terça-feira, 21 de setembro de 2021
Seminário de Poesia Contemporânea na UFPR e a homenagem à poeta pernambucana Tereza Tenório
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Carla Diacov - "o burro trota tão lentamente"
Carla Diacov (São Bernardo do Campo, São Paulo, 1975)
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
André Capilé - "Kuzuela"
KUZUELA
André Capilé
ó pássaro verdadeiro
ó pássaro sincero
papagaio ê!
seja bem vindo
gostamos de recebê-lo
mas não nos garantimos boas novas
os maridos ainda recusam a voz das esposas
os pais renunciam a voz de seus filhos
nossos avós saíram da raiz faz tempo
mas o tronco resiste apesar dos inventos
esta é a terra e o que se tornou
veja
estamos sempre prontos a nos repetir
viemos a esta terra
comemos desse esterco
em um mundo
que não devia ser tão espalhado
em um mundo
que se distrai por trair ser pacífico
em um mundo
que é apenas um lugar de mercado
uê papagaio uê!
será possível que se instale um vau
que se preciso atravessemos juntos?
e o que virá depois do salto, o óbvio?
de um lesa-majestade ouvi a prece
nem todos voltarão pra casa um dia
até que dê ciência a concha ao molde
é o estéril que engravida o caracol
viemos até aqui
agora chamamos de casa
ó há terra para todos
talvez devesse um elogio
que te fizesse mais feliz
ó há terra para todos
e me escutasse o que rezava
e respondesse cada reza
ó há terra para todos
uê que espalha o mundo no lajedo
tão grande, tão poderoso
que não pode vencê-lo a calma
a violência de teu silêncio
quem ousar eiá eu vos digo
enxaguará as mãos pra comer terra
quem ousar eiá eu vos digo
entrará pelo duto ó cu dos céus
e quem ousar eiá que aproxime
mil e um passos contados pra trás
hoje não vou ousar ser tão rude com ele
são mais de mil passos à frente do rei
ó colorido com a tintura do açafrão
patrono dos tapetes sem tamanho
esta terra deve ser pacífica
esta terra deve ser prolífica
a terra deve ser boa pra nós
a terra deve nos favorecer
não botamos nossos ovos pra guerra
nós que somos testemunhas do luto
não merecemos castigo
não devemos ser roubados
papagaio ê!
venha ouvir nossas súplicas
papagaio ê!
prestamos homenagens ao senhor
ó pássaro verdadeiro
ó pássaro sincero
seja bem vindo
gostamos de recebê-lo
não ouça amanhã nossos gritos
não nos garantimos boas novas
domingo, 29 de agosto de 2021
Diego Alves Amancio [poema]
levam
ao silêncio (1) recusar
à réplica, não
desenrolar o fio
da conversa: se
enforcar com
ele; (2) se ater
ao elementar: que horas
são? Esse ônibus
segue até a praça da
independência? Café
sem açúcar, por
favor; (3) se espelhar
na mudez das águas
que discursam
só quando
agitadas; (4) furar
os tímpanos
com cotonetes
de vidro; (5) cirurgiões
clandestinos,
bisturis oxidados
que desatem o nó górdio
das pregas vocais; (6) mas
o menos radical,
o mais comum
é encher a boca
com palavras,
mastigá-las com
dificuldade e
cuspi-las para cima
até atingir
o estado de silêncio
pelo ruído.
*
Diego Alves Amancio é um poeta brasileiro, nascido em Londrina, estado do Paraná, em 1988. É ainda inédito em livro.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2021
Allan Jonnes - "O sol não ilumina mais o olho bege de Gisele"
terça-feira, 24 de agosto de 2021
Érico Nogueira - "Retábulo" (inédito)
Há alguns dias, pedi a meu grande amigo Érico Nogueira que me enviasse um "poeminha" inédito para a plataforma digital da revista peixe-boi.
RETÁBULO
ACHEI, ENQUANTO BESTAS DE AÇO BRA-
-miam e de hélices roncavam vespas,
Um bilhete em meu nome; as letras crespas
Eram tinta de assombro, ou pez de sombra.
Abri. Exortações exatas à obra
Por obrar inda, de gramar a gleba,
E redobrar o que se não desdobra,
E em ferro duro pôr o fumo débil.
Aquelas coisas – casos aquilinos
De ovelhunas misérias cravejadas
Em madeiros de mais agudos trinos.
Crucificadamente encruzilhados
O lambique que sílabas destila,
A linfa que deflui do flanco, e estrila.
UM FOGO ABSTRATO, UM ALGARISMO FULVO
Brilhando à brisa em bruma de uma hipótese
Implausível; a glândula da hipófise
Secretando um segredo indissolúvel.
O trajeto mais reto o mais recurvo,
E a mais vígil vigília uma narcose
Que se condensa no clarão mais turvo
Da chaga sem conceito e sem necrose.
Convoluções de convolutas voltas
Em órbita de um algo, uma agonia
Que te acoita e te acode por aguda.
Conexas vozes de palavras soltas;
Escultura que escalda a pedra fria;
– Ó retrato mudável, que não muda.
SENSAÇÕES ASSOLADAS DO INTELECTO
Ou conceitos do látego acossados?
De elipse a elipse se me elude um repto
De palmas e de pés em cruz. Eu falho.
Eu quedo aquém. Dos riscos no trançado
Da madeira me obceca muito objeto.
Ah, quem me dera o talhe mais dileto
Discernir entre a massa dos entalhes.
Mas não. Cada arabesco é uma tortura
Tortuosamente amaranhada – opaca,
Oblíqua, oblonga –, flecha que não fura.
Vai ver, Senhor, é isto: a iniciática
Via-crúcis das formas é antecâmara
Do amor que se despoja e se desama.
DESPOJAR-SE PEJANDO-SE DAS LINHAS
Excessivas, elípticas que a lima
Perlustrou e poliu no madeirame
Qual enxame de traços em enxame
Ou desamar-se amando este tentame
De fiar ferros orbitais de um ímã
Que os trança e entrinça e entronca e desarrima
Em contínuo, magnético certame
É despojo de pó, mau desamor,
Cupidez de asperezas deduzíveis
Taticamente à parte do cruor
Dos espinhos... De cardos e calhaus
Mune-se a mente entre ondas infiéis;
O fiel corpo entre holandas se refaz.
DA TRANSPARÊNCIA ARTÍFICE DO VIDRO
Que se industria em nítido binóculo
Ao cristalino elemental de um olho
Naturalmente hábil – quanto dista?
Do alquímico sabor de sumo cítreo
Ou de ouropel sintético o refolho
Ao limoeiro rústico e imperito
E uma jazida abrupta entre os escolhos?
Tanto dista, ah, Senhor, quanto o madeiro
E tu nele cravado em sangue rúbeo,
Do lavrado lavor desta madeira
E um asséptico homem de Vitrúvio.
Se Deus à carne crua já desceu,
Por que a culta subir não pode a Deus?
CARNE CULTA NO AMOR QUE SE DESAMA
De tanto amar um só e dele os muitos,
Incontáveis lugares e minutos
E rostos em que flana a sua flama
É a só que sobe a antrópica montanha
E só se o pensamento exato e enxuto
Não for culto de formas, mas for culto
Em armar aranhóis, absorta aranha.
Assim, se a carne sobe, numa teia
Do pensamento arácnido quem sabe
Se mais lúcida abelha não se enleia
E alumia o que a carne só não sabe.
É um outro amor, este do pensamento;
Um brilho, um voo, um eco, um raio, um vento.
É O PENSAMENTO, POIS, QUE SE DESPOJA
Da série monocórdia de sinapses
E entre lobos e córtices se arroja
Tão vária e velozmente que num lapso
O sistema ancestral cai em colapso;
E o pensamento, puro do que enoja,
Como luz e calor na mesma tocha,
Converge em raros, rarefeitos ápices;
Mas, ai, que a carne clama, inda que douta,
E, socolor de cíclico equilíbrio,
O sistema caído se levanta;
No breu de um pensamento já sem brio
O cérebro maquina maquinal
E a nova se enovela, e é o velho mal.
MAL DA FOSCA FRIEZA QUE DESCREVE
A maligna engrenagem do relógio
E o minuto e o segundo, como fogem,
E como corre o mal e quanto ferve;
A arquivolta, a arquitrave e os tramos lógicos,
Alaques e predelas que refervem
De nervuras nervosas e da verve
De ornatos flóreos e ornitológicos;
Mas o mal não evita, quando vem;
Mas o bem, quando foi é que o adora;
E um conhece se aflui, o outro se falta;
Desce aos detalhes e os descreve bem,
Mas, atômico número do ouro,
Não sobe nem reflete nem refrata.
ASSIM SUBISTE AO CIMO DA CAVEIRA
Por açoites, espinhos, cravos, sangue,
Assim lime e labore e lustre e lanhe
Por escrever o que não escrevera.
E por poder o que já não pudera,
Ou já por que o perdido ou ache ou ganhe,
Hei de arrancar de mim o que da terra
Ninguém arranca, quando não lhe arranquem.
És tu, Senhor, quem troca no meu tórax
A pedra que se veste aí de víscera
Por víscera que vige, e aonde moras;
Então, quanto cultivo, é quanto viça,
Então as sílabas que escando, tantas,
A só ressoam que contigo cantas.
§ Caetera desiderantur §
.
.
.
quinta-feira, 22 de julho de 2021
INDÚSTRIA CULTURAL
para as famílias do interior
exigem recursos humanos
próprios.
Aqui
não vêm atuar
os grandes atores,
aqui
não vêm ler
os grandes poetas,
aqui
não vêm cantar
os grandes cantores,
aqui
não se digna
a interpretações
a intelligentsia.
Aqui,
às igrejas evangélicas
e às academias de ginástica
pertence a implementação
do Mens sana in corpore sano.
As visitas à sorveteria
que antes fora uma pizzaria
e antes, uma lanchonete,
apenas mudam as paredes,
que não trazem
nem fotografia nem pintura
de tradições centenárias.
O espaço público
— nem Ágora nem Eclésia —
incita variações
— agora aos sussurros —
dos ressentimentos velhos,
das irritações pequenas
que se acumulam
e latejam como pústulas.
As frustrações do pai,
as frustrações da mãe,
e assim, em escadinha,
as frustrações nascentes
da prole toda, em perdas
crescentes.
À mesa
reina nossa mesma
falta de assunto da janta
ou o assunto repetido
à exaustão. As dívidas
com Deus e com César.
E sim, o silêncio
sobre os únicos assuntos
que quiçá nos salvassem.
Quem-nos-dera, num instante
de lucidez repentina,
aguássemos agora
os sorvetes, as pizzas, os lanches
com lágrimas, esgoelando juntos
na sarjeta. Mas o que diriam
os vizinhos?
Nas capitais
lacrimeja a intelligentsia
— o povo! o povo! —
enquanto o mofo e o musgo
cobrem aos poucos
a nossa não-boca, a nossa não-alma.
sexta-feira, 25 de junho de 2021
Acerca de Ernâni Rosas
ERNÂNI ROSAS (1886-1955)
O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho d'Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto.
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minh'alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo.
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado —
na demência autunal duma Alameda.
Velaram-se Sudários teus Espelhos
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos.
*
OUTUBRO. O SOL
Outubro. O sol em fuga d’oiro parte!
E a paisagem parece que morreu.
Todo um temor procura-me afastar-te.
Dentro de mim tu'alma floresceu.
Cerrou-se-te palácio em brônzeas portas.
Teus repuxos cessaram de se erguer.
Há um estranho rumor a coisas mortas,
Já as fontes pararam de correr.
Guardo um rumor de folhas na alameda,
Gela-me a paz da tarde pelo outono.
Anda um tecer de luz a oiro em seda!
Sonho-te ausente... ou antes recolhida,
Vejo teu ser passar pelo abandono:
Como uma sombra errante em minha Vida.
*
AO POENTE
Gosto de ver na síncope do dia
A mistura de tintas do poente,
O sangue vivo, violento e quente
Do sol, n'uma medonha hemorragia.
A claridade extingue-se na enchente
Da noite, de uma atroz melancolia,
Mas, na curva rosada inda sorria
A luz do fim da tarde no ocidente.
Pirilampos azuis, misteriosos
Saem das moitas frescas, perfumadas,
Como os astros por céus silenciosos.
E, por entre o salgueiro de uma cava,
Surgia além, das fúnebres moradas,
A cimitarra de uma lua nova.
sábado, 19 de junho de 2021
Acerca de Walmir Ayala
Na pesquisa sobre a poesia homoerótica e os poetas homossexuais da República Federativa, um nome recorrente e incontornável é o do gaúcho Walmir Ayala (1933-1991). Não conheço poeta contemporâneo que o reivindique – ou vindique. Continua uma figura que se obscurece cada vez mais desde sua morte. Certamente há um grau de homofobia nesse processo. Bastante vocal e barulhento durante a vida, foi gradualmente esquecido como figura cultural nas três décadas seguintes (são 30 anos desde sua morte). Não há justiça completa aí. Trata-se de um poeta bastante irregular, mas que deixou alguns poemas sim bastante bonitos.
A sensibilidade homossexual, tal qual Susan Sontag buscou teorizar no ensaio "Notes on camp", tem o que os modernistas chamaram de "gosto de antiquário", ainda que não da maneira como eles usavam a expressão. E o gosto CAMPista tende ainda ao exagero, ao que chamamos de espalhafatoso. Em poetas como Sosígenes Costa, Valério Pereliéchin ou Mário Faustino, essa explosão, essa centrifugacidade, acaba contida pelas formas do soneto e da balada. As métricas fixas não têm como fazer milagres com a linguagem abstrata e algo meditabúndia de Walmir Ayala. Além da sua falta de humor, sua aparente incapacidade para a autoderrisão. Mas quando ele consegue ficar ao rés-do-chão, sua poesia voa muito mais alto. Parece-me o caso de muitos dos poemas reunidos neste livro que a Patuá lançou em 2019, 'Poemas do surf', até então inédito, e que traz um ensaio fotográfico de Alair Gomes a pedido do poeta.
– Ricardo Domeneck
*
Abaixo, uma resenha de Ricardo Silvestrin para o livro.
domingo, 6 de junho de 2021
Friederike Mayröcker (Áustria, 1924-2021)
havia de ser assim
também aqui nessa terra
senhora friederike mayröcker
dos rouxinóis e dos lobos
e nessa língua adotiva
que a morte chega
com os cartões de visita
como antes na língua
da terra da língua natal
onde há quase vinte anos
também perdi a chance
de conhecer a outra outra
contemporânea tua
sob o nome dado
à pronúncia e ao prenúncio
senhora hilda hilst
das mulas e dos porcos
morrem as matriarcas
as matriarcas morrem
e eu filho de úteros
e eu filho de urros
me curvo em ação
de graças a essas mães
com o saldo de brás cubas
que nos ensinam o beabá
e também a estas mães
que nos ensinam o zeuzú
e é assim na tua língua materna
senhora friederike mayröcker
que primeiro chega a notícia
da morte no dia da tua morte
e é na minha língua materna
que começo assim começo
essa elegia quase uma ode
na tua terra onde há tempos
foste nomeada canonizada
a grande dama da língua
essa forma de em vida
dar-te menos bálsamo
do que te embalsamar
com tua flora ensandecida
a brotar da tua cabeça
com outras pirotecnias
que verdejam então flavescem
tílias ligustros plátanos aceres
teu gosto por metáforas
que crescem como crescem
naturais das plantas seus nomes
ciladas para teus tradutores
tal qual aquele wolfsmilch
num poema todo lupino
que certa vez me desmamou
sendo tanto leite-de-loba
quanto cabeça-de-medusa
qual afinal tua área de broca
sempre foi um mamífero
de dentes afiadíssimos
a amamentar uns órfãos
novos rômulos e remos
um medusário teu crânio
e nós sabemos que materna
e madrasta é toda língua
mas neste primeiro dia
da tua ausência-morte
meus olhos vão propositais
além do parapeito da janela
aquém do umbral das montanhas
meu horizonte de sarça
onde arde o oxigênio
e sopram a trombeta do sol
as andorinhas-dos-beirais
como jatos de vento fresco
em suas aéreas manobras
sua defesa anti-falconiforme
e tanto as andorinhas-dos-beirais
nas garras dos falcões-peregrinos
quanto os falcões-peregrinos
nas garras dos mochos-orelhudos
são fenômenos da natureza
e os guindastes amarelos
que ora giram como girafas
no meio da cidade de Graz
e os aviões que a sobrevoam
são fenômenos da natureza
como teus poemas faunoflorais
e a fauna de faunos em todo poema
são fenômenos da natureza
como os brotos das begônias
e os estames das tulipas
são fenômenos da natureza
como as ninhadas da codorniz
e as proles do camundongo
são fenômenos da natureza
como os gritos da criança no quintal
e ao longe as buzinas dos carros
são fenômenos da natureza
como os bolores que ora crescem
no rosto da rosa no rosto do teu rosto
são fenômenos da natureza
são naturezas do fenômeno
*
Ricardo Domeneck, Graz, Áustria, 4-6 de junho de 2021.
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