segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

No qual o poeta, vivo da silva e em sangria desatada, pede perdão ao mestre morto por seus arroubos tragicômicos


No ano dois mil e onze de nossa era,
chamada agora de comum

por motivos politicamente corretos,
na cidade ex-bombardeada de Berlim,
o poeta escreve ao seu mestre eleito.


...............Mestre, dói-me confessar, mas quando li em um de seus poemas tardios que você webernizara-se, mondrianizara-se, foi inevitável e incontrolável pensar: “Este já não pode me ajudar”. Pergunto-me, caso nos houvesse sido dada a oportunidade de compartilhar o oxigênio dos mesmos dias, se teria vergonha deste seu discípulo repetente e repetitivo, discípulo que você mesmo não escolheu, se constrange-lhe agora que meio me douglas-sirkei, eu, todo desejoso de fassbindar-me, olhe, mestre, veja como estou todo almodovaricado.

...............Mestre, perdoe, sei que jamais ganharei o Nobel, talvez mereça um dia um Troféu Imprensa como Poeta B televisivo, mas sei hoje também que o cânone não passa de um equivalente mais prestigioso de um Vale A Pena Ver De Novo, e não me aflijo, pois, ao final das contas pagas, por que gerações futuras haveriam de se importar com nossas tragicomédias individuosas, como esta que ora me ocupa? Elas terão as próprias e nos saquearão como se fôssemos meras bulas de remédios com datas de validade vencidas, ai de nós.

...............Mestre, já não tem volta, traduzi "Ein jeder Engel ist schrecklich" por "toda Ângela Ro Ro é terrível". Piora tudo que em algum bairro do Berlimbo um moço com cabelos em caracóis não telefone há 36 horas, e a memória de todas as perdas passadas deixa uma pessoa em polvorosa, mestre, um hematoma nos glúteos basta para o pavor alérgico de todos os tarsos, metatarsos e dedos, conheço a lhanura das plantas dos pés dos homens, experimentei falanges e tornozelos. Imagino que você ainda nos compreenda, mesmo morto há tanto tempo e de quem talvez nem mesmo pó mais haja, pois, a quem já presenciou o ato de retroacção de sentimentos que se cria irrevogáveis, um dia de ausência é a certeza do sumidouro, da mesma forma como suspeitamos que o sol nascerá amanhã apenas porque o fez todos os dias de nossa vida, mestre, é o Magnum Mysterium.

...............Mestre, se quiser me extirpar dentre os seus parcos discípulos, entenderei, tudo bem, sou um fracasso como cristão e como modernista, pode repreender-me, expulsar-me até, nem precisarei remendar as iniciais no meu uniforme de poeta escolar, sei que Maysa Matarazzo há de me aceitar em seu curso noturno, e de seu amado nome, Murilo Mendes, até poderão permanecer os dois M iniciais em minha saia plissada.

...............Mestre, como eu poderia acalmar-me com blocos simétricos de cores ou palavras se os dias são sete e ímpares, os pratos da balança nunca em equilíbrio e os pulmões são estas bolhas precárias de pânico? A loteria dos dias tão raramente nos bendiz, perdoe-me esta postura nas ruas, esta corcunda, meus ombros suportam todos os breakups do mundo. Quisera ser o gladiador das éticas, o xamã a abrir com xampu místico os portões de Xanadu, o poetóide beijoqueiro que ressuscitasse o amor cortês de medievezas, mas, björkices à parte, contento-me com os ósculos ao espelho, com as alegrias que me caem sobre a cabeça porque os anjos erraram de endereço. Assim e assado, todo maysado em náuseas, sussurro: “Moço, não me quite a paz, não me quite a paz”, e por fim angelizado ronrono para não perturbar o público quando, plúmbeo e com plumas, tudo o que queria era uivar à lua como uma cadela em que a sarna houvesse doado certo tom rosáceo de solteirice aguda.

...............Mestre, o que posso dizer em minha defesa é que em prato que como só cuspo se este mo implora por qualquer fantasia erotizada, cachorro magro nunca fui, sempre comi e então ali fiquei, aos pés do que me alimentara, disposto a lealdades de mouros salvos num deserto, dizendo: “Eis que agora seguir-te-ei até o fim dos teus dias, salvaste-me a vida, sou teu escravoso cravo na lapela, oro para que nossos lábios costurem-se um no outro como se formassem, quando separados, o lábio leporino da mesma pessoa.”

...............Mestre, encontrei enfim um moço com paciência de Jó e potência de Thor, toda antilirice desértica em mim sumiu quando as chuvas regulares da saliva deste despencaram em minha boca, e enquanto houver em cada esquina o perigo do litígio amoroso, enquanto houver a cada aurora o risco do céu cair das bombas, ou de que eles venham todos em uma guirlanda de brechas: dependerei, dependerei, dependerei.



Rocirda Demencock. "No qual o poeta, vivo da silva e em sangria desatada, pede perdão ao mestre morto por seus arroubos tragicômicos", ou "Ricardograma para Murilo Mendes". Berlim, 18 de janeiro de 2011.


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Oh captain, my captain!



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sábado, 15 de janeiro de 2011

Tenho dois poemas inéditos publicados HOJE no caderno PROSA & VERSO do jornal carioca O GLOBO

Tenho dois poemas inéditos publicados hoje no caderno PROSA & VERSO do jornal carioca O Globo, na página RISCO, que traz mensalmente poesia contemporânea brasileira inédita, acompanhada sempre de um poeta estrangeiro. Hoje faço companhia ao português Manuel António Pina. A página é editada por Carlito Azevedo, mais uma contribuição do carioca à divulgação da poesia de hoje do e no país.

Começou em abril de 2010, com poema inédito da carioca Laura Liuzzi e uma tradução do excepcional polonês Zbigniew Herbert, um dos meus poetas favoritos de TODOS OS TEMPOS. Já publicou poetas brasileiros como Lu Menezes, Juliana Krapp e Franklin Alves Dassie, e estrangeiros como o japonês Saburô Kuroda e o israelense Yehuda Amichai.

Estou aqui do outro lado do charco atlântico no inverno berlinense, então comemoro com um tiro de tequila e um chocolate quente.

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Coração de fã partido com a morte de Trish Keenan esta manhã

Foi anunciada há pouco a morte de Trish Keenan, às nove desta manhã, por complicações de uma pneumonia contra a qual ela lutava já há duas semanas. Algumas fontes têm informado que a pneumonia resultara de uma infecção de gripe suína (H1N1). Keenan foi a letrista e vocalista da banda britânica Broadcast. Seu álbum Tender Buttons, em clara referência a Gertrude Stein (uma das canções do álbum chama-se ainda "Michael A Grammar", brincando com o Arthur A Grammar de Stein) e lançado em 2005, foi um dos trabalhos poético-musicais que mais ouvi nos últimos anos.

Keenan era a letrista e vocalista do grupo, ou seja, sua poeta lírica.

"America´s boy" foi o primeiro poema lírico seu que eu escutei e me apaixonei imediatamente, por sua voz, seu texto, sua música.




America´s boy
Trish Keenan

Quaker toil & Texan oil
Rockets on we're arm in arm
Nasa nude you're manly you

Oi American soldier
America's boy

Gun me down with yankee power
Cock pit tom with army charm
The eagle lands army commands

Oi American soldier
America's boy

Cowboy corn & bugle horn
On son don't post me on
You are dean and me the queen

Oi American soldier
America's boy



Que literatozinho infeliz seria capaz de texto tão conciso, crítico e ao mesmo tempo quase erótico em seu poder de sugestões, unindo símbolos fálicos de poder, militarismo e sexo?

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Corporeal
Trish Keenan

Under the white chalk
Drawn on the black board
Under the X-ray
I'm just a vertebrate

Do that to me
Do that to my anatomy
Corporeal
Corporeal

We are mankind
We are manikin
With and without mind
With or without Darwin

Classify me
The strings of my autonomy
Corporeal
Corporeal

A thorny red heart
Around a thin arm
Inside a white bone
The love is inborn

Close up to me
Up close to my anatomy
Corporeal
Corporeal


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Tears in the typing pool
Trish Keenan

Succumb to the line
The finishing time
The long distance runner
Has stopped on the corner
But i won't give up
Although i've stopped too

Before the end of me and you
The patchwork explains
The land is unchanged

Interpret the rooms
My tears in the typing pool
The letters are sighing
The ink is still drying
I told you the truth
And now i sigh too

The page turns on me and you
Across that white plain
The land is unchanged



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Tender Buttons
Trish Keenan

The coal
The coal light
The callous
The caress

The comb
The calm
The colour
The cortex

The code
The codine
The comma
The context

The collector
The green
The fine
The fall
The financer
The dream
The fen
The fine
The fin
The defend
The fawn
Then do

The coal
The coal light
The colours
The caress

The comb
The calm
The colour
The caress
The cortex

The comb
The codine
The comma
The context

The corpse
The likeness

Die cut
Die cut
Die cut
Die cut
Die cut
Die cut
Die



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QUERIDOS POETAS, POR FAVOR PAREM DE MORRER.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Apropriação, reencenação, paródia: cartazes de dezembro e janeiro da SHADE inc

Convites e cartazes de janeiro 2011 e dezembro 2010 para nosso evento às quartas-feiras, SHADE inc, iniciado em abril de 2010, para substituir a antiga Berlin Hilton. O conceito para os cartazes e convites segue a apropriação, reencenação ou paródia de imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Concebidos e produzidos pelo coletivo SHADE (em ordem alfabética: Daniel Reuter, Niklas Goldbach, Oliver A. Krüger, Ricardo Domeneck e Viktor Neumann), e então fotografados em geral por N. Goldbach ou D. Reuter. A fotografia de dezembro foi feita por Benjamin Schnepp.

Clique nas imagens para aumentá-las.


Janeiro de 2011. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado e produzido por Niklas Goldbach.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, um retrato de Dean Martin e Jerry Lewis (de 1951), feito pelo incrível Philippe Halsman (1906 - 1979), aqui. Na foto: o próprio Niklas Goldbach.

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Este é um dos meus favoritos, de todos os que já fizemos. Concebido pelo coletivo, foi lindamente executado por Niklas Goldbach, o membro mais visualmente talentoso do nosso grupo, encaixando-se perfeitamente no trabalho est-É-tico que ele vem realizando no seu próprio trabalho pessoal. Veja abaixo excertos do último vídeo de Niklas:


TEN (excerpts) from Niklas Goldbach on Vimeo.




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Dezembro de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Benjamin Schnepp.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, retrato famoso do estilista Yves Saint Lauren, aqui. Na foto: Dominic Hauser. Nosso amigo Dominic é bonito demais para que possamos chamar esta foto de "paródia". É uma reencenação... daquelas bem bonitas de se olhar.




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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Hoje à noite, Max Hattler (Londres) e Uli Buder (Berlim) como convidados especiais na "SHADE inc"

Quarta-feira, dia do coletivo Shade atacar em Berlim. Esta noite, em nosso desbunde semanal aqui na capital alemã, o artista visual (e um dos melhores VJs da Europa) no comando das imagens na SHADE inc, our own private Cabaret Voltaire no clube Neue Berliner Initiative.

Max Hattler - excerto da premiada animação "Spin"



Seu trabalho consegue fazer política em plena abstração de forma inteligente. A animação "Collision", usando motivos de bandeiras islâmicas e da americana, parece-me um exemplo emblemático neste sentido.


Max Hattler - "Collision"



Max Hattler vive em Londres e já mostrou seu trabalho nos maiores festivais do continente.


Max Hattler - "1925 a.k.a. Hell", inspirado pelo trabalho de Augustin Lesage (1876 - 1954)


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Max Hattler - "1923 a.k.a. Heaven", inspirado pelo trabalho de Augustin Lesage (1876 - 1954)


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Max Hattler - "Drift"

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Enquanto ele cuida do visual, meu querido amigo e talentosíssimo músico Uli Buder, que se apresenta com o codinome Akia, estará cuidando do sonoro.


Uli Buder, mais conhecido como Akia - "Kuku"


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Hoje à noite, na SHADE inc.



www.shade-inc.de



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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A artista visual e interventora urbana NÉLE AZEVEDO na Hilda Magazine


Há alguns meses, a mineira Néle Azevedo apresentou em Berlim sua intervenção urbana conhecida como "Monumento Mínimo", na qual homúnculos de gelo são postos em escadarias e monumentos urbanos de grandes cidades, levando-nos por implicação a meditar sobre nossa relação com a memória e História "públicas", entre outras possíveis implicações políticas. Para mim, é um exemplo belo, inteligente e delicadíssimo de intervenção est-É-tica. Parece-me um daqueles exemplos de trabalhos que atingem o exuberante pelo ascético, o vertiginoso pelo simples. Pessoalmente, encontro na meditação a que este trabalho me incita várias implicações para o trabalho lírico contemporâneo.

Convidei Néle Azevedo para mostrar este seu trabalho na Hilda Magazine. Estou feliz que ela aceitou e que agora alguns de vocês também podem conhecê-lo, se já não o conhecem:

NÉLE AZEVEDO na Hilda Magazine

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Deliciando-se com referências, este esporte para poucos: uma epifania de domingo, envolvendo Laurence Olivier e Morrissey

Em minha visita diária à locadora do bairro, trouxera uma produção inglesa de 1972, em grande parte pelo nome do diretor: Joseph L. Mankiewicz (1909 – 1993), o que em geral é garantia suficiente de bom cinema, mas o elenco trazia também Laurence Olivier e Michael Caine, com uma prometida batalha de chistes (aquele esporte inglês de wit) neste que é o último filme de Mankiewicz. O diretor americano é um dos meus favoritos. Ora, bastaria que ele houvesse filmado tão-somente o clássico estupendo que é All About Eve (1950) para que eu o venerasse. Mas ele é também o diretor de outros oásis divescos como A Letter to Three Wives (1949), The Barefoot Contessa (1954), Guys and Dolls (1955) e aquele fracasso formidável e exuberante que foi Cleopatra (1963), que o arruinou. Por tudo isso, eu até o perdoei por aquele Suddenly, Last Summer (1959) e sua homofobia velada. O filme, de qualquer forma, acaba sendo um ótimo thriller, já que Mankiewicz era o gênio que era.

Sleuth (1972) é mesmo divertidíssimo. Pelo que li a respeito, é baseado numa peça homônima premiada de Anthony Shaffer (1926 – 2001), um autor de peças e romances de mistério. Sleuth é ao mesmo tempo uma ótima comédia e bom filme de suspense, e ainda veículo excelente para o talento de Laurence Olivier (que eu jamais imaginei pudesse ser tão engraçado) e Michael Caine.


Trailer para o filme Sleuth (1972), de Joseph L. Mankiewicz.


Por fim, em um dos momentos em que a comédia se transforma em tragédia e desta em farsa, a personagem de Laurence Olivier começa uma torrente de impropérios contra a personagem de Michael Caine, listando os motivos pelos quais o odeia, e, entre eles, este:


__ "You are a jumped-up pantry boy who never knew his place."


Ah! Epifania de adolescente indie! Não, querido, não índio. Indie, classe social algo esnobe e ridícula à qual já pertenci e de certa forma ainda pertenço, provavelmente não se escapa dela. Uma definição? Ai, que difícil, somos criaturinhas urbanas que se deliciam em conhecer bandas obscuras de pequenos selos musicais, os tais de independentes, que podem na verdade vir do pós-punk industrial britânico ou de bandinhas de garagem americanas que tocam em estações de rádio universitárias. ANTES de indie se tornar uma espécie de gênero em si, especialmente entre pessoas mais jovens, digamos, que acreditam que este começou quando Julian Casablancas primeiro viu um microfone. Ufa... não leve a mal este desabafo de fã musical começando seu leve declínio adiposo e capilar.

De qualquer forma, voltemos à epifania intertextual.

Ora, para uma criaturete que foi adolescente quando eu fui e sofreu, entre quatro paredes, com a trilha sonora que a mim serviu de acompanhamento musical para tragédias amorosas tardo-infantis seria impossível não reconhecer imediatamente esta sequência de palavras! Oh, Morrissey, sua diva esnobe!



"This Charming Man", canção dos Smiths, letra de Steven Patrick Morrissey.


Não é apenas uma das canções mais importantes da minha adolescência, uma espécie de código pessoal que eu cantava pela casa enquanto meus pais monolíngues não percebiam o que exatamente eu estava lhes revelando. Eu sempre considerei este texto excelente em sugestão e economia de meios na descrição de uma cena.


This Charming Man
Steven Patrick Morrissey

Punctured bicycle
On a hillside desolate
Will nature make a man of me yet?

When in this charming car,
This charming man.

Why pamper life's complexity
When the leather runs smooth
On the passenger seat?

I would go out tonight
But I haven't got a stitch to wear
This man said:

"It's gruesome that someone so handsome should care"

A jumped up pantry boy
Who never knew his place
He said "return the ring"
He knows so much about these things



Há todo um affair descrito aqui, do começo ao fim, até mesmo com suas cenas de crueldade, flerte e ofensa separados por um refrão. Não são assim nossos relacionamentos, tantos deles, flerte e ofensa separados apenas por um refrão? Mesmo assim, como sonhei com esta cena, como quis esquecer todas as complexidades da existência por alguns segundos enquanto meus dedos afagassem o couro no assento do passageiro de um carro qualquer, correndo pela estrada deserta, admirando os braços de macho ao volante, pensando "quando eu crescer, quero ser como this charming man."

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Poemas na antologia mexicana "Porque El País No Alcanza: Poesía Emigrante de la América Latina" (Ciudad de México: Billar de Lucrécia, 2010)




Foi publicada há pouco no México a antologia Porque El País No Alcanza: Poesía Emigrante de la América Latina (Ciudad de México: Billar de Lucrécia, 2010), que traz poetas latino-americanos vivendo fora de seus países ou em constante diáspora, para quem a migração por fronteiras e o questionamento de noções de cidadania e pertencimento acabam por se tornar elementos vitais. Tenho alguns poemas incluídos no volume, com tradução para o castelhano do poeta argentino Cristian De Nápoli. Sou o único brasileiro na antologia, que traz vários mexicanos, onde naturalmente a questão de migração por fronteiras assume um caráter tão determinante. O volume tem seleção e apresentação do poeta alemão Timo Berger e prólogo de Héctor Villarreal. O livro encerra o projeto editorial mexicano Billar de Lucrécia e inclui os seguintes autores:

Omar Pimienta (Tijuana, 1978)
Alejandro Tarrab (Ciudad de México, 1972)
Maricela Guerrero (Ciudad de México, 1977)
Alejandro Zambra (Santiago de Chile, 1975)
Miguel Ildefonso (Lima, 1970)
Cristino Bogado (Asunción, 1967)
Cecilia Pavón (Mendoza, 1973)
Matías Moscardi (Buenos Aires, 1983)
Sayak Valencia (Tijuana, 1980)
Julio Espinosa Guerra (Santiago de Chile, 1974)
Diego Palmath (Lima, 1977)
Edgardo Dobry (Rosario, 1962)
Milagros Salcedo-Roguet (Lima)
Rery Maldonado (Tarija, Bolivia, 1976)
Ricardo Domeneck (São Paulo, 1977)
Lalo Barrubia (Montevideo, 1967)
Roxana Crisólogo (Lima, 1966)
Jennifer Adcock (Monterrey, 1982)
Rogelio Guedea (Colima, 1974)


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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Aprendendo a fazer drama com os melhores: Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência

Rocirda Demencock segue aqui com seu manual cine-ilustrativo
sobre as melhores formas de fazer drama, em lições pontuais,
tomadas dos mestres.

Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência


É incrível como muitas das lições vêm condensadas em filmes irmanados. Alguns filmes são fontes inesgotáveis de aprendizagem para o seu melodrama pessoal e intransferível de pessoa física, querido leitor e leitora. Com alguns trabalhos do cinema, seria possível escrever manuais inteiros. No entanto, talvez a cena mais condensada para esta lição, sobre como entrar no recinto onde está presente sua concorrência (especialmente se estivermos falando de uma concorrente vitoriosa), está em Gone With The Wind (1939), na cena em que Scarlett O´Hara é forçada por Rhett Butler a ir ao aniversário de Melanie (Hamilton) Wilkes logo após ter sido flagrada aconchegando-se ao torso de Ashley Wilkes, seu príncipe encantado, mas casado com Melanie.


Lição prática e ilustrativa de Scarlett O´Hara, esposa três vezes, viúva duas, noiva eterna.


A personagem Scarlett O´Hara, interpretada por Vivien Leigh, no aniversário de sua concorrente Melanie Hamilton, interpretada por Olivia de Havilland em Gone With The Wind (1939).


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Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência

Lição teórica de Ricardo Domeneck, poeta e mula.


§ - Sendo ou não, cruze o umbral tão-somente se houver se convencido de que todos os orifícios de seu corpo são mais desejáveis que o de sua concorrente.

§ - Para isso, qualquer método é legítimo, dos fornecedores de autoestima conhecidos como Chanel e Prada, à macumba diante do espelho e os banhos de água com açúcar.

§ - Que cor usar? Não importa a sua preferida, mas qualquer uma que apague ainda mais aquela sonsa que, sem brilho, venha a delir-se ao seu lado.

§ - Por fora, uma mestiçagem de Magdalena Frackowiak com Naomi Campbell, Bündchen-Moss; por dentro, uma Rainha de Copas louca e mais que pronta para decapitar Alice, Malévola querendo presentear Aurora com o coma.

§ - Saudações nos lábios, maldições na mente.

§ - Só se adentra tal recinto como se encarnasse uma pessoa jurídica, nunca mera pessoa física, não, você é CEO, Chief Executive Officer do seu Ego.

§ - Você é um corpo e seu amor uma Corporação.

§ - Roube a cena e a ceia, que cada um veja você como o prato principal.

§ - Em sua boca, coloque uma foto dela dissolvendo-se, como se você fosse um sapo de boca costurada.

§ - Bonecos e agulhas são obsoletos, o voodoo você pratica com olhares e sobrancelhas, espete sua concorrente com seus cílios como se ela fosse apenas uma boneca de palha.

§ - Diante da sua determinação em conseguir o que quer e quer e quer, ela é mesmo apenas uma boneca de palha.

§ - O momento para mimos de princesa passou, a esta altura do campeonato melhor acionar o módulo Jezebel.

§ - Oblíqua, oblíqua e dissimulada são tudo o que eles merecem de sua lista de adjetivos.

§ - Como uma ovelha você dá seus passos firmes sala adentro, em verdade toda lupina, até que eles vejam pelúcia onde você nutre e cresce bombril.

§ - Culpada, culpada até que provem o contrário.

§ - Faça-os engolir o veredito e você, desça seus esôfagos com as unhas em riste.

§ - Aos amigos impertinentes, diga: "Às vezes, o que os mansos herdam é a guerra".

§ - Ao fim da festa, quando a concorrente perguntar a você se quer levar um pedaço de bolo para casa, responda-lhe que sim e que embrulhe o homem concorrido junto.


§§§

Lição 3: Como adentrar o habitat da concorrência

Lição prática e ilustrativa ALTERNATIVA: Malévola, bruxa e milf recalcada.


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domingo, 2 de janeiro de 2011

O questionário de João Filho à maneira de João Condé, com alguns comentários

Há alguns meses, o prosador e poeta bahiano João Filho (Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1975) me perguntou se eu toparia responder as perguntas dos seus Arquivos Implacáveis, à Maneira de João Condé. Mais tarde, ele postou as respostas em seu blogue, chamado Voo Sem Pouso. Você o conhece? Escrevi sobre o trabalho de João Filho neste espaço, por ocasião do lançamento de seu livro de contos Ao longo da linha amarela (2009). Como fiz ao responder as perguntas do Questionário Dourado, de Jorge Wakabara, reproduzo aqui as perguntas e respostas, com alguns comentários a algumas.



ARQUIVOS IMPLACÁVEIS (de João Filho). À maneira de João Condé.

 
 
Nome:

Ricardo Domeneck

Onde nasceu e a data:

No município paulista de Bebedouro, no dia 4 de julho de 1977.

COMENTÁRIO: Às vezes me pergunto o quanto ter nascido naquela cidade me marca. Para alguns poetas brasileiros, seu local de nascimento torna-se mítico. É claro que isso depende da própria poética do autor. É natural que um poeta como Carlos Drummond de Andrade tenha feito de Itabira do Mato Dentro uma das cidades míticas do Brasil, pelo menos entre poetas. Ao mesmo tempo, para mencionarmos um contemporâneo e conterrâneo seu: quantas pessoas saberiam dizer onde nasceu Murilo Mendes? As cidades mais declaradamente marcantes em minha vida foram cidades de eleição: São Paulo e Berlim. No entanto, alguns dos poemas em Carta aos Anfíbios foram escritos em 2002, enquanto estava em Bebedouro, passando alguns meses com meus pais.

É casado, tem filhos?

Separado, sem filhos.

COMENTÁRIO: Não tenho filhos, mas gostaria de tê-los, gostaria muito de transmitir a outra criatura o legado de nossa _______________ (Preencha a lacuna com a coisa mais feliz e positiva que lhe parece encher a existência).

Altura:

1,84

COMENTÁRIO: No Brasil isso é considerado "alto". Lembro daquela descrição que ouvia nos anos 80 sobre o homem de 1 metro e oitenta como o supra-sumo da perfeição. Após viver por alguns anos entre gigantes germânicos (vários amigos meus aqui beiram os 2 metros de altura), passei a achar engraçada a descrição.

Peso:

60 kg

Número dos sapatos:

41


Prato preferido, bebida e jogo:

Bife com arroz e salada de tomate. Ou baião-de-dois. Tequila, porque é a única que não me deixa de ressaca. Quanto ao jogo, começo a me entediar cerca de 5 minutos depois de começar qualquer um, seja de cartas ou tabuleiro.

COMENTÁRIO: Pode ficar parecendo jogueteio de quem quer soar "simples", mas apesar de ter desenvolvido alguns hábitos culinários exóticos aqui na Alemanha, ainda gosto e prefiro certas comidas da infância.


Gosta de cinema, teatro, quais prefere?


Posso dizer, creio, que prefiro cinema, em tela de qualquer tamanho. Não poderia contar quantas experiências importantes tive no cinema. Cito duas: O sétimo selo, de Bergman, visto em um cinema de São Paulo aos 20 anos;




outra:
La pianiste, de Michael Haneke, visto 11 vezes no cinema, filme por que fiquei obcecado por algum tempo.





As experiências inesquecíveis em teatro foram menos frequentes, mas cito uma: Vozes dissonantes, da Denise Stoklos.




COMENTÁRIO: Eu poderia haver citado outros filmes. O de Bergman foi simplesmente um momento de descoberta do cinema em São Paulo, com 20 anos, quando comecei a ver filmes de gente como o sueco, ou Godard, Pasolini, Tarkóvski. Alguns filmes estão tão marcados na minha mente que sua influência é totalmente vital. Poderia ter mencionado Não Amarás, de Kieslowski; O Espelho, de Tarkóvski; ter assistido a Éloge de l´amour, de Godard, na telona do cinema; ou, para falar de um filme recente, o mais novo trabalho de Darren Aronofsky, sobre o qual ainda pretendo escrever aqui, Black Swan, com uma performance radiante de Natalie Portman.




Poeta e prosador preferido:

Tendo que escolher um, menciono o mestre que elegi para mim mesmo: Murilo Mendes.


COMENTÁRIO: O poema "Janela do caos" ainda é uma das pedras de toque de tanto que aprendi sobre poesia.

Três primeiros movimentos de "Janela do caos"


1

Tudo se passa
Num Egito de corredores aéreos,
Numa galeria sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
_ Ou teu coração?
Azul de guerra.


2

Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.

Ah! Quem telefonaria o consolo,
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.


3

Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras,
Mas em tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.

Não tenho prosador favorito, a preferência oscila entre Machado de Assis e Dostoiévski, Beckett e Hilst. O último que me impressionou foi Bolaño.

COMENTÁRIO: A menção a Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski talvez pareça estranha a quem conhece meu trabalho, referências talvez não muito óbvias. Talvez deva qualificar um pouco as escolhas. Considero Machado importante e central para o que queiramos fazer hoje no Brasil. Há um poder de alusão e implicação, uma sutileza nele, que me parecem simplesmente exemplares. Como na passagem em que Sofia cai do cavalo em Quincas Borba. Aquele capítulo é para mim de uma perfeição inigualável em sugestão. Já Dostoiévski, na verdade, teve um impacto gigante em mim por causa de um romance específico. A verdade é que não gosto de quase nada mais que li do russo, com exceção do magnífico Os Irmãos Karamazov. Aquele romance está nas minhas entranhas desde que o li. Aliosha é uma das minhas personagens masculinas favoritas no mundo literário. As escolhas de Beckett e Hilst são mais óbvias, talvez. Dentre os "novos", Bolaño segue me parecendo um milagre. Mas ainda tenho que ler alguns americanos como David Foster Wallace, Jonathan Franzen e alguns outros.


Tipo de música e músico preferido:

Qualquer uma, desde que tenha letra e esta seja cantada por uma mulher: Beth Gibbons ou Billie Holiday, Björk ou Elis Regina, Kate Bush ou Chan Marshall.









Entre os compositores clássicos: Schubert.





Qual pintor preferido?

Meus pintores favoritos são dois videoartistas: Douglas Gordon e Péter Forgács.

COMENTÁRIO: Mais uma vez, não é jogueteio. É claro que há a decisão aqui est-É-tica de mencionar videoartistas onde João Filho me perguntou por pintores. Como foi a única pergunta em que ele mencionou as artes visuais, precisei escolher est-é-ticamente. Poderia, é claro, ter mencionado Jean Dubuffet, por exemplo, um pintor que amo; mas hoje dirijo meus olhos em geral para outras práticas.







Qual a cor predileta?

A quantidade de roupas sujas azuis espalhadas no chão do meu quarto deve indicar essa cor como a favorita, mesmo que inconsciente.


Quando escreveu seu primeiro texto?

Aos 12 anos, creio.


Dos seus livros publicados qual o preferido e por quê?

O primeiro, Carta aos anfíbios, porque aquela alegria difícil e meio inocente de terminar o primeiro livro nunca mais volta.


COMENTÁRIO: Isso é difícil de responder. A resposta acima me pareceu plausível. Ao mesmo tempo, gosto do último que publiquei por motivos muito diferentes. No entanto, hoje teria que responder que o livro de que mais gosto é o que estou escrevendo agora.


Se pudesse recomeçar a vida o que desejaria ser?

Ser capaz de compor música é a única coisa que desejaria acrescentar ao que já sou e tenho.


Seu principal defeito:

Ciumento, muito, muito ciumento. Muito.

COMENTÁRIO: Algo que já tomou tanta energia minha e o qual, ao mesmo tempo, contraditoriamente doou-me meu poema mais conciso.




Sua principal virtude:

Lealdade extrema aos amigos, o que às vezes pode ser um defeito quando é cega.


Coleciona alguma coisa?

Cruzar rios. Da forma como João Cabral relata sobre Murilo Mendes em um poema.


Algum hobby?

Na verdade, eu tenho a imensa sorte de viver do dinheiro ganhado com meu hobby: trabalho como DJ.

Uma ou duas grandes emoções em sua vida?

Receber o sim da editora que publicou meu primeiro livro. Receber o sim da editora que publicou o segundo.


É crente ou ateu?

Crente. A resposta à próxima pergunta indicará o quanto e como.


Três livros que mudaram sua vida ou, se não mudaram, mas tocaram fundo:

Teria que citar cinco - O Livro de Jó; Do sentimento trágico da vida, do Miguel de Unamuno; Os Irmãos Karamazov, do Dostoiévski; Investigações filosóficas, do Wittgenstein; Qadós, da Hilda Hilst. Parece-me mais que necessário mencionar também o que mais me divertiu e mais me fez rir em público, nos ônibus e trens de Berlim: o delicioso The Autobiography of Alice B. Toklas, da Gertrude Stein.

COMENTÁRIO: Outra vez, difícil fazer uma lista. Relendo esta hoje, fiquei pensando em tantos outros livros que me transformaram, como A Maçã no Escuro, da Clarice; Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Barthes; Dom Quixote, do Cervantes; no fundo, tudo o que espero é que a lista continue crescendo.

Se pudesse escolher como gostaria de morrer?

De forma indolor; e feliz.

COMENTÁRIO: Esta resposta é auto-explicativa.


Agradeço a João Filho pelos diálogos.

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