domingo, 20 de novembro de 2011

Como ir dormir: canção favorita em várias versões

The Kinks - Kinda Kinks (1965)


Como os leitores generosos e os anônimos machucados já perceberam, as coisas aqui funcionam só e tão-só por compulsão obsessiva. Então, hoje dedico a todos a canção dos Kinks rodando ad infinitum / in loop aqui entre as minhas quatro paredes. A propósito, não estou postando o original dos Kinks de propósito; é como um recado est-É-tico (risos) para alguns anônimos muito machos que frequentam este espaço, ainda que eu não espere que eles entendam as implicações. Afinal, macho-alfa não tem tempo a perder com essas coisas, precisa correr atrás do mamute, matar o Tiranossauro, caçar o dente-de-sabres, e tudo isso enquanto compara o tamanho da flecha com a dos companheiros. Ah, mas como é linda esta canção!


I Go To Sleep
Ray Davies

When I look up from my pillow I dream you are there with me
Though you are far away I know you'll always be near to me

I go to sleep and imagine that you're there with me
I go to sleep and imagine that you're there with me

I look around me and feel you are ever so close to me
Each tear that flows from my eye brings back memories of you to me

I go to sleep and imagine that you're there with me
I go to sleep and imagine that you're there with me

I was wrong, I will cry,
I will love you till the day I die
You were all, you alone and no one else,
You were meant for me

When morning comes again I have the loneliness you left me
Each day drags by until finally my time descends on me

I go to sleep
And imagine that you're there with me
I go to sleep
And imagine that you're there with me




The Pretenders - I go to sleep

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I Go To Sleep ~ Cher ♫ - Muziek & Entertainment - 123video
Cher - I go to sleep

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Marion - I go to sleep

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Sia - I go to sleep

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Soulwax - I go to sleep

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Anika - I go to sleep


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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sete páginas do livro a cadela sem Logos (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007)

Ricardo Domeneck, a cadela sem Logos (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007)

§

falar hoje exige
elidir a própria
voz as transações
inventivas entre
interno e externo
demandam
que a base venha
à tona e a
superfície seja
da profundidade da
história ímpeto
denotando o
centrífugo
o corpo público
que exibo como
palco fruto
da ansiedade
do remetente
o interno ao longo
da epiderme
como emily
dickinson terminando
uma carta de minúcias
com “forgive
me the personality“


§

difícil convencer todas
as partes do meu corpo
do sentido
de uma ação e
assim pôr em
movimento as roldanas
da corpulência em
direção ao
abstrato cruzar
o oceano tantas
vezes umedece
os propósitos faz
querer uma cama
no fundo
não não
é irônico
que bas jan ader in search
of the miraculous afunde
desapareça em meio
oceano


§

inveja das cartas a que
basta dedilhar um
nome completo e sempre
conseguem a atenção
do destinatário e
enquanto ele e
ele abrem
a boca permitem
a visita ao estômago
alheio minha garganta
de mão dupla abre
a passagem mais
uma vez devo bastar
-me limito-me
a olhar sua
boca limítrofe o
álcool realmente não
auxilia a
confusão de
estômagos entre
interno e externo

§

o que é uma língua
perdida se
encontra saliva
em estranhos como se
vai de são paulo a
berlim nomear esta
relevância morta
vício de memória horror
à memória horror do
esquecimento uma foto
é irrespirável a catedral
da cidade do méxico
afundando no antigo
lago bombeie bombeie
concreto até reter as
águas é preciso
cruzar o oceano
para ousar
falar de
água


§

em minha boca ele
alcança o meio-dia
mas a intermitência o
apreende como em
qualquer música
cúmplice do acaso a
pessoa começa a
afastar-se desde que
se aproxima a distância
existe entre pele e
pele cada imagem
dobrando a esquina
não configura
sua chegada
ele
só chega quando seu
corpo chega carregado
pelas próprias pernas
e jamais falha que
eu o reconheça
de imediato
como dono de
certos lábios voz
nome e um modo
de apresentar-se
ele
chega o mundo
assume uma nova
forma: a do
equilíbrio precário do
mundo


§

usar a imagem
desgastada
no espelho diante da
superfície imunizar
as segundas
terceiras quartas
intenções armadura
de modéstia que
mina o
uso constante não
oblitera o arbitrário um
corpo livre de funções e
enviem as coerções do
reflexo
a falta de sono afia
o espelho ao desfoque
do olho ele
assegura sua atração por
mim com palavras no
fundo você
sabe não não
existe esse fundo

§

num vôo sobre o
atlântico espera-se
muita água mas
abre-se a janela
aleatoriamente
para uma ilha
vulcânica “no meio
do nada” alguém
ousaria dizer não
se tenta o acaso o
nascimento desce e as
águas espalham-se pelo
chão para merecer
um nome ele diz
que beberia as águas
do atlântico no
café-da-manhã
tanto sal impede o
nascimento o
mundo simpático não
há ironia no acaso só
na vingança da
vontade o chão
é fértil demais
para o acaso
assim ele
jorra por todos
os cantos detenham-no
vontade nome grito


Ricardo Domeneck: páginas 9 - 15 do livro a cadela sem Logos (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007)


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Anika


Anika - "Terry"


Conheci Anika neste verão, através de uma amiga em comum. No ano passado, Anika lançou seu álbum de estreia, intitulado simplesmente Anika (Stones Throw, 2010), produzido por Geoff Barrow do Portishead. A história oficial: Annika Henderson, britânica e alemã, estava vivendo entre Bristol e Berlim após graduar-se em jornalismo, trabalhando entre as duas cidades como jornalista na imprensa política e musical. Geoff Barrow estava à procura de uma nova vocalista para sua banda Beak> mas, após conversar com aquela que viria a se tornar simplesmente Anika, decidiu produzir a música da jovem britânica. O resultado é um álbum que vai contra a limpeza excessiva das produções recentes, soando cru e ríspido. Eu gosto bastante do álbum. Mesclando composições próprias – escritas por Anika em parceria com a banda Beak> – e versões para canções das décadas de 60 e 70, como esta "Terry" acima, ou a incrível "Yang Yang", de Yoko Ono, originalmente lançada no álbum Approximately Infinite Universe (1972).



Estou curtindo muito conviver com ela aqui no Berlimbo. Ontem ela discotecou em nossa SHADE uma maravilha de set. Quis apresentá-la aos amigos que frequentam este espaço.



Anika - "No One´s There"


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Anika - "Yang Yang"


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Anika - "I Go To Sleep"

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Dois poemas da Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005)

Ricardo Domeneck, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005)



O pão partido

Houvesse um telefonema,
haveria uma voz; eu
emagreço, que prazer
ajustar-se melhor
aos ossos. Levitar
até o teto; basta mover-se
na direção certa
para viver de inverno
em inverno. Meu corpo
seu estrado, o colchão
a falta, em concha
peito e costas
aconchegam-se
em útero: e a falta
redobrada.
O cordão umbilical uma
ausência explícita, que
digestão suporta
uma hóstia?
A boca abre-se à
expectativa,
saliva
produzida nas glândulas
da anunciação.
Pão partido, corpo prurido
every single time.
Mas separam-nos
o jejum e as
orações de minha mãe,
a possibilidade
de um oceano
e seu condiloma
imaginado.
É 1654 e cavalos
(oito) tentam separar
as duas metades de
uma esfera unidas
pelo vácuo; em apenas
dois por cento das caças
um urso polar
tem sucesso mas
seu pêlo é branco! e oco
para conduzir melhor o sol;
brilhar e desaparecer:
camuflagem perfeita e o único
predador a fome.
A hóstia sempre
um prelúdio,
não uma rememoração.


Ricardo Domeneck, Carta aos anfíbios (2005).


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Separatismo

Seu olho fisga-me dentre
os outros repuxa a pele
e reabre o corte faz-me
acreditar num anzol
dedicado
à minha boca enquanto a
expectativa infecciona
sob minha língua repetindo é hoje
é hoje e eu não
queria voltar a existir
como se à entrada
de uma estação de
metrô tocando xilofone
para os transeuntes à espera
da moeda a certa a desejada você
cantarola Crush
with eyeliner
ele
caminha até o som Too drunk
to fuck
soa
no quarto poemas não
o impressionam inútil
citar aquela poetisa
polonesa de que você gosta
tanto discorrer sobre a palavra yes
nos poemas
de e.e. cummings narrar
a morte estúpida
de Ingeborg Bachmann aduzir
como ele adoraria Yehuda
Amichai ou chiar améns não ele
folheia panfletos
anarquistas mimeografados
textos de escritores
judeus cheios de sarcasmo e ri
sozinho na cama você
se olha no espelho e sabe
de antemão que não
adianta tentar
um moicano você nasceu
para usar
óculos sua visão perfeita
20/20 sempre
foi na verdade um insulto mas como
é bom ouvi-lo sobre a infância
na Berlim dividida os pais
anarquistas o erro
a reunificação (der Anschluss
como ele diz) as dificuldades
de ser possuído por pai
alemão e mãe
judia passar o sábado
todo assistindo-
o vê-lo observar o sábado pedir pelo
que é kosher sim querido começa
em alguns dias a Chanukka
quando em um cerco inimigo
ao templo o óleo
suficiente para apenas um dia queimou
durante oito a perseverança do óleo me
cai bem


Ricardo Domeneck, Carta aos anfíbios (2005).


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domingo, 13 de novembro de 2011

Das canções favoritas: "Tive sim" e "O mundo é um moinho", do Cartola


Quanto mais penso nesta canção, "Tive sim", mais ela me parece uma das canções de amor mais cruéis do cancioneiro brasileiro. Se alguém me dissesse estas palavras, eu sinceramente entraria em parafuso de paranóia do medo da perda. Pense bem, dizer a quem você ama agora que já amou outrem, e com esta pessoa também foi feliz e nutriu sonhos, como se quisesse dizer: este também pode ser o seu fim, meu amor. Cartola era de uma lucidez incrível, mas há também uma certa acidez em suas canções. "O mundo é um moinho" é outra de suas bolhas latejantes de lucidez ácida. Posto abaixo as duas, duas de minhas coisas favoritas neste mundo.




Tive sim
Angenor de Oliveira, o Cartola

Tive sim
Outro grande amor antes do teu
Tive, sim
O que ela sonhava eram os meus sonhos e assim
Íamos vivendo em paz
Nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria
E eu vivia tão contente
Como contente ao teu lado estou
Tive sim
Mas comparar com o teu amor seria o fim
Eu vou calar
Pois não pretendo, amor, te magoar


§





O mundo é um moinho
Angenor de Oliveira, o Cartola

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés




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sábado, 12 de novembro de 2011

Obrigado e uma canção

Agradeço a todos que estiveram ontem no Bar Sabiá em São Paulo e levaram para casa um exemplar da Modo 3 e/ou do meu Cigarros na cama, e agradeço e me desculpo junto aos que lá estiveram mas não puderam comprar um ou outro porque tudo havia sido vendido. Edições esgotadíssimas! Imprimiremos mais nos próximos meses, e terei exemplares comigo quando fizer leituras em São Paulo e no Rio de Janeiro, assim que chegar ao Brasil em dois meses.

Quero ainda fazer um agradecimento especial e declaração de amor pública a meus companheiros Angélica Freitas, Fabiano Calixto e Marília Garcia por me permitirem fazer parte da aventura.

Deixo vocês com uma canção maravilhosa de Atlas Sound, o projeto solo de Bradford James Cox, o vocalista da banda Deerhunter.



Atlas Sound - "Te amo", do álbum Parallax (2011)


Te amo
Bradford James Cox

Te amo
Pretend you know the way I love
And we will go to sleep
And we’ll have the century.
You can come around when you’re down,
You’re
always down!
When you’re down you’re always down!

Te amo
I’ll pretend you are the only one
And we will go to sleep and we’ll have such strange dreams!
You can come around when you’re down
You’re always down!




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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nesta sexta-feira, 11/11/11, lançamento em São Paulo da "Modo de Usar & Co. 3" e do meu livro "Cigarros na cama"


O terceiro número impresso da nossa Modo de Usar & Co. e o meu livro Cigarros na cama serão lançados em São Paulo nesta sexta-feira, dia 11 de novembro, no Bar Sabiá: R. Purpurina, 370, Vila Madalena. Tudo começa por volta das 18:00. O lançamento contará com a presença dos editores Angélica Freitas e Fabiano Calixto.


Este número impresso da Modo de Usar & Co. traz textos de:

Angélica Freitas
Cecília Pavón
Charles Pennequin
Charles Reznikoff
Christian Prigent
Dirceu Villa
Emmanuel Hocquard
Érica Zíngano
Érico Nogueira
Fabiana Faleiros
Fabiano Calixto
Fabrício Corsaletti
Gertrude Stein
Helmut Heissenbüttel
Inês Cardoso
John Ashbery
Júlia Hansen
Kenneth Koch
Leandro Rafael Perez
Leonardo Gandolfi
Liv Nicolsky
Marcelo Sahea
Marco Catalão
Marília Garcia
Mario Sagayama
Nathalie Quintane
Paula Glenadel
Renan Nuernberger
Reuben da Cunha Rocha
Ricardo Domeneck
Roberto Bolaño
Rodolfo Caesar
Rodrigo Álvarez
Rodrigo Damasceno
Rosmarie Waldrop
Rui Camargo
Tiago Pinheiro
Vicente Huidobro
Victor Heringer
Violeta Parra
Walter Gam



Bar Sabiá: R. Purpurina, 370, Vila Madalena.
Tel. 6850-2805, a partir das 18h,
11/11/11


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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Hoje à noite, concerto do Heatsick e DJ set de Mo Probs em nossa SHADE



Hoje à noite, Steven Warwick, músico britânico residente em Berlim e mais conhecido como Heatsick, faz uma apresentação em nosso evento semanal SHADE. Heatsick acaba de lançar seu álbum de estreia pelo selo PAN Records, intitulado Intersex (PAN Records, 2011), angariando elogios rasgados pela imprensa alternativa alemã. Sua música está marcada por uma paleta variada de influências e referências, da musique concrète à Chicago house. A noite contará ainda com um DJ set de Mo Probs. Assista abaixo ao vídeo da faixa "Ice Cream on Concrete", dirigido pelo brasileiro Dácio Pinheiro.



Heatsick - "Ice Cream on Concrete", do álbum Intersex (PAN Records, 2011),
vídeo de Dácio Pinheiro.


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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Minha primeira jornada no Europália

La poésie brésilienne aujourd´hui (Liège: le Cormier, 2011)


Pretendia escrever sobre cada uma das noites em que estive e me apresentei aqui na Bélgica, mas foi tudo um verdadeiro turbilhão. Tampouco poderei agora escrever largamente sobre esta minha primeira passagem pelo Europália, em que fiz três apresentações: duas de minhas performances vídeo-textuais em Antuérpia, e uma leitura dos meus poemas em Bruxelas (onde estou neste momento), ao lado de Paula Glenadel e do tradutor para o francês, Patrick Quillier, como lançamento da antologia La poésie brésilienne aujourd´dui (Liège: Le Cormier, 2011). Os tradutores para o holandês, Bart Vonck e Harrie Lemmens, estavam também presentes, mas infelizmente a antologia em holandês, a mais longa, trazendo 25 poetas brasileiros, ficará pronta apenas em uma semana. A antologia francófona traz 15 poetas, todos traduzidos por Patrick Quillier, que é nada mais nada menos que o tradutor francês de Fernando Pessoa e Herberto Helder, entre outros portugueses. Os poetas incluídos são, em ordem alfabética:


Ricardo Aleixo
Francisco Alvim
Arnaldo Antunes
Carlito Azevedo
Paulo Henriques Britto
Augusto de Campos
Ricardo Domeneck
Marília Garcia
Paula Glenadel
Júlio Castañon Guimarães
Lu Menezes
Nuno Ramos
Cláudia Roquette-Pinto
Alice Ruiz
Zuca Sardan
Marcos Siscar


A edição é muito elegante, à moda antiga, páginas unidas à espera de uma faca.

Em Antuérpia, cheguei na quinta-feira, junto com Lourenço Mutarelli vindo de São Paulo, e foi um prazer enorme conhecê-lo. Outros encontros especiais ocorreram ali: pude conhecer meu grande herói Tom Zé, que se apresentou na noite de sexta-feira; conheci o maravilhoso cavalheiro que é Zuca Sardan, com quem me correspondia há muito tempo mas, apesar de morarmos ambos na Alemanha, ainda não havíamos tido a chance de nos conhecer pessoalmente; tive conversas ótimas com Paula Glenadel; tive ainda o prazer de conhecer o antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares, autor de Elite da Tropa (2006), que daria origem ao filme – com o qual confesso ter muitos problemas –, mas sua intervenção no debate durante o Europalia me pareceu uma das falas mais lúcidas que ouvi da boca de um brasileiro há muito, muito tempo.

Na sexta-feira, apesar de uns probleminhas técnicos, fiz uma apresentação para uma sala cheia de gente jovem e receptiva, mostrando as peças "This is the voice/Esta é a voz", "Mula", "Eustachian Tube in Staccato" e terminando com "Six songs of causality". No sábado, com os problemas técnicos resolvidos, fiz minha segunda apresentação para uma sala lotada, desta vez trocando a peça "This is the voice" por minha colagem-apropriação de Góngora, as "Entrañas de las Soledades".

Uma vez em Bruxelas, pude rever minha eterna crush e queda abismática, Jey (que menciono no meu poema "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", que aliás está se provando meu hit nesta viagem e na antologia), com quem passei horas lindas e que revigoraram minha alma em frangalhos.

Ontem aconteceu a leitura na livraria Passa Porta, com uma moderadora boa e uma conversa ótima com os tradutores. Depois, ocorreu a homenagem a Augusto de Campos em uma das lindas salas do Hôtel de Ville de Bruxelas, em que Augusto e seu filho Cid Campos apresentaram o concerto "Poesia É Risco", com participações especiais de Antonio Cicero, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto. Fiquei particularmente emocionado com a performance de Augusto e Adriana da canção "Canso do'ill mot son plan e prim", em provençal e português, com a melodia original do próprio Arnaut Daniel. Vocês sabem como me sinto em relação à poesia medieval.

Conheci ainda pela primeira vez a crítica e curadora da parte literária do Europália, Flora Süssekind. Somente seu trabalho de recuperação do grande poeta que foi Sapateiro Silva já bastaria para colocá-la entre os críticos que têm o meu respeito hoje no Brasil, mas ela é ainda uma das poucas a articular com inteligência a crítica formal a uma meditação sobre a historicidade do fazer poético, seja ele o dos poetas mortos ou o dos vivos.

Volto hoje a Berlim. Retorno à Bélgica no final do mês, para minha segunda jornada no Europália.

O turbilhão segue.

A propósito: estarei no Brasil entre o fim de dezembro e o fim de janeiro. Quero rever a família, os amigos e espero poder fazer muitas leituras e performances.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Hoje à noite, nosso evento semanal SHADE reabre em novo clube, com dois concertos


Uma verdadeira maratona começa hoje, sobre a qual só poderei escrever com calma em um par de dias. Parto amanhã para minhas primeiras apresentações no Festival Europália, em Antuérpia e Bruxelas, mas antes disso reinauguro com meus companheiros de coletivo nosso evento semanal SHADE, no clube Flamingo. Concertos da brasileira (que cresceu na Alemanha) Dillon e da banda Go Chic, de Taiwan, que acaba de ser produzida por Peaches. Mais: DJ set do meu amigo Marius Funk e também meu. Escrevo com calma da Bélgica. Abaixo, um vídeo com a brasileira/alemã Dillon:




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