quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Duas palavras, que são um nome, que pertence a uma pessoa, que é minha principal interlocutora: Marília Garcia



Tenho hoje um diálogo muito forte e frutífero com vários poetas contemporâneos, debates que são importantíssimos para meu trabalho como poeta e crítico, com companheiros específicos e pontuais espalhados por vários países e línguas, no Brasil, na Alemanha, Catalunha, Argentina, México. São debates com regularidade e intensidade variadas, sobre questões que são pontos nevrálgicos, se me permitem, a unir e separar meu trabalho do destes poetas. Uma relação de grande respeito guiando os questionamentos de nossas discordâncias e concordâncias, como minhas conversas sobre forma e historicidade com autores como Érico Nogueira, Dirceu Villa e, nos últimos tempos, Ezequiel Zaidenwerg.

Há poetas com quem sinto a sorte comunal de possuir pura e estrutural afinidade est-É-tica, como é o caso de minha admiração por Angélica Freitas. É uma corrente subterrânea que carrega meus pés e talvez nos leve, quem sabe, à mesma cachoeira.

Mas, com exceção talvez do catalão Eduard Escoffet e por razões distintas, mal encontro palavras para descrever a comunhão única de preocupações, perguntas e obsessões que sinto ao dialogar com Marília Garcia. Grande parte de um debate, tornando-o às vezes tão difícil, perde-se e perde tanto na necessidade de explicarmo-nos antes de podermos realmente dialogar, e é justamente esta perda de tempo no explicar-se que raramente sinto em meu diálogo com esta poeta, por compartilharmos tantas referências, que não deixam ao mesmo tempo de ser adversativas e complementares. Minha leitura crítica tão marcada por germânicos e anglófonos, ligada ao seu conhecimento do debate francófono, por exemplo. Foi meditando sobre seu trabalho que se clarificou em minha mente a busca pelo que venho chamando de uma lírica analítica, que já intuíra, no Brasil, em Marcos Siscar na década de 90 e poderia elaborar melhor para mim mesmo ao pensar sobre o trabalho de Juliana Krapp, cuja pequena obra, declarada pela própria autora como já encerrada, parece ter sido aquela que, no Brasil, mais claramente assumiu certos questionamentos que eu declararia encontrarmos apenas em poetas como Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop ou Rae Armantrout, dentro do meu limitado campo de visão, audição e pensamento.

Questionamentos, no entanto, aos quais acredito que Marília Garcia também uniria sua consciência do debate tão culturalmente específico sobre o lirismo que foi empreendido na França, por poetas tão diversos quanto Emmanuel Hocquard e Nathalie Quintane, talvez já germinado no trabalho de Gertrude Stein, que Marília Garcia vem traduzindo belamente para o português, e eu incorporava por implicações através de minha leitura obsessiva de Ludwig Wittgenstein.

Com Marília Garcia, a paixão quase obsessiva por esta Gertrude Stein, nosso interesse por uma textualidade que tantos dizem "não ser poesia", aquela que amamos nos trabalhos talvez inclassificáveis da própria norte-americana, ou ainda de John Cage, David Antin, Emmanuel Hocquard, como em certos textos de Barthes e artistas visuais que se embrenham na floresta de signos da textualidade, como o interesse de Marília por Guillermo Kuitca e Alfredo Prior, o meu por Gary Hill e Martha Rosler, e o nosso amor comum por Mira Schendel.

Ter tido a honra de lançar no Rio de Janeiro meu Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012) ao lado de seu engano geográfico (7Letras, 2012) não é apenas a alegria de compatilhar um momento bonito com uma companheira. É como uma figura (em seu sentido teológico) pessoalíssima, dos caminhos que sinto partilhar e palmilhar com esta poeta, embrenhando-nos por uma poesia lírica desbragadamente nua, protegida do frio crítico de um país tão apaixonado pelo antilirismo apenas pelo aquecimento único dos pelos de seu próprio corpo.

A apresentação de Marília Garcia no evento que organizamos, ao lado de Marta Mestre no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi uma das experiências mais fortes que já tive com um poeta de carne e osso, vocalizando seu texto. Houve leituras que me entusiasmaram ou divertiram muitíssimo, mas nenhuma que tenha me emocionado tanto, este ato tão fora de moda como é o emocionar-se. Graças ao jovem poeta carioca Ícaro Lira, há um registro em vídeo da apresentação, com um excerto da intervenção de Marília sobre a peça que fez em colaboração com o músico Rodolfo Caesar, e sua própria intervenção sobre seu poema "é uma lovestory e é sobre um acidente".

Antes do vídeo, uma última asserção apaixonada: se eu morrer um segundo depois da postagem deste artigo, que o mundo saiba que Marília Garcia é a única com autoridade total e irrestrita para decidir o destino do que eu, com riso contido, chamaria de meu espólio. Hoje, basicamente, um amontoado de cartas ridículas de amor e um ou outro artigo.



Leitura dos poemas "Aquário" e "é uma lovestory e é sobre um acidente"
no evento Textualidade: modos de usar, organizado pela Modo de usar & co.
em parceria com o MAM, através da Marta Mestre, que teve lugar no próprio museu.
Quanto ao primeiro poema, trata-se da parte final da intervenção
na peça musical "Aquário", de Rodolfo Caesar.
Vídeo filmado e editado por Ícaro Lira.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Adelaide Ivánova, minha companheira no vale do rímel borrado, em retrato do fotógrafo alemão Jakob Ganslmeier.


Adelaide Ivánova por Jakob Ganslmeier (2012).

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Os dois fotógrafos

Jakob Ganslmeier

&

Adelaide Ivánova

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E nestes dias de frio insuportável no Berlimbo, um poema apropriado da última:

tulipas
Adelaide Ivánova

meu parapeito
não tem flores,
meu apartamento
não tem geladeira,
ponho os saquinhos
de mussarela do lado
de fora da janela
para não estragarem
e assim prescindo
de tulipas.


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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Colaboração com Ezequiel Zaidenwerg: vídeo meu para seu poema "Murió el terror de las escandinavas", especial para a revista mexicana "Chilango"

Ezequiel Zaidenwerg por Valentina Siniego


A revista eletrônica mexicana Chilango convidou o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981), meu caríssimo amigo, a participar do projeto "Poeminuto", unindo textos vocalizados a vídeos preparados para tal. Zaidenwerg perguntou-me se eu faria algo com sua vocalização para um texto recente, bastante irônico e mordaz, intitulado "Murió el terror de las escandinavas". Aceitei o convite-desafio, trazendo minha própria ironia para a peça. Talvez o resultado seja um verdadeiro quebra-cabeças em questões de política de gênero. Parti de uma colagem com material existente e em domínio público.

Fiquei feliz com esta colaboração e quis compartilhá-la com vocês, vocês todos que, assim espero, já leram La Lírica Está Muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), do nosso caro Zaidenwerg. Se ainda não tiveram a chance, baixem o livro, que foi disponilizado pelo autor na Rede. Foi uma das leituras de poesia que mais me deram prazer no ano passado. Abaixo, "Murió el terror de las escandinavas":


Ezequiel Zaidenwerg - "Murió el terror de las escandinavas" - texto y voz.
Video de Ricardo Domeneck. Ciudad de México / São Paulo / Rio de Janeiro. 2012.


Murió el terror de las escandinavas
Ezequiel Zaidenwerg

Murió el terror de las escandinavas,
ése que echaba espuma por la boca
no bien veía una melena rubia
vagamente foránea. Sus amigos
lo imaginan ahora entre los fiordos
del cielo, persiguiendo a las valkirias
a un Valhalla nudista junto al sol,
con su falo de cera, inofensivo.
Poco a poco se fue descascarando,
igual que una cebolla hecha de carne,
y quedó expuesta, capa a capa, toda
la geología de su desviación
(el púgil fracturado, el libertino
púdico, el cocainómano amateur),
hasta que al fin la imagen de su crimen,
como un puño de odio palpitante,
se hizo visible al estallar la cáscara
que lo cubría: un fauno enloquecido
que, apretando del cuello a una doncella,
la flagelaba con su verga bífida
y abría surcos de copiosa sangre
de cocodrilo sobre el cuerpo trémulo;
luego se lo llenaba de gargajos
y de insultos y, armado con un fórceps
al rojo vivo, abría sus caderas
para implantarle en la matriz profunda
algún objeto no identificado
de látex, con higiene y precisión.
Después, para humillarla, le decía:
“La princesa está triste, ¿qué tendrá
la princesa?”, al oído con ternura
fingida, y explotaba de repente
en una carcajada demencial;
y, a fin de hacer completo el aquelarre,
traía a algún secuaz para vejarla.

Ya no existe el terror de las noruegas,
nativas o becadas; lo borraron
ráfagas bienhechoras de silencio,
que, deshaciendo aquella ruina humana,
muscular y moral, trajeron paz
definitiva. Ahora, como antes,
mancebos y muchachas pueden creer
que es posible un amor, en este mundo
cruel, puro como el agua del deshielo;
otra vez pueden respirar las madres
aliviadas (ya nadie grita: “¡Viene
el lobo!”) y pueden regresar los chicos
a jugar a las plazas, sin temer
la presencia furtiva en los arbustos:
murió el terror de las escandinavas.


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Descanse em paz, querida Wislawa

Há poetas que tiveram papéis tão importantes na minha vida mental, que suas mortes, mesmo jamais os tendo conhecido, me deixam de luto verdadeiro, tristeza gigante. Foi assim quando Hilda Hilst morreu, em 2004, ou Robert Creeley, em 2005. Há dois dias, sucumbiu a um câncer no pulmão (ela, famosa chain smoker) a poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923 - 2012), em sua Cracóvia de eleição. Como homenagem a esta mulher que me ajudou literalmente a manter a sanidade em alguns momentos, reproduzo aqui duas postagens que dediquei ao trabalho de Szymborska, entre tantas outras nais quais ela compareceu como personagem importante. Obrigado por tudo, mulher fantástica e generosa.


§

As holotúrias dos poetas
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009



Em 2001, que geralmente chamo, com os lábios sobrevoando xícaras de café e copos de vinho tinto, de "um dos piores anos da minha vida", sofrendo como um camelo por uma daquelas hemostasias vagarosas de uma sangria desatada, quando ainda não sabia que (sim) se sobrevive a certa amputação de ilusões, houve alguns poemas que me acompanharam nas calçadas de São Paulo, como tubos de oxigênio ligados a um lugar-nenhum, cartografado sob um sol imaginário qualquer, provendo luz, ainda que artificial.

De poemas que nos mantêm vivos, a gente nunca esquece.

Há aquele início tenebroso do poema de Robert Creeley, que eu ainda repito em momentos de sufoco: "If night´s the darker / closer time, / days come", para culminar na luminosidade do trecho:

"let light
as air
be relief.
"

E, se a garganta se engarrafava e os lábios rachavam, era sempre possível recorrer àquele

"...e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
"

de Carlos Drummond de Andrade. Havia a lição de Bishop: "Lose something everyday. Accept the fluster...", nos ensinando a fingir, a fingir.

"Faz de conta, minha filha. Faz de conta." - JGR.

Um dos poemas que mais forneceram oxigênio à minha cabeça naquele ano foi "Autotomia", de Wislawa Szymborska, que eu lera no número 10 da revista Inimigo Rumor, e que me serviu algumas vezes de kit-sobrevivência para terminar o dia.

Autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)

Poemas podem ter as causas, os efeitos mais diversos. Não é todo dia que se quer passar uma temporada no Inferno; ou em Duíno; ou mesmo em Pasárgada, ou no País das Maravilhas. De um lado o sertão, de outro o mar. Seja Lear (1812 - 1888) no absurdo em riso, ou Lear (1603 - 1606) no absurdo de todas as perdas, a cada instante seu malheur, seu bonheur. O do poema na gargalhada e o poema do franzir de todos os cenhos.

"Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar."


Recentemente, lendo a antologia Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914 - 1945, editada por Jerome Rothenberg, li um poema de Kenneth Rexroth em que ele também recorre à holotúria (ou pepino-do-mar), usando quase o mesmo fraseado de Szymborska, levando-me a perguntar se seria uma colagem ou fragmento de que Szymborska e Rexroth se apropriaram a partir de alguma enciclopédia. O poema de Rexroth chama-se "Fundamental disagreement with two contemporaries", um texto longo de cerca de 6 páginas e várias partes, no qual se encontra o seguinte fragmento em prosa e entre aspas:

"The sea cucumber when in danger of being eaten, eviscerates itself, shooting out its soft internal organs as a sop to the enemy while the body wall escapes and is able to regenerate a new set of viscera."

Pensando no texto de Szymborska, li outras páginas sobre estas holotúrias que já se enroscaram em minha mente, encontrando textos parecidos:

"When threatened, some sea cucumbers discharge sticky threads to ensnare their enemies. Others can mutilate their own bodies as a defense mechanism. They violently contract their muscles and jettison some of their internal organs out of their anus. The missing body parts are quickly regenerated.

ou

"A remarkable feature of these animals is the catch collagen that forms their body wall. This can be loosened and tightened at will and if the animal wants to squeeze through a small gap it can essentially liquefy its body and pout into the space. To keep itself safe in these crevices and cracks the sea cucumber hooks up all its collagen fibres to make its body firm again.[3]

Some species of coral-reef sea cucumbers within the order Aspidochirotida can defend themselves by expelling their sticky cuvierian tubules (enlargements of the respiratory tree that float freely in the coelom) to entangle potential predators. When startled, these cucumbers may expel some of them through a tear in the wall of the cloaca in an autotomic process known as evisceration."


§

Mutilar-se como sistema de defesa contra ilustríssimo predador. Expelir certos órgãos supérfluos em dissimulação, baile de máscaras de uma sexta-feira em filmes de medo, medo. Plano de fuga: ejetar-me as vísceras. Que holothuroidea formidável.

Pequenos pedaçoilos de moi-même em tupperwares ao honorável monsenhor predador, a tapar o ar que desperdiço do seu ambiente.

Meu Jack the ripper, com os cascos sobre o meu crânio, permaneça sempiterno no andar de cima da cadeia alimentar, enquanto a sustento com meus ombros e outras partes de minha anatomia renovável.

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Poemas que continuam salvando minha vida: "Autotomia", de Wislawa Szymborska
segunda-feira, 12 de setembro de 2011


Alguns talvez digam que é exagero, ora, como assim um poema salvar a vida de alguém? Mas não se trata de glamourização de poeta, nem conversa pseudo-xamânica sobre mágica arcaica ou qualquer falcatrua soteriológica. Em minha vida, é a mistura de fato e ato. Nesta série, quero repostar – já discuti vários deles aqui – poemas que lateral e literalmente salvaram minha cota de oxigênio e seguem mantendo minha sanidade em um nível aceitável de equilíbrio diante de certas catástrofes. Quando descobrimos um poema com este poder, ele praticamente entra em nosso sistema de defesa e passa a ser parte dos nossos anticorpos contra os demônios ensandecidos, contra os inimigos da lucidez, contra o vírus do suicídio. Hoje, no parque minúsculo e favorito aqui no meu bairro berlinense, sentado na grama, com o vento meio gelado embaraçando os cabelos que já começam a ficar brancos, eu fechei os olhos e sussurrei de novo, várias vezes, como fizera em outros momentos de necessidade:


"Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."


São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.



Autotomia
Wislawa Szymborska

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o
Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.



(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)


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Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.




Em novembro de 2008, Marília Garcia e eu preparamos uma postagem sobre a poeta polonesa, ganhadora do Nobel em 1996 (quando a descobri), para a Modo de Usar & Co., da qual vocês podem ler o artigo introdutório abaixo.



WISLAWA SZYMBORSKA

Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.

Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.



Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".

Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.


Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008

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PEQUENA ANTOLOGIA DE POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA


A mulher de Lot

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.


(tradução de Regina Przybycien)

§

Gente na ponte

Estranho planeta e nele essa gente estranha.
Sujeita ao tempo, não o reconhece.
Tem seu jeito de expressar seu desagrado.
Faz pequenas pinturas assim como esta:

Nada especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma canoa forçando seu curso contra a corrente.
Vê-se uma ponte sobre a água e vê-se gente na ponte.
Essa gente claramente apressa o passo,
porque de uma nuvem escura
começou a cair uma bruta chuva.

A questão é que ali nada mais acontece.
A nuvem não muda a cor nem a forma.
A chuva nem aumenta nem cessa.
A canoa navega sem se mover.
A gente na ponte corre
no mesmo lugar de ainda há pouco.

É difícil passar sem um comentário:
Esse não é de modo algum um quadro inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixou-se de levar em conta suas leis.

Foi privado da influência no curso dos eventos.
Foi desrespeitado e insultado.

Por causa de um rebelde
um tal Hiroshige Utagawa
(um ser que por sinal,
como sói acontecer, faz muito que se foi),
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez seja só uma simples brincadeira,
uma travessura na escala de um par de galáxias,
em todo caso porém
acrescentemos o seguinte:

Tem sido de bom-tom há gerações
ter a obra em alta conta,
deslumbrar-se e comover-se com ela.

Tem aqueles para quem nem isso basta.
Ouvem até o barulho da chuva,
sentem as gotas frias no pescoço e nas costas,
olham a ponte e as pessoas,
como se lá também se vissem,
na mesma corrida que nunca termina
na estrada sem fim, eternamente à frente
e acreditam, na sua desfaçatez,
que de fato é assim.

(tradução de Regina Przybycien)

§

Abaixo, poemas em tradução de Júlio Sousa Gomes

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

§§§

Estação

Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.

Uma carta por enviar
te avisara.

Conseguiste não chegar
à hora prevista.

O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.

Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.

Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.

Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.

Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.

A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.

Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.

Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.

Fora do alcance
da nossa presença.

No paraíso perdido
da verossimilhança.

Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.


§§§


Na torre de Babel

— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças.
— Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões.
— Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar.
— É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza.
— Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo.
— Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui.
— Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas.
— Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.


§§§


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.

§§§

Gente na ponte

Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:

Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.

O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.

É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.

Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:

Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.

Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.



Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Anúncio oficial: os 6 poetas brasileiros convidados para o Poesiefestival Berlin 2012

Como anunciei no fim do ano passado, o Festival de Poesia de Berlim (Poesiefestival Berlin) dedicará a Oficina de Tradução desta edição de 2012 à poesia brasileira e convidou-me para fazer a curadoria. Trata-se do projeto VersSchmuggel, geralmente traduzido em português como "Contrabando de versos", um dos eventos mais importantes do festival que é um dos maiores da Europa e está em sua décima-terceira edição. Nesta oficina, poetas de uma língua ou país são convidados a passar uma semana em Berlim, trabalhando com poetas germânicos (com ajuda de um intérprete e "traduções literais" dos poemas selecionados) em traduções mútuas, mais tarde publicadas em uma antologia bilíngue tanto na Alemanha como no país (ou países) dos convidados. Em 2008, o Festival dedicou o projeto à língua portuguesa. Este ano, especificamente à poesia brasileira.

Como curador, trabalho pelo qual, aviso de antemão, não estou recebendo qualquer remuneração pois todo o orçamento é justamente destinado aos poetas convidados, tentei respeitar as condições e constrições de representatividade educadamente sugeridas pelos diretores artísticos do Literaturwerkstatt. No entanto, a condição principal de convidar apenas 6 poetas implicava de saída um desafio insuperável para esta mesma representatividade. Minha preocupação primordial e decisiva foi uma única: qualidade literária, tratando-se de um projeto que culminaria num livro. Nada mais posso dizer em defesa de minhas escolhas, sabendo que a lista poderia ser completamente diferente – mantendo esta qualidade; tudo que posso dizer é que ponho minha mão de crítico no fogo por cada um destes poetas. Como os poetas, alegrando-me muito, já aceitaram o convite e confirmaram sua participação, anuncio aqui os nomes, na esperança de que a generosidade de todos leve-os a também alegrar-se com as inclusões, acima dos que certamente se apinharão, como sempre, sobre as exclusões.

Agradeço a Thomas Wohlfahrt e Aurélie Maurin, do Literaturwerkstatt, pelo voto de confiança e generosidade.


POETAS BRASILEIROS CONVIDADOS PARA O POESIEFESTIVAL BERLIN 2012
Versschmuggel/Contrabando de versos.
Poesia brasileira e germânica em pares.
Curadoria de Ricardo Domeneck.
De 2 a 6 de junho de 2012, na Akademie der Künste, em Berlim.


Horácio Costa (n. 1954)
Jussara Salazar (n. 1959)
Ricardo Aleixo (n. 1960)
Marcos Siscar (n. 1964)
Dirceu Villa (n. 1975)
Érica Zíngano (n. 1980)


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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vídeo com excertos das leituras de Lu Menezes, Luca Argel, Alice Sant´Anna, Marília Garcia e deste que vos digita, no Baukurs Cultural, 28/01/12


Lançamento e leituras no Baukurs Cultural, a 28 de janeiro de 2012.
Organizado pela Editora 7Letras e pela Modo de Usar & Co.
Lançamento dos livros "engano geográfico", de Marília Garcia,
e "Ciclo do amante substituível", de Ricardo Domeneck.
Leituras com os poetas
LU MENEZES,
LUCA ARGEL,
ALICE SANT´ANNA,
RICARDO DOMENECK
e MARÍLIA GARCIA.

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Pequena nota de despedida do Rio de Janeiro, com poemas de Lu Menezes, Alice Sant´Anna e Luca Argel, mais excerto do poema-livro de Marília Garcia

Marília e eu no Villarino, centro do Rio, após apresentação no MAM.
Foto de Alexandra Lucas Coelho.

Último dia no Rio de Janeiro, último dia no Brasil, último dia da viagem que me trouxe de Berlim, levou-me à Cidade do México, carregou-me a São Paulo, a Bebedouro e agora ao Rio de Janeiro. Revi algumas das pessoas mais importantes de minha vida, amigos milenares, a família que liga todas as minhas encarnações, amigos novos que já se tornaram indispensáveis para minha saúde. Esta noite, embarco de volta a Berlim, com uma sensação muito estranha que mal consigo descrever. Queria muito mais uma semana aqui, não sei se estou pronto para voltar para o inverno berlinense, para a cidade novamente dividida em dois hemisférios. Mas volto diferente. O lançamento do meu livro ontem aqui, com a leitura, foi como o ponto final que me dará forças para fazer aquele ato tão difícil de virar a página de nossa própria biografia. Porque eu quero virar a página. Abrir novo capítulo, sem enganar-me ou iludir-me que isso significa exilar-se em outro romance.

Estou feliz, queridos. Marquem seus calendários, o poeta maysado, douglas-sirkense e almodovaricado está feliz.

E estar feliz sempre me traz à mente o início do lindo Happily (2000), de Lyn Hejinian:


Constantly I write this happily
Hazards that hope may break open my lips
What I felt has taken place a large context a long yielding incessant
chance, and to doubt it would be a crime against it
Is happiness the name for our (involuntary) complicity with chance?


Lyn Hejinian, in Happily (2000).


A tarde de ontem foi novamente muito, muito bonita, como a noite no MAM. A sala do Baukurs encheu-se para o lançamento do poema-livro de Marília, chamado engano geográfico (7Letras, 2012), e para o meu Ciclo. Nossa convidada de honra, Lu Menezes, abriu a tarde e fez uma leitura de alguns poemas de seu onde o céu descasca (7Letras, 2011), um dos livros mais bonitos dos últimos anos no Brasil. Escreverei sobre ele em breve, quando estiver assentado no Berlimbo. Abaixo, um dos meus poemas favoritos no livro:

Luzes ao longe

Agora, é como se desse pedaço de vidro negro
com que pintores monocromatizam reduzindo
a tons, só tons a paisagem
("vidro de Claude")
vasta mortalha derivasse, nuvem íntima
da tinta que o polvo-mor tanto aspira,
petróleo
derramado sobre as 1001 cores de Bagdá
respingando
o Rio
da vida inteira quando na fila dos alvos de cá
sua vez
chegar enegrecendo o Corcovado verde-jade,
enegrecendo
palmeiras e azulejos do passado árabe-português,
enegrecendo
o Pão de Açúcar – sonho celeste chinês,

de tal maneira que não possas mais
preferir ver ao anoitecer
"noite, esperança e pedraria" através
do amado verso de Mallarmé
(teu vidro de Mallarmé)
porque
só em tempo de paz
segregam esperança as reentrâncias da pedraria;
só em tempo de paz
luzes ao longe – algum remoto bem
anunciam mesmo a quem o desespero tangencia

Lu Menezes, onde o céu descasca (7Letras, 2011).


Convidamos também a jovem poeta carioca Alice Sant´anna para ler conosco. A poeta estreou em 2008, com o volume Dobradura, também pela editora 7Letras. Gostamos bastante do trabalho dela. Abaixo, um poema recente, sem título:

a sandália nova branca com dedos
que se refestelam do lado de fora
como crianças que sabem o verão que vem
de repente a chuva mingua os planos
da calça jeans com sandália de dedos
uma combinação entre-estações
para não se sentir nem tão lá nem tão
cá os dedos curvados corcundas
como crianças tristes que sabem
o toró que se aproxima as unhas recém-cortadas
que planejaram se mostrar sobre a cadeira de rodinhas
que nada a água inundou a sexta
da janela os bambus se movem muito
chegam a parecer desesperados
as folhas penduradas são cabelos colados
que gritam novas rugas onde nada havia



Alice Sant´Anna, inédito em livro.


Uma das chances e descobertas, das mais felizes nesta minha viagem ao Rio de Janeiro, foi poder ter um pouco de contato e conhecer pessoalmente o jovem poeta Luca Argel, que na manhã de ontem mesmo teve 3 poemas inéditos publicados na página Risco, do jornal O Globo, editada por Carlito Azevedo. Já havíamos trocado algumas mensagens ao longo do ano passado, e ele havia me apresentado alguns de seus trabalhos visuais, mas fiquei muito tocado por seu lirismo tão direto, simples, delineado pelo enunciado da voz. Um lirismo de garganta seca, ligando-o a poetas tão diversos quanto Vasko Popa ou Diane Di Prima. Vou certamente acompanhar com muito interesse o seu trabalho e espero ter a chance no futuro de conviver mais tempo com ele. Abaixo, um dos poemas na Risco:

Para você aprender a palavra nacre

oi eu estou com seu casaco frio
oi eu estou dentro do seu casaco frio
oi eu estou cobrindo todo o meu rosto
com o capuz do teu casaco frio
agora eu não vejo mais nada
agora está ficando
mais difícil
respirar

Luca Argel, poema na página Risco, d´O Globo, editada por Carlito Azevedo.

Eu gostaria de terminar esta postagem com um excerto do poema-livro de Marília Garcia, a última a ler ontem à tarde, encerrando muito bem a tarde linda. Trata-se do excerto na quarta-capa do poema-livro engano geográfico (7Letras, 2012), sobre o qual escreverei em breve. O excerto talvez seja a melhor expressão do que sinto nesta estranha manhã chuvosa, esta manhã de deslocamentos, prestes a deixar o Rio de Janeiro e voltar a Berlim. Agradeço a todos que me salvaram com seu carinho. Estou partindo, mas c´est pas grave, partir, though it may look like (I feel it) like a disaster.


um engano geográfico estar aqui
uma cronologia trocada pensa
onde estão os bilhetes pergunta
aqui trocaremos de língua ela diz
o iogurte passou da validade c´est pas grave
é preciso aprender a dizer isso
em qualquer língua
é preciso aprender a dizer c´est pas grave
em qualquer lugar


Marília Garcia, engano geográfico (7Letras, 2012).


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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sobre ontem à noite e sobre amanhã à tarde

Vocalizando a peça "Esta é a voz" no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro,
ontem à noite, em foto de Marta Mestre, curadora do museu.

A apresentação ontem no Museu de Arte Moderna foi muito bonita. Escreverei mais a respeito, se a maratona permitir, quando voltar a Berlim e tiver em mãos mais fotos e vídeos do evento.

Amanhã, lançamento carioca do meu livro e do novo de Marília Garcia, minha querida. Todos convidados.



A Editora 7Letras e o Baukurs Cultural convidam para o lançamento carioca dos livros Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck, e engano geográfico, de Marília Garcia

e para uma leitura com os autores

Lu Menezes
Alice Sant´Anna
Luca Argel

e Marília Garcia e Ricardo Domeneck

Sábado, dia 28 de janeiro de 2012, a partir das 15 horas.

Baukurs Cultural
Rua Goethe, 15
Botafogo
Rio de Janeiro


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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Performance no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Nesta quinta-feira, 26 de janeiro de 2012, faço minha primeira e única performance vídeo-textual no Brasil no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, parte do evento TEXTUALIDADE: MODOS DE USAR, com curadoria minha e de Marília Garcia em colaboração com Marta Mestre, curadora assistente no museu. É o primeiro evento de uma parceria da nossa revista Modo de Usar & Co. com o MAM-Rio. Se estiverem na cidade, estão todos mais que convidados. Informações abaixo e comunicado de imprensa.



A revista Modo de Usar & Co., em parceria com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, convida a todos para uma noite com curadoria de Marília Garcia e Ricardo Domeneck, em colaboração com Marta Mestre (curadora assistente do MAM-Rio):


TEXTUALIDADE: MODOS DE USAR


primeiro evento da revista em parceria com o MAM, no dia 26 de janeiro de 2012, quinta-feira, às 18:30. Uma noite de textos manifestando-se em voz, música e vídeo

com os poetas

DIMITRI BR (diahum)
ISMAR TIRELLI NETO
JOEL GIBB (The Hidden Cameras/Canadá)
MARÍLIA GARCIA
RICARDO DOMENECK
VICTOR HERINGER

Informações:

TEXTUALIDADE: MODOS DE USAR

Textualidade: modos de usar é um evento que convida o texto a sair da página do livro para ocupar outros meios, como a voz, a música e a tela, através da oralização de poemas, de canções, de performances e vídeos. Nesta primeira apresentação promovida pela revista Modo de Usar & Co. em parceria com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a materialidade da linguagem se deslocará pelo espaço do MAM, buscando assumir outras formas e tornar rarefeita a fronteira dos gêneros. Dando destaque aos diversos modos de usar da linguagem poética contemporânea, o evento reunirá Ismar Tirelli Neto e Victor Heringer, representantes da geração dos novíssimos poetas da cena carioca, Dimitri BR, compositor e músico que desenvolve o projeto de videocanções diahum, Joel Gibb, poeta vocalista da cultuada banda canadense The Hidden Cameras, e dois dos editores da revista Modo de Usar & Co., Ricardo Domeneck, que vive em Berlim e está de passagem pelo Rio de Janeiro por ocasião do lançamento de seu novo livro, e Marília Garcia.

Com a previsão de duração de 1h20, Textualidade: modos de usar busca dar a ver outras formas de manifestação do texto, bem características do nosso tempo, usando elementos da escrita, da voz, da música e do vídeo e dando sequência ao trabalho da revista Modo de Usar & Co., que apresenta, em suas edições impressa e virtual, os vários deslocamentos da linguagem e uma pesquisa em torno da opacidade do texto poético, funcionando na fronteira entre transparência e não-transparência do signo.

Textualidade: modos de usar

com Dimitri BR, Ismar Tirelli Neto, Joel Gibb [The Hidden Cameras], Marília Garcia, Ricardo Domeneck e Victor Heringer

data: quinta-feira, 26/01/12

hora: a partir das 18h30

local: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique, 85
Parque do Flamengo
Rio de Janeiro, Brasil.

§

sobre os participantes:

Dimitri BR [Rio de Janeiro, 1976] lançou o disco Música Sólida (2011) e o ep Pop rock tropical (2007), com a banda 3a1. Editou, com Silvia Rebello, a coleção Compacto simples de contos escritos por cancionistas e publicou textos na Modo de Usar & Co.. Desde 2009, desenvolve o projeto de vídeo-canções diahum [diahum.com].



mercado negro
[Dimitri Rebello ou Dimitri BR]

fardo que carrega
não há quem suporte

então me entrega
sua vida e morte

do seu ponto fraco
faço ponto forte
é o meu dedo em riste
que lhe aponta o norte

nem precisa força
pra que se comporte

pague seus pecados
ou então culpe a sorte

a falta de um abrigo
alguém que lhe conforte

eu lhe tiro os filhos
tomo sua consorte
vezes por capricho
outras por esporte

você estende os pulsos
eu lhe digo
- corte

você tem um sonho
eu lhe digo
- aborte


:

Ismar Tirelli Neto [Rio de Janeiro, 1985] é autor dos livros Synchronoscopio (7Letras, 2007) e Ramerrão (7Letras, 2011). Publicou textos na Modo de Usar & Co., Polichinello e Jacket2 [eua], e já se apresentou no Simpoesia [São Paulo] e no ArteFórum [ufrj]. Escreve em http://juventudevulcabras.wordpress.com/.



:

Joel Gibb [Canadá, 1977], artista visual e músico residente em Berlim, é o poeta-vocalista e líder da banda The Hidden Cameras [http://thehiddencameras.com/] com a qual lançou mais de dez discos e eps. Seu disco mais recente, Origin:Orphan, é de 2009.



Smells like happiness
Joel Gibb (The Hidden Cameras)

Happy we are when we choose to wear the blindfold
And mark our own day with a parade and a song

In our minds our fathers have died and we realize that cities have clubs and we like to get drunk and high from the smells we inhale from dirty wells and the mouth of a boy who smokes cigarettes

Happiness has a smell I inhale like a drug done in a darkened hall or a bathroom stall with a friend or a man with a hard-on

I feed my own face when I soon crave a taste of the neck of a boy who wears eau de toilette and shaves every day and behaves well in department stores

As well, it is the smell of old cum on the rug men walk their dirty feet on and the sweat from the chest of a man in a leather uniform

Happy are we when we choose to wear the blindfold and mark our own place with the smell of our own


§

Cheira a felicidade
tradução de Ricardo Domeneck


Felizes somos nós quando escolhemos vendar os olhos
E marcamos nosso dia com um desfile e uma canção

Em nossas mentes nossos patriarcas estão mortos e percebemos que as cidades têm clubes e gostamos de ficar bêbados e altos com os cheiros que inalamos em poços imundos e da boca de um menino que fuma cigarros

A felicidade tem um cheiro que inalo como uma droga produzida num salão escurecido ou numa cabine de banheiro com um amigo ou um homem com uma ereção

Eu alimento minha própria cara quando tiro um gosto do pescoço de um garoto que usa eau de toilette e se barbeia todo dia e se comporta bem em lojas de departamentos

Também é o cheiro de esperma velho no tapete sobre o qual homens caminham com pés sujos e o suor no tórax de um homem com uniforme de couro

Felizes nós somos quando escolhemos vendar nossos olhos e demarcar nosso próprio território com cheiros dos nossos


:

Marília Garcia [Rio de Janeiro, 1979] é autora de 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify/7Letras, 2007). Coedita a Modo de Usar & Co. e já se apresentou nos festivais Salida al Mar [Argentina) e Europália [Bélgica]. Escreve em
lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.



:

Ricardo Domeneck [Bebedouro, SP, 1977] é autor de Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), a cadela sem Logos (Cosac Naify/7Letras, 2007), Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify/7Letras, 2009), Cigarros na cama (Berinjela, 2011) e Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012). Coedita a Modo de Usar & Co. e já se apresentou no Museo Reina Sofía (Madri) e deSingel International Arts Campus (Antuérpia), entre outros. Escreve em ricardodomeneck.blogspot.com



:

Victor Heringer [Rio de Janeiro, 1988] é autor de Quando você foi árvore (plaquete, 2010), canção do sumidouro (plaquete, 2010) e Automatógrafo (7Letras, 2011). Publicou textos na Modo de Usar & Co. e no momento pesquisa as múltiplas relações entre texto literário e imagem. Seu trabalho pode ser lido no site http://
automatografo.org.





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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Para o Livro de Literatura do Segundo Grau", de Hans Magnus Enzensberger

O poeta alemão Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929, em foto tirada por volta de 1957, quando publicou seu primeiro livro de poemas: Verteidigung der Wölfe (Defesa dos lobos), do qual o poema abaixo foi extraído. A tradução é de Kurt Scharf e Armindo Trevisan, duma antologia da década de 80. Foi minha leitura hoje por todo o dia.


Para o Livro de Literatura do Segundo Grau

Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

(tradução de Kurt Scharf e Armind Trevisan, in Enzensberger, Hans Magnus. Eu falo dos que não falam: antologia (São Paulo: Editora Brasiliense, 1985).


:


Ins Lesebuch für die Oberstufe
Hans Magnus Enzensberger

lies keine oden, mein sohn, lies die fahrpläne:
sie sind genauer, roll die Seekarten auf,
eh es zu spät ist. sei wachsam, sing nicht.
der tag kommt, wo sie wieder listen ans tor
schlagen und malen den neinsagern auf die brust
zinken, lern unerkannt gehn, lern mehr als ich:
das viertel vechseln, den paß, das gesicht.
versteh dich auf den kleinen verrat,
die tägliche schmutzige rettung. nützlich
sind die enzykliken zum feueranzünden,
die manifeste: butter einzuwickeln und salz
für die wehrlosen, wut und geduld sind nötig,
in die lungen der macht zu blasen
den feinen tödlichen staub, gemahlen
von denen, die viel gelernt haben,
die genau sind, von dir.


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