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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Meus amigos andam ocupados: postagem com poemas, canções, entrevistas e outras belezas recentes de companheiros

Postagem com algumas das belezas que aqueles que tenho a sorte de chamar de amigos ou companheiros lançaram no mundo nos últimos tempos.


Parte 1


Preparando-se para o lançamento de seu novo álbum, All Love´s Legal (Human Level Rec.) em fevereiro de 2014, a maravilhosa Jam Rostron a.k.a. Planningtorock lançou o vídeo para sua nova faixa "Human Drama", que pode ser visto na revista Dazed & Confused. Abaixo, a intro do novo álbum, "Manifesto".


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A poeta e artista visual anglo-norueguesa Hanne Lippard criou uma conta no Soundcloud, na qual começou a desaguar seus excelentes e inteligentes poemas vocais. Chamo a atenção para esta peça, "Boys". Visitem e sigam a conta toda. Vocês podem ler uma entrevista recente dela na revista aqnb.



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O duo Tetine, Eliete Mejorado e Bruno Verner, lançou dois álbuns este ano: Voodoo Dance & Other Stories (Slum Dunk, 2013) e Mother Nature & Black Semiotics (Wet Dance Recordings, 2013). Ouçam, do último, a faixa "Charlote Maluf".




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Preparando-se para lançar seu novo álbum em 2014, meu companheiro Black Cracker vem desaguando algumas canções em sua conta do Soundcloud. Ouçam essa joia, "Back".




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Annika Henderson, melhor conhecida como Anika, permitiu-me publicar dois de seus poemas e uma de suas canções na Hilda Magazine. Abaixo, a pérola que é "Margaret".



"Margaret"
Tight bitter face
scrunched into a fist
this little madam
would benefit quite a bit
from removal of the poker
and gentle rub of the clit
Just a moment of enlightenment
could have transformed
this surfaced bigot
from anally retentive
into wonderfully relaxed
in just one lick
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Lauren Flax & Lauren Dillard, o duo novaiorquino Creep, lançou seu álbum de estreia - Echoes (2013), pelo qual vínhamos esperando há tempos. Ouçam a faixa com Sia nos vocais.





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Hermione Frank, mais conhecida como rRoxymore, lançou seu EP "Precarious/Precious" pelo Human Level neste semestre. Vocês já ouviram?




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Steven Warwick, mais conhecido como Heatsick, lançou há pouco seu álbum Re-Engineering (PAN Rec., 2013), que vem sendo saudado com entusiasmo pela crítica. Vídeos recentes para "Mimosa" e "Clear Channel" podem ser vistos aqui e aqui, respectivamente. Abaixo, o vídeo para "Snakes & Ladders".



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Uli Buder, mais conhecido como Akia, com quem já colaborei em várias peças e um de meus amigos queridos, segue desaguando suas produções. Aqui, a mais recente:


  

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Luke Troynar, mais conhecido como Creatures, lançou este ano seu lindo álbum de estreia New Campaigns (Wait! What? Records, 2013). Abaixo, o vídeo ao vivo para a linda "Mirror Mirror".




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O cantautor alemão Jonas Lieder, um dos meus melhores amigos, continua desaguando suas canções lindas. A mais recente chama-se "Give up".





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Markus Nikolaus, também conhecido como Cunt Cunt Chanel, compôs essa coisa bonita há pouco tempo, "Robot Hard". E logo abaixo, o vídeo de sua apresentação em Bruxelas, na mesma noite em que Tetine e eu nos apresentamos.


Robot HardThis is me and you being somewhere / This is me and you going to change. / - Being soaked up. / Both go seperate ways, / We both break in days. / I was out here, I came here / Only for a word or three. / Now, it's missing. / This is you , this is me... / Being somewhere / But I was only out here for a word or three / Know what's missing me, oh, its missin' me. / But It Aint Hard, / No, it aint hard. / // This is me, this is you / we both gonna separate / - "Just try to be yourself" / "That's usually the road to disaster!" / But It Aint Hard, It aint hard to see / It aint complex in me. / This is you not sure what to tell me. / We both break into seperate ways. / // This is me and you being somewhere. / It's so hard to take... / But It Aint Hard It aint to see / What is happening in me. / // Just try and be yourself. / Thats usually the road to disaster for me. / // But It Ain't hard, you see. / It's happening in me. / // But It Aint Hard to see / But It Aint Hard to see /

:



Markus Nikolaus a.k.a. Cunt Cunt Chanel - ao vivo em Bruxelas


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Daniel Saldaña París lançou no México seu primeiro romance, En medio de extrañas víctimas, que vem sendo também saudado com entusiasmo pela crítica.




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Luis Felipe Fabre lançou sua nova coletânea de poemas Poemas de terror y de misterio, do qual extraí  e traduzi a série "Notas en torno a la catástrofe zombi", lançada este ano pela Lummer Editor.
  
   



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Preparando-se para lançar seu primeiro EP no ano que vem, pelo selo do clube Dora Brilliant, o produtor alemão Ludwig Roehrscheid permitiu-nos postar duas faixas na Hilda Magazine. Abaixo, uma das faixas.
   

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

PLANNINGTOROCK - 'HUMAN DRAMA'


PLANNINGTOROCK - 'HUMAN DRAMA' 

Been burning up inside day to day
Trying to find the words to explain my sexuality
It's liquid, it's living, a moving love defined by itself
There's no rules, no convention
This love can go where ever it wants

Gimme a human drama
And understand that gender's just a game
Gimme a human drama
All sexuality is not the same
Gimme a human drama
The personal is so political
Gimme a human drama
Again, again

Gimme a human drama
We break a box to find a hundred more
Gimme a human drama
There's lots to learn but so much more to unlearn
Gimme a human drama
The personal is so political
Gimme a human drama
It kinda feels like genders just a lie
Genders just a lie


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terça-feira, 3 de julho de 2012

Novo selo europeu, Human Level, abre com lançamento de Planningtorock




O novo selo europeu Human Level fará no dia 30 de julho seu primeiro lançamento, novo single de Planningtorock, o primeiro desde o lançamento explosivo do seu segundo álbum: W (DFA Records, 2011). O single, engajada e fantasticamente intitulado Patriarchy Over & Out, traz ainda uma faixa de rRoxymore, "Wheel of fortune", artista francesa que vem colaborando com Planningtorock (Janine Rostron) há alguns anos e se apresenta com ela ao vivo. O single sairá nos Estados Unidos no dia seguinte pelo selo de James Murphy, DFA. 

Planningtorock é hoje um dos nomes mais importantes da vanguarda europeia, com sua brilhante mescla de música, vídeo-arte e performance, e um trabalho marcado por uma pesquisa sobre nossas noções contemporâneas de identidade. A nova faixa é brilhante. Ouça-as aqui: HL001

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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Hoje à noite, 27/10, Planningtorock apresenta-se no encontro COMA - Conexões Exploratórias em Música e Performance Híbrida, em Belo Horizonte


Planningtorock


Eu já deixei claro inúmeras vezes aqui o quanto sou apaixonado pelo trabalho desta mulher. Dentre os artistas vivendo em Berlim, é certamente uma das que mais me fascinam e me deixam contente por compartilhar o mesmo oxigênio.

Hoje à noite começa em Belo Horizonte o encontro COMA - Conexões Exploratórias em Música e Performance Híbrida, que contará com apresentações da incrível, sim, esta Janine Rostron, mais conhecida como Planningtorock. Além dela, meus queridíssimos heróis, o duo Tetine, e outros artistas brasileiros trabalhando na fronteira entre gêneros: textualidade, música, vídeo. Mais informações na página do festival. Se você estiver em Belo Horizonte, não perca esta oportunidade. Planningtorock apresenta-se às 21:00, esta noite.



Página do festival:


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JANINE ROSTRON, mais conhecida como PLANNINGTOROCK



Planningtorock - "Doorway", do álbum W (DFA Records, 2011)

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Planningtorock - "The breaks", do álbum W (DFA Records, 2011)

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Planningtorock apresentando-se ao vivo em Berlim em 2009.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Hoje à noite, em Berlim, performances da Planningtorock e do duo Creep, no já lendário clube Berghain


Já escrevi aqui várias vezes sobre a artista multimídia britânica Janine Rostron, mais conhecida como Planningtorock. Creio também já ter escrito sobre Lauren Flax e Lauren Dillard, o duo nova-iorquino Creep. Hoje à noite, eles tocam juntos no maior e mais lendário clube berlinense da atualidade, o Berghain, local onde sempre quis ver Planningtorock, por ter talvez o melhor sistema de som da cidade. Estou exultante. A música da Planningtorock salva meus neurônios do naufrágio toda vez que a vejo em ação. E Flax e Dillard estão entre as pessoas mais deliciosas que conheci este verão. Queria que todos vocês pudessem estar aqui hoje.



Planningtorock - "The breaks", do álbum W.


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Creep (featuring Romy Madley Croft, da banda The XX) - "Days"

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sábado, 21 de maio de 2011

Uma noite de música, uma mulher no palco e as canções que nos salvam

Capa do segundo álbum da Planningtorock, intitulado simplesmente W,
que será lançado pelo selo nova-iorquino DFA, de James Murphy,
no dia 24 de maio de 2011.

Ontem fui ao show da Planningtorock no clube Astra aqui de Berlim. Tratava-se de um concerto de "aquecimento" para o maior festival da Alemanha, o Melt! Festival. Meses antes do Festival, a organização começa a trazer já algumas das bandas para apresentações em Berlim. Na noite de ontem, três concertos: da jovenzinha banda Sizarr, da maravilhosa Planningtorock (codinome da artista multimídia britânica Janine Rostron) e da banda Animal Collective.

Cheguei muito cedo, meia hora antes das portas abrirem às 20:00. Eu estava sozinho, eu e Luis Cernuda (1902 - 1963), de quem estou lendo um antologia que trouxe da Espanha. Logo apareceram vários conhecidos, como sói acontecer nestes lugares. O primeiro show, da banda Sizarr, só começou às 21:30. A banda, que surgiu no cenário no ano passado, está començando a chamar a atenção, e parece estar em todos os maiores festivais do país este verão. São meninos talentosos. Ainda não consegui me decidir sobre o que penso da voz do vocalista. Uma coisa é certa, ele é muito bonito. Vocês decidem o que pensar dos meninos:



Sizarr - "Boarding Time"


Mas eu estava ali para ver Janine Rostron, eu estava ali para ser salvo, por uma hora ao menos, por Planningtorock. Estive em show dela há pouco tempo (com ele), mas era uma apresentação para a TV, ao lado do Atari Teenage Riot, e foi tudo meio esquisito. Ali, no Clube Astra, ela faria uma apresentação de uma hora, todo o novo álbum. Quando a canção do seu segundo single começou a tocar, "The breaks", eu fui ao fundo do poço e voltei até a superfície, e cantei, e gritei:

"Ah! We break too easily / We put on the breaks / We break too easily":




Planningtorock - "The breaks", do álbum W (DFA Records, 2011)



Mas a canção que está me salvando e matando no momento é "The one":


"You are meaning a lot to me / And I don´t want to hide it"




Planningtorock - "The one", do álbum W (DFA Records, 2011). Este vídeo usa imagens do grande Kenneth Anger.


Alguns amigos ficarão bravos ao ler isso, mas eu nem fiquei para o concerto do Animal Collective. Nada bateria o que eu senti naquela 1 hora com a voz e a música da Planningtorock. Como diz a canção "Doorway", a que abre o álbum, "I know my feelings / Under my deep skin". Eu simplesmente peguei o bonde e voltei para a minha cama vazia.


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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma das melhores notícias musicais do ano: PLANNINGTOROCK anuncia novo álbum e lança na Rede a canção e vídeo "Doorway"

DOORWAY from planningtorock on Vimeo.


"Doorway", nova canção e vídeo da Planningtorock, do álbum W, anunciado para 20 de maio de 2011, pelo selo nova-iorquino DFA.


O álbum de estreia da britânica Planningtorock, codinome da artista multimídia Janine Rostron, foi lançado em 2006, com o título Have It All. Foi, para mim, uma das revelações da década. Após quase cinco anos de espera, é anunciado para 20 de maio de 2011 o lançamento de seu segundo álbum, intitulado simplesmente W, pelo selo nova-iorquino DFA, dirigido por James Murphy, sim, o LCD Soundsystem. Pelas barbas de Kate Bush, eu estou exultante!




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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Berlinenses e metecos como eu


(Lotte Lenya, esposa de Kurt Weill, cantando a famosa "Seeräuber Jenny", da Ópera dos Três Vinténs (1931), do duo Weill/Brecht, aqui em cena da adaptação cinematográfica de G.W. Pabst)

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Um dos prazeres de organizar, todas as quartas-feiras, o evento que chamamos de Berlin Hilton (ironia pop guiando mais que a escolha deste nome), e que eu às vezes gosto de chamar de my own private Cabaret Voltaire, é a oportunidade de conhecer e trabalhar com algumas das criaturas mais interessantes do Berlimbo, sejam berlinenses nativos ou metecos como eu. Berlim teve seus momentos mais interessantes do século XX quando se fez Meca para estrangeiros, em busca de sua vida nortuna e liberdade sexual, como nos anos 20, uma das eras mais liberais da história da Alemanha com a República de Weimar (1918 - 1933), quando os cabarés da cidade abrigavam Kurt Weill, os poetas dadaístas de Berlim, como Raoul Hausmann, e ainda poetas como Bertolt Brecht, críticos como Walter Benjamin ou estrangeiros como W.H. Auden e Christopher Isherwood.


Obviamente, a vida pós-Grande Guerra não era nada fácil, como podemos ler em livros como Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, ou em filmes como O ovo da serpente (1977), de Ingmar Bergman.

Outro momento semelhante ocorreria na década de 70, com o movimento punk-industrial, trazendo à cidade estrangeiros como David Bowie ou Iggy Pop, onde lançariam, respectivamente, os antológicos Low e Lust for life, ambos em 1977. Sem estar na cidade, Lou Reed lança a ópera-rock Berlin (1973), considerado, ao lado de Transformer (1972), um de seus melhores álbuns. Foi também, é claro, a década da Facção do Exército Vermelho, da conversão de uma escritora e jornalista pacifista como Ulrike Meinhof em uma das líderes do grupo terrorista, tempo dos filmes de Alexander Kluge e Rainer Werner Fassbinder. Um filme perfeito para compreender a Berlim e a Alemanha de então é justamente o filme coletivo Deutschland im Herbst (Alemanha no outono), de 1978, do qual participam tanto Fassbinder como Kluge.

Muitos crêem que a queda do Muro de Berlim trouxe um momento parecido, e realmente a década de 90 assemelhou-se em muitos aspectos à efervescência da década de 20 e 70, com uma explosão de clubes e o surgimento de toda a cena de música eletrônica que ainda domina a cidade. Ainda sendo uma das capitais mais baratas da Europa, a cidade passou a atrair novamente artistas estrangeiros. Muitos dos artistas visuais contemporâneos de maior renome vivem na cidade. A cena musical geraria, entre os alemães, nomes como Sasha Ring, também conhecido como Apparat, Ellen Allien, Modeselektor e outros.

(O gigantesco, imprescindível Walter Benjamin)


Entre os estrangeiros, muitos se estabeleceram na cidade, como Janine Rostron, também conhecida como Planningtorock, Jamie Lidell, Olof Dreier do duo The Knife, assim como toda uma série de artistas interessantíssimos, ainda que menos conhecidos, como Kevin Blechdom e Angie Reed.

A cidade tornou-se o centro poético do país, reunindo em bairros dos antigos Oeste e Leste alguns dos poetas jovens competentes da língua, como Monika Rinck, Daniel Falb ou Ann Cotten, assim como alguns dos enfants terribles do país, como o diretor de teatro René Pollesch ou o artista visual Jonathan Meese.

Nos quase cinco anos em que organizamos a Berlin Hilton, já tive a oportunidade de convidar algumas de minhas criaturas favoritas, incluindo três mulheres que respeito muito, três de minhas divas favoritas do Berlimbo: Kevin Blechdom (que já deixou a cidade, retornando à sua San Francisco natal), Angie Reed e Janine Rostron a.k.a. Planningtorock.

Entre os metecos de Berlim, Janine Rostron é o que mais me impressiona, uma artista interessantíssima, com um trabalho musical e visual excelente. Ela apresentou-se na Berlin Hilton no dia 4 de julho de 2007, mas infelizmente não tenho um vídeo de sua performance. Mostro abaixo sua performance na Casa das Culturas do Mundo (Haus der Kulturen der Welt), em abril deste ano.


(Janine Rostron a.k.a. Planningtorock, performance em Berlim, 2009)

Kevin Blechdom e Angie Reed apresentaram-se na Berlin Hilton em junho e novembro de 2006, respectivamente. A noite com Kevin Blechdom foi muito bonita, alugamos um piano e ela convidou o francês Mocky como baterista, algo incomum.


(Kevin Blechdom @ Berlin Hilton, 2006)

Angie Reed apresentou sua música divertidíssima, com letras inteligentes e sua presença maravilhosa no palco.


(Angie Reed @ Berlin Hilton, 2006)

Chegou o outono, com o frio insuportável de Berlim, e por esta época sempre me confronto com minha condição de meteco, pensando também em meus companheiros de condição. Tenho dois poemas em que trabalho em parte com a ideia do "poeta exilado", um deles escrito em meu primeiro ano em Berlim ("Sempre o exílio"), quando minha situação no país não era exatamente muito legal, e o outro escrito alguns anos mais tarde, quando já me sentia em casa e à vontade em minha condição de meteco. "Sempre o exílio" foi publicado em Carta aos anfíbios (2005) e "Cão são da ex-ilha" está no meu próximo livro, Sons: Arranjo: Garganta (no prelo).

Sempre o exílio

a Roberto Borges

a.

surpreso a quanta terra
não me pertence, que
engraçado descobrir (mais
uma vez) que trocar de país
não significa trocar de corpo
e a mudança
de língua
é acompanhada pela permanência
da produção da
mesma saliva.

b.

esta ilegalidade do meu corpo
desaloja-me a comida no
estômago
que permanece em ângulo
suspeito, a boca
arqueia-se, tesa –
e o barbante frouxo dos braços
a nenhum peito estreita-me,
esta pele estrangeira,
este cheiro novo.

c.

a certeza finalmente
de que a mão é incapaz
da linha reta,
os ouvidos mais atentos,
as pontas dos dedos
mais ativas, despertas,
os ombros caídos, menos
por cansaço que por pesos
acumulados ao longo
de outros sonos;
quando as noções
de segurança
e cidadania
desaparecem e resta-nos
a condição.

(Carta aos anfíbios, 2005)


§

Cão são da ex-ilha

a Carlito Azevedo

o desgosto de cada
passo confirmar o mapa
e o diafragma contraído
entende o queixo
no joelho,
meio-dia e meia
o centro da certeza
que caminha do “quero“
ao “não-quero“,
palha, fênix, Joana
d’Arc, como perceber
que abismo e precipício
não
são sinônimos
exatos,
ou acordar no meio da
noite sem energia
elétrica
e sussurrar com a calma
do fim da força:
equivalendo
silêncio e escuridão,
real
apenas a escolha
da língua, entre-
tanto a
memória
das possibilidades
morre
para que o fato
entre inassistido
nas atas
do verídico;
saiu o sol,
deve estar tudo
bem; subiu a lua,
deve estar tudo
bem;
trocar de pele
continuamente
talvez
leve-me ao centro
e a ausência
me escame
como quem diz
“eu sinto
a falta”

(Sons: Arranjo: Garganta, no prelo)

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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Hoje à noite, no Berlimbo, uma de minhas musas: Janine Rostron aka Planningtorock




A artista Janine Rostron apresenta-se como Planningtorock, hoje à noite, após meses à surdina, produzindo seu segundo álbum. Não perderia a chance de ver uma das criaturas mais interessantes e deliciosas do Berlimbo, uma das minhas favoritas. Tê-la como convidada para uma performance na Berlin Hilton, na noite do meu aniversário, em 2007, foi um dos punti luminosi de minha carreira como curador daquela pocilga.



Ela se apresenta hoje no Festival Pictoplasma, que está ocorrendo na Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo). O moço e eu já compramos os ingressos.

Suas performances estão entre as coisas mais eletrizantes que já presenciei.




Eu sou um viciado em vocais femininos. Para mim, nada melhor que mulheres fazendo música.
Billie Holiday, Kate Bush, Patti Smith, Cat Power, Planningtorock.

Se vocês não conhecem Planningtorock, meus queridos, aqui vai a deliciosa:











sexta-feira, 10 de abril de 2009

Berlin, Berlim

Desde o início do século XX, Berlim tem sido porto para os navegantes em busca de certas possibilidades, certas liberdades e libertinagens. O período da República de Weimar (1919 - 1933), quando o povo que habita este território, hoje conhecido como Alemanha, gozou de algumas das maiores liberdades civis de sua história e também das graves consequências da Primeria Grande Guerra, apenas para ver tudo mergulhar no caos da ascensão nazista ao poder, viu a cidade abrigar alguns dos artistas mais interessantes dos primeiros modernismos. Berlim sediou o grupo mais politizado dentre os dadaístas germânicos, com Raoul Hausmann, Richard Huelsenbeck e Hannah Höch à frente.

(colagem de Hannah Höch)

Na verdade, cada um dos movimentos de vanguarda que surgiram em língua alemã ou residiram em Berlim acabaram tendo aqui sua forma mais combativa e politizada, seja o expressionismo (basta pensar nas telas de Otto Dix e George Grosz),

(pintura de Otto Dix)

DADA (poemas de Hausmann, colagens de Höch), Fluxus (ou sua versão através do trabalho de Joseph Beuys), Pop Art ou o Punk, sem mencionar o “Kapitalistischen Realismus” (Realismo Capitalista) de Sigmar Polke, Gerhard Richter e Konrad Lueg. Os alemães são obcecados com suas versões da tal de realidade.

(ilustração de Sigmar Polke)

Esta obsessão realista pode ser claramente sentida na tradição fotográfica alemã, com August Sander, Bernd & Hilla Becher ou, nos dias de hoje, com Wolfgang Tillmans e Heinz Peter Knes.

(fotografia de August Sander)

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(fotografia de Bernd & Hilla Becher)

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(fotografia de Wolfgang Tillmans)

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(fotografia de Heinz Peter Knes)


A década de 20 viu ainda alemães como Walter Benjamin e Bertold Brecht caminhando pelas ruas da cidade, mas também atraiu muitos estrangeiros, como o poeta W.H. Auden ou o romancista Christopher Isherwood, em busca da famosa liberdade sexual e vida noturna berlinenses. Esta época encontra expressão famosa no romance Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, mais tarde filmado por Rainer Werner Fassbinder.

§

Sobre o pobre B.B.



1

Eu, Bertolt Brecht, vim das florestas negras.
Minha mãe trouxe-me, no abrigo
de seu ventre, às cidades. E, enquanto eu viver,
o frio das florestas estará comigo.

2

Na cidade de asfalto estou em casa.
Recebi cada extrema-unção logo, a saber:
jornais, álcool, tabaco. Cheio
de suspeitas, preguiça e, afinal, de prazer.

3

Eu sou cordial com todos. Ponho
um chapéu-coco, pois isto é normal.
Eu digo: que animais de cheiro estranho.
E digo: tudo bem, eu sou igual.

4

Eis que em minhas cadeiras vagas, de manhã,
uma mulher ou outra se balança.
Olho-a sem pressa e digo-lhe: dispões
em mim de alguém que não merece confiança.

5

À noite eu me reúno com os homens.
Tratamo-nos de gentlemen. O bando,
com pés na minha mesa, diz que tudo
vai melhorar. E eu nem pergunto: quando?

6

À luz da aurora gris pinheiros mijam
e os pássaros, seus vermes, abrem o alarido.
É quando, na cidade, esvazio o meu copo,
jogo fora o charuto e me recolho aflito.

7

Nós, geração leviana, vivemos em casas
supostamente eternas. (Desse modo, além
de altos caixotes em Manhattan, construímos
junto do Atlântico as antenas que o entretêm.)

8

Restará das cidades quem as cruza: o vento.
A casa alegra o comensal que a dilapida.
Sabemos bem que somos provisórios.
Nem vou falar do que virá logo em seguida.

9

Manter, sem mágoa, nos futuros terremotos,
o meu Virgínia aceso — já me satisfaz.
Eu, Bertolt Brecht, que, das florestas às cidades,
vim no ventre materno, anos atrás.


(Bertolt Brecht em tradução de Nelson Ascher, publicada em Poesia Alheia)

§

Durante o período do muro, a parte ocidental de Berlim voltaria a ser porto para os que buscavam escapar do serviço militar alemão e, com a condição-de-ilha da parte ocidental, o pouco policiamento e aluguéis baratos, artistas alemães e estrangeiros voltaram a ocupar a cidade. Foi aqui, na década de 70, que David Bowie e Iggy Pop produziram algumas de suas grandes canções. Aqui, o Punk, a New Wave e o rock industrial encontraram sua combativa maneira alemã, com grupos como o Tödliche Doris (com Wolfgang Müller à frente), o Malaria! (de Gudrun Gut) ou o Einstürzende Neubauten (de Blixa Bargeld).


(Malaria! - "Geld/Money")

Com a morte de Bertolt Brecht, o teatro Berliner Ensemble (um de meus prédios favoritos em Berlim, gosto de ir escrever na praça diante do teatro, com o rio Spree às costas e a estátua de Brecht à frente) passa a ser comandado por Heiner Müller, uma grande referência literária para o meu trabalho, com seus textos inclassificáveis, como Der Auftrag (A Missão) (1979) e Die Hamletmaschine (1977). Ou aquele que é um de meus textos favoritos em língua alemã: o estupendo salve-salve poema/peça "Medeamaterial". No pós-guerra, criaturas como Rainer Werner Fassbinder, Joseph Beuys e Heiner Müller mantiveram Berlim e a Alemanha no mapa do mundo. Estes três estão entre minhas maiores referências est-É-ticas.


(trecho do filme "I was Hamlet", sobre Heiner Müller)


(Joseph Beuys)


(Rainer Werner Fassbinder)

A Alemanha e sua língua não têm uma presença tão aparente ou óbvia na cultura brasileira, a não ser no teatro, onde Bertolt Brecht ainda impera como incontornável. A relação dos alemães com Brecht é muitíssimo mais complicada.

Os brasileiros sempre se voltaram para os franceses. Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Heitor Villa-Lobos e outros primeiros modernistas gostavam de perambular por Paris, como a maioria dos primeiros modernistas de qualquer país ocidental, de César Vallejo a T.S. Eliot, passando por Vladimir Maiakóvski. Nos últimos tempos, de forma muitas vezes quase subserviente e pouco crítica, os poetas brasileiros voltaram-se para os estadunidenses. Nova Iorque é logo ali e a Barra da Tijuca fica em Miami.

Poeta brasileiro vivendo no estrangeiro é coisa corriqueira. Não inaugurei atividade qualquer. Além dos já mencionados brasil-parisienses, houve a longa morada de Murilo Mendes em Roma, João Cabral de Melo Neto em Sevilha e Barcelona, assim como Clarice Lispector e João Guimarães Rosa muito perambularam, escrevendo vários trabalhos no exterior. Hoje em dia, há os casos de Zuca Sardan e a vagamundos Angélica Freitas.

Viver em outro país, mas principalmente em outra língua, traz características novas para o trabalho de um artista da linguagem. Por exemplo, uma visão saudavelmente "artificialista" para a "língua materna", salvando-o da falácia do natural. O exílio não é uma condição a ser lamentada ou celebrada, mas usufruída e aprendida. Jamais escrevi ou escreveria uma nova "Canção do exílio", mas com meu pendor por gender trouble, escrevi minha "Cão são da ex-ilha".

§

Cão são da ex-ilha

o desgosto de cada
passo confirmar o mapa
e o diafragma contraído
entende o queixo
no joelho,
meio-dia e meia
o centro da certeza
que caminha do “quero“
ao “não-quero“,
palha, fênix, Joana
d’Arc, como perceber
que abismo e precipício
não
são sinônimos
exatos,
ou acordar no meio da
noite sem energia
elétrica
e sussurrar com a calma
do fim da força:
equivalendo
silêncio e escuridão,
real
apenas a escolha
da língua, entre-
tanto a
memória
das possibilidades
morre
para que o fato
entre inassistido
nas atas
do verídico;
saiu o sol,
deve estar tudo
bem; subiu a lua,
deve estar tudo
bem;
trocar de pele
continuamente
talvez
leve-me ao centro
e a ausência
me escame
como quem diz
“eu sinto
a falta”


(Sons: Arranjo: Garganta, no prelo)

§

Considero Berlim um ângulo privilegiado para contemplar o mundo e, em especial, o ocidente. São Paulo e Berlim são minhas cidades de escolha, as que impregnam meu trabalho. Não consigo me identificar com abstraçoes gigantescas como países, prefiro a concretude das cidades. Sou um poeta de São Paulo e de Berlim. Cada poeta é poeta de sua cidade. Manuel Bandeira foi poeta do Recife e do Rio de Janeiro. Oswald de Andrade foi poeta de São Paulo, como o é Augusto de Campos. João Cabral de Melo Neto com Recife e Sevilha. "A cidade sou eu / sou eu a cidade / meu amor", escreveu Carlos Drummond de Andrade, o itabirano carioca.

Com a queda do muro, Berlim voltou a reunir alguns dos artistas estrangeiros mais interessantes. Janine Rostron, a Planningtorock, mora aqui, assim como Olof Dreijer.


(Janine Rostron a.k.a. Planningtorock - "Changes")

Alguns dos poetas alemães contemporâneos mais interessantes vivem hoje em Berlim, como Monika Rinck e Daniel Falb ou Sabine Scho, que divide seu tempo entre Berlim e São Paulo.

Ler parágrafos biográficos sobre artistas visuais contemporâneos invariavelmente leva-nos a ler a frase "So-and-so lives and works in Berlin." Na nossa Berlin Hilton, o evento semanal que organizo por aqui, tiro proveito desta situação privilegiada, convidando alguns dos artistas sonoros que mais me interessam.

Esta semana, foi o caso do artista sonoro francês Jackson Fourgeaud, que se apresenta como Jackson and His Computer Band. Seu álbum de estréia, chamado Smash (2005) e lançado pelo selo Warp, foi um dos mais celebrados da década aqui na Zooropa. Gosto muitíssimo de seu trabalho e considero-me sortudo por compartilhar oxigênio e roçar ombros com ele aqui no Berlimbo.




§


(Jackson and His Computer Band - "Utopia")

quarta-feira, 11 de março de 2009

Hoje à noite: parte 2


Hoje à noite comemoramos o quarto ano de existência do nosso evento semanal BERLIN HILTON, que iniciou suas atividades em fevereiro de 2005. Foram quatro anos em que tivemos a honra e o prazer de apresentar performances ou DJ sets de alguns de nossos heróis pessoais, como Planningtorock, Le Tigre, Tetine, Apparat, T.Raumschmiere, Kevin Blechdom, Stereo Total, Angie Reed, Mount Sims, CocoRosie, Cantankerous ou Hellvar, entre outros,

assim como mostrar o trabalho de novos artistas, como Barbara Panther, ou novos projetos de pessoas como Florian Puehs, hoje vocalista da banda Herpes.

Quatro anos do coletivo que surgiu em torno desta intervenção semanal, com meus colegas Viktor Neumann e Oliver Krueger aka OL!, além de todos os que colaboram conosco, como Niklas Goldbach, Philipp Sapp aka K.Jell, André Scheffler aka DJ Andre Lange, Jonas Lieder aka Shrivel, Daniel Reuter, Stefan Davids aka Alpha-Nerd, entre outros.

Para a festança de hoje, convidamos os meninos do Lo-Fi-Fnk, de Estocolmo, uma escolha perfeita para uma festa de aniversário, ora.



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