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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Jonas Lieder - "Turn around" (2014)

Jonas Lieder - "Turn around" (2014)

Meu querido. Meu querido. Leia e ouça outras coisas aqui.


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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Jovens poetas europeus: Jonas Lieder


Jonas Lieder é um escritor, poeta e músico alemão, nascido em Frankfurt am Main em 1983. Formado em matemática, o autor é também diretor de arte da agência de publicidade Ballhaus West em Berlim. Seu trabalho textual inclui o visual e a experimentação marcada pela paronomásia, que nos remetem ao trabalho dos poetas concretos da década de 50, vários deles tendo mais tarde trabalhado no campo da comunicação social, e ainda uma ligação à tradição trovadoresca da poesia europeia, como nestes poemas líricos abaixo. Neles, vemos como as técnicas do trobar leu de um Martim Codax ou Dom Dinis sobrevivem no mundo de hoje, fazendo da poesia a forma de arte ainda mais popular nesse nosso mundo.


POEMAS DE JONAS LIEDER
   

feathered
Jonas Lieder

oh, this time let me tell you what i think
there’s a line on the brink.
beyond the brink there is a garden with a tree
and in this tree there is a me.

and i fly, it’s absolutely sure i wing it this time
and i fly, it’s absolutely sure i wing it this time

oh this pine majestically a full-grown tree
it asks for me
beyond the tree beyond the garden and the me
this is where i want to be

and i fly, it’s absolutely sure i wing it this time
and i fly, it’s absolutely sure i wing it this time

:

emplumado

ah, dessa vez deixa-me dizer o que imagino
há uma linha no precipício
além do precipício há uma árvore no jardim
e nessa árvore há-me a mim

e voo, é absolutamente certo que ouso asas no interim
e voo, é absolutamente certo que ouso asas no interim

ah majestosamente adulto em copa um buriti
pede por mim
além da árvore além do jardim e de mim
eu quero é estar aí

e voo, é absolutamente certo que alço asas no interim
e voo, é absolutamente certo que alço asas no interim

(tradução de Ricardo Domeneck)


§




bubbles
Jonas Lieder

on the very ground
of the pool in the yard
with the boys and the drinks
there is you
not breathing at all.
are you not breathing at all?

on the very ground
of the pool in the yard
with the girls and the drugs 
there is you
not breathing at all. 
are you not breathing at all?

and the bubbles bubble up now, bubble up now, bubble up.

on the very ground
of the pool in the yard
with the do’s and the don’t’s
there is you
not breathing at all. 
are you not breathing at all?

and the bubbles bubble up now, bubble up now, bubble up.
and the bubbles bubble up now, bubble up now, bubble up.
and you see them climb higher, higher, right up to the surface
where they turn into thin air.

on the very ground
of the pool in the yard
with the boys and the girls
and the drinks and the drugs
and the do’s and the don’t’s
there is you
not breathing at all.
not breathing at all.
not breathing at all.

:

bolhas

bem ali no chão
da piscina no quintal
com os meninos e as bebidas
há você
todo sem respirar.
você está mesmo todo sem respirar?

bem ali no chão
da piscina no quintal
com as meninas e as drogas
há você
todo sem respirar
você está mesmo todo sem respirar?

e as bolhas borbulham agora, borbulham agora, borbulham

bem ali no chão
da piscina no quintal
com os sins e os nãos
há você
todo sem respirar.
você está mesmo todo sem respirar?

e as bolhas borbulham agora, borbulham agora, borbulham
e as bolhas borbulham agora, borbulham agora, borbulham
e você as vê subirem, subirem, lá no alto da superfície
onde elas se tornam só ar solto

bem ali no chão
da piscina no quintal
com os meninos e as meninas
e as drogas e as bebidas
e os sins e os nãos
há você
todo sem respirar
todo sem respirar
todo sem respirar

(tradução de Ricardo Domeneck)

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sábado, 21 de dezembro de 2013

Akia feat. Jonas Lieder - "Old Man" (colaboração entre dois dos meus melhores amigos)

Uli Buder                                                    Jonas Lieder


Duas das pessoas mais próximas que tenho em Berlim colaboraram nesta coisa bonita: o produtor Uli Buder (Hoyerswerda, 1986), mais conhecido como Akia, e o cantautor Jonas Lieder (Frankfurt am Main, 1983). Compartilho com vocês.
 
Akia feat. Jonas Lieder - "Old Man" (2013)

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Meus amigos andam ocupados: postagem com poemas, canções, entrevistas e outras belezas recentes de companheiros

Postagem com algumas das belezas que aqueles que tenho a sorte de chamar de amigos ou companheiros lançaram no mundo nos últimos tempos.


Parte 1


Preparando-se para o lançamento de seu novo álbum, All Love´s Legal (Human Level Rec.) em fevereiro de 2014, a maravilhosa Jam Rostron a.k.a. Planningtorock lançou o vídeo para sua nova faixa "Human Drama", que pode ser visto na revista Dazed & Confused. Abaixo, a intro do novo álbum, "Manifesto".


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A poeta e artista visual anglo-norueguesa Hanne Lippard criou uma conta no Soundcloud, na qual começou a desaguar seus excelentes e inteligentes poemas vocais. Chamo a atenção para esta peça, "Boys". Visitem e sigam a conta toda. Vocês podem ler uma entrevista recente dela na revista aqnb.



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O duo Tetine, Eliete Mejorado e Bruno Verner, lançou dois álbuns este ano: Voodoo Dance & Other Stories (Slum Dunk, 2013) e Mother Nature & Black Semiotics (Wet Dance Recordings, 2013). Ouçam, do último, a faixa "Charlote Maluf".




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Preparando-se para lançar seu novo álbum em 2014, meu companheiro Black Cracker vem desaguando algumas canções em sua conta do Soundcloud. Ouçam essa joia, "Back".




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Annika Henderson, melhor conhecida como Anika, permitiu-me publicar dois de seus poemas e uma de suas canções na Hilda Magazine. Abaixo, a pérola que é "Margaret".



"Margaret"
Tight bitter face
scrunched into a fist
this little madam
would benefit quite a bit
from removal of the poker
and gentle rub of the clit
Just a moment of enlightenment
could have transformed
this surfaced bigot
from anally retentive
into wonderfully relaxed
in just one lick
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Lauren Flax & Lauren Dillard, o duo novaiorquino Creep, lançou seu álbum de estreia - Echoes (2013), pelo qual vínhamos esperando há tempos. Ouçam a faixa com Sia nos vocais.





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Hermione Frank, mais conhecida como rRoxymore, lançou seu EP "Precarious/Precious" pelo Human Level neste semestre. Vocês já ouviram?




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Steven Warwick, mais conhecido como Heatsick, lançou há pouco seu álbum Re-Engineering (PAN Rec., 2013), que vem sendo saudado com entusiasmo pela crítica. Vídeos recentes para "Mimosa" e "Clear Channel" podem ser vistos aqui e aqui, respectivamente. Abaixo, o vídeo para "Snakes & Ladders".



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Uli Buder, mais conhecido como Akia, com quem já colaborei em várias peças e um de meus amigos queridos, segue desaguando suas produções. Aqui, a mais recente:


  

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Luke Troynar, mais conhecido como Creatures, lançou este ano seu lindo álbum de estreia New Campaigns (Wait! What? Records, 2013). Abaixo, o vídeo ao vivo para a linda "Mirror Mirror".




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O cantautor alemão Jonas Lieder, um dos meus melhores amigos, continua desaguando suas canções lindas. A mais recente chama-se "Give up".





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Markus Nikolaus, também conhecido como Cunt Cunt Chanel, compôs essa coisa bonita há pouco tempo, "Robot Hard". E logo abaixo, o vídeo de sua apresentação em Bruxelas, na mesma noite em que Tetine e eu nos apresentamos.


Robot HardThis is me and you being somewhere / This is me and you going to change. / - Being soaked up. / Both go seperate ways, / We both break in days. / I was out here, I came here / Only for a word or three. / Now, it's missing. / This is you , this is me... / Being somewhere / But I was only out here for a word or three / Know what's missing me, oh, its missin' me. / But It Aint Hard, / No, it aint hard. / // This is me, this is you / we both gonna separate / - "Just try to be yourself" / "That's usually the road to disaster!" / But It Aint Hard, It aint hard to see / It aint complex in me. / This is you not sure what to tell me. / We both break into seperate ways. / // This is me and you being somewhere. / It's so hard to take... / But It Aint Hard It aint to see / What is happening in me. / // Just try and be yourself. / Thats usually the road to disaster for me. / // But It Ain't hard, you see. / It's happening in me. / // But It Aint Hard to see / But It Aint Hard to see /

:



Markus Nikolaus a.k.a. Cunt Cunt Chanel - ao vivo em Bruxelas


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Daniel Saldaña París lançou no México seu primeiro romance, En medio de extrañas víctimas, que vem sendo também saudado com entusiasmo pela crítica.




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Luis Felipe Fabre lançou sua nova coletânea de poemas Poemas de terror y de misterio, do qual extraí  e traduzi a série "Notas en torno a la catástrofe zombi", lançada este ano pela Lummer Editor.
  
   



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Preparando-se para lançar seu primeiro EP no ano que vem, pelo selo do clube Dora Brilliant, o produtor alemão Ludwig Roehrscheid permitiu-nos postar duas faixas na Hilda Magazine. Abaixo, uma das faixas.
   

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sábado, 7 de dezembro de 2013

Três canções de Jonas Lieder



Conheci Jonas em 2006, ano durante o qual nutri uma queda-abismo por ele. Hoje, damos ambos graças aos céus por jamais termos namorado, já que podemos agora usufruir de uma das amizades mais fortes e marcantes que eu pessoalmente conto em minha vida. De monstrengos com quem já troquei fluidos corporais já está cheia minha sitcom.

Jonas é daquelas pessoas com quem jamais preciso medir palavras, para quem posso me mostrar em toda a minha escuridão e rutilância. Abaixo, compartilho três canções recentes do meu amigo Jonas Lieder, encerrando com uma composição que ele me dedicou após uma de nossas conversas assustadoras. Ao final de tudo, dois poemas escritos após conversas com ele.














Fazendo reservas para a pança da baleia
ou Poema para Jonas

Amontoar escombros
sobre escombros
e então dispersá-los
sob meus saltos altos.
Imputando talvez
aos gregos e às novelas
a culpa por este meu gosto
pelo glamour das tragédias,
esta queda literal,
como quem espera
desenovelar a trama
da intriga e trazer o último
ato à nossa peça.
A ansiedade legítima
do último episódio.
Esqueci-me, querido,
de assinar o contrato
para o papel de protagonista
nesta comédia, sem chance
agora de um final
feliz em tecnicolor,
se nem catas troféus
ou mísero Oscar
de efeitos especiais.
Como figurantes
em nossos próprios épicos,
sabemos que a morte
chega
a todas as personagens.
Só exijo ser tão provável
quanto necessário,
registrar as últimas palavras
de qualquer um antes
do grande sono,
mesmo se de um segundo,
ou depois dos hematomas
de prazeres
desconhecidos com desconhecidos.
O que é causalidade
senão beber água
quando com sede
ou a confusão de pronomes
diante do espelho?
Mostro
à mosca
a saída
do Chianti.
Lição de contentamento
no contexto alheio,
calma no próprio carma,
estou chucro e feliz
como se respondesse
em chinês
a perguntas em islandês, não
mais esta mula
colérica lambendo
teus olhos de Cassandra,
de peste mista.
Desconheço alienígena
que se aninhe
em meu peito,
hóspede
ou hospedeiro.
E se evadíssemos,
Jonas? As entranhas
desta baleia
entediam-me.
Ou, que tal se roubássemos
automóveis e cruzando fronteiras
e alfândegas
do Oriente ao Ocidente
nos tornássemos
metecos
em qualquer centro?
Não há, por fim, elixir
contra exílios,
a não ser nos delírios
de cidadania, esta coisa
que ao fim sabemos
que não existe
a quem a Eros se exibe.


(a Jonas Lieder)

§
 
Poema
Enfim aurora-me na cachola,
Jonas das férias em baleias,
por que os deuses desaprovam
o incesto, esse advertisement
ou entertainment em família,
tal reciclagem ad aeternitatem
ou sexo homogêneo à margem
(e sua homenagem a soi-même)
como o cúmulo da economia.
Leis de veto a fellatio in toilets
e virilha em público, ilegíveis,
como Coca-Cola, cocaína & Co.
ou outros substantivos ilegais
para nossa literatura ou lírica.
Teu Ricardo sabe que o peixe
morre pela fome, boca em pênis
de moçoilos é o anzol de sempre
e eis que pé no rabo eu vos nego.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Seguirei sendo nota de pontapé
no apêndice de vossos cérebros
ou até que me canse, escravo
paciente e devoto, das horas-
-extras de chicote e chacota
sobre vossas gretas garbosas.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Algumas coisas que aconteceram no dia 20 de dezembro de 2012

Algumas coisas que aconteceram no dia 
20 de dezembro de 2012.

1- Friederike Mayröcker, para muitos a maior poeta viva da língua alemã, completou 88 anos.

Friederike Mayröcker


Não sei se foi um dia feliz, já que ela vive só desde que o amor de sua vida, o poeta Ernst Jandl, morreu no ano 2000. Mas eu espero que tenha sido um dia feliz, com alguns amigos ao seu redor. Eu amo o trabalho dela e espero poder conhecê-la antes que um de nós parta.


Às vezes por quaisquer movimentos
acidentais
roça minha mão sua mão o dorso de sua mão
ou meu corpo enfiado em roupas encosta-se quase sem saber
um piscar-de-olhos em seu corpo de roupa
estes minúsculos movimentos quase vegetais
seu olhar de ângulos e suas pupilas de propósito
vagam no vazio
sua pergunta logo de início interrompida aonde você
viaja no verão
o que você está lendo
atravessam-me o peito em cheio
e através da garganta como uma doce faca
e eu resseco por completo como um poço num verão escaldante

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Manchmal bei irgendwelchen zufälligen 
bewegungen 
streift meine Hand deine Hand deinen Handrücken
oder mein Körper der in Kleidern steckt lehnt fast ohne es zu wissen
einen Augenblick gegen deinen Körper in Kleidern
diese kleinsten beinahe pflanzlichen Bewegungen
dein abgewinkelter Blick und dein Auge absichtlich ins Leere
wandernd
deine im Ansatz noch unterbrochene Frage wohin fährst du im Sommer
was liest du gerade
gehen mir mitten durchs Herz
und durch die Kehle hindurch wie ein süszes Messer
und ich trockne aus wie ein Brunnen in einem heiszen Sommer


§

2 - Eu tomei café da manhã com meu amigo Black Cracker, e planejamos algumas coisas para 2013, como uma leitura conjunta em fevereiro e colaborações sonoras.



Black Cracker

§

3 - Por causa do auê sobre o calendário maia, eu fui pesquisar a poesia deste povo e descobri o Livro dos Cantares de Dzitbalché, atribuído a um poeta chamado Ah Bam. Como escrevi na Modo, "Ah Bam é o nome do poeta a quem são atribuídos os Cantares de Dzitbalché, livro descoberto na Vila de Dzitbalché em 1942, e pertencente à cultura maia da região de Puuc e mais especificamente do cacicado de Ah Canul, jurisdição maia que floresceu nos séculos XV e XVI. O próprio livro refere-se ao ano de 1440, e acredita-se que este fora o ano de sua composição. Foi publicado pela primeira vez em 1965, por Barrera Vásquez (1900 - 1980). É a maior compilação de poemas líricos dos maias."

Com base nas traduções de John Curl e do próprio Barrera Vásquez, tentei uma interpretação do pequenino "Bin in tz'uutz' a chi", ou "Eu beijarei tua boca". Os tradutores seguem caminhos distintos. John Curl não respeita a repetição no último verso, "Y an y an a u ahal", que Barrera Vásquez traduziu com o imperativo do verbo "ter". Imagino que Curl quisesse manter algo da métrica. O que Curl traduziu como "shimmering beauty" aparece como "belleza blanca" em Vásquez. Imagino que a cor aqui seja apresentada como efeito físico de percepção da luz, permitindo a John Curl a escolha de "shimmering". Fiz minhas opções a partir das duas traduções. Traduções para o inglês de poemas mais longos, feitas por John Curl, podem ser lidas no link logo após os poemas.


"Eu beijarei tua boca"

Eu beijarei a tua boca
por entre a milpa.
Beleza que cega,
tens, tens que acordar.

:

"Bin in tz'uutz' a chi"

Bin in tz'uutz' a chi
Tut yam x cohl
X ciichpam zac
Y an y an a u ahal

:

"I will kiss your mouth"

I will kiss your mouth
between the plants of the milpa.
Shimmering beauty,
you have to hurry.

(tradução de John Curl)

:

"Besaré tu boca"

Besaré tu boca
entre las plantas de la milpa.
Belleza blanca,
tienes, tienes que despertar.

(tradução de Barrera Vásquez)

/

LEIA OUTRAS TRADUÇÕES PARA O INGLÊS, POR JOHN CURL.

§

4 - Eu jantei com aquele que tenho a sorte de chamar de meu melhor amigo, o sr. Jonas Lieder. Reposto aqui um poema que escrevi e dediquei a ele.

Jonas Lieder


Fazendo reservas para a pança da baleia
ou Poema para Jonas

                    (a Jonas Lieder)

Amontoar escombros
sobre escombros
e então dispersá-los
sob meus saltos altos.
Imputando talvez
aos gregos e às novelas
a culpa por este meu gosto
pelo glamour das tragédias,
esta queda literal,
como quem espera
desenovelar a trama
da intriga e trazer o último
ato à nossa peça.
A ansiedade legítima
do último episódio.
Esqueci-me, querido,
de assinar o contrato
para o papel de protagonista
nesta comédia, sem chance
agora de um final
feliz em tecnicolor,
se nem catas troféus
ou mísero Oscar
de efeitos especiais.
Como figurantes
em nossos próprios épicos,
sabemos que a morte
chega
a todas as personagens.
Só exijo ser tão provável
quanto necessário,
registrar as últimas palavras
de qualquer um antes
do grande sono,
mesmo se de um segundo,
ou depois dos hematomas
de prazeres
desconhecidos com desconhecidos.
O que é causalidade
senão beber água
quando com sede
ou a confusão de pronomes
diante do espelho?
Mostro
à mosca
a saída
do Chianti.
Lição de contentamento
no contexto alheio,
calma no próprio carma,
estou chucro e feliz
como se respondesse
em chinês
a perguntas em islandês, não
mais esta mula
colérica lambendo
teus olhos de Cassandra,
de peste mista.
Desconheço alienígena
que se aninhe
em meu peito,
hóspede
ou hospedeiro.
E se evadíssemos,
Jonas? As entranhas
desta baleia
entediam-me.
Ou, que tal se roubássemos
automóveis e cruzando fronteiras
e alfândegas
do Oriente ao Ocidente
nos tornássemos
metecos
em qualquer centro?
Não há, por fim, elixir
contra exílios,
a não ser nos delírios
de cidadania, esta coisa
que ao fim sabemos
que não existe
a quem a Eros se exibe.

in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)

§

5 - Meus amigos do duo Easter lançaram agora há pouco seu segundo disco, intitulado Split And Fly Towards, e o concerto foi muito bom. O duo é formado pela poeta norueguesa Stine Omar Midtsæter e o músico alemão Max Boss.



Easter - "Alien Babies"

§

6 - Já passa da meia-noite em Berlim e em Palenque. Por enquanto, ainda estamos aqui.

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sábado, 23 de outubro de 2010

Amigos fotógrafos e suas publicações recentes: Primeira postagem: "The Quieter Poster Boys", de Brett Lloyd.

Conheci Brett em 2006, em Londres, quando visitei a cidade pela primeira vez, a convite do artista/curador mexicano Pablo León de la Barra, para apresentar-me como DJ no lançamento de sua revista Pablo Internacional Magazine. Foi nessa ocasião e a convite de Pablo que preparei a publicação de uma plaquete dos meus poemas em inglês, chamada When they spoke I / confused cortex / for context (2006), que lançamos junto com a revista dele em uma mini-edição numerada e assinada. A plaquete trazia já o texto das "Six songs of causality", e outros poemas que decidi não publicar no meu último livro a sair no Brasil, Sons: Arranjo: Garganta (SP: Cosac Naify, 2009). Já havia trocado mensagens com Brett e acabei hospedado na casa dele. Outros detalhes ficam para a biografia não-autorizada, dele ou minha (linha escrita com sorriso maroto nos lábios).

O que importa aqui é esta história: Brett Lloyd é um fotógrafo britânico, nascido em 1984 no norte da Inglaterra. Ser um nortista, naquele país, traz suas desvantagens, e sempre que converso com Brett a respeito me vem à mente a canção de Morrissey em que este canta: "We hate it when our friends become successful / And if they are Northern that makes it even worse", mas Brett é uma das carreiras mais ágeis da fotografia de moda europeia nesta década e eu estou muito feliz por isso. Na verdade, eu diria que a mais meteórica, e digo sem arrogância que previ tudo isso e o disse a ele assim que ele começou a me mostrar suas primeiras fotos. Passando a fotografar de forma assídua e ambiciosa apenas em 2007, e divulgando suas fotos primeiramente na internet, hoje, apenas três anos depois, Brett fotografa editoriais para revistas como Dazed and Confused, Vogue Hommes Japan, Candy, V Magazine, AnOtherMan, British GQ Style, e já colaborou com nomes incontornáveis do jornalismo de moda europeu, como Kim Jones, Nichola Formichetti, Alister Mackie, Shun Watanabe, Jonathan Saunders, entre outros. Antes disso tudo, eu já havia confiado em seu talento e publicado sua série "Peter Panning" com exclusividade na Hilda Magazine.

Há um mês, Brett lançou em Londres seu primeiro livro, uma coleção de 15 cartazes com fotos de moços que ele conheceu e fotografou em duas viagens mochiladas pela Europa. Um deles é meu amigo Jonas Lieder; outro, o (hoje requisitadíssimo) modelo alemão Jakob Wiechmann, foi fotografado na minha cama e na minha cozinha; o também alemão Tim Neugebauer já discotecou em minha festa às quartas-feiras. O livro traz ainda textos de Dean Mayo Davies e projeto gráfico de Edward Quarmby. Trata-se de uma edição limitada de 500 exemplares. Eu já tenho o meu, com sua dedicatória fofa, que vem unir-se a algumas fotografias originais assinadas por Brett, que guardo com cuidado na minha minúscula coleção de arte doada pelos amigos.



Self-published by emerging British photographer Brett Lloyd, "The Quieter Poster Boys" is a collection of 15 flat posters designed to go on bedroom walls. These are documents of the boys Lloyd met while couch-surfing across Europe in the summer of 2009, depicted as angelic youth emblematic of their generation. Most often shot in color topless in their apartment bedrooms or on couches. Complete with pamphlet containing an introductory text and anecdotes of the trip, the collection is sealed in plastic with a simple card stiffener. Lloyd is just 25 but after moving from Hull in Yorkshire to London only a year ago is fast becoming a significant voice in British fashion photography.

published by the artist
500 numbered copies
15 loose leafed posters
18.5 x 13.25 inches


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domingo, 26 de setembro de 2010

Cuidado com os anos de 13 luas, avisa mestre Fassbinder

Quando eu me mudei para a Alemanha, no começo desta década que agora se encerra, já trazia do Brasil em minha bagagem mental alguns mestres pessoais que eram alemães. De forma bastante clara, Walter Benjamin (1892 - 1940), e Bertolt Brecht (1898 - 1956). O pensador berlinense passou a ser presença determinante em meus pensamentos desde que li alguns de seus ensaios traduzidos para o português, lá pelos idos de 1997, quando tinha uns 20 anos. Brecht tornou-se uma presença forte em minha vida a partir do meu primeiro ano na Universidade de São Paulo, onde estava matriculado como estudante de filosofia, mas onde passei a frequentar um grupo de estudos da Faculdade de Artes Cênicas, que se reunia todas as quartas-feiras para ler e discutir uma peça de Brecht, até lermos todas. Este grupo viria a se tornar a Tribo de Teatro Tumutupugá, que teve uma importância gigantesca em minha vida. Vale lembrar que, no final da década de 90, o grupo teatral paulistano Companhia do Latão havia se lançado em uma verdadeira cruzada brechtiana em meio à Paulicéia.

Mais tarde vieram Joseph Beuys (1921 - 1986), com seu conceito de escultura social, e Eva Hesse (1936 - 1970), com sua brilhante manipulação de materiais, na qual eu enxergava elementos para minha busca da corporalidade poética. Estes dois artistas funcionavam como a parelha alemã de minha admiração por Lygia Clark (1920 - 1988), e Hélio Oiticica (1937 - 1980).

No início desta década viriam então, com grande força, a presença de austríacos como o gigantesco SALVE SALVE Ludwig Wittgenstein (1889 - 1951), o poeta H.C. Artmann (1921 - 2000), o cineasta Michael Haneke.

Minha primeira reação e relação com o trabalho de Rainer Werner Fassbinder (1945 - 1982) foi tumultuosa, negativa. Os primeiros filmes a que assisti foram Liebe ist kälter als der Tod {O amor é mais frio que a morte} (1969) e Händler der vier Jahreszeiten {Negociante das quatro estações} (1971), que me pareceram, com o perdão da palavra, chatos, nouvellevagueanos em um sentido negativo, copioso. Mesmo um filme como Götter der Pest {Deuses da peste} (1969), filmado entre os dois que mencionei, ainda mostra certos trejeitos godardianos, em minha opinião. Mas é no ano seguinte (ele trabalhava em cerca de 3 ou 4 filmes por ano) que Fassbinder dirigiria, baseado em uma peça teatral sua, um dos meus filmes favoritos, e aquele que faria com que eu retomasse toda a sua filmografia com outros olhos: o estupendo e completamente Fassbinder Die bitteren Tränen der Petra von Kant {As lágrimas amargas de Petra von Kant} (1972). Nele, a visão extremamente negativa e cheia de cicatrizes com que Fassbinder contemplava as relações amorosas chega a um de seus ápices do sarcasmo, a mesma que ele já demonstrara em sua peça Tropfen auf heisse Steine {Gotas d´água em pedra escaldante), que seria mais tarde muito bem filmada por outro diretor homossexual, o francês François Ozon. Em Petra von Kant, as cores berrantes que Pedro Almodóvar passaria a usar aparecem com uma década de antecedência, mas sem o humor do espanhol. Fassbinder, como Pasolini, sempre foi um mestre da observação detalhada da crueldade entre os humanos, de como o amor se torna um jogo de poder e dominação.


Die bitteren Tränen der Petra von Kant {As lágrimas amargas de Petra von Kant} (1972), de Rainer Werner Fassbinder


A importância do papel desempenhado por Rainer Werner Fassbinder na Alemanha das décadas de 60 - 80 é inestimável, talvez comparável apenas à influência de Joseph Beuys, dois dos intelectuais e figuras públicas mais fascinantes do país naquele período. Sua coragem em atacar as hipocrisias nacionais, sem medo de ofender a direita ou a esquerda, só pode ser comparada na literatura e cinema da Europa do pós-guerra à coragem de outro intelectual homossexual, o italiano Pier Paolo Pasolini.

O motivo desta postagem na verdade é que assisti, há uma semana e com meus queridos amigos Heinz Peter Knes e Jonas Lieder, a um dos filmes mais impressionantes e assustadores de Fassbinder, que me deixou com calafrios est-É-ticos e muitas perguntas. Trata-se do obscuro In einem Jahr mit 13 Monden {Em um ano com 13 luas} (1978), do mesmo ano em que Fassbinder filmaria com outros alemães o filme coletivo Deutschland im Herbst {Alemanha no outono}, que trata dos acontecimentos assustadores daquele ano, que culminariam com a morte misteriosa dos líderes da Facção do Exército Vermelho na prisão. A cena que mostro abaixo, do filme In einem Jahr mit 13 Monden, é bastante chocante, aviso aos leitores. Trata-se da história de um transexual alemão, o órfão Erwin Weishaupt, que se transforma em Elvira Weishaupt, interpretado de forma brilhante por Volker Spengler.


Cena de In einem Jahr mit 13 Monden {Em um ano com 13 luas} (1978), de Rainer Werner Fassbinder.

Passei os últimos dias pensando em Fassbinder, mestre eleito pessoal meu, em Pasolini, outro mestre, e comecei a me perguntar se havia alguém deste patamar no Brasil. Patamar é uma palavra difícil, pois não quero apenas fazer comparações de valor, e alguém poderia entender a pergunta desta forma. Digamos então, alguém com tal vigor em investigar a política e suas relações de poder, dominação, servidão, até mesmo nas relações entre os sexos e as sexualidades, alguém com tal agenda, de uma potência ética quase minimalista (ouso aqui este conceito), não em estilo, mas em denúncia e desmascaramento minucioso das filigranas sociais, não apenas por épicos messiânicos, de caráter nacional.

Serei ainda mais direto: não houve no Brasil do pós-guerra um intelectual homossexual deste calibre, do calibre de Fassbinder, de Pasolini, com um alcance e uma combatividade tão amplas. Compará-los com a figura brasileira que ocupou este espaço, o heterossexual Glauber Rocha, homem genial e que admiro muitíssimo, sempre propenso ao épico, ao descomunal, ao messiânico, mostra alguns detalhes importantes nas diferenças entre certas sensibilidades. Já sei... os amigos e colegas heterossexuais (são sempre eles que se incomodam com esta discussão) enviarão mensagens, dizendo que este debate é desimportante, que a sexualidade destes homens NADA (!!!) define em suas sensibilidades. Eles talvez estejam certos. Mas eu duvido.

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