quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A história da gerenta






A história da gerenta

              kissing the feet of the man above,
              kicking the face of the man below.
                               Marianne Moore

Para sentar-se à mesa,
ela exibiu as cicatrizes.
Ao ascender à direita
do patriarca-messias
– o falho unigênito –
expôs as cicatrizes
e todos aos joelhos,
boquiabertos frente
à ilusão do materno.
Uma vez à cabeceira,
abobava os convivas
com as acrobacias
de suas cicatrizes.
A gritos de rainha
louca, aquietava
todos os muxoxos
seu salvo-conduto,
imunidade herdada
de suas cicatrizes.
Em meio às rusgas
e a caça às bruxas,
nem as suas rugas
tapam as cicatrizes.
Altaneira, que sono
de justa lhe doam
as suas cicatrizes,
como é sobranceira
ao ditar quem vive
e morre, sem tremer
sequer a sobrancelha!
Chicote em punho,
castigava os dorsos,
mas quem ousaria
questionar a dona
de tantas cicatrizes?
Quando terminou
enfim o genocídio,
– não por detê-lo
mas consumá-lo –
ainda distrairia
a todos, houvesse
alguém sobrado,
com a autoridade
de suas cicatrizes.
Só, afinal, à cama,
sonhou-se em Haia.
Não se sabe, porém,
se qual juíza, ou ré.

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terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Barro: o abraço / primordial já / previa o anfíbio"


Barro: o abraço / primordial já / previa o anfíbio


      “Und dies ist ihre Verbindung mit der Welt”
                                 Ludwig Wittgenstein

mesmo que um pássaro
             aponte o centro
ou uma pedra
                      seja pedra e sinal

a densidade em quaisquer hierofanias
                                      jamais excede
a que meu corpo apresenta
imerso na banheira,
água, carne: praia

e a troca de calor é explícita.

se o concreto evola-se em conceito
e eu vejo
o corpo do mito
feito carne
(de novo)

neste fluxo e refluxo
respira o mundo.

*

de encontro à pele,
a temperatura
aumenta, a febre
acelera-me o pulso,

o rosto incha,
o corpo ilha-se

numa cama
encharcada,

mar que retorna
das origens a um corpo

em júbilo
similar à cicatrização de um corte;

luxações aumentam-me a posse
e presença no mundo,

mas não a brecha entre pele e pouso;

nada é invisível
além do que reside
em minha memória,

e eu sei que não há quem profetize
                                      a sua volta.

*

minha coluna, uma torre de inclinações
                                               contínuas,
a garganta sobrevive ilesa
às inflamações
                         periódicas.

durmo e sonho o prometido
corpo incorruptível;

acordo com dores nos músculos.

*

estes brincos necessários perfuram e pendem,
servem de prova de consistência; úmidos,
os pés tateiam, ajeitam-se,

calcam mais fortes
no concreto
a sua crença de apoio

(o mundo responde-lhes
                 com tremores)

o sangue escorrendo
das narinas no momento
do aperto de mão do estranho,
(toda apresentação
deveria consistir numa troca
                          de secreções)
expondo ambos

                            à recusa

herdada, esquecida, prenhe.

*

os joelhos falham, dobram-se,
saliva e sangue às vezes unem-se,
desaguam na boca,

cabelos engastam-se nas unhas
do mesmo e próprio dono.

(braços exaustos tremem com um copo)

          denso,

denso.

algo mais que mão externa
consterna-me o diafragma.

enquanto alguns

                               flertam

com pedras

                    e o

         silêncio



Ricardo Domeneck, Carta aos anfíbios (2005).

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sábado, 13 de outubro de 2012

Alejandro Albarrán - Performance na Casa del Lago


Alejandro Albarrán nasceu na Cidade do México, em 1985. Seu livro de estreia, intitulado Ruido, foi lançado este ano na capital mexicana. Considero-o um dos melhores poetas da nova geração nas línguas que conheço e acompanho.




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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Novo livro de Angélica Freitas é lançado hoje em São Paulo

Ministério da Cultura, Petrobrás, Cosac Naify e Livraria da Vila apresentam o lançamento de Um útero é do tamanho de um punho, segundo livro de Angélica Freitas, hoje, quarta-feira, às 18h30, em São Paulo (SP). A autora estará presente para uma sessão de autógrafos. Livraria da Vila: Rua Fradique Coutinho, 915 (Pinheiros).









segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"Incident at Oglala" (1992), documentário de Michael Apted



On June 26, 1975, during a period of high tensions on the Pine Ridge reservation in South Dakota, two FBI agents were killed in a shootout with a group of Indians. Although several men were charged with killing the agents, only one, Leonard Peltier, was found guilty. This film describes the events surrounding the shootout and suggests that Peltier was unjustly convicted. 

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domingo, 7 de outubro de 2012

Mariano Blatt - "Papelitos de locura"



Mariano Blatt. Vídeo realizado por Tomás Maglione 
(Con la colaboración de Andrés Rusconi, Geraldine Baron y Lula Meliche) 
 Agronomía, Buenos Aires, 2012 



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sábado, 6 de outubro de 2012

Keaton Henson - "You Don't Know How Lucky You Are"

Keaton Henson

Às vezes eu sinto que estaria disposto a trocar meus cinco livros de poemas apenas para poder escrever e cantar algo com esta delicadeza. Eu ia escrever um poema agora, mas Keaton Henson já diz o que eu gostaria de poder dizer neste momento. Então eu o tomo e o agradeço.

 


You Don't Know How Lucky You Are
Keaton Henson

Does he know who you are?
Does he laugh, just to know
what he has?

Does he know not to talk
about your dad?
Does he know when you're sad?

You don't like to be touched,
Let alone kissed.

Does he know where your lips begin?

Do you know who you are?
Do you laugh, just to think
what I lack?

Do you know your lip shakes
when you're mad?
And do you notice when you're sad?

You don't like to be touched,
Let alone kissed.

Does his love make your head spin?

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Anika - "Officer Officer"



De volta a Berlim desde segunda, enfiado na tela do computador com trabalho atrasado. O melhor desta  semana de volta ao Berlimbo foi poder assistir ao primeiro concerto de minha queridíssima Anika, a poeta anglo-germânica Annika Henderson. "Officer Officer" é uma espécie de muder ballad enlouquecida. Foi ótimo ouvir uma das canções novas também, do álbum em que está trabalhando.

 



officer officer
Anika (Annika Henderson)


so i said, officer officer
maybe i saw something, maybe i didn't
maybe i did it and maybe i didn't
maybe i should have lied that day the officer he came on by
maybe i should have held my hands up high and said i did it
but i didn't..
hold my hands up high..


and now it's too late

because my neck is in a noose and my feet are on a chair
and there's hacks and there's hacks and they're everywhere
and there's people and they're shouting murderer
and there's people and they're shouting murder her


so i said, officer officer

i swear i didn't see the dreadful dead
i didn't see them put the gun to his head
i didn't see them stick the knife into his leg 
and the officer he said
i didnt say nothing about no knife
and i said oh
and the officer he said oh


and now it's too late

because my neck is in a noose and my feet are on a chair
and there's hacks and there's hacks and they're everywhere
and there's people and they're shouting murderer
and there's people and they're shouting murder her


so i said officer officer,

can i get you a drink
and he gratefully accepted 
and as he took the first sip
the poison it dropped from his bottom lip
and i said oh shit
there's an officer on my floor


and now it's too late

because my neck is in a noose and my feet are on a chair
and there's hacks and there's hacks and they're everywhere
and there's people and they're shouting murderer
and there's people and they're shouting murder her



 
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