pelo que li a respeito, é baseado numa peça homônima premiada de Anthony Shaffer (1926 – 2001), um autor de peças e romances de mistério. Sleuth é ao mesmo tempo uma ótima comédia e bom filme de suspense, e ainda veículo excelente para o talento de Laurence Olivier (que eu jamais imaginei pudesse ser tão engraçado) e Michael Caine.


Trailer para o filme Sleuth (1972), de Joseph L. Mankiewicz.


Por fim, em um dos momentos em que a comédia se transforma em tragédia e desta em farsa, a personagem de Laurence Olivier começa uma torrente de impropérios contra a personagem de Michael Caine, listando os motivos pelos quais o odeia, e, entre eles, este:


__ "You are a jumped-up pantry boy who never knew his place."


Ah! Epifania de adolescente indie! Não, querido, não índio. Indie, classe social algo esnobe e ridícula à qual já pertenci e de certa forma ainda pertenço, provavelmente não se escapa dela. Uma definição? Ai, que difícil, somos criaturinhas urbanas que se deliciam em conhecer bandas obscuras de pequenos selos musicais, os tais de independentes, que podem na verdade vir do pós-punk industrial britânico ou de bandinhas de garagem americanas que tocam em estações de rádio universitárias. ANTES de indie se tornar uma espécie de gênero em si, especialmente entre pessoas mais jovens, digamos, que acreditam que este começou quando Julian Casablancas primeiro viu um microfone. Ufa... não leve a mal este desabafo de fã musical começando seu leve declínio adiposo e capilar.

De qualquer forma, voltemos à epifania intertextual.

Ora, para uma criaturete que foi adolescente quando eu fui e sofreu, entre quatro paredes, com a trilha sonora que a mim serviu de acompanhamento musical para tragédias amorosas tardo-infantis seria impossível não reconhecer imediatamente esta sequência de palavras! Oh, Morrissey, sua diva esnobe!



"This Charming Man", canção dos Smiths, letra de Steven Patrick Morrissey.


Não é apenas uma das canções mais importantes da minha adolescência, uma espécie de código pessoal que eu cantava pela casa enquanto meus pais monolíngues não percebiam o que exatamente eu estava lhes revelando. Eu sempre considerei este texto excelente em sugestão e economia de meios na descrição de uma cena.


This Charming Man
Steven Patrick Morrissey

Punctured bicycle
On a hillside desolate
Will nature make a man of me yet?

When in this charming car,
This charming man.

Why pamper life's complexity
When the leather runs smooth
On the passenger seat?

I would go out tonight
But I haven't got a stitch to wear
This man said:

"It's gruesome that someone so handsome should care"

A jumped up pantry boy
Who never knew his place
He said "return the ring"
He knows so much about these things



Há todo um affair descrito aqui, do começo ao fim, até mesmo com suas cenas de crueldade, flerte e ofensa separados por um refrão. Não são assim nossos relacionamentos, tantos deles, flerte e ofensa separados apenas por um refrão? Mesmo assim, como sonhei com esta cena, como quis esquecer todas as complexidades da existência por alguns segundos enquanto meus dedos afagassem o couro no assento do passageiro de um carro qualquer, correndo pela estrada deserta, admirando os braços de macho ao volante, pensando "quando eu crescer, quero ser como this charming man."

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Poemas na antologia mexicana "Porque El País No Alcanza: Poesía Emigrante de la América Latina" (Ciudad de México: Billar de Lucrécia, 2010)




Foi publicada há pouco no México a antologia Porque El País No Alcanza: Poesía Emigrante de la América Latina (Ciudad de México: Billar de Lucrécia, 2010), que traz poetas latino-americanos vivendo fora de seus países ou em constante diáspora, para quem a migração por fronteiras e o questionamento de noções de cidadania e pertencimento acabam por se tornar elementos vitais. Tenho alguns poemas incluídos no volume, com tradução para o castelhano do poeta argentino Cristian De Nápoli. Sou o único brasileiro na antologia, que traz vários mexicanos, onde naturalmente a questão de migração por fronteiras assume um caráter tão determinante. O volume tem seleção e apresentação do poeta alemão Timo Berger e prólogo de Héctor Villarreal. O livro encerra o projeto editorial mexicano Billar de Lucrécia e inclui os seguintes autores:

Omar Pimienta (Tijuana, 1978)
Alejandro Tarrab (Ciudad de México, 1972)
Maricela Guerrero (Ciudad de México, 1977)
Alejandro Zambra (Santiago de Chile, 1975)
Miguel Ildefonso (Lima, 1970)
Cristino Bogado (Asunción, 1967)
Cecilia Pavón (Mendoza, 1973)
Matías Moscardi (Buenos Aires, 1983)
Sayak Valencia (Tijuana, 1980)
Julio Espinosa Guerra (Santiago de Chile, 1974)
Diego Palmath (Lima, 1977)
Edgardo Dobry (Rosario, 1962)
Milagros Salcedo-Roguet (Lima)
Rery Maldonado (Tarija, Bolivia, 1976)
Ricardo Domeneck (São Paulo, 1977)
Lalo Barrubia (Montevideo, 1967)
Roxana Crisólogo (Lima, 1966)
Jennifer Adcock (Monterrey, 1982)
Rogelio Guedea (Colima, 1974)


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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Aprendendo a fazer drama com os melhores: Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência

Rocirda Demencock segue aqui com seu manual cine-ilustrativo
sobre as melhores formas de fazer drama, em lições pontuais,
tomadas dos mestres.

Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência


É incrível como muitas das lições vêm condensadas em filmes irmanados. Alguns filmes são fontes inesgotáveis de aprendizagem para o seu melodrama pessoal e intransferível de pessoa física, querido leitor e leitora. Com alguns trabalhos do cinema, seria possível escrever manuais inteiros. No entanto, talvez a cena mais condensada para esta lição, sobre como entrar no recinto onde está presente sua concorrência (especialmente se estivermos falando de uma concorrente vitoriosa), está em Gone With The Wind (1939), na cena em que Scarlett O´Hara é forçada por Rhett Butler a ir ao aniversário de Melanie (Hamilton) Wilkes logo após ter sido flagrada aconchegando-se ao torso de Ashley Wilkes, seu príncipe encantado, mas casado com Melanie.


Lição prática e ilustrativa de Scarlett O´Hara, esposa três vezes, viúva duas, noiva eterna.


A personagem Scarlett O´Hara, interpretada por Vivien Leigh, no aniversário de sua concorrente Melanie Hamilton, interpretada por Olivia de Havilland em Gone With The Wind (1939).


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Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência

Lição teórica de Ricardo Domeneck, poeta e mula.


§ - Sendo ou não, cruze o umbral tão-somente se houver se convencido de que todos os orifícios de seu corpo são mais desejáveis que o de sua concorrente.

§ - Para isso, qualquer método é legítimo, dos fornecedores de autoestima conhecidos como Chanel e Prada, à macumba diante do espelho e os banhos de água com açúcar.

§ - Que cor usar? Não importa a sua preferida, mas qualquer uma que apague ainda mais aquela sonsa que, sem brilho, venha a delir-se ao seu lado.

§ - Por fora, uma mestiçagem de Magdalena Frackowiak com Naomi Campbell, Bündchen-Moss; por dentro, uma Rainha de Copas louca e mais que pronta para decapitar Alice, Malévola querendo presentear Aurora com o coma.

§ - Saudações nos lábios, maldições na mente.

§ - Só se adentra tal recinto como se encarnasse uma pessoa jurídica, nunca mera pessoa física, não, você é CEO, Chief Executive Officer do seu Ego.

§ - Você é um corpo e seu amor uma Corporação.

§ - Roube a cena e a ceia, que cada um veja você como o prato principal.

§ - Em sua boca, coloque uma foto dela dissolvendo-se, como se você fosse um sapo de boca costurada.

§ - Bonecos e agulhas são obsoletos, o voodoo você pratica com olhares e sobrancelhas, espete sua concorrente com seus cílios como se ela fosse apenas uma boneca de palha.

§ - Diante da sua determinação em conseguir o que quer e quer e quer, ela é mesmo apenas uma boneca de palha.

§ - O momento para mimos de princesa passou, a esta altura do campeonato melhor acionar o módulo Jezebel.

§ - Oblíqua, oblíqua e dissimulada são tudo o que eles merecem de sua lista de adjetivos.

§ - Como uma ovelha você dá seus passos firmes sala adentro, em verdade toda lupina, até que eles vejam pelúcia onde você nutre e cresce bombril.

§ - Culpada, culpada até que provem o contrário.

§ - Faça-os engolir o veredito e você, desça seus esôfagos com as unhas em riste.

§ - Aos amigos impertinentes, diga: "Às vezes, o que os mansos herdam é a guerra".

§ - Ao fim da festa, quando a concorrente perguntar a você se quer levar um pedaço de bolo para casa, responda-lhe que sim e que embrulhe o homem concorrido junto.


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Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência

Lição prática e ilustrativa ALTERNATIVA: Malévola, bruxa e milf recalcada.


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domingo, 2 de janeiro de 2011

O questionário de João Filho à maneira de João Condé, com alguns comentários

Há alguns meses, o prosador e poeta bahiano João Filho (Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1975) me perguntou se eu toparia responder as perguntas dos seus Arquivos Implacáveis, à Maneira de João Condé. Mais tarde, ele postou as respostas em seu blogue, chamado Voo Sem Pouso. Você o conhece? Escrevi sobre o trabalho de João Filho neste espaço, por ocasião do lançamento de seu livro de contos Ao longo da linha amarela (2009). Como fiz ao responder as perguntas do Questionário Dourado, de Jorge Wakabara, reproduzo aqui as perguntas e respostas, com alguns comentários a algumas.



ARQUIVOS IMPLACÁVEIS (de João Filho). À maneira de João Condé.

 
 
Nome:

Ricardo Domeneck

Onde nasceu e a data:

No município paulista de Bebedouro, no dia 4 de julho de 1977.

COMENTÁRIO: Às vezes me pergunto o quanto ter nascido naquela cidade me marca. Para alguns poetas brasileiros, seu local de nascimento torna-se mítico. É claro que isso depende da própria poética do autor. É natural que um poeta como Carlos Drummond de Andrade tenha feito de Itabira do Mato Dentro uma das cidades míticas do Brasil, pelo menos entre poetas. Ao mesmo tempo, para mencionarmos um contemporâneo e conterrâneo seu: quantas pessoas saberiam dizer onde nasceu Murilo Mendes? As cidades mais declaradamente marcantes em minha vida foram cidades de eleição: São Paulo e Berlim. No entanto, alguns dos poemas em Carta aos Anfíbios foram escritos em 2002, enquanto estava em Bebedouro, passando alguns meses com meus pais.

É casado, tem filhos?

Separado, sem filhos.

COMENTÁRIO: Não tenho filhos, mas gostaria de tê-los, gostaria muito de transmitir a outra criatura o legado de nossa _______________ (Preencha a lacuna com a coisa mais feliz e positiva que lhe parece encher a existência).

Altura:

1,84

COMENTÁRIO: No Brasil isso é considerado "alto". Lembro daquela descrição que ouvia nos anos 80 sobre o homem de 1 metro e oitenta como o supra-sumo da perfeição. Após viver por alguns anos entre gigantes germânicos (vários amigos meus aqui beiram os 2 metros de altura), passei a achar engraçada a descrição.

Peso:

60 kg

Número dos sapatos:

41


Prato preferido, bebida e jogo:

Bife com arroz e salada de tomate. Ou baião-de-dois. Tequila, porque é a única que não me deixa de ressaca. Quanto ao jogo, começo a me entediar cerca de 5 minutos depois de começar qualquer um, seja de cartas ou tabuleiro.

COMENTÁRIO: Pode ficar parecendo jogueteio de quem quer soar "simples", mas apesar de ter desenvolvido alguns hábitos culinários exóticos aqui na Alemanha, ainda gosto e prefiro certas comidas da infância.


Gosta de cinema, teatro, quais prefere?


Posso dizer, creio, que prefiro cinema, em tela de qualquer tamanho. Não poderia contar quantas experiências importantes tive no cinema. Cito duas: O sétimo selo, de Bergman, visto em um cinema de São Paulo aos 20 anos;




outra:
La pianiste, de Michael Haneke, visto 11 vezes no cinema, filme por que fiquei obcecado por algum tempo.





As experiências inesquecíveis em teatro foram menos frequentes, mas cito uma: Vozes dissonantes, da Denise Stoklos.




COMENTÁRIO: Eu poderia haver citado outros filmes. O de Bergman foi simplesmente um momento de descoberta do cinema em São Paulo, com 20 anos, quando comecei a ver filmes de gente como o sueco, ou Godard, Pasolini, Tarkóvski. Alguns filmes estão tão marcados na minha mente que sua influência é totalmente vital. Poderia ter mencionado Não Amarás, de Kieslowski; O Espelho, de Tarkóvski; ter assistido a Éloge de l´amour, de Godard, na telona do cinema; ou, para falar de um filme recente, o mais novo trabalho de Darren Aronofsky, sobre o qual ainda pretendo escrever aqui, Black Swan, com uma performance radiante de Natalie Portman.




Poeta e prosador preferido:

Tendo que escolher um, menciono o mestre que elegi para mim mesmo: Murilo Mendes.


COMENTÁRIO: O poema "Janela do caos" ainda é uma das pedras de toque de tanto que aprendi sobre poesia.

Três primeiros movimentos de "Janela do caos"


1

Tudo se passa
Num Egito de corredores aéreos,
Numa galeria sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
_ Ou teu coração?
Azul de guerra.


2

Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.

Ah! Quem telefonaria o consolo,
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.


3

Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras,
Mas em tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.

Não tenho prosador favorito, a preferência oscila entre Machado de Assis e Dostoiévski, Beckett e Hilst. O último que me impressionou foi Bolaño.

COMENTÁRIO: A menção a Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski talvez pareça estranha a quem conhece meu trabalho, referências talvez não muito óbvias. Talvez deva qualificar um pouco as escolhas. Considero Machado importante e central para o que queiramos fazer hoje no Brasil. Há um poder de alusão e implicação, uma sutileza nele, que me parecem simplesmente exemplares. Como na passagem em que Sofia cai do cavalo em Quincas Borba. Aquele capítulo é para mim de uma perfeição inigualável em sugestão. Já Dostoiévski, na verdade, teve um impacto gigante em mim por causa de um romance específico. A verdade é que não gosto de quase nada mais que li do russo, com exceção do magnífico Os Irmãos Karamazov. Aquele romance está nas minhas entranhas desde que o li. Aliosha é uma das minhas personagens masculinas favoritas no mundo literário. As escolhas de Beckett e Hilst são mais óbvias, talvez. Dentre os "novos", Bolaño segue me parecendo um milagre. Mas ainda tenho que ler alguns americanos como David Foster Wallace, Jonathan Franzen e alguns outros.


Tipo de música e músico preferido:

Qualquer uma, desde que tenha letra e esta seja cantada por uma mulher: Beth Gibbons ou Billie Holiday, Björk ou Elis Regina, Kate Bush ou Chan Marshall.









Entre os compositores clássicos: Schubert.





Qual pintor preferido?

Meus pintores favoritos são dois videoartistas: Douglas Gordon e Péter Forgács.

COMENTÁRIO: Mais uma vez, não é jogueteio. É claro que há a decisão aqui est-É-tica de mencionar videoartistas onde João Filho me perguntou por pintores. Como foi a única pergunta em que ele mencionou as artes visuais, precisei escolher est-é-ticamente. Poderia, é claro, ter mencionado Jean Dubuffet, por exemplo, um pintor que amo; mas hoje dirijo meus olhos em geral para outras práticas.







Qual a cor predileta?

A quantidade de roupas sujas azuis espalhadas no chão do meu quarto deve indicar essa cor como a favorita, mesmo que inconsciente.


Quando escreveu seu primeiro texto?

Aos 12 anos, creio.


Dos seus livros publicados qual o preferido e por quê?

O primeiro, Carta aos anfíbios, porque aquela alegria difícil e meio inocente de terminar o primeiro livro nunca mais volta.


COMENTÁRIO: Isso é difícil de responder. A resposta acima me pareceu plausível. Ao mesmo tempo, gosto do último que publiquei por motivos muito diferentes. No entanto, hoje teria que responder que o livro de que mais gosto é o que estou escrevendo agora.


Se pudesse recomeçar a vida o que desejaria ser?

Ser capaz de compor música é a única coisa que desejaria acrescentar ao que já sou e tenho.


Seu principal defeito:

Ciumento, muito, muito ciumento. Muito.

COMENTÁRIO: Algo que já tomou tanta energia minha e o qual, ao mesmo tempo, contraditoriamente doou-me meu poema mais conciso.




Sua principal virtude:

Lealdade extrema aos amigos, o que às vezes pode ser um defeito quando é cega.


Coleciona alguma coisa?

Cruzar rios. Da forma como João Cabral relata sobre Murilo Mendes em um poema.


Algum hobby?

Na verdade, eu tenho a imensa sorte de viver do dinheiro ganhado com meu hobby: trabalho como DJ.

Uma ou duas grandes emoções em sua vida?

Receber o sim da editora que publicou meu primeiro livro. Receber o sim da editora que publicou o segundo.


É crente ou ateu?

Crente. A resposta à próxima pergunta indicará o quanto e como.


Três livros que mudaram sua vida ou, se não mudaram, mas tocaram fundo:

Teria que citar cinco - O Livro de Jó; Do sentimento trágico da vida, do Miguel de Unamuno; Os Irmãos Karamazov, do Dostoiévski; Investigações filosóficas, do Wittgenstein; Qadós, da Hilda Hilst. Parece-me mais que necessário mencionar também o que mais me divertiu e mais me fez rir em público, nos ônibus e trens de Berlim: o delicioso The Autobiography of Alice B. Toklas, da Gertrude Stein.

COMENTÁRIO: Outra vez, difícil fazer uma lista. Relendo esta hoje, fiquei pensando em tantos outros livros que me transformaram, como A Maçã no Escuro, da Clarice; Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Barthes; Dom Quixote, do Cervantes; no fundo, tudo o que espero é que a lista continue crescendo.

Se pudesse escolher como gostaria de morrer?

De forma indolor; e feliz.

COMENTÁRIO: Esta resposta é auto-explicativa.


Agradeço a João Filho pelos diálogos.

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Terminando com música o ano e a década: três canções prediletas lançadas em 2010.

Três canções para o momento: "Só eu posso morrer porque estou vivo"

Porque a alegria talvez seja mais serena do que penso, porque é minimalista e é experimental sem que se perceba, pois quiçá não grite aos transeuntes que se desbundem com suas pirotecnias.

A alegria, a não ser que seja a "difícil" sobre a qual relatou Clarice Lispector, aquela alegria que é irmã da lucidez, sobre a qual Orides Fontela alertou ("alucina"), a alegria, ela repete "sol, sol, sol". Ela anda de bicicleta e sempre vai a caminho do mar. Ela sabe que nada sabe ou que só sabe o que lhe cabe saber naquele exato momento. É o que desejo a mim mesmo e a todos os que amo em 2011, a alternância entre estes três estados de espírito, estes aqui, nestas canções abaixo, que sobem, sobem.


Caribou - "Sun"

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Dimitri BR - "O encontro de Mary Hansen e Tom Jobim no céu"

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James Blake - "I Only Know (What I Know Now)"

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O prosador mais memorável que li neste 2010: Vasily Grossman (1905 - 1964)

Vasily Grossman como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial


Meus hábitos de leitor de prosa são caóticos. Há épocas em que devoro romances, um atrás do outro, mas há também outras épocas em que a simples visão de uma página repleta de signos da esquerda à direita já me faz bocejar. Isso acontece geralmente em relação à ficção. Livros de prosa crítica e filosofia nunca me entendiam, e estou sempre a ler algum crítico ou filósofo. Mas romancistas podem ser tão tediosos, especialmente para poetas viciados na tal materialidade sígnica e tal. A prosa contemporânea no Brasil é, com exceções, um sonífero.

Em 2010, li pouca ficção. Minha mochila ou meu bornal continham sempre um ou dois livros de poesia, acompanhados de um livro de crítica literária, poética, ou política. Li neste ano de 2010 muita coisa dos críticos que amo, como Hugh Kenner e Walter Benjamin, li outros que não amo e dos quais discordo com frequência mas que são estimulantes, como Fredric Jameson e Terry Eagleton, descobri o trabalho inteligentíssimo de Alfonso Berardinelli, emocionei-me com o lindo memoir de Jakobson sobre Maiakóvski, A Geração Que Esbanjou Seus Poetas (publicado em uma linda edição pela Cosac Naify), mas pouca prosa de ficção.

Arrastei, entre outras, a leitura do famoso romance satírico de Witold Gombrowicz, Ferdydurke (1937), por exemplo. Mas foi, há um par de meses, uma coletânea de contos e artigos do soviético/ucraniano/russo Vasily Grossman que acordou novamente meu paladar para a prosa e me deixou faminto por boa ficção.

Grossman esteve nas notícias culturais aqui da Alemanha há pouco tempo e com grande estrondo, pois foi traduzido para o alemão seu grande romance proibido pelo Kremlin, intitulado Vida e Destino. Houve resenhas e artigos sobre o "soviético" em todos os grandes jornais.

O volume que li, no entanto, chama-se The Road, traduzido para o inglês por Robert Chandler e publicado pelo New York Review of Books, trazendo contos como "Na cidade de Berdichev", o primeiro que Grossman publicou, e artigos como "No Inferno de Treblinka", um dos primeiros sobre a Shoah. Correspondente de Guerra genial, Grossman foi um dos primeiros jornalistas e escritores a entrarem em um campo de concentração. Sua descrição é uma das coisas mais assustadoras que já li, indo onde mesmo muitos filmes não poderiam ter ido.

Grossman é o tipo de escritor que me pega pela garganta. Não é um estilista frio e calculado, obcecado pela frase perfeita. É extremamente próximo, caloroso. Talvez vá parecer absurdo para alguns, já que seus contextos biográficos são tão diferentes, mas durante a leitura de Grossman havia algo que constantemente fazia-me pensar em Clarice Lispector. Não conseguia evitar a impressão e ficava me perguntando o porquê.

Há certos pontos de contato. Grossman nasceu em Berdichev, antigamente parte do Império Russo, hoje parte da Ucrânia. Lispector também nasceu na Ucrânia, e também em uma família judia. Obviamente, este fator biográfico teve maior importância na vida de Grossman que na vida de Lispector, mas há que se pensar na influência dos pais de Lispector sobre sua formação e criação. Contudo, a ligação, eu creio, talvez seja literária e só vim a descobrir depois. Ao fim do volume, há um memoir de Fiodor Guber, filho adotivo de Vasily Grossman, relatando suas lembranças sobre o escritor, e falando sobre a paixão deste por Anton Tchekhov. É aí, eu diria, que talvez resida uma conexão entre os dois, pelo menos para explicar esta minha impressão de semelhança estética, pois também Clarice Lispector me parece uma escritora tchekhoviana, ainda que os críticos sempre se refiram a James Joyce e Virgina Woolf como modelos para a brasileira. Não estou falando tanto sobre influência direta quanto em linhagem, espírito.

Em algum momento de 2011 quero começar a ler o grande Vida e Destino de Grossman, que alguns dizem ser o Guerra e Paz do século XX. Mas entrei numa onda russa graças a ele e agora estou lendo Um Dia Na Vida de Ivan Denisovich (1962), de Alexander Soljenítsin (ou Aleksandr Solzhenitsyn, como se diz na língua do Império). Queria ler O Arquipélago Gulag (1973), mas não o encontrei no sebo.

Estes russos e seus épicos, que parecem cobrir o continente geográfico e físico, e o continente moral e psicológico. Chega a ser assustador.

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um músico britânico e um fotógrafo alemão

foto de Jörg Brüggemann


A última publicação da Hilda Magazine neste ano de 2010 e nesta década (sigo insistindo que a década termina agora para protestos de meus amigos aqui) é dupla e traz dois jovens artistas europeus que têm chamado muito a atenção das críticas em suas respectivas atividades nos últimos dois anos.


Clique nos links abaixo:


Em primeiro lugar, uma série fotográfica do alemão Jörg Brüggemann (n. 1978), um dos jovens fotógrafos mais respeitados do país e membro da prestigiosa agência Ostkreuz, fundada pela recentemente falecida Sibylle Bergemann (1941 - 2010) e outros grandes fotógrafos da antiga Berlim Oriental, como Ute Mahler e Harald Hauswald.


JÖRG BRÜGGEMANN NA HILDA MAGAZINE


E também quatro composições do jovem músico britânico James Blake (n. 1989), cujo trabalho tem sido recebido com verdadeiro furor pela imprensa musical europeia, com uma resenha de Marius Funk sobre o trabalho do londrino.


JAMES BLAKE NA HILDA MAGAZINE




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